*Guerra de 4ª Geração e Sistema-Mundo em Crise Modelam Conjuntura

XXIII Assembleia Geral do Cimi-realidade brasileira à luz dos atuais ataques à Constituição Federal. Crédito da Imagem: Tiago Miotto/Cimi

O sociólogo e integrante da coordenação do Movimento Fé e Política, Pedro A. Ribeiro de Oliveira, se dirigiu à XXIII Assembleia Nacional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que acontece durante essa semana no Centro de Formação Vicente Cañas, em Luziânia (GO), com pessimismo sobre a atual conjuntura. “Nosso otimismo deve estar concentrado na ação porque a única leitura possível para o que estamos vivendo é a pessimista”, explicou.

Logo no início de sua fala, o sociólogo materializou esse pessimismo: a Terra está ameaçada de uma catástrofe climática cujo ápice será 2050, daqui a 30 anos. “O problema climático é também um problema político. A natureza não e vista como sujeito de direitos. A data limite seria 2021 para estancar o processo, mas estamos longe de conseguir. As empresas só pensam em lucro, lucro e lucro. Podemos viver a sexta grande extinção de espécies: a quinta ocorreu na extinção dos dinossauros. Nós, uma espécie viva, estamos matando as outras e nos matando como consequência”, defende.

Conforme o sociólogo, o Brasil está dentro do sistema-mundo regido pelo mercado. “Esse sistema nasceu no século XV, XVI na Itália, época das grandes navegações. Se aperfeiçoou em Amsterdã, entre os séculos XVII e XVIII, já no século 19 se deslocou para a Inglaterra, com a revolução industrial, e no século XX chega aos EUA. A questão é que ele está em crise”, explica. Em resumo, a crise é motivada por excesso de produção e ninguém compra.

O resultado dessa conta que não fecha é a financeirização do sistema-mundo. Essa é a fase do capitalismo em que as transações e mercados financeiros ganham força no sistema econômico mundial. “Essa fase marca a passagem do centro do capitalismo dos EUA para a China. A guerra destrói uma maneira antiga de produção para colocar uma nova. Estamos vivendo uma transição em que o centro do mundo sai da Europa e EUA para o pacífico, indo pra China e Índia. O poderia militar, porém, segue sendo dos EUA”, analisa.

“O mercado, por sua vez, não está em crise: todo mundo confia no dinheiro. Grandes bancos mandam hoje no mundo. Mandam tanto que são maiores que os estados nacionais. Numa grande corporação é um poder só, centralizado, que decide tudo de cima para baixo. O poder financeiro atinge a ONU (Nações Unidas), que está em crise e recebe empréstimos dessas empresas que governam, mas não se deixam governar”, diz. A necessidade do capitalismo é a de crescer, “mas a Terra não cresce: é do mesmo tamanho”.

Guerra de 4ª geração  

A humanidade conviveu e convive com as mais variadas formas de guerra, ceifando a vida de milhões de pessoas. Guerras mundiais, guerras locais e a ameaça permanente de uma guerra nuclear são as mais conhecidas. “Existe uma outra que demoramos a perceber, uma quarta forma de guerra que não conhecíamos, que é a de quarta geração (híbrida). Guerra estratégia para se eliminar um poder. A novidade é o uso metódico e racional da informação. O espaço militar não é só a terra, os céus e o mar, mas também a internet”, explica.

Uma das estratégias dessa guerra é a de produzir informações sobre quem se considera inimigo. “Verdadeiras ou não, elas só devem parecer plausíveis. Depois difundir essas informações por meios que deem credibilidades a essas informações. Igrejas, cultos, jornais, grande imprensa, instituições. Desqualificar as outras fontes que possam questionar a informação. Técnicas específicas foram desenvolvidas pra isso. Não há um comando unificado, trabalha-se com a descentralização”, analisa o sociólogo.

Jair Bolsonaro ganha as eleições com base nessa estratégia, tendo o apoio de um dos principais formuladores da guerra híbrida, o estadunidense Steve Bannon, que coordenou a campanha vitoriosa de Donald Trumpnos EUA. Porém, quem governa no Brasil é o ministro da Economia, Paulo Guedes. De escola hiperliberal, o ministro é um representante no país do capitalismo que se nega a ter controle de governos ou do Estado, o que Oliveira chama de “anarcocapitalismo”. Privatizações, conversão gradual da previdência pública em privada, desidratação de direitos trabalhistas, acabar com toda e qualquer regulamentação.

A Amazônia é um exemplo citado. “A internacionalização da Amazônia será por meio do capital. Se funda empresas no Brasil, com alguma fachada, para explorar a floresta com a imagem de que estão fazendo a salvação da Amazônia”, reflete. Ele aponta que a questão climática afeta a Amazônia e os demais biomas, mas a crise das queimadas é resultado, sobretudo, de uma política deliberada.

“O capitalismo está em crise, se transformando em capital financeiro para valorizar o capital, se apropriando dos bens comuns para transformá-los em mercadoria. E aí a Amazônia e demais biomas são uma mina de bens comuns. Então a ambição do capital hoje é transformar esses bens, água, biodiversidade, madeira, terras, em bens que se compra e vende no mercado”, explica.

Na sua avaliação, é uma estratégia de curto prazo do capitalismo e “uma estratégia desesperada, mas ele precisa disso e não vê a médio e longo prazo os danos que vai causar. Conta ainda com a cumplicidade do governo brasileiro e das Forças Armadas brasileiras, que acham que isso não é internacionalizar a Amazônia”. No entanto, o sociólogo considera que, para o grande capital, seria melhor um plano de médio prazo para a derrubada gradual da Amazônia, a privatização dos biomas.

“Ninguém permitiria um desmatamento legal da Amazônia. A pressão contrária seria enorme. O capitalismo recorre à doutrina do choque: vamos fazer um desastre e todo mundo vai ter que aceitar as soluções. Vamos trazer os capitais para dar um jeito nisso. É uma crueldade muito grande com os povos indígenas, com as populações que vivem da floresta e com a própria natureza. Não quero nem pensar o que isso significa para os povos indígenas isolados”, encerra.

Leia na íntegra o mapa da exposição do sociólogo Pedro A. Ribeiro de Oliveira, da coordenação do Movimento Fé e Política: Guerra de 4ª Geração e sistema-mundo em crise modelam conjuntura

 

 

 

*Realismo Geopolítico Utilizado por Obama e Trump.

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A posição de Donald Trump em relação à intervenção turca no norte da Síria tem alguma (enfatiza alguns) semelhança com a posição de seu antecessor Barack Obama na Ucrânia. Obama, como Trump, viu uma base fundamentada para limitar o envolvimento militar dos EUA na Síria. Em segundo plano, há um certo grau de oposição bipartidária (republicana e democrata) a essa abordagem de política externa.

Dentro da razão, Obama articulou com Jeffrey Goldberg, que a Ucrânia significa mais para a Rússia do que a primeira para os EUA e a UE. Nesse ponto, Obama acrescentou que a Rússia tem uma clara vantagem geográfica quando se trata de envolvimento militar na Ucrânia. Por isso, a relutância de Obama em fornecer ajuda militar ao regime de Kiev. Da mesma forma, Trump reconheceu essencialmente o papel da Turquia como uma grande potência regional em relação à Síria – especificamente, a fronteira da Turquia com a Síria.

Nos meios de comunicação dos EUA, alguns deram a impressão de que os EUA deveriam usar seu poder para ameaçar a Turquia de ficar fora do norte da Síria. Até certo ponto, essa mentalidade existe em relação a outros países. Nos últimos anos, o ex-conselheiro de segurança nacional dos EUA, Zbigniew Brzezinski, disse enfaticamente que, embora os EUA continuem sendo uma grande potência, terá, no entanto, (nos próximos anos) um status geopolítico diminuído, devido a outros blocos de poder terem maior capacidade de influenciar com sucesso seus objetivos.

Esse pensamento foi subestimado em várias situações de alto perfil. Em vez disso, algumas noções defeituosas foram sustentadas sem a repreensão crítica que merecem.

A notável visão de Brzezinski à parte, ao longo da história, grandes potências perderam para inimigos menores por razões relacionadas à geografia e à vontade. (A Revolução Americana e a Guerra do Vietnã são dois exemplos.) Portanto, há muitas razões para uma superpotência considerar cuidadosamente lutar contra uma potência regional no quintal desta última.

O senador do Kentucky Mitch McConnell sugeriu que a retirada de Trump dos militares dos EUA no norte da Síria e a subsequente mudança da Turquia nessa área beneficiam os governos sírio, russo e iraniano. Damasco, Moscou e Teerã não expressaram apoio à mencionada incursão turca. McConnell minimiza o interesse e a ação claramente declarados dos governos sírio, russo e iraniano contra o ISIS na Síria – em conjunto com a visão de que o avanço militar turco no norte da Síria pode prejudicar esse esforço – dado que a Turquia e os curdos sírios brigam entre si e evitam manter o fator ISIS sob controle.

Vendo o que aconteceu, não será uma grande surpresa que um possível entendimento (oficial ou não) seja alcançado entre os governos sírio e turco. Esse cenário poderia eventualmente levar a uma diminuição da tensão na Síria, juntamente com um acordo de funcionamento entre os curdos sírios e as autoridades de Damasco. A situação dos refugiados na Síria e a eliminação ainda incompleta do ISIS são questões importantes a serem observadas.

Diplomaticamente, o governo sírio está em uma posição relativamente forte. Os turcos provavelmente preferem as autoridades de Damasco aos curdos sírios, com os curdos da Síria preferindo Damasco a Ancara.

Em relação à Ucrânia, a Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, foi o local recente de uma forte discussão idealista anti-russa e anti-Putin, organizada por Charles Gati e dominada por David Kramer, sem oposição. Este encontro serve como um exemplo do tipo de visualizações distorcidas que recebem tratamento preferencial dentro de círculos de destaque nos EUA. O seguinte diz respeito a algumas (não todas) das imprecisões declaradas neste evento.

No início de sua palestra, Kramer afirma incorretamente que, antes de 2014, não havia apelo no Ocidente por ter a Ucrânia na OTAN. Consulte o ponto 23 da Declaração da Cúpula da OTAN de 3 de abril de 2008, afirmando: “A OTAN acolhe as aspirações euro-atlânticas da Ucrânia e da Geórgia por ser membro da OTAN. Concordamos hoje que esses países se tornarão membros da Otan. ”Isso aconteceu no momento em que a Ucrânia era liderada pelo neocon e neolib preferido por Viktor Yushchenko, que foi sucedido por Viktor Yanukovych. Em 2014, Yanukovych foi essencialmente derrubado em um golpe, depois que ele assinou um acordo de compartilhamento de poder mediado internacionalmente. Kramer e alguns outros omitem essas realidades. Em vez disso, eles oferecem a rotação de um processo democrático que prevalece sobre as tendências pró-russas antidemocráticas.

Longe de ser perfeito, Yanukovych não assumiu a posição anti-russa como aqueles que o sucederam e Yushchenko. Ao mesmo tempo, Yanukovych buscou uma abordagem equilibrada entre o que a UE e a Rússia preferiam. A Rússia indicou uma disposição de manter conversações de três vias (Rússia, UE e ucranianos) sobre como gerenciar o desenvolvimento econômico da Ucrânia. Em contrapartida, a UE adotou um jogo de soma zero, o caminho deles ou a atitude na estrada. Antes de Yanukovych ser derrubado, as pesquisas revelaram que a opinião pública ucraniana estava bastante dividida na escolha entre as preferências econômicas da UE e da Rússia para a Ucrânia.

O regime que substituiu imediatamente Yanukovych incluía pessoas que favoreciam a Ucrânia revogar o acordo que concedia uma presença militar russa na Crimeia. Após a derrubada de Yanukovych, houve uma série de atividades anti-russas aumentadas destacadas pelos seus em um comentário de 7 de julho de 2014. Goste ou não, há um elemento pró-russo na Ucrânia, que ficou compreensivelmente desconfortável com alguns dos atos provocativos que ocorreram.

Com esses pensamentos em mente e ao contrário de Kramer, o conflito na antiga SSR ucraniana se assemelha mais a uma guerra civil do que a agressão estrangeira. Ele é incapaz de comprovar de fato que a maioria dos rebeldes de Donbass não é do território da antiga SSR ucraniana. Nesse particular, os acadêmicos Paul Robinson e Serhiy Kudelia discutem com Kramer.

Conflito georgiano-osseta

Imagem Wikiwand –  Conflito georgiano-osseta – 2008, Tskhinvali – 2008 – escola

Culpando a Rússia, Kramer mostra o avião abatido sobre o leste da Ucrânia. Ele omite o processo investigativo suspeito sobre o assunto – explicando assim o acompanhamento anunciado recentemente na Holanda. Antes do incidente do avião da Malásia, algumas companhias aéreas, por conta própria, optaram por não sobrevoar a zona de guerra ucraniana oriental.

Kramer menciona de maneira irreverente o ataque da Rússia em 2008 na Geórgia, sem mencionar que foi o governo da Geórgia que atacou o antigo território georgiano SSR da Ossétia do Sul. Quando se fala desta guerra no Capitol Hilltelevisionado por CSPAN, situando a Rússia, atacando os oponentes vencidos, a preferência da Ossétia do Sul e da Abkhazia pela Rússia sobre a Geórgia geralmente é contornada.

Kramer e Gati exibem um viés impreciso em relação à situação ucraniana, cobrindo o conluio do Comitê Nacional Democrata de 2016 (DNC) com o regime de Kiev (para encontrar sujeira na campanha presidencial de Trump) e a maneira suspeita dos Bidens na Ucrânia.

Sob uma visão crítica, a negação de um conluio do regime DNC-Kiev não é convincente. Na verdade, não está bem estabelecido que Joe Biden e seu filho Hunter não se comportaram de maneira esquisita na Ucrânia. O jornalista John Solomon, pesquisou diligentemente esse assunto com descobertas que justificam uma investigação dos Bidens. A discussão de Duran, em 11 de outubro, fornece uma visão mais aprofundada sobre a alegação de que os Bidens foram razoavelmente limpos de qualquer irregularidade.

A oposição à conversa telefônica de Trump com seu colega ucraniano carece de substância, explicando assim a deturpação do congressista da Califórnia Adam Schiff sobre essa troca. Schiff está registrado por dizer que tem provas de um conluio direto entre Trump e o governo russo – algo que não é seguido durante suas frequentes aparições na MSNBC e CNN.

O desagrado de Kramer pela reunificação da Criméia pela Rússia voa diante da realidade. Sua reconsideração como fato de um suposto comentário que Putin fez sobre a Ucrânia não ser um Estado permanece suspeita.

Imagem relacionada

O governo Trump aumentou visivelmente a assistência militar dos EUA ao governo ucraniano – algo que contradiz a imagem de Trump brincando com a Rússia. Durante a reunião cara-a-cara de Trump com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, o chefe de estado dos EUA expressou a esperança de que a Rússia e a Ucrânia melhorem suas relações – um desejo procurado por muitos nesses dois países com estreitos laços históricos e culturais. Diga o que quiser sobre Trump, em assuntos relacionados à Rússia, ele parece mais razoável do que seus críticos neocon e neolib, com sua insinuação de ar quente, que não enfraquecerá a Rússia.

Leia na íntegra: Realismo geopolítico utilizado por Obama e Trump

*Multinacionais de Tecnologia Incentivam a Neocolonização

As multinacionais têm limitado o acesso aos pacotes e softwares que criaram, condicionando suas funções a um valor de assinatura mensal ou anual. As grandes multinacionais tecnológicas estão gradualmente privatizando seus produtos, limitando o uso de novas funções por meio de assinaturas pagas às quais poucas pessoas têm acesso, disse Alvin Lezama, diretor geral da Comissão Nacional de Tecnologias de Informação (Conati), ele descreveu a estratégia como uma “neocon“.

Em uma nova investigação da “Conatel al Aire” , a Lezama investigou as empresas transnacionais que aplicam uma economia “neo-colonizante” que impede que a tecnologia esteja disponível para todos, aproveitando a dependência que eles criaram no mercado internacional.

Lezama explicou que a estratégia é privatizar pacotes e softwares, que há cinco anos estavam disponíveis para todos, e agora busca capitalizar a renda fechando a cerca que permite seu uso.

Ele ressaltou que a agenda de tecnologia da informação é preparada por essas mesmas empresas transnacionais. Para impedir que isso aconteça na Venezuela, ele propõe que os profissionais da área de tecnologia sejam treinados em comunicação e vice-versa, para gerar, através de análises e estudos, suas próprias agendas que divulgam o histórico dessas empresas de mídia.

Em relação às tecnologias livres, ele disse que é necessário treinamento, serviço e manutenção de indústrias sustentáveis, que se moldam e se tornam um mecanismo de desenvolvimento, para que gerem alianças com os fabricantes e se tornem um ecossistema autossustentável.

Ele indicou que a Conati trabalha para desenvolver uma plataforma piloto que consiste em criar uma rede nacional de tecnologias de suporte, impulsionar o processo de migração de sistemas privados para livres e desenvolver uma estratégia que permita a criação de comunidades para cada aplicativo, onde eles atendem. desenvolvedores e usuários que crescem de forma independente.

Leia na íntegra: Multinacionais de tecnologia incentivam a neocolonização

Leia também: Adobe vai parar de fornecer seus serviços na Venezuela. A empresa está apenas seguindo ordens do governo norte-americano

*A Prostituição é Considerada a Escravidão do Século XXI

A PROSTITUIÇÃO NÃO É A MAIS ANTIGA DAS PROFISSÕES. É SIM, A MAIS ANTIGA FORMA DE DOMINAÇÃO E EXPLORAÇÃO PATRIARCAL

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Artigo de opinião da porta-voz do Grupo Socialista Municipal na Câmara Municipal de Villarrobledo, Caridad Ballesteros, por ocasião do Dia Internacional contra a exploração sexual e o tráfico de mulheres, meninas e meninos

Neste momento, quando a Violência de Gênero nos horroriza, é uma realidade invisível, escondida entre uma suposta diversão e luzes de neon, mas que constitui uma das formas de violência mais terríveis e aceitas que se conhece.

Entre 40 e 42 milhões de pessoas são prostituídas no mundo, 80% são mulheres e meninas.

 nos diz que 90% das mulheres prostituídas são contra sua vontade, 9 em cada 10 mulheres são forçadas, enganadas, sequestradas, roubadas, compradas e vendidas. O mito da prostituta livre é uma mentira e a maior das injustiças, porque enquanto houver apenas uma mulher traficada, a prostituição não pode ser considerada uma forma de liberdade.

No ano passado, 14.000 escravos sexuais foram detectados na Espanha e apenas 1 entre 20 casos são relatados, o numero pode ser 20 vezes maior, ou bem mais. Nas crianças, a realidade é ainda mais sombria e não há dados confiáveis, mas a polícia alerta para o aumento constante e alarmante de menores prostituídos, de homens que exigem meninas.

Meninas compradas, enganadas, pensando que estes criminosos lhes oferecem um futuro, ajuda para suas famílias, meninas roubadas da vida. Meninas de países pobres, principalmente Paraguai, República Dominicana e África Subsaariana. Os explorados espanhóis constituem uma minoria, mas existem, e eles também estão aumentando. A maioria é capturada on-line por dinheiro fácil ou promete ser modelo.

A chamada indústria do sexo, por não ser uma indústria, é uma rede criminal organizada que lucra com o assédio de mulheres e meninas, porque esse negócio movimenta 10 milhões de euros por  na Espanha, um negócio muito lucrativo que muitas partes políticos e organizações, que se autodenominam progressistas, pedem para legalizar o processo, considerando-o como um comercio qualquer (em alguns países a prostituição e o trafico de drogas entram para cálculos de crescimento dos [PIB] produto interno bruto – parênteses nosso).

Do PSOE, temos uma posição clara: a exploração de mulheres e meninas não pode ser considerada trabalho, a escravidão e a violência não podem ser legalizadas, e é por isso que acreditamos na abolição da prostituição. E nós nos perguntamos e convidamos você a refletir sobre o assunto: se a prostituição é um trabalho, você a deseja para suas filhas ou filhos ?

Essa realidade, essa forma de violência socialmente aceita contra as mulheres, não poderia ocorrer se não houvesse demanda, se não houvesse homens que exigissem que as mulheres satisfizessem seus desejos. Sem clientes não há prostituição, sem clientes não há tráfico.

E, no entanto, e infelizmente, somos o terceiro país do mundo (Espanhaparênteses nosso) em prostituição, depois da Tailândia e Porto Rico. Somos o primeiro país da Europa a demandar prostituição.

40% dos homens já pagaram pelo sexo, 4 em cada 10 homens e não acreditam que a prostituição seja uma forma de violência. É difícil pensar que alguém é capaz de imaginar que, para uma mulher solteira, trancada em um bordel, forçada a entregar todo o dinheiro que ganha, ela e sua família sofrendo ameaças e estando sujeitas a tantos riscos físicos e mentais, é difícil acreditar que alguém pense que isso não é violência, que seja divertido. Você não pode satisfazer um desejo às custas do sofrimento de uma mulher, uma menina …

Esse é um problema social que afeta a todos nós e que somos chamados a tornar visível como a primeira maneira de lutar por sua erradicação. A educação de nossas crianças e adolescentes é essencial para impedi-los de traficar redes ou impedir que se tornem consumidores de prostitutas, homens que usam mulheres como objetos para usar e jogar fora.

A educação afetivo-sexual é primordial, porque, se não educarmos, a pornografia fará isso e é gratuito, eles terão um clique, com apenas um telefone para acessá-lo.

Pornografia é teoria, prostituição e estupro é prática. Ninguém está alheio ao aumento alarmante de casos de estupros, muitos deles em grupos, e se forem educados em violência, praticarão a violência.

Do governo socialista de Castilla-La Mancha, com a nossa Lei sobre Violência de Gênero, fica claro que a prostituição é uma violência de gênero e é trabalhada intensivamente pelo Ministério da Igualdade com programas de conscientização e disseminação para a prevenção do consumo de drogas. Prostituição entre jovens. Nas palavras de nossa conselheira,  : “Embora saibamos que a tarefa que enfrentamos é enorme, não devemos desistir do esforço para alcançar uma sociedade mais justa e, portanto, mais feliz para aqueles que a compõem”.

É tarefa de todos tornar visível e lutar contra esse flagelo social. É tarefa dos homens recusar-se a participar dessa desumanização das mulheres, censurar quem termina a festa em um bordel e dizer alto e claro SEM VOCÊ, NÃO HÁ COMÉRCIO.

Ler na íntegra: La prostitución es considerada la esclavitud del siglo XXI

*Psicanálise Contra o Fascismo

 Do mito da Torre de Babel à diferença entre Real, Simbólico e Imaginário

O fascismo e o UM

O fascismo foi um movimento político italiano que tomou seu nome das milícias de combate [Fasci di combattimento] fundadas em 1919 por Benito Mussolini.1 As Fasci di combattimento eram uma organização armada paramilitar composta por militantes, que usavam a violência para impor suas ideias. Seus membros vestiam como uniforme uma camisa negra, tinham armas e se organizavam em grupos de ação militar e nomeavam a si mesmos de squadracce, isto é, milícias.

Seu alvo e seu estilo eram a ação direta contra as associações operárias, as câmaras do trabalho, os sindicalistas, as oposições em geral.

Por que a pedra fundamental do fascismo se chamava MILÍCIAS de combate [FASCI des combattants]? Que significa FASCIO?

A palavra “fascismo” deriva da palavra latina fascio, que significa feixe. Como objeto, um feixe é um conjunto de elementos longilíneos atados. Pensemos no feixe de luz. Na Antiga Roma, os fasces lictoriae (o emblema do lictor) eram as armas levadas pelo lictor, isto é, varas de madeira amarradas com faixas de couro, em torno de uma machadinha. A palavra “lictor” designava tanto as armas assim ligadas quanto todo homem que as levava. Os lictores (em latim clássico: lictor, –oris no singular; lictores, –orum no plural) eram civis que pertenciam à classe de servidores da antiga Roma. Eles constituíam a escolta dos magistrados, que possuíam o poder de constranger e punir.

O emblema dos lictores é o símbolo do poder e da autoridade máxima: o Imperium. Esse emblema, de forma cilíndrica, que reúne varas de madeira, com listas vermelhas, simboliza o poder de punir, e a machadinha que está no meio simboliza o poder de matar, de decretar a morte.

Observemos que esses símbolos – feixe de varas, machadinha – são símbolos fálicos que encarnam o poder. Um feixe une, reúne elementos diferentes em um UM; um UM indivisível, um corpo sem articulação. Um UM que simboliza a força.

 

O fascismo é o adversário estratégico

Michel Foucault (2001, p. 133, 136) considera o fascismo como o inimigo político a abater:

O adversário estratégico é o fascismo […] o fascismo que está dentro de cada um de nós, em nossas cabeças e em nosso comportamento de todos os dias; o fascismo, que nos faz amar o poder e desejar verdadeiramente o que nos oprime e nos explora.2

Foucault define o fascismo como o adversário estratégico. Sendo assim, o combate contra o fascismo não pode ser senão de longo fôlego e dar-se permanentemente sobre um vasto território. Porque o fascismo posssui não apenas soldados evidentes que se colocarão diante de nós, mas também soldados infiltrados no campo inimigo (o que chamaria de ‘campo da democracia’). Esses soldados são tão hábeis e treinados que têm a capacidade de se infiltrar em nós, em nossa consciência e, ainda mais longe, em nosso inconsciente. Poder-se-ia pois pensar que, face a tal inimigo, a tamanha força, a tamanha devastação, a batalha da democracia estaria perdida logo de início. Seus informantes, seus serviços secretos estão em toda parte, e nós não podemos fazer nada para contê-los.

Isso não é totalmente falso: nosso trabalho de luta contra o fascismo revela-se difícil, pois “o fascismo […] está dentro de cada um de nós, em nossas cabeças e em nosso comportamento de todos os dias […]” (FOUCAULT, 2001, p. 136).

 

O fascismo em nós

Por que o fascismo estaria em nós, em nossa cabeça? Por que nos impele a amar o poder e a escolher o que nos oprime? Eis aqui questões que concernem à psicanálise e às quais vou tentar responder.

Vimos que é próprio do fascismo fazer UM, reunir os elementos separados em uma unidade firme de tal modo que não se possa mais separá-los. Reunidos em uma totalidade, eles jamais poderão assumir sua própria autonomia. Cada vara deve ficar bem colada ao cilindro que envolve a machadinha, poder-se-ia dizer, machado de guerra. Assim, cada sujeito deve permanecer assujeitado, escravizado ao poder de um único mestre, caso contrário, o risco é de morte, e a machadinha aí está para lembrá-lo disso.

O problema do fascismo é, então, esse UM monolítico, totalitário. Ele se insinua no interior da cidadela fechada do Eu, ele a controla e a domina, impedindo, de todas as formas, que um sujeito emerja. O fascismo não seria, antes de tudo, uma posição psíquica totalitária e idólatra, ou seja, uma posição de fidelidade a uma ideia, a uma imagem? Impossivel não pensar no papel do Supereu, no severo controle de nossos atos e nossos pensamentos.

 

A torre de Babel: uma língua, um povo, um lugar

Para compreender a posição psíquica que se submete ao UM, eu lhes proponho percorrer uma passagem bíblica surpreendente: o mito de Babel: “Todo o mundo se servia de uma mesma língua e das mesmas palavras” (GÊNESIS, 11.1).3

Chegando, pois, a Babel, os homens se puseram a construir uma cidade e uma torre: “Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus ! Façamo-nos UM nome (chem) e não sejamos dispersos sobre toda a terra” (GÊNESIS 11.4). Tais foram as palavras dos habitantes de Babel, que se puseram logo à obra sob o olhar do Eterno que diz: “Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua” (GÊNESIS, 11.6). Deus não parece satisfeito e decide intervir para confundir as línguas do povo de Babel. Esse verbo “confundir” é a tradução do verbo hebreu NaVeL (noun, vet, lamed),4 que significa, mais precisamente, “separar”.

Deus desce, pois, do céu, para separar as línguas e dispersar esse povo que aspira a ser UM.5

Vemos que Deus intervém para interromper o processo que conduz ao Um: uma língua, um povo, um lugar. Deus considera que qualquer tentativa visando produzir o UM fazendo surgir uma torre que pudesse perfurar o céu é pretensiosa e idólatra, pois esse UM não pertence senão a Ele, o Deus único.

O mundo de Babel está fechado no UM, privado de abertura. Se tudo é UM, as palavras não podem ser separados das coisas. Ora, sem distância entre as palavras e as coisas, não há liberdade possível. A palavra adere à matéria, o Simbólico é prisioneiro do Real. A palavra e a interpretação tornam-se impossíveis. A diferença se apaga. Não existe mais diferença entre esses três registros propostos por Lacan: Imaginário, Simbólico, Real. A linguagem, isto é, o Simbólico cola no Real e no Imaginário. Os três registros se confundem, e essa língua monolítica de Babel perde sua força simbólica e se torna um palavreado vazio. “Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua” (GÊNESIS, 11.6). O Simbólico perde sua função de religar os significantes, o símbolo não tem mais nenhum suporte e perde seu sentido, pois que tudo é UM. A metaforização não existe quando Tudo é o Mesmo. Quando real, simbólico e imaginário se confundem, perdem toda a função de separação. Função que Deus ocupa ao intervir em Babel, separando as línguas para deixar espaço para a interpretação, para a crítica. E é o que fará Lacan ao dar à psicanálise conceitos novos que nos são muito úteis. Nós podemos dizer que Lacan faz, com essa distinção e essa separação entre RSI, uma obra de criação ou de recriação da psicanálise.

Na Babel como no fascismo a língua torna-se muito concreta; seu alvo é o poder, a apropriação: fazer UM. Fazer de modo que o Eu faça UM com seu objeto. A língua é posta em movimento por desejo de poder que quer construir uma torre mais alta que o céu.

Tenho a impressão de que vivemos em uma Babel moderna. Nosso presente torna a torre transparente, não mais toda construída de tijolos e argamassa, mas composta de microchips. Ela tenta reduzir o Real ao Rimbólico, mas o que consegue é criar uma linguagem terna, esvaziando-a de sua força simbólica. A fala se faz imagem fixa que cola no real. O Real, por seu turno, perde sua voz/via e sua força.

O homem está ligado, preso-imobilizado em sua relação com os signos, os códigos, as imagens. As relações humanas estão secando. As imagens dificilmente tornam-se significantes. O discurso torna-se impossível. Não há lugar para o diálogo, somente para um monólogo coletivo, um murmúrio. Estamos mergulhados em uma fala totalitária, que quebra a liberdade. A característica dessa liberdade é a possibilidade de não dizer as coisas como elas são nem como elas aparentam, mas poder dizê-las de outro modo, poder recriá-las, reinventá-las.

Pela tradição judaica, essa fala totalitária é idólatra, é um culto da imagem, da aparência.

Deus intervém, então, na Babel: ele separa as línguas dos habitantes de Babel e os dispersa pelo mundo. O método de criação de Deus é bem conhecido, sempre o mesmo: a separação. Para criar o Mundo, ele primeiro separou o céu da terra, o dia da noite, a mulher do homem. Ele transforma o UM em DOIS, em múltiplos. Separar as línguas, mas também o Real do Simbólico, separar a palavra da matéria, o tijolo da argamassa, que servem para construir esse arranha-céu das origens: a torre de Babel. Dessa forma, o homem sai da reclusão de um mundo totalizante. Ele assume o risco de viver em uma realidade aberta e múltipla, um mundo aberto à mudança, ao futuro onde os reencontros, as descobertas, as invenções são possiveis. Um mundo de liberdade.

Deus se opõe à realização dessa cidade do UM (que ele nomeará Babel)6 e cria um lugar onde as línguas são diferenciadas graças à sua intervenção de separar. Cada nova língua nomeará diferentemente o Real, e, para compreendê-las, será preciso uma obra de interpretação e de tradução.

A pluralidade das línguas e dos discursos impede que a palavra seja fixada, colada em uma verdade.

Hoje a linguagem da internet e a comunicação virtual tornaram-se soberanas. O simbólico se confunde com o imaginário e faz desaparecer a nossos olhos o referente, o Real.7 Temos a impressão de que o Real não é mais necessário. Ele tem sido anulado e vem dando lugar a uma realidade virtual.

Nossa ‘aldeia global’ assemelha-se a uma torre de Babel muito singular, onde o Real8 é apagado pela imagem, por uma escritura fundamentalmente estabelecida sobre a imagem. Estamos em vias de viver uma espécie de negação [déni]9 do Real?

 

O Real, o Imaginário e a psicanálise

Se o Real é negado, isso não significa que ele não exista, que ele não opere, mas simplesmente que o ignoramos porque não podemos ter a representação dele. Quais são as consequências? Vivemos em uma hipertrofia da imagem, em que o Imaginário toma o lugar, todo o lugar do Real. O resultado é um Mundo onde há muita comunicação, mas as palavras são imobilizadas, o sentido abstraído, a fala esvaziada de seu sentido radical, das estratificações significantes e das emoções. As palavras tornam-se ídolos.

Deus responde, pois, à idolatria dos babelianos pela separação das línguas e a dispersão do povo sobre toda a Terra. Graças a essa disseminação, os homens saem de um mundo fechado e se encontram em um mundo aberto. A psicanálise responde à idolatria pelas palavras que se emancipam da escravidão do sentido único, do sentido dogmático, pelas palavras ditas com toda liberdade. Elas se referem à experiência do corpo, às emoções que lhe deram forma, criaram-no, elaboraram-no. A psicanálise separa o significante do significado. O significante se emancipa e, na autonomia encontrada, pode tomar sua liberdade de significar. Uma análise é um novo começo que visa essa liberdade. Ela visa destruir os ídolos, para nos fazer sair do país do SENTIDO ÚNICO. Ela se abre para o significante e para suas potencialidades de sentido, de novos sentidos. Com esse novo começo, um sujeito assume o risco de viver em um mundo doravante aberto e múltiplo. Um mundo de liberdade. Esse mundo de liberdade não é um mundo imobilizado, parado, siderado pela palavra, deslumbrado pelo excesso de luz, mas um mundo em construção. Quanto à confusão das línguas, ela reintroduz a diferença. As palavras encontram sua distância em relação às coisas. O cavalo é um cavalo, mas há tantas palavras para nomeá-lo quantas são as línguas que existem. A confusão das línguas introduzida por Deus, a pluralidade da linguagem não constitui uma complicação inútil; ao contrário, é útil ao Real que a linguagem tenta dizer, representar em seu movimento contínuo e em mudança. Se há mil maneiras de dizer uma coisa, é porque essa coisa não é sempre a mesma. Ela muda continuadamente. Um copo em alemão é chamado de Glas; em italiano, bicchiere; e a mesma palavra de uma mesma língua ou dialeto é percebida e pronunciada diferentemente por cada indivíduo. No lugar, no furo dessa diferença, há o Real. O processo de comunicação é um trabalho que consiste em aproximar o que está separado. Em unir o que está disperso. Essa união não está, todavia, definida de uma vez por todas. Ela não está garantida, mas está sempre em movimento e mudança. Dois homens jamais falam exatamente a mesma língua. A distância entre a palavra e a coisa, entre a coisa e o símbolo, devolve a cada um uma liberdade de discurso. Essa distância não significa, contudo, que a palavra se abstraia da coisa; ao contrário, graças a essa distância, ela não cola na coisa e se autonomiza para melhor poder representá-la em novas formas. A coisa não está imóvel, permanente; ela muda continuamente, ela é o Real. Se o fixamos em uma imagem, nós o perdemos de vista. Daí a necessidade de interpretar os discursos que vêm até nós. Compreender o outro é reconhecer sua singularidade e interpretá-lo. É achar o tempo para traduzir seu discurso. E traduzi-lo não é traí-lo; ao contrário, é o único meio de se aproximar dele. Traduzir é, de alguma forma, recriar, reinventar, isto é, dar uma nova forma, uma nova representação à coisa, que, uma vez nomeada, nos escapará ainda, e mais ainda. Assim, a ação de Deus não é somente uma punição. Essa abertura à pluralidade das línguas é sobretudo uma bênção. Bene dire é o ‘bem dizer’, dizer diferentemente, tentar surpreender, tomar na palavra a diferença da coisa. A ilusão do fascismo é dizer as coisas como elas são ‘verdadeiramente’; elas, porém, são sempre diferentes, elas são o impossível de dizer. A língua do fascismo se quer concreta, verdadeira, intensa e recusa a mediação da interpretação. O fascismo vê em toda tradução uma traição, em toda interpretação, uma trapaça.

Da mesma maneira, o Eu é prisioneiro de uma autoridade que o espreita, que o controla. O Supereu está sempre sobre ele, prestes a censurá-lo, a abatê-lo com seu olhar frio, perseguidor. Um Supereu, que está assentado sobre o Eu e não o deixa se mover, se autonomizar, tomar iniciativa, tornar-se adulto, tornar-se sujeito. Nós estamos no domínio da imagem, do eidolon, do ídolo. O Eu surge no desenvolvimento da criança e aparece com nossa imagem diante do espelho. Ele que, entretanto, persiste em nós. A superpotência [surpuissance] da imagem faz do Supereu um ídolo, um superman, que permte imaginar, mas não permite pensar, pesar nem avaliar.

 

O Real, o impossível: o que “não cessa de não se escrever”

Retornemos à questão do Real, isto é, do IMPOSSÍVEL, e à relação que ele mantém com o Simbólico e o Imaginário.

O Real é o impossível, nos diz Lacan (1972-1973] 1976, p. 86). O Real é o “que não cessa de não se escrever”, isto é, alguma coisa como uma necessidade, que não pode ser gravada em uma escritura. Se ela assim o for, não será mais o Real, mas o Simbólico. O Real é invisível, incompreensível, não representável.

O Real é definido por uma negação; na fórmula proposta por Lacan, é alguma coisa que ‘não cessa’ e que ‘não se escreve’. O nome do deus da Bíblia não se pronuncia, mas ele se escreve: YHVH.10 O Real, para a psicanálise, toma o lugar de Deus; é um Real que se faz sintoma, que se diz, entre outros, em uma sessão analítica, mas ‘que não se escreve’. Para descrever o Real, Lacan propõe colocar em jogo duas negações: ‘não cessa’ é a primeira, que exprime a necessidade. O Real é necessidade! A outra negação é ‘alguma coisa que não se escreve’. O Real é negativo ou ao menos é conotado negativamente. O vocábulo negativo vem do latim necare, que significa matar. Seu radical é nex, necis, que significa morte, assassinato. O Real é, pois, a necessidade: alguma coisa que ‘não cessa’, um continuum, é a Natureza com sua incessante renovação, possível somente por um contínuo assassinato do presente. A segunda negação, ‘que não se escreve’, é o assassinato da escritura, do signo, do Simbólico. O Real é o impossível de simbolizar, pois, desde que ele é simbolizado, não é mais Real. O Real é o impossível.

Mas o fato de que o Real nos escapa, de que seja impossível, não significa que ele não aja; ao contrário, ele age por excelência, desde que o “que não cessa”, não cessa de recusar uma inscrição mesmo estando em um contínuo vir-a-ser. E se o Real age, não podemos ignorá-lo, mesmo se nos é incompreensível. Porque ele nos é incompreensivel é que deve ser levado em conta como um X que impulsiona nossa vida.

Esse fator X, que é o Real, tem uma dupla característica: de um lado, ele é não gravável; de outro, ele é atuante. Ele não age completamente em silêncio, pois, quando ele age, ele chama, ele nos chama, ele nos invoca. O termo “vocação” vem do latim vocatio, que significa chamar e corresponde ao grego  , de . Essa palavra “apelo”, na Bíblia dita Septuaginta, é a tradução do verbo hebreu , que designa, em um sentido específico, o apelo que Deus dirige ao homem.11

 

As profissões impossíveis e o apelo do real

Em Análise terminável e interminável, Freud (1937) tinha falado do ‘impossível’ a propósito de certas profissões [misteres] como ‘educar’, ‘curar’ e ‘governar’. A isso ele acrescentará ‘psicanalisar’. O impossível anúncio de que estamos em presença do Real. Trata-se de profissões impossíveis com efeito, porque têm a ver com o Real. Curar tem a ver com o Real do corpo, psicanalisar com o Real da psique. Mas, antes de ser impossíveis, essas atividades humanas são misteres. E de onde vem este nome: mister? Em italiano, mestiere está mais próximo da palavra ministerium, com seu halo de sagrado. O ministro é, na Bíblia, um servo de Deus: lidar com o Real é da ordem do sagrado e do mistério, pois o Real escapa a toda representação. Mas é a língua alemã que nos dá as chaves desse mistério. Em alemão, para dizer ‘mister’, diz-se Beruf, que significa apelo ou retorno. Beruf é o termo escolhido por Luther para traduzir a palavra bíblica , que foi traduzida em latim por vocatio e, em grego, Klesis. Para Luther, um mister é uma vocação; somos chamados por Deus para cumprir neste mundo uma tarefa determinada. Nós cumprimos um destino, pois somos chamados por Deus. Se Freud chama a psicanálise de um ‘mister’, é porque para ele, na psicanálise e em outros misteres, alguma coisa do Real apela. O Real da psicanálise chama e se exprime pela voz, por uma invocação. Isso significa que, embora seja da ordem do negativo, embora seja impossível, o Real desempenha um papel determinante nas atividades humanas. O Real chama, e é preciso encontrar formas de ouvir esse apelo, vale mais ouvi-lo, conectar-se com ele, para que, quando ele nos tocar, estejamos prontos para lhe dar uma resposta, para acolhê-lo ou repeli-lo. E, de todo modo, quando nos toca, ele deixa um sinal, uma marca, ele nos tange.12 O Real é uma manifestação da contingência, isto é, “do que cessa de não se escrever”. O Real é “o que não cessa de não se escrever”, contudo ele surge, quando bate à porta na forma “do que cessa de não se escrever”, salvo se ele não se escreve sobre o papel, ou não apenas, mas ele se escreve na realidade, frequentemente em nosso corpo, deixando nele um sinal. Para entender o apelo do Real ou do sintoma, é preciso sair da necessidade, da impossibilidade de ser tocado por ele. É interessante que esse apelo do Real, esse Beruf seja nomeado em hebreu cara, termo que nos reenvia, na língua latina, à ‘carícia’ de alguém próximo que nos ama, a carícia de uma mão que nos toca, a de um ser caro. Essa ‘carícia’ é o ponto de contato onde o Real toca nosso corpo e se torna contingente. Ele nos ‘tange’. É essa tangibilidade que permite ao Real tocar o Simbólico e o Imaginário e articular com eles uma relação. Se o Real é simplesmente negado, ele permanecerá colado ao Simbólico e ao Imaginário, e poderá causar danos. Nesse caso, esse ‘tocar’ pode tornar-se violento, ele se transformará em um choque. É o caso do amor que dá lugar ao ódio ou à perversão. O que importa aqui é que Real, Simbólico e Imaginário estejam separados e, ao mesmo tempo, articulados, isto é, em relações recíprocas. Está claro que nessa relação não podemos excluir o Real.

O silêncio do Real, o fato de que ele não nos chama não significa que ele está ausente, mas que ele está colado no Simbólico e no Imaginário: ele não tem necessidade de chamá-los, pois Simbólico e Imaginário já estão ali, o Real se funde com eles. Quando o Real se cala, a tempestade chega, pois essa colagem é incestuosa. Nós nos encontramos aí diante dessa unidade que forma um bloco, onde não há diferença, onde não há mais significantes. Não há mais diferença entre as coisas, entre palavra e coisa, nenhuma diferença entre Real, Simbólico, Imaginário.

 

O interdito de construir imagem

Na Bíblia, Deus, o Real, se revela na escritura, dando a Moisés a tábua da lei e depois a Bíblia aos profetas. Deus, o Real, torna-se escritura. Esse impossível (de pronunciar e de ver) torna-se possível graças à ‘revelação’. Para a psicanálise, o Real não se escreve, não se revela em um texto, mas na palavra viva, aquela, por exemplo, que tentamos fazer surgir em uma cura analítica. Na escritura bíblica, a palavra é imagem, signo para ler e interpretar. A palavra do analisante é som, significante para ouvir e interpretar. Nos dois casos, o leitor, o lictor, o intérprete é um sujeito. O interdito de contruir imagem na religião hebraica visa proibir que se fixe o sentido de uma vez por todas em uma imagem, em uma única interpretação. Isso é proibido uma vez que Deus, o Real, ‘não cessa’, no sentido de um continuum e no sentido de uma necessidade em movimento, impossível de se aprisionar em um UM. Para se fixar, ela se negará, visto que sua essência é não ser fixa. Negar a necessidade é negar a vida e a matéria. O significante da psicanálise é um significante sonoro, é um dizer, um “dieure”,13 como diz Lacan. O significante bíblico é uma escritura que deve ser, contudo, lida e interpretada. Eu digo ‘lida’. E isso significa alguma coisa de especial na língua hebraica, uma vez que há uma diferença entre o que se lê no signo da escritura e o som, a pronúncia da palavra. Às consoantes que são efetivamente escritas, o leitor deve acrescentar as vogais, isto é, a articulação das consoantes, que não são grafadas no texto bíblico originário. Isso para lembrar que, à escritura que fixa, que imobiliza, é preciso acrescentar a voz, uma vocalização que é sempre singular, única, e da qual não se pode fazer imagem. Com efeito, o risco da escritura, enquanto imagem, é ser imobilizadora, risco de fechar o sentido em uma única interpretação, em uma prisão. É um fato que frequentemente as religiões são produtoras de dogmas, uma vez que elas estão do lado do ideal. Eidos, em grego, significa imagem. O grande cuidado da Bíblia na Torah é cassar (fazer cessar) toda idolatria. O judaísmo, no relato bíblico, nasce da revolução operada por Abraão, que cassa os ídolos, a estatueta que seu pai Terah adorava e vendia no mercado. Terah, o pai do primeiro patriarca, era um mercador de ídolos. O judaísmo é mais próximo da psicanálise com relação aos outros monoteísmos, pois, como a psicanálise, ele luta contra os ídolos, mesmo aqueles que são inscritos no texto bíblico. E isso por meio da fala, da interpretação. Se o texto bíblico é uma revelação, isso não impede que ele seja continuamente interpretado. O dever de um judeu é ler e reler a Torah e lhe dar sentido, um novo sentido. A revelação não é un desvelamento radical do divino, do Real, mas somente parcial, fragmentário, que deve ser interpretado sempre de novo.

 

O fascismo nos faz amar o poder

Para terminar meu propósito, eu retorno à citação de Foucault que abriu este artigo: o fascismo “[…] nos faz amar o poder e desejar verdadeiramente o que nos oprime e nos explora”. Como é possível que o fascismo nos faça amar nosso inimigo? Aquele que nos oprime e nos explora. Não existe em nós alguma coisa que favoreça essa posição de submissão? Alguma coisa que coloca o sujeito para baixo e que se coloca como autoridade acima?

Etimologicamente, o Supereu se coloca ‘sobre’(super), acima do Eu. O Supereu é uma instância psíquica que se encontra ‘sobre’ o Eu e não hesita em esmagá-lo. É uma instância superior que tem, pois, uma certa ascendência sobre o Eu. O Supereu é uma autoridade que protege o Eu, mas que ao mesmo tempo imobiliza o sujeito e faz isso de tal modo que ele não possa vir-a-ser. Ele se comporta um pouco como esses pais que, para proteger seus filhos do perigo da rua, os encerram em seu quarto e lhes tiram toda a liberdade. O Supereu se apresenta com um ar superseguro – seguro de si nessa confrontação com o Eu, que obedece docilmente às injunções desse ditador que dita ‘de dentro’ os protocolos de ação. O Eu obedece e se submete a ele. Por quais razões? Fazemos a hipótese de que isso seja por amor. O fascismo nos faz amar o poder, o mesmo poder que nos submete. E, mais ainda, ele nos faz desejá-lo. Nós ‘desejamos o que nos oprime’. Não seria por que sua autoridade, sua força idealizada nos tranquiliza? O supereu, ao qual nós aderimos, se mostra forte, capaz de nos proteger, mas sua ação sedutora é perversa. Seu lado autoridade tranquilizadora nos faz esquecer que ele pode, a qualquer momento, nos esmagar. Como não cair de amores por tal super-herói musculoso? Semelhante a uma estrela que, com seu brilho, possui um grande poder de sedução, mas também de ‘sideração’, o Supereu fascina, reúne toda diferença e a reduz ao UM, a uma imagem do poder que nós não hesitamos em chamar ‘fálico’.

Leia na íntegra: Psicanálise contra o fascismo…

*Capitalismo suicida: ou mudamos de modelo ou acaba o mundo

CATÁSTROFE

Capitalismo suicida: ou mudamos de modelo ou acaba o mundo, diz intelectual

Para Armando Bartra, mundo vive "crise ambiental final; isso é o capitalismo do fim do mundo. Ou acaba o capitalismo ou acaba o mundo” - Créditos: Foto: Pedro Stropasolas/Brasil de Fato
Foto: Pedro Stropasolas/Brasil de Fato

No início de setembro, dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontaram para um intenso aumento no número de queimadas na Amazônia. Segundo o documento, 30.901 focos de incêndio foram registrados em agosto, mês em que ocorreu o chamado “dia do fogo”. Na ocasião, produtores da região Norte do Brasil iniciaram um movimento conjunto para incendiar áreas da maior floresta tropical do mundo.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o filósofo e antropólogo Armando Bartra, professor da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), afirmou que o recrudescimento dos ataques aos recursos naturais fazem parte de uma nova dimensão do modelo capitalista, o que ele qualifica como “capitalismo suicida” ou “capitalismo do fim do mundo”.

“Estamos vivendo uma terrível crise em um capitalismo que lucra com a escassez. Pois quanto menos barris de petróleo existem, mais caros são. Quanto menos água doce há, mais cara é. Quanto menos territórios privilegiados existem, mais caros são. Quanto menos comida há, mais cara é […]. Isso é o capitalismo do fim do mundo. Ou acaba o capitalismo ou acaba o mundo”.

O professor, que esteve em visita ao Brasil, comentou ainda a vitória de Andrés Manuel López Obrador nas eleições presidenciais mexicanas de 2018, o que considera “a realização de uma utopia”. “A legitimidade de López Obrador é enorme. Isso impediu uma fraude eleitoral e permitiu, pela primeira vez, que tenhamos um presidente que não representa uma continuidade histórica do sistema político mexicano. Todo o resto ainda precisa ser feito. Mas isso já é uma utopia”.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: O segundo capítulo do seu livro O Princípio, que trata dos primeiros quatro meses do governo de Andrés Manuel López Obrador, começa com uma frase do escritor argentino Julio Cortázar que diz que “o bom das utopias é que elas são realizáveis”. A vitória de López Obrador é uma utopia realizada? O que ela significa para o México e para a América Latina?

Armando Bartra: O triunfo da proposta político-eleitoral do Movimento Regeneração Nacional (Morena), que triunfou no 1º de julho de 2018, torna concreta uma esperança. Uma esperança que já existe há muito tempo. Porque não é somente a esperança daqueles que formam parte desse partido.

A sigla que derrotamos, o Partido Revolucionário Institucional (PRI),  se funda no final da Revolução Mexicana de 1910. E eles não apenas criaram um novo Estado, um Estado pós-revolucionário, mas também construíram um partido e uma maneira de eleger, ano após ano, candidatos do mesmo partido. Eles foram chamados de “monarcas sexênios”. Era como se fossem reis que só duravam por seis anos. E depois vinha outro, outro e depois outro. Mas todos eram iguais.

Não podíamos mudar nada profundamente em nosso país se não mudássemos de governo. E mudar não era somente derrotar um governo em uma eleição, mas derrotar um sistema político que tinha um século de duração.

Por isso, de algum modo, o 1º de julho do ano passado foi a realização de uma utopia, que significava não somente ganhar a eleição. A legitimidade de López Obrador é enorme. Isso impediu uma fraude eleitoral. E permitiu, pela primeira vez, que tenhamos um presidente que não representa a continuidade histórica do sistema político mexicano. Todo o resto ainda precisa ser feito. Mas isso já é uma utopia.

Quais os erros e acertos do governo López Obrador nestes 10 meses?

Em primeiro lugar, é um governo terrivelmente legítimo. Se acreditamos que a soberania popular pode ser transferida para uma pessoa, para um grupo de pessoas, a um presidente da República, a uma série de governadores, deputados e senadores que devem expressar essa vontade popular, López Obrador tem um mandato extraordinário. Um mandato respaldado por 30 milhões de mexicanos e mexicanas. Nenhum presidente na história do México havia conquistado isso.

López Obrador chega como um candidato de ruptura. Claramente um candidato de ruptura, de oposição radical ao sistema. E chega com uma porcentagem de votos extraordinária. Um mandato deste tamanho é muito complicado de se assumir.

Uma das providências que o governo tomou é a de, em todas as manhãs, durante a semana, fazer uma conferência de imprensa. Todos os dias apresenta um informe para que conheçamos o mundo rural, camponês. Ele informa a nação.

Há seis anos, López Obrador teve um ataque cardíaco em um momento de luta pela defesa do petróleo, pois o estavam privatizando – e de fato a extração foi privatizada. Ele sobreviveu e continuou o trabalho intenso.

Isso foi um aviso. Creio que López Obrador sabe que a vida é curta e é melhor fazer as coisas rápido, pois ele sabe que não é eterno. É um ativismo com uma intensidade que nunca vimos.

Após assumir, López Obrador afirmou que o neoliberalismo havia chegado ao fim no México. Na prática, no entanto, uma mudança estrutural tão radical não parece uma tarefa fácil. É possível uma alteração tão drástica?

O que López Obrador disse é que nós não iremos atuar conforme critérios neoliberais. Mas ele sabe – todos sabemos – que o neoliberalismo não é só um modelo. O neoliberalismo está impresso em nossa Constituição, que foi modificada pelos governos neoliberais; em nossas leis secundárias; está impresso nas instituições públicas; nas secretarias e ministérios. As regras de operação do governo funcionam com critérios neoliberais.

O neoliberalismo está metido até o fundo da nossa realidade. É a primeira vez que um governo decide abandonar um modelo neoliberal e governar de outra maneira. O que acontece é que esse é um processo longo. É preciso exorcizar o demônio do neoliberalismo do país. E isso levará tempo.

A política de López Obrador privilegia os pobres. Sim, primeiros com critérios redistributivos de renda, com critérios de transferências. Mas coloca os pobres na frente.

Foto: Pedro Stropasolas/Brasil de Fato

Segundo Bartra, eleição de López Obrador é uma “utopia realizada”

Tivemos no México um aumento do salário mínimo. Historicamente se aumentava o salário cerca de 1,5%, 2%. Os neoliberais diziam: “se aumentamos o salário, aumenta a inflação; se aumenta a inflação, aumenta o custo de vida e o pobre sai perdendo. Portanto, não aumentamos o salário pelo seu bem”. López Obrador aumentou o salário mínimo em 16% e não há inflação.

Para os neoliberais, temos a sorte de estarmos na fronteira com os Estados Unidos. De acordo com eles, só falta um pouquinho para o México ser um país de primeiro mundo. Cruzamos a fronteira e pronto. Então tudo é feito pensando no Norte, nos Estados Unidos.

López Obrador prioriza o Sul e o Sudeste. Primeiro as zonas rurais, indígenas, que em termos de investimento e serviços são mais atrasadas. É uma heresia para o neoliberalismo.

Hoje, na América Latina, temos Jair Bolsonaro no Brasil, Mauricio Macri na Argentina, Iván Duque na Colômbia e Lenín Moreno no Equador. É o fim do curso emancipatório que teve lugar na região?

Estamos falando de uma transformação civilizatória. Não queremos uma mudança qualquer, queremos uma mudança com profundidade, que não apenas termine com a lógica do capitalismo, mas também com a lógica do colonialismo.

Estamos em um refluxo: golpe de Estado contra Dilma no Brasil e depois uma eleição em que Bolsonaro ganhou drasticamente. Temos um governo neoliberal na Argentina, com Macri, e uma traição no Equador – não podemos chamar de outra coisa.

Na Bolívia, Venezuela e Uruguai, a esquerda segue governando. E agora no México. O ciclo histórico de longa duração não é permanentemente um ascenso. Há subidas e descidas. É inevitável. Tivemos ascensos prolongados, depois uma série de golpes e um retrocesso de curtíssimo prazo.

Pensemos no governo de Macri. Ele não vai ganhar essa próxima eleição, não pode ganhar. O neoliberalismo na Argentina não é capaz de se manter no poder com legitimidade eleitoral. No caso do Uruguai, creio que a Frente Ampla vai ganhar. Seria a quarta vez. Na Bolívia, as pessoas com quem falei disseram que não está tão fácil, porque se Evo Morales não ganhar no primeiro turno, todos irão se virar contra ele. Mas eles creem que ele vai ganhar, e eu também.

Então temos México, Venezuela, Bolívia e Uruguai, que seguem, e a Argentina, que se soma. Eu digo que estamos iniciando a segunda onda do ciclo emancipatório.

Em uma entrevista ao jornal mexicano La Jornada, o senhor afirmou que hoje vivemos uma etapa do capitalismo que definiu como “capitalismo do fim do mundo” ou “capitalismo suicida”. Poderia explicar o que isso significa?

Na modernidade, tínhamos crises de abundância. Sobrava, não faltava. Hoje temos, outra vez, as velhas crises de escassez. Hoje temos um problema severo com a terra fértil. O Brasil, por exemplo, ainda tem uma fronteira agrícola. Mas se seguirem forçando essa fronteira, veremos, em um prazo curtíssimo, o que é topar contra a parede. Não se pode seguir destruindo a Amazônia, e isso está sendo feito.

Temos um problema sério com o esgotamento da fertilidade natural do solo e sua substituição por química. O que significa que empobrecem o solo e o contaminam. O solo e as águas. Hoje temos uma guerra pela água, uma competição pela água doce. Não é algo que temos em abundância, algo que sobre.

Temos escassez de energia. Somos dependentes do petróleo, do gás e de minerais. As tecnologias para seguir obtendo [esses recursos] são absolutamente suicidas. Utilizam enormes quantidades de água e provocam contaminação. Estamos raspando o fundo do tacho. Já não há mais o que retirar. Não temos alternativas fáceis. A facilidade energética do petróleo não vai se repetir.

Estamos vivendo uma terrível crise de escassez. Uma crise de escassez em um capitalismo que lucra com a escassez. Porque quanto menos barris de petróleo existem, mais caros são. Quanto menos água doce há, mais cara é. Quanto menos territórios privilegiados existem, mais caros são. Quanto menos comida há, mais cara é.

O capital busca o encarecimento, busca a destruição dos recursos naturais, porque isso faz com que sua privatização gere maior lucro. Isso é um capitalismo suicida. O capitalismo produzia pobreza e riqueza. Ele vivia da mais-valia.

[Agora] vive cada vez mais do lucro, da privatização dos recursos naturais. Há uma crise ambiental final, definitiva. Isso é o capitalismo do fim do mundo. Ou acaba o capitalismo ou acaba o mundo.

Os incêndios recentes na Amazônia são um exemplo desse capitalismo?

Todo mundo sabe que a Amazônia não é um território que vale somente para o Brasil. O mundo inteiro depende [dela] – em realidade, qualquer ecossistema ultrapassa suas fronteiras. Mas no caso da Amazônia, por sua extensão e importância, não se trata de qualquer coisa.

A destruição, como está ocorrendo, é realmente suicida. Suicida para o Brasil, mas também para o mundo. A solução não é a de que os europeus assumam a administração. Não estou de acordo com o governo do Brasil, mas creio que não se trata de “estrangeirizar” a Amazônia, e sim de que o povo brasileiro se imponha sobre seus governos ecocidas.

A obtenção dos recursos naturais está sendo cada vez mais custosa em termos ambientais. Isso nos deixa próximos não do fim do capitalismo, mas da civilização como a conhecemos.

Há uma diferença substantiva entre os séculos XIX e XXI. Ela tem a ver com a natureza insustentável do capitalismo. Que, hoje sabemos, não só esgota as energias e a criatividade dos seres humanos, mas também destrói o entorno natural na mesma proporção, se não em uma proporção maior.

Edição: Vivian Fernandes

Do: BRASIL DE FATO