*Crise Poderá Levar América Latina a Pobreza Maior

A CEPAL apresentou novas projeções de crescimento para os países da América Latina e do Caribe. Enfatiza que a crise provocará no médio prazo mudanças estruturais na organização produtiva, no comércio internacional e no atual modelo de globalização.

Segundo a “Comissão Econômica para a América Latina” ( CEPAL), mais da metade da população da América Latina (270 milhões de pessoas) poderá sofrer com a fome em breve,  a depressão economica que se avista para a região causará danos a mais da metade da população do continente Latino Americano.

Se as projeções da CEPAL se confirmarem —queda de 5,3% no PIB da AL este ano— 270 milhões, quase a metade dos 600 milhões que vivem na região, deslizarão p/ a pobreza, e 80 milhões p/ a miséria.

Governantes serão compelidos a abandonar o neoliberalismo diante do caldeirão fervente.

E enfatiza que a crise provocará no médio prazo mudanças estruturais na organização produtiva, no comércio internacional e no atual modelo de globalização.

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Como vemos, o atual sistema “ultra” implantado por Paulo Guedes promoverá uma catástrofe no Brasil.

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*A Hora do Abate

Estamos diante de um massacre pensado e legitimado como tal, de uma Solução Final para esta e para todas as próximas crises que virão de agora em diante.

Por Victor Hugo Silva

Ato 1

“Acompanhando um pouco os nossos números, eu diria que o Brasil está bem”, diz Guilherme Benchimol, economista da XP investimentos, “o pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, a classe alta”. O dia da declaração era 5 de maio — tínhamos 7.321 mortes registradas oficialmente no país.

Ato 2

O presidente Bolsonaro foi a pé ao Supremo Tribunal Federal, acompanhado de potências econômicas como o presidente do setor de brinquedos, passar o seguinte recado: “O efeito colateral do combate ao vírus (salvar vidas) não pode ser mais danoso que a própria doença (o prejuízo para empresas)”. A decisão para essas pessoas é óbvia e o aumento das mortes que acompanha o número de setores essenciais decretados pelo governo federal e a reabertura dos comércios não deve nos deixar dúvidas.

Ato 3

Em Roraima, um general responsável por um campo de refugiados instrui sua tropa: “É como eu digo, vale para mim, vale para vocês. Nós não estamos infectados, nós estamos sendo imunizados para ações futuras. Essa é a visão que temos que ter”.

Entra o coro

Duas perguntas se impõem. Uma terceira a gente tem de criar, e “a gente” são aqueles que aguentarem o caminho do inferno que nos espera. A primeira pergunta tenta dar uma origem à doença mental que justifica o extermínio dos pobres e dos “fracos” nos países em que isso se tornou política de Estado — começando pelo Brasil. Mas o que é isso? A segunda pergunta trata de como essa ideia vem sendo testada e aplicada progressivamente no Brasil, com crescente legitimidade e força. Como é possível? A terceira pergunta… é se existe alguma cura à vista e onde ela pode ser encontrada.

Pergunta número 1

De onde um economista de fundo de investimentos tirou esse conhecimento e autoridade para poder chegar a esse tipo de conclusão? Ou seja: qual é a doença que vem impulsionando e legitimando essa gente a mobilizar pela reabertura da economia do Brasil enquanto as taxas de morte só aumentam? Quem produziu isso? De onde veio? Como se reproduz? A resposta é: estamos lidando com o nazismo do século XXI com verniz de “seleção natural”. O extermínio sistemático como ideologia.

Mas o que é isso?

Vamos começar dando às coisas o seu nome.

Será que estou exagerando ao dizer que gente sorridente e “bonita” (ou pelo menos branca), como Samy Dana e Belchimol, carrega na cabeça uma ideologia de extermínio de gente pobre? João Filho, do Intercept, usou uma expressão muito curiosa para dar nome ao que essa pessoa fez. Chamou de “desastrado”. Na reportagem fica claro que ele não se sustenta estatisticamente, foi comprovado errado pela realidade e pelos seus pares, e também não se sustenta num estudo da doença. Para que ele serviu então? “Com base no modelo de Samy Dana, o governador do Amazonas anunciou um plano para flexibilizar o isolamento a partir de 14 de maio”. Isso logo após um esperançoso resultado de duas vezes mais mortos que no mês anterior. João Filho nos diz que “apesar do estudo não recomendar o fim da quarentena, (…) a ciência do mercado financeiro forneceu um alívio de consciência para os ricos que defendem o fim do isolamento social em nome do salvamento da economia”. Voltemos ao tweet registrado acima. Esse é um dado essencial do estudo de Samy: o pico nas classes médias e altas já passou. Podem ficar tranquilos. Já o pico nas classes pobres será aceitável — enquanto ainda houver força de trabalho para ser explorada. O estudo não foi desastrado. Ele serviu exatamente para o que foi produzido. Para proporcionar tranquilidade aos ricos, sugerir que estão seguros da doença e que podem empurrar os prejuízos da crise para fora, que não vão precisar pagar por nada disso. Podem ficar tranquilos, em casa, deixando morrer quem deve morrer. O nome disso é: legitimação do extermínio. Não é “modelo estatístico”, não é “má ciência”, não é “estudo desastrado”. É de “ciência do mercado financeiro” que estamos falando aqui. De calcular mortes e retirar juros e dividendos. Mas nunca foi tão literal. E agora que está se tornando literal, sistemática e militante — estamos falando de outro nível. Esse outro nível é o nível da consciência política que estou chamando de nazismo do século XXI.

De onde veio isso?

Samy Dana não é original. Nos Estados Unidos também houve um intelectual irresponsável e irresponsabilizável, chamado Richard Epstein, que previu no máximo 500 mortes por Covid-19 nos EUA em 16 de março. Sua previsão foi lida pela Casa Branca, divulgada no New York Times e — junto com o artigo excêntrico de um médico fanático chamado David L. Katz, defendendo uma medida que ficou conhecida como isolamento vertical, que não faz nenhum sentido na literatura epidemiológica — atrasou por semanas a resposta governamental à doença. O resultado estamos vendo hoje. Mais de 80 mil mortes, mais de um milhão de infectados. Epstein ainda tentou editar retroativamente sua previsão, adicionando mais zeros, mas ainda assim continuou errando. Ele não se retratou e para quem quiser ver a entrevista que ele deu quando o número estava apenas três casas decimais acima do previsto por seu “modelo lógico”, dá para verificar que não vai haver retratação nunca. Por que não haveria retratação, já que estamos falando de um cientista, de uma pessoa da razão, que a realidade desmentiu? O problema para Epstein, teórico radical libertário do direito, se coloca da seguinte forma: “a questão não é se eu escolhi o número correto, (entrevistador), a questão é se eu tinha o modelo correto”. São modelos mentais que não podem ser abandonados, porque abandoná-los seria abrir mão de interesses vitais. Os resultados, como vemos, podem ser mortíferos. Quando vemos gente perguntando se o custo da quarentena não está alto demais, lembrem disso. Isso foi discutido e posto em prática. Custou milhares de mortes. As pessoas estão discutindo sobre deixar milhares morrerem deliberadamente ou não.

E estão sendo no mundo todo. A retórica do médico neoliberal e do professor de direito “epidemiologista” de que “nem vai morrer tanta gente assim” (morreu) e de que “a cura pode ser pior que a doença” (uma hipótese sem teste) vem provocando vários debates sem fim e atrasando a criação de políticas públicas em vários países. O Brasil é um deles. Tivemos, por exemplo, um amplo debate sobre se devíamos aplicar um isolamento “vertical” (apenas dos grupos de risco) ou “horizontal” (de todos os possíveis infectados). Como se fossem duas táticas de igual validade. Reputados divulgadores científicos como Atila Iamarino deram sua opinião sobre as “opções”. Atila chamou de opinião que não cabia discutir por não ser científica, por não ter teste. Mas gente que conhece a realidade das pessoas pobres e do sistema de saúde brasileiro, como Drauzio Varella entendeu bem do que se tratava: “não foi feito em lugar nenhum por alguma razão, não é verdade”? Infelizmente, Drauzio não coloca os pontos nos ii: não foi feito por se tratar de uma proposta de extermínio dos velhos e dos frágeis. E não era apenas opinião. Era política. Estava sendo posta em prática em um lugar: na Inglaterra.

O verdadeiro nome dessas propostas de isolamento vertical, mitigação, flexibilização parcial, integral, semi-parcial, semi-parcial ou semi-integral, quarentena intermitente e outros inúmeros nomes é imunidade de grupo. Seu nome vai mudando de acordo com o nível de aceitação que a solução de extermínio dos pobres e fracos vai ganhando entre as sociedades afetadas pela crise. Se vocês quiserem um nome bom para essa “estratégia” de combate à pandemia, aqui está um bonito: a Solução Final. Mas de onde veio essa Solução Final reformulada em termos modernos e “aceitáveis”? Como ela se espalhou? Vemos que existe uma interlocução entre os economistas e os gestores de fundos financeiros dos Estados Unidos, do Brasil e da Inglaterra. Se vocês prestarem atenção, até os termos dos debates são muito parecidos. Mas a gênese da ideia foi investigada na Inglaterra — no Reino Unido — e tem um nome… seu nome é Dominic Cummings.

Evolucionismo aplicado

Para quem tem alguma familiaridade com a nova direita populista no mundo, Cummings não é um nome estranho. Ele está junto com Steve Bannon e Olavo de Carvalho no rol de mais importantes articuladores e ideólogos do movimento internacional. Para o resto do mundo, as pessoas normais, é um perfeito desconhecido. Ao contrário do Olavo, tem um estilo discreto. Mas o que ele não tem de visibilidade, tem de influência e espaço nos gabinetes de Johnson. A revista Byline Times fez uma investigação a fundo a respeito disso, que vou trazer para explicar melhor o que significou na prática.

A ligação transatlântica entre as políticas de Trump e Boris Johnson na política “desastrosa” de enfrentamento à Covid-19 se dá através da figura excêntrica e aparentemente ruim de conta chamada Richard A. Epstein. Cummings é grande admirador desse “pensador”, que, na entrevista que lhe deu a oportunidade de fundamentar sua estimativa de mortes, disse que a humanidade iria se adaptar à Covid-19 sem necessidade de intervenção estatal externa. Essa hipótese era fundamentada em 40 anos de conhecimento de evolucionismo. Epstein faz parte de uma escola de pensamento conhecida como “economia evolucionária”. O próprio Cummings escreveu de sua mão sobre como informação gerenciada por computadores e modelos estatísticos poderia ser usada para que a imunidade de grupo fosse eficazmente utilizada para combater episódios de epidemia ou de bioterrorismo. Essas projeções estatísticas de infecções direcionadas de determinadas populações — uma distorção muito ruim do pensamento de Darwin — serviriam para justificar uma política de austeridade e de cortes de políticas públicas de saúde. A política de bem-estar social, a organização coletiva, seria substituída por estatísticas. Um número razoável de mortes de indivíduos atomizados, enquanto tudo segue normal.

Um discurso excêntrico de pessoas excêntricas? Quantos desastres precisam se acumular para que comecemos a reconhecer um plano?

Assim como nos EUA e no Brasil, também na Inglaterra um jornalista e político chamado Daniel Hannan se aventurou no reino da epidemiologia amadora e projetou 5700 mortes, no máximo, para a Inglaterra, no intuito de combater qualquer medida de isolamento social e políticas públicas de seguridade durante a quarentena. Daniel Hannan é amigo próximo de Cummings e autor de um livro em que defende o desmantelamento do NHS, o sistema de saúde público da Inglaterra.

No final de fevereiro, um mês antes de esse artigo sair, a estratégia do governo de Boris Johnson foi resumida por Cummings, segundo alguém presente no gabinete, nas seguintes palavras: “imunidade de grupo, proteger a economia, e se alguns aposentados morrerem, que pena!” Logo depois, a 3 de março, Boris Johnson declarou em público que “o coronavírus não o impediria de cumprimentar as pessoas com um aperto de mão, acrescentando que ele iria apertando as mãos de todos em um hospital onde pacientes infectados estavam sendo tratados”.

No dia 3 de março, segundo o jornal Telegraph, falando sobre as conclusões a se tirar da diminuição dos juros no Fed (o sistema financeiro central nos Estados Unidos) nas semanas anteriores, Jeremy Warner disse o seguinte:

“(…) improvável que ocorra desta vez (a morte da força de trabalho jovem). Para não exagerar, de uma perspectiva econômica totalmente desinteressada, a Covid-19 pode até se mostrar levemente benéfica a longo prazo ao abater desproporcionalmente dependentes idosos” (tradução livre, grifos meus).

O dia 5 de março foi uma das raras vezes em que Boris Johnson falou publicamente sobre aplicar a imunidade de grupo na Inglaterra. Depois ele fingiu que nunca falou. Mas na época ele disse o seguinte: “Uma das teorias é que talvez você possa pegar esse vírus de frente, levar tudo de uma só vez e permitir que a doença, por assim dizer, se mova pela população, sem tomar tantas medidas draconianas” (em vídeo aqui).

Hoje, quando chegámos já nos vinte mil mortos oficiais na Inglaterra, eles fingem que nunca quiseram saber de imunidade de grupo e que já previam tudo. Uma coisa é certa: desses vinte mil, um número desproporcional de idosos foi abatido em asilos, onde deveriam estar recebendo cuidados — até o dia 18 de abril o registro era de 7500 mortos, de acordo com o mesmo Daily Telegraph.

E aqui no Brasil?

Apesar de termos demorado um pouco para termos um modelo estatístico para disfarçar nosso massacre, tivemos um chutador de estimativas de morte em posição de destaque: Osmar Terra. Sua primeira previsão foi a de que morreriam 2100 pessoas, no máximo, o mesmo que para a H1N1. Quando morreu exatamente o dobro de pessoas e foi interrogado a esse respeito, ele respondeu o seguinte:

 

“Mantenho tudo que disse. Inclusive que estamos no pico da epidemia e que deveremos assistir, a partir de agora, a uma diminuição de internações hospitalares de casos da Covid, como podes ver na curva que faz a coluna azul no gráfico anexo, que é do Ministério da Saúde”.

 

 

Ele também se recusou a fazer uma autocrítica do seu modelo: “Em relacão ao número de óbitos, realmente é um cálculo difícil de fazer com muita antecedência, em qualquer epidemia. Fiz essa estimativa muito para mostrar que as previsões catastróficas do virologista Átila Iamarino — de mais de 1 milhão de mortes no Brasil, e que foi amplamente divulgada, inclusive em entrevista no Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo — assim como a previsão publicada no Intercept Brasil, que morreriam exatos 432.000 pessoas, eram absurdas. Certamente a minha margem de erro será muito menor que as deles” (grifos meus). A existência desses chutadores de “esquerda” no Brasil é um elemento importante que vai fazer muita diferença na naturalização da política genocida no Brasil — infelizmente, para muito pior.

Esse primeiro erro não o impediu de continuar criando modelos mentais com projeções. Em conversa entre Terra e Onyx, gravada e vazada pela CNN, Osmar estima “4, no máximo 5 mil mortos”. Na época ele era considerado “uma espécie de consultor de Jair Bolsonaro para assuntos relacionados ao coronavírus” — posição parecida com a de mistificadores análogos em outros países. O Brasil faz parte desse movimento, e uma parte central, onde estas teses estão conseguindo ser aplicadas na sua integralidade.

Vemos então que por trás da aparente incoerência, da loucura e do “desastre” há um pensamento comum de legitimação e naturalização do massacre. Existe um pensamento de grupo coerente, compartilhado e discutido a nível internacional. Mas como ele se realiza? É de uma vez, de forma coerente, como projeto total?

Um recente diálogo entre Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde, e Terra, agora ex-ministro, é revelador desse processo. Rebatendo uma declaração de Terra de que só teriam sido “dez mil mortos” (errado de novo o cálculo, mas o modelo está lá!), Mandetta disse que “eram vidas, não eram só números” e depois disse o seguinte: “Tem economista aí que acha melhor que morra logo todo mundo que tem de morrer para a economia voltar ao normal. Não é assim”.

Será mesmo que não é assim? Então por que Mandetta e todos os empresários que estão de acordo com Bolsonaro estavam lá dentro, debatendo com essa gente que estava aplicando esse programa? Por que até agora deixam essa gente governar, sabendo muito bem que é isso que pensam e estão fazendo? Como isso é possível?

É a pergunta a que tentaremos responder num próximo artigo. Mas o nome do que é que está acontecendo está dado: estamos diante de um massacre pensado e legitimado como tal, de uma Solução Final para esta e para todas as próximas crises que virão de agora em diante. Se deixarmos passar agora, o preço que a história vai cobrar não será pequeno.

Victor Hugo Silva é trabalhador da educação pública, que não quer morrer nem deixar morrer.

Leia na íntegra: A hora do abate

*Quatro Mortos em Ohio

Ou, como é estar do outro lado!!!

Se você tiver idade suficiente, reconhecerá esse trecho de uma música de Crosby, Stills, Nash e Young. Caso contrário, estou aqui para lhe dizer que, em 4 de maio de 1970, quatro estudantes foram mortos a tiros por membros da Guarda Nacional de Ohio, no campus da Kent State University, em Ohio. Outros nove ficaram feridos.

Os estudantes não estavam fazendo nada de errado. Na verdade, eles estavam fazendo algo certo. Eles foram reunidos pacificamente para protestar contra a guerra dos EUA no Vietnã, Laos e Camboja. Eles fizeram parte de uma erupção de protestos no campus em todo o país que se seguiu ao anúncio do Nixon de que os Estados Unidos haviam lançado uma ofensiva de bombardeio no Camboja.

Eu era um resistente e um manifestante de guerra na época. Mas eu não estava no Kent State ou em qualquer outro campus. Eu nem estava nos Estados Unidos. Eu estava em uma pequena vila ao sul de Hanói, no norte do Vietnã. Eu era membro de uma delegação de quatro pessoas de ativistas da paz.

A partir de 1965, grupos de “diplomacia entre pessoas” passamos a ver rotineiramente por nós mesmos como era a guerra do “outro lado“. De 1965 até o fim da guerra em 1975, cerca de 200 americanos se uniram a essas delegações.

Claro, houve quem nos rotulou de traidores e nos acusou de tomar o partido do inimigo. Eu nunca me senti assim. Eu era contra a guerra porque, entre outras coisas, não conseguia entender a ideia de que os vietnamitas eram meus inimigos.

Até hoje, lembro-me do comportamento conturbado e triste de nossos anfitriões vietnamitas quando nos informaram dos assassinatos de Kent. De uma maneira muito poderosa, trouxe para casa a verdade de que os vietnamitas não tinham animosidade em relação ao povo americano .

Eles foram o país invadido sendo massivamente atacado com armas químicas e a maior campanha de bombardeio da história. E, no entanto, apesar de tudo o que o maquinário de guerra dos Estados Unidos estava fazendo para desumanizá-los, a maioria deles não respondeu em espécie.

Eu pensei muitas vezes sobre aquele momento sombrio naquela vila ao longo dos anos. Olhando para trás, parecia que os Vietnamitas entendiam melhor do que o nosso grupo como os assassinatos do Estado de Kent seriam um ponto de virada. Eles estavam certos. Quando voltei para casa, muitas pessoas que eu conhecia anteriormente como “assistentes de cercas (observadores – parênteses nosso)” se tornaram inflexivelmente contra a guerra.

Infelizmente, muitos que participaram de atividades anti-guerra desenvolveram um complexo de inferioridade sobre o nosso movimento enorme e importante (viraram a casaca – parênteses nosso).

Em uma prévia de 2017, “em Ann Arbor“, sobre sua próxima série da PBS sobre a guerra, o cineasta Ken Burns pediu aos soldados da plateia, que haviam servido, que se posicionassem em pé, para serem reconhecidos. Eles fizeram isso, com aplausos consideráveis.

Sempre criador de problemas, levantei-me e gritei o mais alto que pude por ser um veterano orgulhoso do movimento anti – guerra . Um silêncio constrangido se seguiu ao Sr. Burns e à plateia.

Isso não é surpreendente. A celebração da guerra e da agressão está profundamente enraizada em nossa história e cultura. E o quarto ramo do governo, o Pentágono, juntamente com seus aliados, permanece engajado em um esforço de décadas para diminuir a oposição ampla e profunda à guerra no Vietnã, Laos e Camboja.

A campanha deles não funcionou comigo. Sou o oposto do militarismo americano como sempre fui. Então, é claro, todo 04 de maio é um dia triste para mim.

Mas essas memórias também fornecem um apelo à ação (poderoso e inspirador): nossa nação deu à luz um movimento de paz tão poderoso que até manifestantes brancos foram baleados em um esforço para impedi-lo.

Se nosso movimento não-violento foi tão forte uma vez, pode ser assim novamente.

Não será fácil. Construir a paz é difícil em qualquer lugar, mas especialmente nos Estados Unidos. Antes do Vietnã e desde o Vietnã, os militares dos EUA invadiram muitos países e mataram milhões de pessoas com pouca oposição. Claramente, a luta contra a invasão do Vietnã foi uma aberração histórica (para o establishment).

A nossa é uma nação guerreira. Sempre foi. Desde cedo somos ensinados a nos orgulhar da guerra “revolucionária (guerra secessão – parêntese nosso)” que criou nosso país em primeiro lugar. Nosso primeiro general foi nosso primeiro presidente.

Aprendemos as histórias sobre como os pioneiros de espingarda, de Winchester venceram o Ocidente. Nossa guerra civil matou até um milhão de almas. E nos deixou com profunda animosidade que persiste até hoje.

Em toda a nossa cultura, de reencenadores da Guerra Civil a filmes e eventos esportivos, veneramos a guerra e o serviço militar. Claro, também adoramos armas. Recentemente, tive que sorrir quando vi as 19 primeiras fotos sobre o Covid, de pessoas alinhadas em lojas de armas.

Bem, é claro, pensei. Fomos treinados durante séculos para pensar que, sejam indígenas, ativistas dos direitos civis, estudantes e professores do ensino fundamental, manifestantes contra a guerra ou mesmo presidentes (Lincoln, Garfield, McKinley, Kennedy) – não há problema que não possa ser abalado. Matar é a solução. (Para quase tudo, temos uma fé permanente de que pode haver uma pílula ou uma injeção.)

A guerra também é a nossa metáfora nacional. Guerra contra a pobreza. Guerra contra as drogas. Guerra ao coronavírus. Guerra contra tudo, exceto, é claro, a própria guerra.

É óbvio que se você ama a guerra, também precisa amar a ideia de ter inimigos. Também nos saímos muito bem nisso. Essa é uma razão pela qual sessenta e três milhões de pessoas são tão leais a Donald Trump, que se afunda na criação de inimigos. Nenhum inimigo à vista? Sem problemas. Invente um ou vários.

Historicamente, inimigos, estrangeiros e domésticos, são preferencialmente pessoas de cor. Que é parte do que fez os tiroteios no estado de Kent serem tão chocantes. No final de maio de 1970, dois estudantes negros foram mortos e outros feridos no campus da faculdade de Jackson State, em Jackson, Mississippi. Em agosto de 1970, quatro México-descendentes foram mortos e outros ficaram feridos em um grande protesto em Los Angeles.

Até hoje, os assassinatos de Kent recebem muito mais atenção do que os assassinatos de Jackson ou as mortes na “marcha chicana (como eles dizem pejorativamente – parentes nosso)“. O mesmo de sempre. Vidas brancas importam mais.

Vidas brancas que importam mais foram um grande fator em minha oposição à guerra como sendo racista em primeiro lugar. Muitos observaram que a taxa de baixas no Vietnã era desproporcionalmente maior para “soldados de cor“.

Muito menos notou a importância de massacrar “pessoas de cor” porque elas eram “comunistas“, enquanto mantinham uma guerra fria contra “comunistas” que eram brancos. Igualmente importante, isso estendeu um padrão que remonta às próprias origens dos Estados Unidos.

Eis como eu coloquei a temática em um ensaio publicado em 1969.

O assentamento do Ocidente não parou no Oceano Pacífico, mas continuou no Havaí, nas Filipinas, na Samoa (ainda chamada Samoa Americana), no Japão, na China e, finalmente, no Vietnã. Muitos dos mesmos generais que lutaram “para além do Pacífico”, também lutaram em campanhas iniciais do Pacífico. E embora os motivos da expansão tenham mudado à medida que o país se industrializou, o processo de expansão é tão inexorável que os Estados Unidos nunca tiveram nenhuma “política externa“, pelo menos em relação ao Pacífico. (imperialismo puro e simplesmente – parêntese nosso).

O envolvimento dos Estados Unidos no Pacífico e na Ásia é, talvez mais obviamente do que costuma ser o caso, simplesmente uma extensão da política doméstica. Nesse sentido, os Estados Unidos estão no Vietnã porque estão na Califórnia. (consideram deles, o planeta – parêntese nosso)

( Ênfase adicionada. A NOVA ESQUERDA – UMA COLEÇÃO DE ENSAIOS, Priscilla Long Editor, Porter Sargent Publisher, p 130)

Eu não escreveria isso exatamente da mesma maneira hoje. Mas a ideia essencial dos EUA como conquistadores perpétuos certamente permanece a mesma. Claramente, porém, essa perspectiva continua sendo um ponto de vista minoritário. Aqueles de nós que o compartilham falharam, até o momento, em prevalecer no “mercado de ideias“.

A resistência à análise expansionista / imperialista tem dois grandes componentes. Uma é que o modo de pensar branco é projetado para ‘organizar tudo em fragmentos‘. A conexão de pontos é desencorajada. Qualquer falha, desvio ou imperfeição na política externa ou doméstica está sempre acontecendo pela primeira vez. Ou mesmo que isso tenha acontecido antes, é retratado como resultado de fatores discretos da época e das circunstâncias.

O segundo fator é que qualquer reconhecimento do papel do colonialismo dos colonos ou da importância da escravidão como fundamento da República é desaprovado.

Os proprietários [CLASSE DOMINANTE – CHAVE NOSSA] (homens brancos que hoje controlam o país não menos do que em 1776) entendem que virtualmente qualquer análise ou crítica sistêmica poderia facilmente levar a demandas por mudanças sistêmicas. Eles não querem isso. Por várias razões, ‘nem um grande número de cidadãos comuns‘.

Mídia, política e instituições educacionais trabalham para limitar os esforços de mudança dentro de limites estreitos. O que é permitido é principalmente um conflito ritualizado entre aqueles que apoiam o status quo e aqueles que defendem reformas incrementais e fragmentadas.

(A título de exemplo, enviei versões mais curtas e um pouco diferentes deste artigo para a seção At War do New York Times e várias outras publicações “tradicionais“. Todos eles a rejeitaram.)

As reformas, mesmo quando são realizadas, praticamente nunca são questões permanentes ou “resolvidas”. Eu chamo isso de regressão à média. Por exemplo, por qualquer métrica, o Pentágono é mais forte em 2020 do que em 1975, quando os vietnamitas recuperaram com sucesso seu país dos invasores dos EUA. Por mais que o movimento anti guerra expusesse o papel da CIA, pelo menos desde o 11 de setembro eles expandiram não apenas o vasto uso da tortura, mas todo o escopo de suas operações em todo o mundo.

É muito triste que, após mais de 50 anos de trabalho no Vietnã, muitos sejam reduzidos ao espetáculo patético de aceitar Joe Biden como o melhor que podemos fazer.

Felizmente, essa não é a história toda. Vamos olhar para a distinção que os vietnamitas fizeram entre o governo dos EUA e o povo. Assim como ocorreu no início dos anos 60, há uma célula gigante adormecida anti guerra na população. Então, como agora, ele está esperando o despertador tocar.

Apesar de toda a guerra, toda a violência, toda a dominação mundial, que nunca termina com a máquina de propaganda mais sofisticada da história do mundo – milhões e milhões de pessoas realmente desejam a paz.

Como nós sabemos? É simples. Podemos dizer de quanto esforço as forças pró-bipartidarias da guerra fizeram para reprimir qualquer discussão sobre o que eufemisticamente chamamos de questões de “segurança nacional“. O tópico está essencialmente fora dos limites nos debates presidenciais. Está fora dos limites na grande mídia. Está fora dos limites na discussão do orçamento nacional. Não é permitido falar de muitos problemas que os militares têm em cumprir suas metas de recrutamento. Discussão genuína do militarismo é o tópico mais tabu de todos.

Esse fato torna todos os dias um bom dia para celebrar a existência quase milagrosa do movimento anti guerra do Vietnã, bem como para avaliar suas falhas e limitações.

4 de maio, no entanto, é um dia especialmente apropriado para focar no que aprendemos e ainda precisamos aprender cinquenta anos depois.

Acima de tudo, todo dia 4 de maio, é um bom dia para tocar a paz.

Ler na íntegra: Four Dead in Ohio

Leia também: Procura por armas de fogo cresce nos EUA à medida que a pandemia avança

*Num dia Como Hoje – 02-05-1945

ADOS SOVIÉTICOS, OS GRANDE HERÓIS NA DERROTA DO NAZIFASCISMO

Em 2 de maio de 1945, tropas soviéticas tomaram o Reichstag em Berlim após 17 dias de intensos combates contra as tropas da SS e as unidades de guarda pessoal de Hitler.

As tropas nazistas não tinham a menor intenção de render Berlim, sim, houve uma forte resistência.

Na cidade foram criados nove setores de defesa: Oito nos arredores e um no centro.

Las instantáneas históricas de la Batalla de Berlín

Todas as fotos aqui aqui neste link: sptnkne.ws/Cpmz

*O Feliz mês de Maio: Uma Convocação Para Apreender o Espírito do Tempo

A morte por peste é personificada nesta citação: “Homens, mulheres e crianças caíram diante dele: casas foram vasculhadas, saqueados de ruas, belas donzelas jogadas em suas camas e arrebatadas por doenças: cofres de homens ricos quebrados e compartilhados entre herdeiros pródigos e servos insignificantes: os pobres homens usavam mal, mas não de maneira piedosa; ele machucou muito, mas alguns dizem que ele fez muito bem. ”

Assim escreveu Thomas Dekker em The Wonderfull Yeare (1603) quando a rainha Elizabeth morreu e outras 35.000 pessoas em Londres devido à peste bubônica. Seu vetor era um patógeno carregado por uma pulga vivendo em um rato carregado em um navio vindo de outro lugar. Foi mais um ano de globalização para o capitalismo mercante. O navio da Companhia das Índias Orientais retornou com um milhão de libras de pimenta, o Othello, de Shakespeare, o Mouro de Veneza, aberto no palco , e o sultão otomano Mohammed III, morreu da peste Dekker escreveu sobre a vida baixa de Londres e sabia algo sobre ela ter passado sete anos na prisão do devedor. Ele ganhou um centavo como jornalista gonzo, The Wonderfull Yeare sendo o primeiro de seus ‘panfletos de pragas’.

Quatro anos antes, sua peça The Shoemaker’s Holiday, ou the Gentle Craft, foi apresentada pelos homens do almirante. Ele contém a balada que nos dá,

Oh, o mês de maio, o alegre mês de maio,
tão divertido, tão alegre e tão verde, tão verde, tão verde!

Em 1603, Dekker descreveu “perfumar todos os caminhos… com o doce odor que respirava de flores, ervas e árvores, que agora começaram a aparecer da prisão…”. “As ruas estavam cheias de pessoas, pessoas cheias de alegria”, mas não por muito tempo. Logo o mundo iria correr sobre as rodas do carrinho de pragas. Dekker alertou seus leitores sobre as valas comuns que os aguardavam em pilhas de adubo: “Amanhã você deve ser jogado em uma cova de Mucke e sofrer que seu corpo seja machucado e aguentado por três homens mortos …”. Dekker contemplou os bons efeitos da morte, observando que a morte fazia “muito bem”.

É essa combinação de pandemia e maio que é o nosso tema. Não são apenas os odores doces que espreitam a primavera agora (hemisfério norte – parênteses nosso), os prisioneiros são libertados para controlar o contágio. Os corpos não são jogados em “covas”, mas as valas comuns são cavadas em uma ilha perto do Bronx. E aqui estamos em maio, com pouco de brincadeira.

Pessoas com uma longa memória lembram o dia de maio como o feriado dos trabalhadores, um dia internacional de solidariedade. Em 1886, em maio, os primeiros trabalhadores atacaram pelas oito horas diárias. Depois que um trabalhador foi baleado, uma reunião de protesto foi realizada na Haymarket Square e vários outros foram baleados. No ano seguinte, em 11 de novembro, o terror estatal na forma horripilante de pendurar no pescoço aconteceu com alguns dos oito acusados ​​de conspiração. Trabalhadores de todo o mundo responderam a esse horror atendendo a chamada: oito horas de trabalho, oito horas de descanso, oito horas para o que você quiser.

A memória dos mártires de Haymarket foi preservada no México: “los martiros” – Albert Parsons, August Spies, Sam Fielden, Oscar Neebe, Michael Schwab, Adolph Fischer, George Engel e Louis Lingg – sabiam que eles travavam uma luta pela vida e pela morte . “Chegará um momento”, dissera Spies, “quando nosso silêncio será mais poderoso do que as vozes que você estrangula hoje.”

E então as pessoas com memória de elefante (eles podem ir caminho de volta) vai dizer de outro conto poderoso, silenciados. Em 1627, o primeiro poste de maio foi erguido na América do Norte, ou Turtle Island, com oitenta pés de altura e decorado com guirlandas, embrulhadas em fitas e cobertas com chifres de um dólar. Um arco-íris de pessoas, algumas da Inglaterra, como Thomas Morton, algumas indígenas, algumas talvez africanas, agitadas pelo som da bateria “fabricaram um barril de excelente beare”. Eles dançavam, bebiam e brincavam. Tão gay (um ganimedes estava entre eles), e tão verde, tão verde, tão verde. Os puritanos armados de Boston acabaram com isso. Miles Standish queimou o assentamento, confiscou os bens de Morton, prendeu-o e o jogou fora.

O dado foi lançado. Ai da América!

Se uma história era para uma América verde e multiétnica e outra para uma terra sem fronteiras de horas mais curtas, uma história vermelha, qual é a nossa história? Ele transcende o vermelho e o verde. Árvores em chamas: o planeta queimando: pessoas doentes ou preocupadas. Que futuro podemos esperar? Refugiados climáticos. Crianças em campos de concentração. Dinheiro para prisões, não para escolas. Trabalhadores sofrendo em todos os lugares.

O preâmbulo da constituição da IWW (Wobblies) (1905) dizia: “Não pode haver paz enquanto a fome e a falta forem encontradas entre milhões de trabalhadores e os poucos que compõem a classe empregadora têm todo o bem. coisas da vida. ” Ali está o vermelho. O Red é amplamente evidente em Turtle Island – greves de fome na prisão, greves de gatos selvagens em Perdue, doenças nos canteiros de obras, greves de aluguel em Oakland e Chicago, paralisações da produção na Fiat-Chrysler, desacelerações e zilhões de exemplos de ajuda mútua, como motoristas de ônibus que oferecem tarifas gratuitas.

O preâmbulo dos Wobblies continua com o Green na conclusão de sua próxima declaração. “Entre essas duas classes, uma luta deve continuar até que os trabalhadores do mundo se organizem como uma classe, tomem posse dos meios de produção, abolam o sistema de salários e vivam em harmonia com a Terra.”

Talvez o “preto” possa conciliar o “vermelho” e o “verde”. Claude McKay achou que sim. Em um ano de gripe assassina (1919), ele escreveu o soneto da liberdade que começa:

Se precisarmos morrer, que não seja como porcos
caçados e escritos em um local inglório.

Pouco tempo depois, ele escreveu o ensaio “Como o preto vê o verde e o vermelho”, dando-nos a pista para o nosso dilema: a luta pela liberdade irlandesa iniciaria toda a luta colonial da Índia ao Quênia e à Jamaica contra o império.

Para evitar mais infecções pelo coronavírus, nossos encontros este ano são encerrados antes de começarem – sem manifestações, sem marchas, sem piqueniques. Talvez nenhuma assembleia de pessoas, possivelmente nenhuma ação revolucionária, poucas ocupações, se houver.

Revolução deve significar descanso. Obtivemos um gostinho desse descanso. Um canto do véu foi parcialmente levantado para expor como poderia ser a vida. O ar não poluído, o peixe retornou aos rios, o canto dos pássaros substituindo a hora do rush, os golfinhos nos canais. Poderíamos ficar acordados até tarde, dormir de manhã e filosofar à tarde. Sem despertador. O véu se levantou para revelar um momento, quase um piscar de olhos, de verdadeira tranquilidade social. O momento passou. Tudo é contradição. Aconselhamos a lavar as mãos. Ao mesmo tempo, os neoliberais fecham as torneiras. Somos aconselhados a dizer em portas, e os neoliberais nos negam um teto sobre nossas cabeças. Afaste-se um metro e oitenta, como nos dizem, e estamos presos na prisão.

A Terra precisa de um ano de repouso para se recompor. Esta foi a chamada do jubileu antigo.

Os Wobblies disseram: “A classe trabalhadora e a classe empregadora não têm nada em comum“. A rigor, isso é verdade, porque, historicamente, a classe empregadora tirou os bens comuns. É por isso que o primeiro de maio é um feriado dos trabalhadores; O dia de maio é  Día del Trabajo,  em Cuba. Os bens comuns e o sistema de classes são totalmente incompatíveis. Os bens comuns emergem da memória. Vem da história para hoje, dos sonhos para a consciência, da terra do nunca para esta terra – nossa terra – da utopia à urgência. O comum é a nossa inspiração para um novo mundo.

Primeiro, o bem comum significa o desenvolvimento de infra-estruturas alternativas locais. Cada passo e nível de reprodução social – nascimento, educação, nutrição, alimentação, saúde, segurança, moradia, conhecimento – deve ser compartilhado. A reprodução comunitária é o centro de nossa luta. Eis o trabalhador “essencial”. Segundo, os bens comuns nos permitem resistir às duas faces do capital, o estado e o mercado, a partir de uma posição de força. A globalização do vírus nos permite ver a globalização de nossas forças.

Nós nos comportamos com ajuda mútua. Disso emerge a auto-atividade da soberania popular. ‘Nós, o Povo’ nos tornamos? Estamos passando das pomposas hipocrisias dos políticos para algo despretensioso e útil. Negrito.

No entanto, rapidamente se voltou contra nós quando a “crise da saúde” se tornou uma “crise econômica”. Subjacente a ele está o sistema de classes de dominação e exploração. Passou sua utilidade histórica. Nem o estado nem o mercado são adequados às circunstâncias. De fato, eles circunscreveram os bens comuns, com a violência do terror e a violência do dinheiro.

O Espírito estava onde quer que houvesse respiração, como acontece com todos os nossos semelhantes. Como Jim Perkinson nos lembra, a idéia de “espírito” é inseparável da idéia de “ar”, “respiração”, “vento”; o que entra e sai de todos os seres vivos do planeta penetra nas águas do oceano e espuma nos leitos dos riachos e areja as curvas dos rios. Um vento suave sopra quando o anjo de William Morris passa. Tudo o que se quer, disse Morris, é “inteligência suficiente para conceber, coragem suficiente para desejar, poder suficiente para obrigar”.

Além dessa leveza de espírito, há ferocidade. Nós suspiramos. Nós rezamos. Estamos ansiosos. Nós cantamos e cantamos. Nós uivamos. Nós rugimos. Tudo o que dizemos é com a respiração. No entanto, o ar é incerto, aerossolizado, poluído, nocivo com partículas, patógenos virais infectam nosso oxigênio e nitrogênio, que dão vida.

O feliz mês de maio. Esta é a época do ano, pelo menos nas zonas temperadas, quando a seiva começa a escorrer, quando o sangue está acabando. A fertilidade desta estação na Terra, quando as sementes invernais brotam, depois floresce, antecipando o plantio, tão facilmente se expandiu por toda a nossa vida. São, por assim dizer, a Páscoa e a Páscoa do primeiro de maio: o momento de escapar das pragas do faraó ou de desafiar o Império Romano com o espírito de justiça e amor, manso e ousado. Não é de admirar que o grande e velho historiador e lutador de Wobbly Fred Thompson tenha passado a última década de sua longa vida se preocupando com o motivo de alguém imaginar dois feriados, o Dia da Terra e o Primeiro de Maio. Por que não, ele perguntou, uma celebração da vida e da luta?

O que é o primeiro de maio, quando não podemos nos reunir com nossos colegas de trabalho, camaradas, amigos e vizinhos, o que podemos fazer? É o resultado dessa situação, estranhamente desencarnada, onde não podemos marchar juntos, onde não podemos sequer fazer um piquenique juntos; isso revela o espírito de maio. Uma das principais formas de encarnação de nosso coletivo é negada. “O espírito está disposto, mas a carne é fraca.” Nosso espírito, forçosamente, deve prevalecer. Não nos referimos ao Espírito Santo ou ao “espectro que assombra a Europa”, embora quem sabe?

Algo está acontecendo. Ouça Hegel: “O espírito muitas vezes parece ter se esquecido e se perdido, mas interiormente se opõe a si mesmo; ele está trabalhando interiormente sempre para a frente (como quando Hamlet fala do fantasma de seu pai:” Bem dito, velha toupeira! o solo é tão rápido? ”), até que se fortalece em si mesma, rompe a crosta terrestre que a separava do sol, sua noção, de modo que a terra se desintegra.

“É meu desejo que essa história da Filosofia contenha para você uma convocação para captar o espírito do tempo, presente em nós pela natureza e – cada um em seu lugar – conscientemente para trazê-lo de sua condição natural, isto é ,   desde seu isolamento sem vida até a luz do dia. ” Filosofia da História (1817)

O homem voou o mais alto que pôde até o primeiro de maio de 1960, quando a URSS abateu um avião de vigilância da CIA, um U2, e capturou seu piloto, Gary Powers, filho de um mineiro de carvão do Kentucky. O desejo de ir alto pertence ao desejo de dominar e vigiar. Contrariamos vigilância por vigilância, ou seja, olhamos de baixo em vez de de cima com a perspectiva da toupeira, não do satélite. Em outro dia de maio de 1999, o cadáver congelado de George Malory foi descoberto pouco antes do cume do Monte. Everest. Sua aventura em 1927 no ar, no topo do mundo, o matou, uma vítima, como a do voo U2 de Gary Power, da falácia da elevação.

Agora e sempre a produção de miséria recusa pausas. Se o capital é, como Marx observou notoriamente, trabalho morto, dificilmente se pode recusar nos cadáveres. A epidemia de gripe de 1918/1919 foi a pior. Pensada na época como tendo se originado em uma base militar do Kansas, a pandemia certamente se espalhou como resultado da guerra. Milhões morreram na América, Europa, África e Ásia, muito mais do que na guerra mundial que terminou ao mesmo tempo. Não devemos separar esses eventos. Nem os separe das revoluções operárias na Rússia, na Hungria, na Alemanha. Eles também não tinham nada a ver com a greve do aço em Pittsburgh, nem com a greve geral em Portland, nem com os linchamentos, nem com as invasões de Palmer, o primeiro Red Scare do país.

Quando a horrível segunda onda da gripe de 1918 exigiu seu pico de pedágios no outono de 1918, os EUA enviaram 5.000 soldados na Expedição do Urso Polar para lutar como uma força invasora contra a Revolução Russa. Muitos morreram de doenças, 90% das vítimas contraíram gripe. Nesse mesmo momento, as políticas de saúde pública do governo dos EUA também contrastaram com sua determinação cada vez mais profunda de reprimir a dissidência, mais famosa ao jogar o líder socialista Eugene Debs na prisão por oposição à carnificina e ao propósito da Grande Guerra.

Em nosso momento de perigo, as (des) linhas de montagem na produção de carne não apenas reforçam a proximidade mortal de um trabalhador a outro, mas aceleraram a um ritmo que cobrir uma tosse significa perder um pedaço de carne e ser disciplinado por um chefe . Um centro da pandemia dentro da pandemia que leva morte e doenças aos trabalhadores do frigorífico é Milão, Missouri. Essa pequena cidade é o homenageado de longa data de Milão, na Itália, o centro da produção industrial tão devastada por Covid-19. Na fábrica de suínos Smithfield, em Milão, no Missouri, os trabalhadores relatam uma escolha entre perder a saúde ou perder o emprego, pois decidem cobrir a boca ao tossir e, portanto, deixam de processar o que resta de um animal que passa zunindo.

Mas os trabalhadores têm, podem e devem retardar o processo de morte. A conquista notável, pelo menos por um tempo, de uma jornada de oito horas, tão profundamente ligada à história de 1º de maio, sugere o mesmo. O mesmo acontece com os protestos atuais e multifacetados de trabalhadores automobilísticos, profissionais de saúde, motoristas de entrega, trabalhadores de armazéns, motoristas de táxi, mercearias, motoristas de trânsito, comissários de bordo e muito mais, todos que exigem seres humanos vivos, não heróis mortos , após o declínio do vírus.

De fato, mesmo a lição mais ensaiada da história da pandemia sobre a gripe de 1918 mostra como a salvação pode vir de baixo. Nessa parábola, descobrimos que, em 28 de setembro de 1918, a Filadélfia sediou um desfile patriótico gigante do Liberty Loan; Enquanto isso, St. Louis evitou essas reuniões e rapidamente implementou o que mais tarde seria chamado de distanciamento social. As duas cidades logo sofreram horríveis epidemias de morte, mas a taxa da Filadélfia dobrou a de St. Louis, e no auge foi oito vezes maior. A saúde pública, especialmente o rápido fechamento de escolas, instalações esportivas e teatros em St. Louis, eram importantes.

Mas também foi uma sorte de St. Louis não ter um grande desfile pró-guerra. Aqui a criação de radicais, muitas vezes imigrantes, fez a diferença. Em abril de 1917, o Partido Socialista se reuniu em St. Louis para afirmar sua “oposição inalterável” à entrada dos EUA na guerra como um “crime contra o povo”. A oposição à guerra, capital e império amadureceu. Os empréstimos Liberty eram geralmente difíceis de vender no Missouri, onde greves, frouxos e resistência ao recrutamento tornavam o estado um lugar mais saudável, como mostrou a excelente pesquisa de Christopher Gibbs.

Os radicais principalmente jovens de St. Louis do recentee os presentes, que construíram um movimento de massas contra assassinatos racistas pela polícia após o assassinato de Mike Brown em 2014, lembram-nos que para obter liberdade é necessário que “fiquemos calados”. Enquanto a Terra se cura um pouco em um terrível desligamento, somos chamados a refletir sobre o espírito do primeiro de maio de acabar com as coisas. Nós certamente devemos desligá-lo ou ele nos fará.

Peter Linebaugh é o autor de A História Incompleta, Verdadeira, Autêntica e Maravilhosa do primeiro de maio  e, mais recentemente, Red Hot Globe Red Burning .

David Roediger é o autor de Classe, Raça e Marxismo .

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