*Na Bulgária, Caçar Refugiados é um Esporte

Do: DN 

Viagem à fronteira mais ignorada da Europa, no sul da Bulgária, onde há grupos paramilitares de patrulha, campos de refugiados que são um desespero, deportações e detenções inexplicáveis. Daqui percebe-se um continente inteiro. Os refugiados são para manter longe de vista. Custe o que custar

Hoje é um bom dia para ir à caça”, e Dinko Valev, 31 anos, avalia o céu de Yambol, no sul da Bulgária – está limpo. É ele o dono deste ferro-velho e é com o dinheiro que aqui fatura que financia o exército paramilitar de que é líder – e que denominou de Movimento Nacionalista Búlgaro.

Comecei sozinho há três anos a vigiar a fronteira de moto todo-o-terreno. Agora somos 50 homens, temos sete tanques e um helicóptero.” O que é que fazem exatamente? “Caçamos refugiados, na Bulgária é um desporto“, diz. “Chamem-lhe migrantes, chamem-lhe refugiados, chamem-lhe o que quiserem, que para mim eles são potenciais terroristas que põem a Europa em perigo. Não os podemos, nem vamos, deixar entrar.”

Dinko tornou-se famoso na Bulgária há dois anos quando, depois de entregar 12 sírios às autoridades, o canal de televisão bTV o apresentou como “o super-herói que está a lutar pela pátria.” Dias depois, o primeiro-ministro veio agradecer publicamente a ajuda dos civis que apoiam a polícia na monitorização da fronteira: “O vosso contributo é bem-vindo”, disse então Boyto Borisov.

Em 2016, Bruxelas pagou seis mil milhões à Turquia para travar o fluxo de refugiados para a Europa, depois de quase dois milhões de pessoas terem entrado na União no ano anterior. E foi nesse momento que os grupos paramilitares do país vizinho ganharam espaço para crescer. “A Bulgária construiu um muro e passou a impedir entradas sem atender a causas humanitárias nem a pedidos de asilo”, diz Martin Dimitrov, jornalista do diário búlgaro 24 Horas e especialista em questões de imigração. “A palavra de ordem agora é expulsar, doa a quem doer.”

Dinko Valev e o seu exército têm hoje carta-branca para caçar os refugiados que quiserem. Na sucata que também é centro de operações, o homem apressa-se nos contatos, amanhã é dia de ir ter com as patrulhas. Um bom dia para a caça, como ele disse antes. Há hoje menos gente a passar a fronteira? “Há cada vez mais.” Mesmo com o muro? “Eles cortam o arame, mas nós não os deixamos entrar.” O que fazem aos refugiados que encontram? “Entregamos à polícia, mas se resistirem damos-lhes uma sova.” Já mataram alguém? Uma pausa, Dinko não responde. A conversa acaba aqui.

A fronteira mais esquecida

A aldeia de Rezovo não tem mais de uma vintena de casas, mas tem mais de uma centena de bandeiras búlgaras penduradas nas janelas, nos postes elétricos, nas árvores. Tem um monumento que assinala onde estamos: no extremo sudeste da União Europeia. Um pequeno ribeiro, altamente vigiado pela polícia marítima, separa a Bulgária da Turquia. Na margem norte, mesmo encostada à água, há uma enorme vedação, e essa é uma imagem estranha – um curso de água murado, para que ninguém o atravesse.

“Temos a fronteira mais bem guardada da Europa”, orgulhava-se em junho deste ano o primeiro-ministro búlgaro no Parlamento Europeu. “Proponho que a Europa feche todas as suas fronteiras como nós fechámos, para que mais nenhum refugiado possa entrar.” Estes 267 quilómetros de raia com a Turquia estão vedados por arame farpado, de três a quatro metros de altura. Há unidades policiais em todas as aldeias do sul e há as milícias civis, toleradas pelo governo de Sófia.

Quando toda a gente estava a olhar para os refugiados que atravessavam o Mediterrâneo pela Itália e sobretudo pela Grécia, ou que eram travados por terra na Croácia e na Hungria, a Bulgária foi-se mantendo fora do radar – apesar de lhe pertencer a maior fronteira terrestre com a Turquia. Entre os refugiados, no entanto, aquela passagem era conhecida como a mais cruel.

“Eu queria salvar-me na Europa e afinal a Europa tratava-me como se eu nem sequer fosse humano”

Keyhan Yusefi, um jornalista curdo de 37 anos, decidiu há três anos que só tinha uma hipótese de se manter vivo: chegar à Europa. “Quando o Daesh chegou ao Iraque, os jornalistas tinham a cabeça a prémio e eu não era exceção”, conta agora ao DN. “No dia em que fui à escola buscar o filho de um colega meu que tinha sido assassinado tomei uma decisão. Tinha chegado a hora.”

Largou a pé de Duhok e atravessou a fronteira com a Turquia – 12 horas, sem problemas de maior. “Depois meti-me num autocarro para Istambul e acabei por ficar lá um mês, a preparar o salto.” Na noite de 28 para 29 de dezembro de 2015 chegou ao norte do país, tentou entrar por Rezovo. “Lembro-me que nevava intensamente e que fui perdendo de vista as pessoas que tentavam passar comigo. Muitas foram apanhadas na fronteira e mandadas voltar para trás. Morreram de frio na floresta.”

Ele e mais três rapazes conseguiram passar a rede. Começaram a subir os montes quando lhes apareceu um grupo de homens mal encarados – eram os guardas do Movimento Nacionalista de Dinko Valev. “Eu só gritava que era jornalista, mas fui espancado até não ter forças para resistir. Depois entregaram-me à polícia.” Durante três noites não o deixaram dormir, conta, mantinham-no acordado à base de murros e pontapés.

“Depois prenderam-me dez dias num campo de refugiados, de onde não podia sair.” Lembra-se que as casas de banho estavam imundas, que os chuveiros não funcionavam, nada. “Eu queria salvar-me na Europa e afinal a Europa tratava-me como se eu nem sequer fosse humano.” No primeiro dia em que lhe foi dada permissão de saída do campo fugiu.

Durante três meses percorreu o continente oculto até chegar à Suécia, onde tinha família. Aí, entregou-se às autoridades. “Mandaram-me de volta para a Bulgária porque era aqui que tinha o primeiro registo. Então voltaram a espancar-me e torturar-me. Mas o facto de ir para a Suécia permitiu que eu tivesse uma oportunidade de pedir de asilo.” Se receber resposta positiva, garante, sairá imediatamente do país.

Em março deste ano, a comissão parlamentar europeia de Liberdades Civis visitou a fronteira da Bulgária com a Turquia. O relatório final é bastante claro: “Os abusos dos direitos humanos mantêm-se persistentes.” Além dos casos de espancamento e tortura, “agora os refugiados veem-se empurrados para trás sem oportunidade sequer de fazer um pedido de asilo”. Martin Dimitrov, jornalista búlgaro, resume o estado das coisas neste momento: “Batemos nuns quantos refugiados e deixamos que muitos morram. Os outros, simplesmente, tratamo-los mal.”

Um campo para fantasmas

Muros altos com vedações eletrificadas. Três blocos de edifícios robustos, com as paredes descascadas. Um posto de vigia com vista para o enorme terreiro onde um rapaz sírio, vestido com uma camisola de Cristiano Ronaldo, e esta ainda é do Real Madrid, se torna todas as tardes estrela local de futebol. Isto é o campo de refugiados de Harmanli, o maior do país, a 40 quilómetros da fronteira turca. Isto também é uma antiga prisão, convertida em albergue improvisado em 2015. Isto continua a ser uma prisão, dizem os que lá vivem.

*Zimbabwe tem Multimilionárias Reservas de Ouro

* Russia Denuncia na ONU Ingerência dos EUA na Nicarágua

REUTERS / Mike Segar

Do: Prensa Latina

A Rússia denunciou nesta quarta-feira (5) na ONU a ingerência dos Estados Unidos nos assuntos internos da Nicarágua e a intenção de Washington de empregar o Conselho de Segurança como árbitro contra esse país centro-americano.

A Rússia denunciou nesta quarta-feira (5) na ONU a ingerência dos Estados Unidos nos assuntos internos da Nicarágua e a intenção de Washington de empregar o Conselho de Segurança como árbitro contra esse país centro-americano.

Em um debate convocado pela representação estadunidense no âmbito do Conselho e que foi rejeitado por vários membros desta instância, o representante permanente da Rússia na ONU, Vassily Nebenzia, destacou as repercussões negativas para a Nicarágua desta reunião.

Alguns integrantes do Conselho de Segurança querem fazer pressão sobre um Estado soberano para que realize mudanças, porém, após o debate convocado, agora é possível que a polarização na Nicarágua se intensifique e fortaleça, apontou.

Talvez seja precisamente esse o desejo dos que promoveram esta discussão no órgão de 15 membros, sublinhou o diplomata.

Nebenzia também criticou a histórica ingerência de Washington em várias nações latino-americanas e isto é o que faz também ao empregar sua posição de poder para levar este tema perante o Conselho.

Se os Estados Unidos estão tão preocupados pela situação dos cidadãos nicaraguenses o lógico seria que suspendesse as medidas restritivas que impôs a esse país por motivos políticos, observou o embaixador.

Em muitas ocasiões, acrescentou, o conceito de violação de direitos humanos é ultilizado de maneira hipócrita, pois os conflitos que se atiçam a partir do estrangeiro são a própria causa dessas violações dos direitos humanos.

Por isso, o diplomata pediu aos Estados Unidos para deixarem de impor tendências colonialistas na Nicarágua e empregar sua posição de poder para atacar o governo dessa nação.

Os que tentam prejudicar a economia nicaraguense para provocar descontentamento popular são precisamente os iniciadores de debates como este no Conselho de Segurança, sublinhou Nebenzia.

Além disso, destacou que a situação nesse país centro-americano tem se establizado nos últimos dias, e como os problemas ali devem ser resolvidos por um diálogo pacífico interno do país, e não por meio de ingerência de uma potência estrangeira e destruidora.