*Os Anarquistas e o Processo Social em Rojava

 

O movimento anarquista ativo na revolução em Rojava.
O movimento anarquista ativo na revolução em Rojava.

 

Uma Introdução, por Bruno Lima Rocha:

Desde que começou o cerco à Kobanê tenho dedicado várias horas por semana a entender e divulgar o máximo possível sobre essa revolução social iniciada numa combinação de Confederalismo Democrático e a Guerra Civil Síria. Enquanto militante, eu sempre estive envolvido com solidariedade internacional. Enquanto descendente árabe, eu sempre tentei procurar uma força de esquerda que combinasse ação direta e democracia interna. Enquanto acadêmico e professor de Geopolítica estudando a região por mais de 25 anos, Rojava é um sonho que se tornou realidade. Aqui eu começo a primeira de algumas entrevistas com organizações com real experiência nesse processo e na região. Nesta estou conversando com um militante do Devrimci Anarşist Faaliyet (DAF, ou Ação Revolucionária Anarquista). Eles têm sido bem ativos nessa ação e entendem em detalhes todo o processo Curdo, tanto em Rojava quanto no interior das fronteiras do Estado Turco.

É possível entender o PKK (Partiya Karkerên Kurdistani, Partido Popular do Curdistão) como uma força político-militar remodelada pelo pensamento de seu líder histórico (e sentenciado a prisão perpétua) sendo transferida organicamente para toda a organização? Ainda, temos duas perguntas em sequência: Você pode imaginar a reprodução dessas ideias além de um culto à personalidade ao redor da imagem de Abdullah Ocalan (Apo)? E, seria posKoma Civakên Kurdistansível universalizar as propostas do PKK-KCK (Koma Civakên Kurdistan, Grupo de Comunidades do Curdistão) além dos assuntos nacionais dos Curdos que ainda não foram resolvidos?

Nós temos de ver o assunto enquanto Movimento de Liberdade Curda. O PKK é uma organização do povo Curdo que vem lutando não apenas por 30 anos, mas centenas de anos. Especialmente após os anos 2000 o partido mudou sua ideologia, estratégia e característica. Assim, os críticos do movimento tem mesmo o mesmo vício de tomar o PKK como sendo o mesmo partido das décadas de 80 e 90. Apenas para lembrar, o PKK clamou pela liberdade não apenas para o povo Curdo, mas pela liberdade para todos os povos oprimidos no Oriente Médio. Pense sobre Rojava, PYD (Democratic Union Party, in Kurdish: Partiya Yekîtiya Demokrat), tem lutado não apenas pelos Curdos, mas pelos Ezidis, Turcomanos, Xiitas, Alauítas os quais o Daesh (ISIS, ISIL, EI, Estado Islâmico) quer destruir.

É observável um problema estratégico para a revolução de Rojava. Eu explico: a fronteira viva e aquela que é possível ser usada como santuário está com o KRG (Governo Regional Curdo no Iraque), mesmo o epicentro da guerra estando em Kobanê. É observável que se não houver reforços dos peshmerges (forças profissionais do KRG), provavelmente a coalizão anti-ISIS liderada pelos EUA não bombardeará a posição dos jihadistas. Logo, a aliança entre PKK-PYD e o KDP (Partido Democrático do Curdistão, Partîya Demokrata Kurdistanê, ou PDK) e sua coalizão com Massoud Barzani a frente do gabinete do KRG poderia implicar numa inevitável aproximação com o Ocidente? É possível sobreviver enquanto processo revolucionário dependendo militarmente e fisicamente do KRG e do Ocidente?

Temos que ver o papel dos peshmerges. Faz quase um mês e meio que eles não fazem nada por Rojava. Quando o YPG (Unidades de Proteção Popular, em Curdo: Yekîeyên Parastina Gel) e YPJ (Unidades de Proteção das Mulheres, em curdo: Yekîeyên Parastina Jinê), as organizações de auto-defesa do povo de Rojava tomou o controle de 60% de Kobanê, as forças de Barzani decidiram vir ajudar. É óbvio que essa foi uma ação estratégica de Barzani. Barzani declarou que como se não houvesse a Revolução de Rojava dois anos antes e temos que ver isso, EUA e outros países ocidentais não apoiam a resistência de Kobanê. Após a Revolução de Rojava não aceitaram a existência política do PYD ou dos cantões de Rojava. Assim, a melhor solução para eles é Barzani que não tem problemas com política capitalistas ou estatistas. Ainda, o KDP de Barzani é o partido irmão do AKP de Recep Erdogan (Partido do Desenvolvimento e Justiça, em turco: Adalet ve Kalkinma Partisi). Nestas circunstâncias, o povo em Rojava precisa de qualquer tipo de apoio. Isto não significa que ele pode receber ajuda de qualquer poder capitalista e estatista. Mas é como o YPG-YPJ lutando contra o EI, a Frente Al-Nusrat (uma afiliada do grupo Al-Qaeda)…, mas também lutando estrategicamente contra a Turquia, a Síria de Esad (Bashir Al Assad), o Curdistão de Barzani e todos os poderes capitalistas.

Ainda, em termos de estratégia, ao que tudo indica, o governo da Turquia tem favorecido as linhas de suprimentos deixando o EI se fortalecer dentro do território sob controle do exército turco. Aparentemente, isto é causado pelo cálculo realista de Ankara e o governo do AKP, considerando ser menos perigosa uma proposta de “califado” – ou o retorno do Ummah – comparado à ideia do separatismo Curdo, ou mesmo autonomia política de Rojava dentro do fracassado Estado da Síria? Pela posição turca, como avaliar a disputa entre os outros Estados operando através de sunitas jihadista, como Arábia Saudita e Qatar?

Na mídia hegemônica, é difícil achar notícias sobre o apoio Turco ao Estado islâmico. Não é apenas apoio por armamentos, ou sua posição neutra. Como você declarou, existe uma óbvia logística de apoio de países sunitas ao EI, mas o aquilo que nunca podemos esquecer são as relações escondidas entre o EI e poderes capitalistas ocidentais. A cena é clara de que um grupo terrorista islâmico tem fortalecido a mão dos EUA, especialmente no Oriente Médio.

Entrando no assunto da guerra civil Síria, o que pode ser visto hoje é uma guerra crescente entre Sunitas e Xiitas, e junto disto, entre o EI (e antes a Frente Al-Nusra) e a tentiva de conquista de Kobanê. Considerando essa realidade, qual seria o papel do Exército Livre da Síria hoje (FSA)? Esta força ainda possui algum poder de proteção – como o Qatar – ou caiu para uma condição de aliado secundário do YPG? Nós podemos considerar o Qatar o maior patrocinador do FSA? E, talvez esta seja a razão, ao passo que ambos o FSA e o YPG são contrários ao regime de Assad, Damascus e seus aliados (financiadores) preferiram liberar a área de Aleppo e Raqqa para operações do EI, permitindo que os sunitas jihadistas avançassem sobre Rojava?

Como declaramos antes, algumas das ações estratégicas contra o EI com o FSA não representam a real visão política do PYD. Então, este tipo de cooperação é o resultado das circunstâncias na Síria e em Rojava. A cooperação entre as organizações e grupos não deveria ser tomada como resultados das reais políticas das organizações e grupos. A guerra em Rojava, ainda mais continua na Síria, então é difícil para nós determinar os aliados. Esta longe da solidariedade dos revolucionários pela Resistência de Kobanê e pela Revolução de Rojava.

Eu entendo, mesmo de um relance à distância, que para os Estados da Turquia, Síria (o que restou dela) e do Irã, um Curdistão a oeste com autonomia política e uma sociedade trabalhando sobre bases igualitária e secular implica num problema insolúvel. Não seria a proposta do PYD não separar-se formalmente da Síria, mas obter o status de uma Federação política autônoma na Síria, assim como um futuro reajuste com o Iraque e com o governo de Irbil (Capital do KRG)? A Turquia toleraria tal estatuto, mesmo possuindo o segundo maior exército da OTAN e o de maior contingente num Estado de grande população islâmica? Se o Curdistão Turco recebe tal status, o que preveniria uma Confederação com o Curdistão Sírio? E, dessa forma, qual seria a reação do KRG e da coalizão de direita e partidos Curdos pró-Ocidente, como o KDP?

Estes cenários estão sendo discutindo ao passo que a guerra na Síria acabou. É difícil estimar como essas guerras irão modelar o Oriente Médio. Rojava declarou a liberdade de seus três cantões há 2 anos e meio atrás sem se importar com qual seriam as reações de Esad (Bashir al Assad), Erdogan ou Barzani. Todos os três declararam que não reconheciam o auto-governo dos cantões de Rojava. Ainda, eles insistem em não falar sobre a existência política de Rojava. Camarada, nós precisamos ver que durante estes dois anos os Estados em torno de Rojava mudaram suas políticas em suas regiões com a decisiva luta do povo livre de Rojava. Eles tentam encontrar meios de controlar a liberdade de Rojava. O cenário principal é de que Rojava será uma federação parte da Síria de Esad. Mas de qual Síria estamos falando, qual será o poder de Esad na Síria ou se haverá um Esad para liderar a Síria? O segundo cenário é de que Rojava fará parte do Curdistão de Barzani. O que seria o objetivo de Barzani, mas os princípios que sustentam Kobanê contra o EI não só assustam o EI como também Barzani. Porque a Revolução de Rojava se autodeclarou uma revolução centrada no anticapitalismo, no antiestatismo, nas mulheres e no meio ambiente.

Ler na íntegra: http://www.semanaon.com.br/coluna/10/2018/os-anarquistas-e-o-processo-social-em-rojava

Nova divisão administrativa de Rojava, áreas ainda não declaradas em azul

Nova divisão administrativa de Rojava, áreas ainda não declaradas em azul (15/08/2017)

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Confederalismo democrático: da modernidade capitalista, para a modernidade democrática

É comum nos espaços internacionalistas e grupos de solidariedade com a revolução Rojava falar do confederalismo democrático como o paradigma ideológico do movimento de libertação do Curdistão. Embora este conceito tenha sido útil para tornar conhecida a evolução ideológica do movimento, ela permanece um pouco incompleta e pode ser mais apropriado falar da modernidade democrática. Por quê?

Para entender o conceito de modernidade democrática , é pouco útil olhar para o nome, porque, como explica Öcalan nos livros do “manifesto para uma civilização democrática”, ele usou essas palavras na ausência de poder encontrar melhores. O conceito de modernidade democrática surge em oposição à da modernidade capitalista , um conceito para definir a mentalidade hegemônica da civilização de hoje, que tem ocorrido há vários séculos.

Por modernidade capitalista entendemos a consolidação da lógica do mercado como um sistema dominante nas sociedades, onde tudo é medido de acordo com o custo e o preço. Assim, toda atenção é focada na sociedade material, deixando de lado os valores éticos e morais necessários para uma sociedade existir. A aplicação atual do sistema de mercado em todas as áreas da sociedade, baseia-se em dois elementos que alcançaram a hegemonia absoluta: a ciência positivista e o Estado-nação.

A ciência positivista , que se consolida como uma fonte de idéias empiristas do conhecimento e do método científico cartesiano, promove dualismo sujeito-objeto. A idéia de uma observação “objetiva”, simulando que o sujeito racional é uma entidade completamente externa ao objetode estudo, é catastrófico quando aplicado à sociologia. A mentalidade em que só podemos extrair o conhecimento “objetivo” do que podemos ver, experimentar e verificar, está completamente focada em valores materiais, dando a volta aos valores éticos e espirituais que acompanharam as sociedades humanas ao longo da história. São precisamente esses valores imateriais que iniciaram a existência de sociedades, consolidando um sistema comum de ética e moral – um regime de verdade – que permitiu que a sociedade funcionasse além do sistema da tribo ou do clã.

No outro lado, o E nação Tate estabeleceu-se como estrutura política hegemônica do modo – chamado Revolução Francesa. A busca da liberdade das classes populares, oprimidas pelo despotismo dos estados monárquico-teocráticos da Europa medieval, foi habilmente conduzida pelos cravados de poder da burguesia emergente. A necessidade de uma identidade comum para unificar o movimento anti-monárquico, abandonou a identidade moral da religião para se concentrar na identidade material do cidadão, que em vez de servir a Deus serve ao Estado. A premissa de “uma língua, uma bandeira, uma nação” tornou-se a argamassa do homogeneizador do Estado-nação, causando a negação de qualquer identidade dissidente.

Mas o que está por trás desse Estado? Assim como os sacerdotes e os monarcas controlavam a sociedade com base na força ideológica da “Palavra de Deus”, as elites burguesas, que conseguiram uma grande acumulação de poder material baseado no comércio e no dinheiro, implementaram a ideologia da “mão” invisível do mercado “. Comércio, uma atividade considerada injusta ao longo da história devido à sua falta de ética, obtém uma posição central no novo sistema social. A mentalidade capitalista do capitalismo consegue assim deslocar a mentalidade moral da religião, que após séculos de convivência e colaboração com o poder havia sido completamente corrompida.

Este processo começa a culminar a modernidade capitalista , onde os estados-nação, justificando suas ações baseadas na ciência positivista, tornam-se a ferramenta mais eficiente de exploração e opressão. O materialismo extremo deste modelo de sociedade se funde com a herança patriarcal, chovinística e antropocêntrica da ética judaico-cristã, já prevalecente em monarquias absolutas. Assim, é construída uma lógica de “benefício máximo”, que cria sua riqueza baseada na exploração das mulheres, da natureza e das classes oprimidas.

E compreender a modernidade capitalista , a modernidade democrática é superar esta fase hiper-materialista, com base nos valores éticos subjacentes e práticas democráticas na própria sociedade. Para alcançar essa modernidade democrática , o movimento de libertação do Curdistão não se limita a uma definição teórica do que a sociedade “objetiva” deve fazer para superar o capitalismo, já que a ideologia que esse paradigma emana evita a mentalidade positivista e o totalitarismo do estado-nação. A organização política está, portanto, situada não como uma vanguarda fora da sociedade, mas como um sujeito transformador dentro dela, procurando mostrar com praxis o que significa ser uma sociedade democrática.

A crítica e auto – críticas têm sido as principais ferramentas de transformação e ideológica nítida, permitindo aprender o caminho revolucionário que foi inspirado 40 anos atrás, em idéias marxistas e os movimentos de libertação nacional. Foi essa autocrítica, representada no pensamento de Abdullah Öcalan e sintetizada em seus livros do “manifesto para uma civilização democrática”, que permitiu o redirecionamento estratégico, baseado no estudo e uma maior compreensão da história e das sociedades humanas .

É importante no momento de estudar a história para não cair no discurso do poder, o que nos apresenta uma História onde o Estado é o único modelo possível de civilização. A sociedade civilizada, que nasceu com a revolução neolítica baseada em princípios de cooperação e apoio mútuo – o que entendemos como uma sociedade natural – há cerca de 12 mil anos, inevitavelmente procura livrar-se da exploração e opressão dos sistemas estaduais, nascidos Cerca de 5000 anos atrás. A sociedade democrática, herança direta da sociedade natural , sobreviveu apesar dos ataques dos Estados Unidos, resistindo a pressão totalitária e hierárquica, tentando recuperar o estado da sociedade comunal e igualitária.

Essas resistências muitas vezes resultam em revoltas populares e insurreições, que são esmagadas pela superioridade militar das estruturas estatais. De tempos em tempos, alguns conseguem um certo grau de sucesso, especialmente quando há uma forte análise social e organização por trás do poder centralizador do Estado, levando a uma negociação que melhora as condições sociais ou um genocídio onde o Estado extermina resistência. Para evitar que estas revoltas com o desejo de liberdade de recorrer e ganhar força, além do extermínio material e ideológico, o Estado aproveita os centros de conhecimento onde a história é escrita (academias e universidades), para garantir que sua versão de os fatos prevalecem.

Analisando as várias revoluções culturais na história da humanidade, desde a revolução neolítica até o Renascimento, passando pelo nascimento das grandes religiões e dos grandes sistemas civilizadores, vemos como a mentalidade muda, o que significa a transição para um estado de civilização superior, eles não são aqueles que se impõem pela força, mas aqueles que a população assimila por sua própria vontade. É aqui que as críticas principais do socialismo curdo são o socialismo soviético, baseado na opressão que emana das estruturas do Estado-nação, tentou projetar “objetivamente” um sistema que eles chamavam de socialismo real. Mas uma revolução não pode prosperar quando é imposta com base no totalitarismo estatista. O socialismo só pode ser alcançado como resultado da livre decisão da sociedade.

Uma análise aprofundada da guerra, da paz e da legitimidade da violência, juntamente com uma maior compreensão da história da humanidade e dos processos biológicos da própria vida, são sintetizados no conceito de autodefesa , outra dimensão-chave do paradigma da modernidade democrático Compreendemos por autodefesa as estratégias e os mecanismos dos seres vivos para sobreviver e não ser exterminados. Conceber as sociedades como entidades vivas a nível coletivo, como evidenciado por enxames de abelhas ou escolas de peixes, é claro que a sociedade humana precisa de um sistema de autodefesa coletiva, o que nos permite sobreviver contra os ataques do leviatã em que eles converteram os estados-nação capitalistas.

As diferentes dimensões em que o Estado-nação ataca a sociedade e a natureza, drenando sua energia e recursos com base na expansão colonial e na busca do máximo benefício, são amplas e diversas. Para alcançar a emancipação (e nos defendermos) desse fardo que corrompe a sociedade e destrói a natureza, é necessário começar pela recuperação da sociedade, hoje fragmentada e despojada da sua capacidade de autodefesa. A modernidade capitalista tem levado as empresas a borda individualista do abismo, onde os cidadãos são completamente dependentes no estado para resolver os seus problemas em vez de ajudar uns aos outros. É por isso que o primeiro passo para avançar para a modernidade democrática é a autonomia democrática, conceito-chave junto com outros três que explicamos a seguir: o confederalismo democrático , a república democrática e a nação democrática .

A autonomia democrática está em processo de organização social que permite a emancipação do Estado-nação. É abordado a partir de uma perspectiva local, muitas vezes em uma chave municipalista, buscando organizar a sociedade e fortalecer os laços entre as pessoas com base na autogestão e no apoio mútuo. À medida que esses nós sociais são construídos, eles procuram reforçar e alimentar de volta um ao outro, tecendo processos de organização com outros nós baseados em estruturas confederativas. Este processo de organização entre os grupos sociais locais, organizados de forma independente e independente do estado, é o que entendemos como confederalismo democrático .

À medida que esta rede confederal democrática é configurada, é muito provável que os Estados tentarão atacá-la usando diferentes métodos de guerra, buscando assim perpetuar a sua dominação e exploração da sociedade e os indivíduos que a compõem. Para evitar que isso aconteça, é essencial trabalhar diplomáticamente com os Estados, o que deve ser visto como uma estratégia de autodefesa, buscando limitar seu poder através de acordos e contratos sociais. Quanto mais organizada e mais forte for a sociedade, mais espaço de manobra terá que dobrar os Estados, sempre tendo o cuidado de não se deixar enganar por eles. Estados de respeitar a autonomia democrática e organização baseada em Confederalismo democrática , é o que nós entendemos como rrepúblicas democráticas .

Essas repúblicas democráticas não devem ser entendidas como o objetivo a ser alcançado, mas como meio de limitar o poder dos Estados. As idéias desenvolvidas pelo socialismo libertário conseguem apontar o Estado como um inimigo, mas falta profundidade quando se trata de apresentar alternativas. O Estado possui mecanismos extensivos e elaborados de autodefesa, que devem ser desativados passo a passo com base na organização popular da sociedade. Um confronto direto contra o Estado é levar o conflito ao seu terreno natural, guerra militar, um cenário em que o Estado possui enormes recursos e experiência. É por isso que o caminho do diálogo deve sempre ser considerado como uma prioridade, buscando uma solução democrática. Mas se o Estado não aceitar as condições da sociedade, respondendo com violência contra a sociedade, a única alternativa possível é a guerra do povo revolucionário.

O objetivo que deve prosseguir em todos estes processos, tanto na construção da autonomia democrática , organizar Confederalismo democrática como transformar o Estado em uma república democrática , é construir a nação democráti ca . O conceito de nação democrática não deve ser entendido sob o paradigma do estado-nação de uma língua, uma bandeira, uma pátria, mas como a grande unidade social que compartilha uma história e cultura comuns. Quando usamos o termo nação, é em parte devido à falta de uma palavra melhor que a define, mas nos referimos à idéia de uma sociedade ampla, compartilhada por pessoas que habitam um território comum. A nação democrática não está ligada a fronteiras delimitadas em um mapa, mas a uma sociedade que se sente perto de compartilhar valores e mentalidades comuns.

A nação democrática deve se concentrar na construção de uma sociedade igualitária e ecológica, buscando a emancipação das mulheres e a defesa da natureza como prioridades. A mentalidade da nação democrática inclui uma série de dimensões ou áreas de ação que devem ser gerenciadas de forma democrática, com base na ética e na consciência social. Essas dimensões incluem o indivíduo na comunidade, a vida social, a vida política, as relações, a gestão da economia, a estrutura jurídica, a cultura, a autodefesa e a diplomacia. Essas dimensões interagem entre si e não devem ser entendidas como elementos fragmentados e isolados, mas como campos inter-relacionados a serem desenvolvidos para o bom funcionamento da sociedade. As nações democráticas tornam-se assim a nova unidade, com base emconfederalismo democrático , tecer uma rede global que se torna uma civilização democrática global. Esse processo seria o ponto culminante da modernidade democrática.

Para enviar sua colaboração, você pode enviar um email para regeneracion@riseup.net com o assunto “Colaboração”. Não se esqueça de assiná-lo ou indicar se deseja publicá-lo anonimamente.

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Entrevista com a Brigada 19 de Julio, projeto de solidariedade internacional com o Curdistão

 

 

*Kobane Combate em Nome da Humanidade

Entrevista com Meryem Kobane, comandante das milícias de defesa de Kobane

Kobane combate em nome da humanidade. Contra uma maneira de pensar. Que não reconhece religião, etnias, nem linguas.

 

Ler na íntegra em catalão: https://directa.cat/kobane-combat-en-nom-de-humanitat-contra-una-manera-de-pensar-que-no-reconeix-religions-etnies-ni

*Giran Ozcan Fala ao Sul@1 sobre o processo revolucionário em “Rojava”

Transcrito integralmente do site Calsoc: http://calsoc.noblogs.org/post/2015/02/01/ativista-curdo-pede-solidariedade-e-apoio-para-o-processo-revolucionario-de-rojava

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Samir Oliveira

Os curdos são a mais numerosa etnia do mundo sem Estado: são mais de 26 milhões de pessoas que vivem em regiões da Turquia, da Síria, do Iraque e do Irã. Desde 2012, com a intensificação da guerra civil na Síria, os curdos da região têm se organizado para defender seus territórios das forças do governo de Bashar al-Assad e dos terroristas do Estado Islâmico (também conhecido como ISIS).

Em 2013, os curdos da Síria anunciaram a organização de três regiões administrativas no norte do país, chamadas de “cantões”: Afrin, Jazira e Kobani. Separados geograficamente em meio a um território conflagrada pela guerra, os cantões formam a região de Rojava – palavra que, em curdo, significa “oeste”.

 Rojava possui uma população de cerca de 3 milhões de pessoas, espalhadas por doze cidades. Enquanto se organizam para lutar contra o Estado Islâmico e unificar os cantões, os curdos estão criando uma própria forma de organização social, política e econômica na região, baseada no confederalismo democrático, com premissas anti-Estado e anticapitalistas inspiradas no programa político do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) – organização criada na década de 1970 e considerada “terrorista” pelos Estados Unidos, pela União Europeia e pela Turquia, país onde seu principal líder, Abdullah Öcalan, encontra-se em prisão perpétua desde a década de 1990.

Nesta entrevista ao Sul21, o ativista curdo Giran Ozcan fala sobre o processo revolucionário em Rojava e dá mais detalhes sobre a situação na região. Giran edita o site Kurdish Question e esteve em Porto Alegre nesta semana para falar sobre o assunto com organizações de esquerda.

Na entrevista, ele fala ainda sobre o funcionamento das forças de combate de Rojava, que estão divididas basicamente em das brigadas: as Unidades de Proteção do Povo (YPG) e as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ) – esta última, composta e comandada por mulheres curdas.

O desafio é tornar Rojava, os cantões e o povo curdo reconhecidos pela comunidade internacional”

Sul21 – Como está a situação agora em Rojava?
Giran Ozcan – 
A luta na Síria começou há quatro anos e há quase três anos os curdos anunciaram que vão se autogovernar em três cantões. Depois deste anúncio, o Estado Islâmico (ISIS) começou a atacar os curdos. Embora isto só esteja sendo divulgado pela mídia desde Kobani região de Rojava na Síria, que está cercada pelo Estado Islâmico], ISIS e os curdos estão lutando há quase três anos na Síria. Atualmente, depois de capturar armamento pesado dos exércitos iraquiano e sírio, eles novamente atacaram os curdos, há cerca de quatro meses, em Kobani. Enquanto os exércitos da Síria e do Iraque estão fugindo do Estado Islâmico em várias regiões, os curdos estão resistindo, lutando e fazendo eles recuarem. É isso que vem ocorrendo em Rojava nos últimos meses. Hoje, mesmo após o ISIS atacar Kobani com todas as suas forças, a cidade não caiu. Os curdos estão mostrando ao mundo que são capazes de se autogovernar e de se defender. Estão oferecendo uma alternativa à região. A luta ainda está ocorrendo em Kobani, o ISIS ainda não foi completamente derrotado, mas já foi expulso da cidade. Nos outros dois cantões o autogoverno continua sendo implementado e desenvolvido. O desafio é tornar Rojava, os cantões e o povo curdo reconhecidos pela comunidade internacional.

Sul21 – Quem está controlando Kobani hoje?
Ozcan –
 Hoje Kobani é controlada pelos combatentes curdos do YPG. Cerca de 98% da cidade está sob controle do YPG. Há dois dias, eles conquistaram a colina de Minstenur. Atualmente, o ISIS está apenas na periferia da cidade.

Sul21 – O Estado Islâmico é a principal ameaça para Rojava e a causa curda atualmente?
Ozcan – ISIS é ameaça que está batendo diretamente na porta. Mas Rojava está enfrentando um embargo de todos os lados, porque é um sistema alternativo aos imperialistas e às forças regionais. Por isso, o povo em Rojava está tentando se autossustentar, porque não recebendo ajuda de ninguém. Economicamente, estão tentando criar um novo sistema. Então existem duas ameaças: obviamente o Estado Islâmico e o embargo internacional.

Os cantões são governados pelo povo através das assembleias populares”

Sul21 – Como foi possível que o Estado Islâmico crescesse tanto na região?
Ozcan –
 O ISIS está lá há pelo menos seis anos. Antes de o ISIS crescer, o governo central do Iraque se aproximava do Irã e se distanciava dos Estados Unidos. Barzani (presidente do Governo Regional Curdo no Iraque) falava em declarar independência e o regime de Assad (presidente da Síria) estava fortalecido. Todos se encaminhavam contra o Ocidente na região. De repente, do nada, o Estado Islâmico começa a ganhar tanta força que o governo iraquiano precisou se aproximar dos Estados Unidos novamente. Barzani parou de falar em independência e a guerra se intensificou na Síria. Se analisarmos objetivamente, quem se beneficiou do crescimento do Estado Islâmico foram os Estados Unidos. Não podemos provar que os Estados Unidos fortaleceram o ISIS, mas o empoderamento deles definitivamente beneficiou os planos dos Estados Unidos para a região.

Sul21 – Como é a relação entre a luta que ocorre entre os curdos e o Estado Islâmico e o regime de Assad, que governa a Síria?
Ozcan –
 Os curdos querem que o regime sírio reconheça sua autonomia. Eles querem que o regime respeite a vontade do povo. Até então, Assad nunca havia concedido cidadania aos curdos. Centenas de milhares de curdos não podiam ir à escola, comprar terras ou ter empregos formais. Atualmente a situação está equilibrada: os curdos querem seus direitos reconhecidos e não vão atacar o regime sírio, mas não vão hesitar em defender o que já foi conquistado.

Sul21 – O governo sírio não está combatendo o Estado Islâmico também?
Ozcan –
 Está, em certas regiões. Mas os principais opositores do ISIS são os curdos. Embora eles digam a todos que estão lutando contra o governo e tentando estabelecer um Estado islâmico, os principais antagonistas que eles enfrentam são os curdos.

As mulheres participam da vida política e possuem seu próprio exército, que está lutando contra o Estado Islâmico”

Sul21 – E os revolucionários sírios que lutam contra o regime não estão do lado de vocês, combatendo também o Estado Islâmico?
Ozcan –
 Não podemos mais falar em apenas uma FSA (Exército Livre da Síria), porque se trata de uma coalizão muito ampla — o ISIS inclusive fazia parte do grupo anteriormente. É uma plataforma da luta contra Assad, mas é uma coalizão revolucionária? Isso está aberto ao debate. Há muitos extremistas islâmicos na FSA, mas também há revolucionários. Eles não se identificam mais como FSA, porque a coalizão ficou tão ampla que não pode mais ser chamada de coalizão. Em Kobani há grupos da FSA lutando junto com os curdos, mas em outros cantões há grupos da FSA lutando contra nós.

Sul21 – Quais são as forças políticas que comandam Rojava?
Ozcan –
 O PYD é um partido político curdo que já existia junto ao sistema sírio e está se aliando à ideologia do PKK e de Öcalan. Essa é a organização com mais apoio popular em Rojava. Mas as pessoas têm seu próprio sistema, suas assembleias populares, onde o partido político não está presente. O chamado Movimento Democrático do Povo realiza as assembleias locais e comanda os cantões, que não são governados pelo PYD. Os cantões são governados pelo povo através das assembleias populares. Há uma co-presidência para cada cantão, composta por um homem e uma mulher. Rojava é um grande processo revolucionário porque, na cultura daquela região, a mulher não possuía participação política. A ideologia do PKK foi gradualmente mudando isso. Agora, as mulheres participam da vida política e possuem seu próprio exército, que está lutando contra o Estado Islâmico. Trata-se de uma das maiores revoluções sociais da região.

Sul21 – Como os governos dos cantões são escolhidos?
Ozcan –
 Através de eleições. As primeiras ocorreram há seis meses. Não é um sistema representativo, é uma democracia direta. A qualquer momento o povo pode retirar do poder quem eles elegeram. O Poder Executivo é mais um coordenador do processo, porque existem assembleias populares em cada comunidade. As decisões locais são tomadas pelas pessoas que moram nas comunidades. Em cada comunidade existem três assembleias: a local, a de jovens e a de mulheres. É um outro modelo, não haverá eleições a cada quatro anos. Sempre e quando o povo precisar, o governo permanecerá ou será mudado.

Não existe nenhum outro lugar no Oriente Médio onde cristãos e muçulmanos estejam governando juntos”

Sul21 – Não existe um governo central dos três cantões?
Ozcan –
 Atualmente, cada cantão é separado. Não existe coordenação entre eles. Quando falamos sobre Rojava, estamos falando sobre os três cantões, mas não existe um representante de Rojava. Isso se deve a problemas práticos, já que os três cantões estão fisicamente distantes e separados, e também porque o projeto político ainda está sendo discutido. Ainda está aberto ao debate a forma como essa coordenação central será construída.

Sul21 – Como os três cantões se comunicam e realizam trocas entre si?
Ozcan –
 A região inteira é uma zona de guerra, então há limitações práticas para isso. Estão sendo criadas academias econômicas para se discutir o tipo de economia que será criada quando os cantões se unificarem. Uma das nossas funções na América Latina é entender melhor as experiências econômicas da região, com cooperativas e economias comunitárias criadas ao longo da história de processos revolucionários no continente.

Sul21 – Quando falamos sobre Rojava, sobre quantas pessoas e cidades estamos falando?
Ozcan –
 Estamos falando sobre algo entre 2,5 milhões e 3 milhões de pessoas e cerca de 12 cidades. Não são cidades muito grandes, porque as administrações dos cantões são diferentes do mapa político da Síria. Por exemplo, de acordo com a Síria, a cidade de Kobani pertence a Aleppo, mas para os curdos, é uma cidade livre. A maior cidade é Qamislo.

O sucesso de um projeto anticapitalista, especialmente no Oriente Médio, é uma grande ameaça ao sistema”

Sul21 – Qamislo é a capital de Rojava?
Ozcan –
 A ideologia do confederalismo democrático não prevê a existência de uma capital. Eles não precisam de uma capital, que é um instrumento de um Estado – e eles querem evitar isso.

Sul21 – Como está sendo a implantação do confederalismo democrático em Rojava?
Ozcan – 
É tudo muito novo, então não posso dizer que não estejam ocorrendo problemas. Mas pela primeira vez estamos implantando o confederalismo democrático como um sistema prático. O povo está muito animado, porque estamos resolvendo os problemas da causa curda, mas também estão resolvendo o problema da exploração, do governo, do socialismo e da vida social. É uma revolução em muitas dimensões e aspectos. Muitos olhos pairam sobre Rojava agora, porque não existe nenhum outro lugar no Oriente Médio onde cristãos e muçulmanos estejam governando juntos. Os cristãos podem governar a si próprios se eles quiserem, esse direito está garantido na Constituição de Rojava. Os cristãos têm seu próprio mecanismo de auto-defesa. É um sistema secular, por isso está atraindo tanta atenção.

Sul21 – Como o processo revolucionário está resolvendo as necessidades imediatas do povo, principalmente no que diz respeito a saúde e educação?
Ozcan – 
As assembleias populares estão criando academias. É um sistema muito novo, então tudo está tendo que ser autogestionado. As pessoas precisam fazer tudo e construir seu próprio sistema de forma coletiva. Escolas primárias, secundárias e até mesmo universidades estão sendo criadas pelo povo. O problema principal em relação a Rojava é que, por ser uma alternativa ao sistema, o sistema não a apoia. É por isso que tudo precisa ser feito de dentro para fora.

Sul21 – É um modelo anticapitalista também.
Ozcan –
 A economia está sendo organizada através de cooperativas. Em Rojava, o princípio básico é: “o que pertence ao povo sempre pertencerá ao povo e será compartilhado pelo povo”. Há muita oliva e petróleo na região, por isso que muitas companhias internacionais querem saber qual é a política econômica do PKK. O PKK diz que nenhuma companhia pode se aproximar da região com a ambição de lucrar, porque o partido é contra monopólios e privatizações. Os recursos da região serão compartilhados pelo povo. Se obtivermos sucesso, será um modelo para o mundo inteiro. O sucesso de um projeto anticapitalista, especialmente no Oriente Médio, é uma grande ameaça ao sistema.

Devido à censura da mídia, ninguém sabia que o PKK tem mulheres combatendo e liderando suas fileiras há mais de 35 anos”

Sul21 – E o que acontece com a iniciativa privada que existe na região, com os comércios e empresas das cidades?
Ozcan –
 Por causa do preconceito de Assad contra o povo curdo, não havia muito comércio e capital privado sendo investido na região. Agora isso é uma coisa boa, porque, caso contrário, ocorreria uma oposição interna na região ao processo revolucionário. Isso não está ocorrendo porque o povo de Rojava mora em vilas, são trabalhadores, não é uma região dividia em classes. Essa era a natureza da região, mesmo antes da revolução, então a transição não está sendo difícil.

Sul21 – Para uma revolução ser bem sucedida, o povo precisa apoiá-la. A região de Rojava não possuía uma classe média ou uma burguesia capazes de opor resistência?
Ozcan –
 Para o confederalismo democrático, as academias são muito importantes. O povo precisa estar a par do que está acontecendo, do tipo de revolução que está ocorrendo e das ameaças do sistema. O PKK foi criado em 1978. Depois que Öcalan teve que deixar a Turquia, ele foi para Rojava, em 1979. Ele viveu no Curdistão sírio por 20 anos, então o povo curdo da Síria conhece muito bem suas ideias. Milhares de jovens de Rojava se juntarão ao PKK nos anos 1980 e 1990. Milhares morreram na luta contra a Turquia. O povo de Rojava conhece muito bem a ideologia do PKK.

Sul21 – Como é a relação entre Rojava e o Governo Regional Curdo do Iraque?
Ozcan –
 Não muito boa, porque Barzani e o Governo Regional Curdo são um satélite completamente dependente do Ocidente. Rojava é uma revolução contra o sistema e Barzani é parte do sistema. Ao fim e ao cabo, talvez a maior revolução de Rojava seja contra Barzani, porque ele é a parte do sistema que mais se aproxima de Rojava, é o principal representante do sistema na região. Muita gente compreendeu que a Turquia estava conduzindo um embargo contra Rojava, mas ninguém entendeu porque Barzani estava reforçando esse embargo contra o povo curdo. Ele queria sufocar a revolução também, por isso que reforçou o embargo nas fronteiras que o Governo Regional Curdo possui com Rojava.

A resistência em Kobani contra o Estado Islâmico foi liderada por uma mulher”

Sul21 – Isso pode estar enfraquecendo a popularidade de Barzani junto aos curdos?
Ozcan –
 Definitivamente, porque o Ocidente quer que Barzani seja uma alternativa a Öcalan e ao PKK. Após atacarem Kobani, o Estado Islâmico atacou Sinjar, onde os curdos Yazidi vivem. Eles não são muçulmanos, são curdos que pertencem a uma religião muito típica e antiga. Quando eles foram atacados, as forças de Barzani, os Peshmergas, fugiram, deixando os Yazidi sozinhos e desarmados. Por isso cerca de 3 mil mulheres Yazidi foram capturadas pelo ISIS e estão sendo vendidas como escravas sexuais. É por isso que o povo curdo está muito crítico em relação a Barzani. Se o PKK não tivesse descido das montanhas e defendido os Yazidis em Sinjar, teria havido um massacre massivo. Em todas as cidades governadas por Barzani que estão sob sítio do ISIS, quem está combatendo não são os Peshmergas, mas a guerrilha do PKK. O mundo inteiro está vendo as guerrilhas assumirem a luta e os Peshmergas recuarem, isso está abalando muito a popularidade de Barzani.

Sul21 – É possível haver uma mudança política no comando do Governo Regional do Curdistão e um aliado do PKK assumir o poder?
Giran – O partido-irmão do PKK no Governo Regional do Curdistão foi banido das eleições. Nas últimas eleições, Barzani fez 38% dos votos. Agora existe o movimento Gorran, que é uma nova força política de oposição e está com 29% das intenções de voto. Então há espaço para mudança no Governo Regional do Curdistão.

Sul21 – O que isso iria significar para Rojava?
Giran –
 Significaria que pelo menos uma certa parte do Curdistão estaria livre. Embora o Governo Regional do Curdistão possua uma autonomia “de facto” desde a década de 1990, ninguém enxerga a região como uma parte livre do Curdistão, porque ela está completamente dependente do Ocidente. Os curdos estão dizendo agora que Rojava é o primeiro território livre do Curdistão. A próxima eleição no Governo Regional do Curdistão será somente em três anos, mas acredito que muita coisa vá mudar até lá. No momento os curdos estão numa posição defensiva, lutando contra o Estado Islâmico, então não estão falando muito sobre mudanças políticas. Mas as guerrilhas do PKK estão nas cidades do Governo Regional do Curdistão. Antes, para ir lá, eles teriam que lutar com os Peshmergas, e ninguém quer ver os curdos lutando uns contra os outros. Agora o povo está vendo as guerrilhas todos os dias. As coisas irão mudar nas próximas eleições, o governo já não pode mais banir o PKK de participar no processo.

A luta não está sendo conduzida dentro de uma lógica militarista, mas, sim, de autodefesa”

Sul21 – Como se deu o surgimento das brigadas comandadas e compostas por mulheres em Rojava?
Giran –
 O movimento de libertação das mulheres está contemplado na ideologia do PKK. Devido à censura da mídia, ninguém sabia que o PKK tem mulheres combatendo e liderando suas fileiras há mais de 35 anos. Desde a criação do PKK, no primeiro congresso do partido, as mulheres estavam presentes. Nos anos 1980, nas primeiras guerrilhas do PKK, havia brigadas femininas. Öcalan sempre dizia que nenhuma sociedade pode ser livre enquanto as mulheres não forem livres. Para ele, o nível de liberdade de uma sociedade pode ser medido pelo nível de liberdade das mulheres. Por isso que a revolução em Rojava é uma revolução de mulheres. Embora as YPJ tenham sido criadas há apenas três anos, elas vêm de uma história de 35 anos. A principal comandante de Kobani era uma mulher, Narin Afrin. A resistência em Kobani contra o Estado Islâmico foi liderada por uma mulher. As pessoas costumam dizer que o Oriente Médio é uma região muito conservadora, mas, no centro do Oriente Médio, mulheres estão na linha de frente da vanguarda por libertação. E a maioria delas são muçulmanas, que é a religião predominante entre os curdos.

Sul21 – Isso contraria o estereótipo que se costuma ter no Ocidente quanto às mulheres muçulmanas, como se a opressão de gênero e o islamismo fossem duas coisas intrinsecamente ligadas.
Giran –
 Há muitas leituras diferentes do Islã, a do ISIS é apenas uma delas e tem suas raízes no wahhabismo. Através do PKK, o povo curdo passou a ter um entendimento completamente diferente a respeito das mulheres. Não é uma característica curda, mas uma característica do socialismo defendido pelo PKK, que foi rompendo com as opressões em relação às mulheres naquela região.

Sul21 – O militarismo costuma ser um fenômeno bastante machista. Como as mulheres estão desconstruindo isso em Rojava?
Giran –
 Nos anos 1980, acredito que qualquer mulher militante do PKK teria muitos relatos para fazer a respeito das dificuldades em enfrentar o machismo em uma organização predominantemente masculina. Öcalan escreveu um livro sobre a necessidade de se romper com o machismo, porque viu que mesmo na sua organização isso era um problema. Atualmente, em grande medida isso já foi superado. A luta não está sendo conduzida dentro de uma lógica militarista, mas, sim, de autodefesa. E as mulheres são uma parte desta autodefesa.

O governo turco deixa suas fronteiras abertas para o Estado Islâmico e fecha as portas para a solidariedade revolucionária em relação a Rojava”

Sul21 – Como está a solidariedade internacional em relação a Rojava?
Giran –
 Há dois períodos: antes e depois da conquista de Kobani. Antes de Kobani a mídia ocidental não falava sobre Rojava, porque a resistência foi inacreditável. O Estado Islâmico tomou Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, em 24 horas. Mas não conseguiram conquistar Kobani, uma cidade com 200 mil habitantes e não mais do que 5 mil combatentes. Depois disso, houve um despertar internacional em relação ao que ocorre em Rojava, as pessoas estão debatendo o sistema político que está sendo criado lá. Esperamos que as pessoas se solidarizem e acompanhem esse experimento socialista e revolucionário que está ocorrendo em Rojava. Ainda é um experimento. Somente com a ajuda e a solidariedade das pessoas ao redor do mundo, especialmente na América Latina, esse experimento poderá ser bem sucedido.



Sul21 – O que esse processo revolucionário significa para a esquerda, de uma forma geral?
Giran –
 Embora o capitalismo esteja afundando em uma grande crise, a esquerda ainda não foi capaz de mostrar um modelo concreto ao mundo. Agora temos um experimento em Rojava ao qual podemos nos espelhar e dizer ao mundo: “É assim que queremos que as pessoas vivam”. Cabe a nós, pessoas de esquerda e revolucionárias, mostrar ao mundo que o modelo desenvolvido em Rojava pode ser bem sucedido e que o socialismo pode ser tão bom na prática quanto é na teoria. Acredito que a esquerda não irá perder essa oportunidade.

Sul21 – Como Rojava está se abrindo para o mundo neste momento? Organizações e pessoas estrangeiras podem ir para lá?
Giran –
 O governo turco deixa suas fronteiras abertas para o Estado Islâmico e fecha as portas para a solidariedade revolucionária em relação a Rojava. Muitos europeus já se juntaram ao YPG, vários latino-americanos também já se juntaram a Rojava. Há maneiras de garantir contatos, o PYD tem escritórios na Europa. Rojava espera pela visita das pessoas, porque tem algo a mostrar ao mundo.

A mídia ocidental não demonstra a realidade da revolução, não fala sobre seu caráter anticapitalista”

Sul21 – Qual o papel das potências ocidentais em relação ao que ocorre em Rojava?
Giran –
 O Ocidente está dizendo que aceitará Rojava se for igual ao Governo Regional do Curdistão. Se Rojava for mais aberta ao Ocidente e às grandes corporações, receberá apoio das potências ocidentais. É por isso que o povo não está esperando que esse apoio venha.

Sul21 – Como tu vês a cobertura da mídia sobre Rojava?
Giran – Há diferentes abordagens. É claro que a revolução quer ser conhecida e vista pelo mundo, mas ela quer ser mostrada pelo que realmente é. A gente vê fotos de mulheres combatendo em Rojava, mas não sabemos por que elas estão lutando. Não vemos na mídia tradicional a informação de que o PKK é uma organização socialista, de que a economia em Rojava é baseada em cooperativas.