*Por que a Guerra Persiste na Somália?

Em 1991, a ditadura de Mohamed Siad Barre foi derrubada e desde então o povo somali ficou preso em um interminável conflito interno.

Em 1991, a ditadura de Mohamed Siad Barre foi derrubada e desde então o povo somali ficou preso em um interminável conflito interno. 

tráfico de armas, pirataria ao largo da costa do país, secas severas, fome, deslocamento forçado da população, ataques de grupos terroristas como a Al Shabab, também aumentam o conflito.

O pior ataque da história da Somália ocorreu no dia 14 de outubro. Mais de 300 pessoas perderam a vida e mais de 400 ficaram feridas após a explosão de bombas de caminhão contra um hotel e um mercado na capital, Mogadíscio.

Duas semanas depois, pelo menos 25 pessoas foram mortas e outras 30 feridas pela explosão de dois carros-bomba e o assalto subsequente a um comando do grupo terrorista al-Shabab em um hotel em Mogadíscio, capital da Somália, localizado ao lado do Palácio Presidencial .

A capital da Somália é considerada uma das cidades mais perigosas do mundo. Há mais de 20 anos, manteve-se estável. No entanto, a realidade deste país localizado no Corno de África é outra. A fome, a pobreza e uma guerra que começaram na década de 1990 dizimaram milhares de vidas.

Em 1991, a ditadura de Mohamed Siad Barre foi derrubada e desde então o povo somali ficou preso em um interminável conflito interno.

 

Por que a guerra persiste?

Os analistas argumentam que muitos elementos criaram um cenário ideal para que a guerra no país africano persista. Primeiro, não há poder centralizado, portanto, várias de suas regiões autoproclamadas independentes.

Isso fez com que “a expansão dos senhores da guerra no território ea presença de milícias locais e mercenários ocidentais, tornar o país tem todos os epítetos que definem um Estado fracassado , ” diz Isabel Alonso no Ordem Mundial .

O comércio de armas, a pirataria nas costas do país, as intensas secas , a fome, o deslocamento forçado dos habitantes, os ataques de grupos terroristas como Al Shabab são outros elementos que alimentam o conflito.

Somália era uma colônia do Reino Unido, França e Itália. O território estava dividido entre eles, dividiu a população, além de fomentar a segregação e a hierarquia em clãs e subclans, explica Alonso.

Desta forma, surgiram grupos que procuraram obter controle territorial através da violência que causou uma crise no país. Entre 1992 e 1995, a Operação das Nações Unidas na Somália (Unosom) permaneceu em duas fases.

tráfico de armas, pirataria ao largo da costa do país, secas severas, fome, deslocamento forçado da população, ataques de grupos terroristas como a Al Shabab, também aumentam o conflito.

O pior ataque da história da Somália ocorreu no dia 14 de outubro. Mais de 300 pessoas perderam a vida e mais de 400 ficaram feridas após a explosão de bombas de caminhão contra um hotel e um mercado na capital, Mogadíscio.

Duas semanas depois, pelo menos 25 pessoas foram mortas e outras 30 feridas pela explosão de dois carros-bomba e o assalto subsequente a um comando do grupo terrorista al-Shabab em um hotel em Mogadíscio, capital da Somália, localizado ao lado do Palácio Presidencial .

A capital da Somália é considerada uma das cidades mais perigosas do mundo. Há mais de 20 anos, manteve-se estável. No entanto, a realidade deste país localizado no Corno de África é outra. A fome, a pobreza e uma guerra que começaram na década de 1990 dizimaram milhares de vidas.

Em 1991, a ditadura de Mohamed Siad Barre foi derrubada e desde então o povo somali ficou preso em um interminável conflito interno.

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Por que a guerra persiste?

Os analistas argumentam que muitos elementos criaram um cenário ideal para que a guerra no país africano persista. Primeiro, não há poder centralizado, portanto, várias de suas regiões autoproclamadas independentes.

Isso fez com que “a expansão dos senhores da guerra no território ea presença de milícias locais e mercenários ocidentais, tornar o país tem todos os epítetos que definem um Estado fracassado , ” diz Isabel Alonso no Ordem Mundial .

Tanques das tropas da Missão da União Africana na Somália (AMISOM) em 2010. Foto: EFE

 

O comércio de armas, a pirataria nas costas do país, as intensas secas , a fome, o deslocamento forçado dos habitantes, os ataques de grupos terroristas como Al Shabab são outros elementos que alimentam o conflito.

Somália era uma colônia do Reino Unido, França e Itália. O território estava dividido entre eles, dividiu a população, além de fomentar a segregação e a hierarquia em clãs e subclans, explica Alonso.

Desta forma, surgiram grupos que procuraram obter controle territorial através da violência que causou uma crise no país. Entre 1992 e 1995, a Operação das Nações Unidas na Somália (Unosom) permaneceu em duas fases.

Os principais objetivos da missão focada em “A responsabilidade de proteger”, conforme estabelecido no Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, no entanto, não foi cumprido. A ajuda humanitária aos milhares de somalis que estavam em meio à guerra e que sofria de uma fome não foi eficaz nem um cessar-fogo alcançado.

Em 2000, a União dos Tribunais Islâmicos (UCI) foi estabelecida, dividida entre moderados e radicais. Ambos procuraram restaurar a “ordem” na Somália e isso agravou ainda mais a crise.

O papel dos EUA na guerra somali

O presidente dos Estados Unidos dessa época, George Bush, respondeu à resolução 794 (1992) do Conselho de Segurança para assumir a operação “Devolver a esperança” na Somália.

Soldados dos EUA na cidade somali de Kismayo.
Foto: Hispantv

Nos últimos anos, Washington aumentou suas operações no país africano sob o pretexto de acabar com grupos armados, mas em suas operações a população civil foi vítima de ataques do Exército dos EUA.

Em setembro de 2016, o exército dos EUA matou “por engano” 22 soldados do exército somali.

Leia na íntegra: Por que a Guerra Persiste na Somália?

*Quando os Desvalidos não tem Mais a Quem Recorrer

Operação Policial Quer Enquadrar Anarquistas e Coletivos Culturais Como ‘Organização Criminosa’
Orlando Vitor, acompanhado por sua mãe, em frente à sede da Parrhesia, um dos alvos da Operação Érebo. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marco Weissheimer

Orlando Vitor foi acordado às seis horas da manhã, no dia 25 de outubro, com a Polícia Civil batendo à porta de sua casa, na Travessa dos Venezianos, bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Em um primeiro momento, pensou que era um pesadelo, mas logo se deu conta de que era uma situação real. Ele contou três viaturas da polícia, mais um carro da RBS, afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Sul. Um tempo depois de terem entrado na estreita casa de dois pisos, relata Orlando, os policiais apresentaram um papel que seria um mandado de busca e apreensão. “Não consegui ler direito na hora porque estava sem os meus óculos. Os advogados confirmaram hoje (dia 26) que estava escrito FAG/Parrhesia”.

FAG é a Federação Anarquista Gaúcha, organização política anarquista com sede em Porto Alegre. Fundada em 2011, a Parrhesia é uma organização não-governamental que atua junto a movimentos sociais nas áreas de direitos humanos, cultura, educação e comunicação popular, premiada em 2013 e 2015 pela Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris) por boas práticas em direitos humanos. Representando a Parrhesia, Orlando participou do Fórum Social da Tunísia, em 2015, e do Fórum Social do Canadá, em 2016. Também participou de um seminário internacional em Bruxelas, onde defendeu, entre outras coisas, a luta anti-cárcere. “Fiquei dois meses no Canadá, fazendo atividades nas quatro universidades de Montreal. Agora em 2017, ajudamos a organizar o Fórum Social das Resistências, em Porto Alegre, e estamos trabalhando para a realização do Fórum Social Mundial de 2018, em Salvador”, conta.

Trabalho de Orlando Vitor já ganhou dois prêmios da Ajuris por boas práticas em direitos humanos. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A visita que Orlando Vitor recebeu às seis horas da manhã fez parte da Operação Érebo, comandada pela 1a Delegacia de Polícia de Porto Alegre, com o objetivo de “combate à associação criminosa que praticava crimes fazendo uso de artifícios incendiários e explosivos contra instituições públicas e privadas, na capital”. Segundo nota divulgada pela Polícia Civil gaúcha, foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão em Porto Alegre, Viamão e Novo Hamburgo. Na ação, disse ainda a polícia, “diversos materiais comprovantes da participação do grupo criminoso em atentados, bem como livros que relatam os feitos, foram apreendidos”. A nota não informa que materiais probatórios foram estes nem os títulos dos livros que relatariam os referidos feitos.

Segundo o delegado Paulo César Jardim, comandante da operação, as investigações tiveram início em meados de 2016 quando ocorreram atentados contra a 1ª Delegacia de Polícia da Capital. Ao todo, 11 inquéritos foram instaurados para “apurar diversos fatos praticados pelo grupo investigado, como ataques a viaturas policiais civis e militares, incêndio no pátio da Secretaria de Segurança Pública, ataques a sedes de partidos políticos, bancos privados e concessionária de veículos”. Além disso, segundo Jardim, também foi realizado um atentado a um veículo oficial do Consulado da Alemanha, em Porto Alegre.

Além de computadores e de um notebook, ação policial aprendeu livros, panfletos e outros materiais impressos na Parrhesia. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Érebo X Parrhesia

Orlando Vitor observa a ironia da escolha da palavra “Érebo” para designar a operação policial e sua investida contra a “Parrhesia”. Érebo, na mitologia grega, é a personificação das trevas e da escuridão, representando uma região do Hades por onde os mortos tinham passar imediatamente depois da morte. Já a Parrhesia designa o ato de falar com coragem, mesmo diante de um risco que pode ameaçar a própria vida. É a coragem, portanto, de falar a verdade, mesmo diante do risco da morte. “A parrhesia significa ousar, desafiar e fazemos isso no dia-a-dia colocando a nossa cara a tapa, junto com os movimentos sociais que estão sendo criminalizados nestes governos Temer, Sartori e Marchezan”, assinala.

Orlando teve seus computadores e equipamentos de trabalho apreendidos pela polícia. Entre outras coisas, ele estava editando materiais para movimentos de luta por moradia como a Ocupação Saraí e o assentamento 20 de Novembro. “Eles levaram nossos computadores, nosso notebook, pen-drives e todo o material que eu tenho pra editar do Fórum Social Mundial. Levaram também um HD que tem todo o histórico das coisas que a gente fez desde 2011. Estão causando um grande transtorno à nossa vida”, lamenta.

Na ação, segundo ele, os policiais falaram pouco, mas fizeram uma abordagem “meio truculenta”. “Quando eu me identifiquei como egresso do sistema prisional, escutei algumas piadas e inserções chavões. Eu disse que eles estavam se arriando e que não era preciso nada daquilo, que aqui não era a FAG mas a Parrhesia, mas eles não deram muita bola”. Além disso, acrescenta, a reportagem exibida mais tarde pela RBS expôs a fachada da casa, informando a localização do prédio e criminalizando seus ocupantes, afirmando que as reuniões do grupo investigado pela polícia ocorriam ali. “Aqui a gente funciona como uma associação cultural e também é a nossa casa. Temos CNPJ, conta em banco e aquela maquininha amarelinha (para débito)”.

A ação da polícia, na opinião de Orlando, foi um ataque direto a uma associação que serve de apoio e voz a movimentos sociais. Instalado na Travessa dos Venezianos desde fevereiro de 2014, ele conta que nunca teve relação alguma com a FAG. “A gente conhece algumas pessoas da militâncias, mas nunca tivemos uma atividade conjunta com eles. Cada grupo tem a sua forma de atuação. A nossa escolha foi por se institucionalizar e até recebemos críticas por isso, mas achamos importante ocupar esses espaços para fazer algo pela juventude periférica, que está sendo exterminada, pela população de rua e para combater a criminalização dos movimentos sociais”.

Nubia Quintana: “Recolheram garrafas pet compactadoras de plástico que foram apresentadas como prova do preparo de coquetéis molotov”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Coquetéis molotov X reciclagem de plástico

Mais ou menos no mesmo momento em que entrava no instituto Parrhesia, um outro destacamento da Polícia Civil arrombava o portão de entrada da Ocupação Pandorga, no bairro Azenha, dentro da mesma operação Érebo. Núbia Quintana, integrante do coletivo que cuida da ocupação, relata o que ouviu dos moradores que estavam no local no momento da entrada da polícia. “Em sua maioria, são pessoas que estão de passagem, artistas de rua que ficam hospedadas aqui enquanto desenvolvem projetos com as crianças que moram na região. Às seis horas da manhã, a Polícia Civil arrombou o portão principal, fortemente armada. As pessoas, que foram acordadas, foram mandadas deitar no chão e ficaram ali com armas apontadas durante um bom período, enquanto todos os cantos da casa eram revistados e revirados atrás de armas, drogas ou documentos”.

Nesta ação, relata ainda Núbia Quintana, foram apreendidos alguns cartazes, fanzines, faixas, panfletos, adesivos e material da oficina de serigrafia. Também foi levado um computador de uso comum da casa e, das pessoas presentes, foi levado um tablet, três celulares e alguns pen-drives. “Depois disso, foram para a nossa horta e, no lixo seco, recolheram garrafas pet compactadoras de plástico que foram apresentadas como prova do preparo de coquetéis molotov”, diz Núbia. Essas garrafas, afirma, têm um propósito muito diferente:

“Nós fazemos parte de uma região da cidade onde a coleta seletiva de resíduos sólidos não acontece. Então, nós compactamos o nosso lixo plástico de forma a ocupar o menor volume e ficar o mais fácil possível para ser entregue para a reciclagem. Temos os galpões do DMLU aqui do lado para onde levamos essas garrafas. É uma técnica muito simples. Você pega uma garrafa pet, um pneu ou alguma coisa que tenha uma área restrita e vai colocando todo o resíduo plástico nela até saturar o espaço. Fazemos oficinas com as crianças da comunidade para ensinar essa técnica de reciclagem, já que não há coleta de resíduos sólidos nesta região. Esse material é que foi considerado pela polícia como base para a fabricação de explosivos. Isso nos deixa bastante preocupados, pois tem alguém aí incendiando viaturas, que não somos nós, e os bandidos responsáveis por isso devem estar dando risadas”.

Entre outras atividades, a Ocupação Pandorga acolhe pessoas que estão de passagem pela cidade e é um espaço de treinamento para artistas de rua. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Assim como aconteceu na Parrhesia, jornalistas da RBS acompanharam a ação policial e foram chamados para entrar no prédio para registrar o resultado da ação de busca e apreensão, com um destaque especial para as garrafas PET, uma suposta prova do preparo de coquetéis molotov.

Núbia manifestou preocupação também com o tratamento que foi dado aos estrangeiros que estavam no local. A Ocupação Pandorga é um espaço de treinamento para o circo de rua. Uma das características desse movimento mundial, que é bastante forte na América Latina, é a circulação de artistas de vários países. “Tínhamos vários artistas estrangeiros hospedados aqui na Pandorga e nos preocupou a abordagem feita pela polícia, que pareceu um pouco xenófoba. Um alemão e um colombiano, em especial, ao declararem suas nacionalidades, foram bastante hostilizadas e já foram embora da ocupação com medo pelo o que aconteceu. O colombiano chegou a ser atirado no chão pelos policiais. A impressão que deu foi que a mera presença de uma pessoa de nacionalidade colombiana já nos tornou terroristas”.

FAG aponta precedente gravíssimo

No final da tarde de quinta-feira, a Federação Anarquista Gaúcha concedeu uma entrevista coletiva, na sede da entidade, onde denunciou o caráter ideológico da ação policial e a definiu como um mais um factóide para alimentar o processo de criminalização dos anarquistas, dos movimentos sociais e dos coletivos culturais alternativos que existem na cidade. Lorena Castillo, militante, lembrou que, em menos de dez anos, a FAG já sofreu quatro tentativas de criminalização.

Lorena Castillo: “Esse é um precedente grave não só para os anarquistas, mas para todas as organizações de esquerda”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A primeira ocorreu em outubro de 2009, durante o governo Yeda Crusius, quando a sede da organização foi invadida por policiais que apreenderam equipamentos, arquivos e materiais de propaganda. Essa ação foi motivada por uma campanha com cartazes de rua para denunciar a então governador Yeda Crusius pelo assassinato do sem terra Eltom Brum da Silva pela Brigada Militar. Em junho de 2013, durante o governo Tarso Genro, policiais entraram no Ateneu Libertário Batalha da Várzea, onde apreenderam vários livros de literatura anarquista. Em outubro do mesmo ano, o Ateneu foi mais uma vez visitado pela polícia em busca de provas contra integrantes do Bloco de Lutas e de outras organizações que participaram dos protestos daquele ano. Seis militantes do Bloco acabaram sendo indiciados por formação de quadrilha, formação de milícias privadas, entre outras acusações. E agora, no dia 25 de outubro de 2017, no governo José Ivo Sartori, disse Lorena, a policia promoveu um novo factóide contra a organização, envolvendo também coletivos culturais que não tem ligação com a FAG. A militante da FAG define o que aconteceu na quarta-feira como um “precedente gravíssimo”:

“Pela vidraça do anarquismo, organizações de esquerda, grupos culturais e sociais tiveram seus espaços invadidos com mandados de busca e apreensão que autorizam, entre outras coisas, a apreensão de literatura. Para nós, isso é algo gravíssimo. A nossa biblioteca, que tem cerca de mil títulos, não só de livros anarquistas, mas de literatura em geral, já teve vários livros apreendidos e mesmo furtados. Condenamos de forma veemente o que aconteceu ontem e manifestamos aqui a nossa solidariedade aos companheiros e companheiras que tiveram seus espaços e direitos violados. Repudiamos a perseguição a todo grupo político, social, cultural e de direitos humanos que passa agora a ser investigado por, supostamente, formar uma quadrilha de criminosos”.

Em um vídeo publicado na página da Polícia Civil gaúcha, o delegado Eduardo Hartz disse que o objetivo da Operação Érebo é desmantelar uma organização criminosa que “segue uma ideologia de descrédito aos poderes constituídos”. Na mesma linha, o delegado Paulo Cesar Jardim afirmou que a operação “visa desmantelar uma quadrilha de pessoas, de estudantes universitários, alguns com mestrado, outros com doutorado, que estavam executando ataques com bombas explosivas incendiárias contra as autoridades constituídas em Porto Alegre”.

Nota de repúdio da UFRGS

A Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS (PPGAS/UFRGS) emitiu nota de repúdio à matéria da RBS sobre o caso. A nota critica as “notícias sensacionalistas envolvendo ações supostamente criminosas atribuídas a alunas e alunos dos cursos de mestrado e de doutorado dessa instituição”. “Independentemente de haver ou não estudantes envolvidos em tais ações, a divulgação expressa de tais notícias sem a devida apuração dos fatos abala a credibilidade de nossa instituição como um todo, em especial, de nosso corpo discente, além de constituir clara violação dos direitos das pessoas envolvidas em terem sua identidade preservada em todos os aspectos”, afirma a nota. O PPGAS/UFRGS, conclui, “declara que não se responsabiliza por ações extra-acadêmicas de seus discentes e que é uma instituição idônea que apoia a democracia e seus aparatos de constituição e preservação de direitos em todas as instâncias”.

FAG diz que já foi alvo de quatro ações policiais nos últimos dez anos. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Sinais de alerta

Para Lorena Castillo, o contexto que cerca essa operação emite alguns sinais de alerta. “Estamos vivendo um momento atípico e muito turbulento no país, principalmente para os de baixo. A retirada de direitos é brutal e está sendo sentida na carne pelos trabalhadores, indígenas, negros, mulheres e público LGBT. Há mais de 20 anos, a nossa organização tem um compromisso firme com sindicatos, associações comunitárias, movimento estudantil e movimentos sociais. Nós não estamos falando de uma organização terrorista, mas de uma organização política que tem o seu quadro de militantes, a sua organicidade, seus debates e a sua sede pública. Seguindo a teoria do domínio de fato, o delegado Jardim tenta enquadrar nossa entidade como líder de uma organização criminosa que estaria agindo na cidade e na região metropolitana”.

Esse é um precedente grave não só para os anarquistas, alertou. “As demais organizações de esquerda precisam se dar conta de que, agora, é com os anarquistas, depois poderão ser os comunistas e assim por diante. Se isso não ocorrer, teremos um grave problema de solidariedade de classe e de entendimento sobre a atual conjuntura de cerceamento dos direitos de livre associação e livre expressão. Quando você tem mandado judicial que autoriza a apreensão de literatura temos uma quebra de direitos muito grave”. Com o objetivo de denunciar essa situação e expressar solidariedade às pessoas e grupos que foram envolvidas na ação policial, a FAG convocou um ato público para este sábado (28), às 18h30min, no Ateneu Libertário a batalha da Várzea, na rua Lobo da Costa, bairro Cidade Baixa.

Galeria de fotos

Foto: Guilherme Santos/Sul21
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Leia na íntegra: Operação policial quer enquadrar anarquistas e coletivos culturais como ‘organização criminosa’

Leia também: Venezuela será declarada território com 100% de idosos pensionistas

*As Mulheres que Expulsaram o Estado Islâmico de Kobani

Extraído na íntegra de: As mulheres que expulsaram o Estado Islâmico de Kobani

O Estado Islâmico terá de reformular uma de suas canções: “O Estado Islâmico permanece, o Estado Islâmico cresce”. Revés sofrido pelos fundamentalistas surpreendeu o mundo. Nem o mais otimista analista político, nem a poderosa coalizão encabeçada pelos EUA para derrotar o EI, esperavam tamanha proeza. Antropólogo David Graeber conta como tudo aconteceu

curdas estado islâmico
Integrantes da guerrilha curda na luta contra EI

Os milicianos armados do EI (Estado Islâmico) terão que reformular uma de suas canções: “O Estado Islâmico permanece, o Estado Islâmico cresce”. Reconhecidos hoje como a maior ameaça fundamentalista do Oriente Médio, o EI acaba de sofrer um inesperado revés, depois de triunfar em consecutivas batalhas contra forças iraquianas e síria. Nesta segunda-feira (26/01), depois de 134 dias de resistência, a guerrilha curda, reunida nas Unidades de Proteção do Povo (Yekîneyên Parastina Gel – YPG), surpreendeu o mundo, expulsando as tropas do EI da cidade de Kobani, em território curdo situado no norte da Síria, junto à fronteira com a Turquia. Trata-se da derrota mais importante imposta sobre o EI na Síria desde sua aparição.

Desde o inicio da ofensiva contra Kobani, em 16 de setembro de 2014, mais de 600 combatentes curdos e 1.000 jihadistas morreram. A vitória foi comemorada nas redes sociais após anúncio feito pelo porta-voz oficial do YPG, Polat Can, via Twitter. Assim como o EI, os combatentes curdos articulam-se na rede mundial de computadores. Nas paginas do Facebook Kurdish Resistance & Liberation e Solidariedade à Resistência Popular Curda pode-se acompanhar as fotos e vídeos dos últimos confrontos e a festa de comemoração após a vitória. Nem o mais otimista analista político, nem a poderosa coalizão encabeçada pelos EUA para derrotar o EI, esperavam tamanha proeza. Como é possível que uma guerrilha formada por homens e mulheres, desamparados militarmente pela falta de um Estado oficial, consiga derrotar a tropa mais sanguinária dos últimos tempos?

David Graeber, professor de Antropologia (London School of Economics), passou 10 dias em Cizire – um dos acampamentos em Rojava, zona ocupada pelo curdos ao norte da Síria. Junto com estudantes, ativistas e acadêmicos, ele teve a oportunidade de observar a democracia confederalista curda.

O que motivou a ida de Graeber, foi uma pergunta feita em artigo publicado em Outubro passado no “The Guardian”, durante a primeira semana dos ataques do EI a Kobani: por que é que o mundo estava ignorando os curdos Sírios revolucionários?

Mencionando o seu pai, que se voluntariou para lutar nas Brigadas Internacionais na república espanhola em 1937, perguntou:

“Se existe hoje um paralelo com os assassinos falangistas, superficialmente devotos de Franco, quem será senão o EI? Se existe hoje um paralelo com as Mujeres Libres de Espanha, quem será senão as corajosas mulheres que defendem as barricadas de Kobani? Vai o mundo – e desta vez mais escandalosamente, a esquerda internacional — ser condescendente em deixar que a história se repita?”

curdas estado islâmico
Imagem mostra resistência curda em 1º de outubro de 2014

 

De acordo com Graeber, a zona de Rojava é fundamentalmente anti-estado, anti-capitalista e radicalmente democrática. Uma notável experiência revolucionária na região, que separa o poder coercitivo da administração pública e obriga aulas de feminismo para toda população. Leia a seguir, as impressões políticas que Graeber concedeu a Pinar Öğünç’s. (Cauê Seignemartin Ameni)

No artigo para o Guardian perguntaste por que é que o mundo ignora a “experiência democrática” dos curdos sírios. Depois da experiência de 10 dias, tens uma nova questão ou talvez uma resposta para isso?

Bem, se alguém tinha dúvidas se isto era uma verdadeira revolução, ou só alguma “sombra”, diria que esta visita tira todas as dúvidas. Ainda existem pessoas a dizer: “Isto é só uma frente do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), na verdade são só uma organização autoritária stalinista, que apenas finge ter adotado uma democracia radical”. Não. Isto é mesmo sério. É uma revolução genuína. Mas de certa maneira, é exatamente esse o problema. Os grandes poderes têm-se entregado a uma ideologia que diz que as verdadeiras revoluções já não podem acontecer. Entretanto, muita da esquerda, mesmo a radical, parece taticamente ter adotado a política que assume o mesmo, apesar de parecerem superficialmente revolucionários. Com um tipo de “anti-imperialismo” puritano que assume que os únicos jogadores importantes são os governos e capitalistas, e que esse é o único jogo que vale a pena discutir. O jogo onde se batalha, se criam vilões míticos, se agarra petróleo e outros recursos, montam-se redes de patrocínios; é o único jogo da cidade. O povo de Rojava diz: “Nós não queremos jogar esse jogo. Queremos criar um novo”. Muita gente acha isto confuso e perturbador, então escolhem acreditar que não está acontecendo nada, ou que essas pessoas estão iludidas, são desonestas ou ingênuas.

Desde Outubro que vemos uma crescente solidariedade vinda de vários movimentos políticos de todo o mundo. Houve uma grande e entusiástica cobertura da resistência em Kobani pelos meios de comunicação internacionais. A posição política perante Rojava mudou no Ocidente, de certa forma. Existem sinais significativos, mas estariam discutindo suficientemente a autonomia democrática e as experiências nos cantões de Rojava? Que parte de “algumas pessoas corajosas a lutar contra o grande mal desta era, o EI” não estará a dominar esta aprovação e este fascínio? Acho que é notável que tanta gente no Ocidente olhe para estes quadros de feministas armadas, por exemplo, e nem sequer pense nas ideias por trás delas. Apenas se apercebem que assim aconteceu, por algum motivo. “Penso que é uma tradição curda”. De certo modo, claro que se trata de orientalismo, ou simplesmente racismo. Nunca lhe ocorreu que as pessoas no Curdistão também possam ler Judith Butler. Na melhor das hipóteses pensam: “Oh, estão tentando alcançar os padrões ocidentais da democracia e dos direitos das mulheres. Será que é sério ou será que é só para os estrangeiros verem?”. Não lhes ocorre que eles podem estar levando as coisas bem mais longe que os “padrões ocidentais” alguma vez levaram; que acreditam genuinamente nos princípios que os Estados ocidentais apenas professam.

Mencionaste a aproximação da esquerda sobre Rojava. Como isso é recebido nas comunidades anarquistas internacionais?

A reação da comunidade anarquista internacional tem sido decididamente diversa. De certa maneira, acho difícil de entender. Existe um grupo substancial de anarquistas – normalmente os elementos mais sectários – que insiste que o PKK ainda é um grupo nacionalista autoritário stalinista, que adotou as teoria do Murray Bookchin, e outros partidários da esquerda libertária, para cortejar a esquerda anti-autoritária na Europa e América. Parece-me uma das ideias mais parvas e narcisistas que já ouvi. Mesmo que a premissa estivesse correta, e que um grupo marxista-leninista decidisse fingir uma ideologia para obter apoio estrangeiro, por que raio é que iriam escolher ideias anarquistas desenvolvidas por Murray Bookchin? Isso seria a jogada mais estúpida de sempre. Obviamente fingiriam ser islamitas ou liberais, já que são esses que conseguem armas e apoio material. De qualquer maneira, penso que muita gente na esquerda internacional, incluindo a esquerda anarquista, não quer basicamente ganhar. Não conseguem imaginar que uma revolução realmente acontecesse, e, secretamente, nem sequer a querem, uma vez que isso significaria partilhar o seu clube “cult” com pessoas comuns; já não seriam especiais. Assim, até é útil para separar os verdadeiros revolucionários dos “posers”. Mas os verdadeiros revolucionários têm-se mantido firmes.

Qual foi a coisa mais impressionante que testemunhaste em Rojava nos termos práticos desta autonomia democrática?

Existem tantas coisas impressionantes. Acho que nunca ouvi falar de nenhum outro lado do mundo onde tenha existido uma situação de dualidade de poder, onde as mesmas forças políticas criaram ambos os lados. Existe a “auto-administração democrática”, onde existem todas as formas e armadilhas de um Estado – Parlamento, ministros, e por aí –, mas criada para ser cuidadosamente separada dos meios do poder coercivo. Depois há o TEV-DEM (o Movimento da Sociedade Democrática), raiz das instituições, dirigido via democracia direta. No final – e isto é fulcral – as forças de segurança respondem perante as estruturas que seguem uma abordagem de baixo para cima, e não de cima para baixo. Um dos primeiros locais que visitamos foi a academia de polícia (Asayis). Todos tiveram que frequentar cursos de resolução de conflitos não violenta e de teoria feminista antes de serem autorizados a pegar numa arma. Os co-diretores explicaram-nos que o seu objetivo final é dar seis semanas de treino policial a toda a gente no país, para que em última análise se possa eliminar a polícia.

O que responderias às várias críticas em torno de Rojava? Por exemplo: “Eles nunca fariam isto em tempos de paz. É por causa do estado de guerra”…

Bem, penso que a maioria dos movimentos, perante as condições horrendas da guerra, não iria no entanto abolir imediatamente a pena capital, dissolver a polícia secreta e democratizar o exército. As unidades militares, por exemplo, elegem os seus oficiais.

E existe outra crítica, bastante popular nos círculos pro-governo aqui na Turquia: “O modelo que os Curdos – na linha do PKK e PYD (o Partido Curdo de União Democrática, na Síria) – estão tentando promover não é na verdade seguido por todas as pessoas que lá vivem. Essa multi-estrutura existe apenas à superfície, nos símbolos”…

Bem, o presidente do cantão de Cizire é árabe, é de fato o chefe da maior tribo local. Suponho que se possa dizer que ele é só uma figura. No sentido que todo o governo o é. Mas ao olhar para as estruturas organizadas de baixo para cima, é certo que não são só os curdos que estão participando. Disseram-me que o único problema sério é com algumas aldeias do “cinto árabe”, pessoas trazidas de outras partes da Síria pelos Baathistas nos anos 1950 e 60, como parte de uma política de marginalização e assimilação dos curdos. Algumas dessas comunidades afirmaram-se bastante hostis à revolução. Mas os árabes cujas famílias já estão lá há várias gerações, ou os assírios, quirguizes, armênios, chechenos, mostram-se entusiasmados. Os assírios com quem falamos disseram que, após uma longa e difícil relação com o governo, sentiram que finalmente lhes era permitida autonomia cultural e religiosa. Provavelmente, o maior problema pode ser o da libertação das mulheres. O PYD e o TEV-DEM vêem isso como absolutamente central na sua ideia de revolução, mas também enfrentam o problema de lidar com alianças maiores, com comunidades árabes que sentem que isto viola princípios religiosos básicos. Por exemplo, enquanto aqueles que falam siríaco têm a sua própria união de mulheres, os árabes não, e as garotas árabes interessadas em organizar-se em torno de questões de gênero ou até assistir a seminários feministas têm de se juntar com os assírios ou mesmo com os curdos.

Não é necessário estar preso no “quadro anti-imperialista puritano” que mencionaste antes, mas o que dirias em relação ao comentário que o ocidente/imperialismo irá um dia exigir aos curdos sírios um pagamento pelo seu apoio? O que é que o ocidente pensa exatamente sobre este modelo anti-estado e anti-capitalista? É apenas uma experiência que pode ser ignorada durante um estado de guerra, enquanto os curdos aceitam voluntariamente combater um inimigo criado pelo ocidente?

É absolutamente verdade que os EUA e a Europa irão fazer o que puderem para subverter a revolução. Nem é preciso dizer nada. As pessoas com quem falei estão bem cientes disso. Mas não fazem grande diferenciação entre a liderança de poderes regionais como na Turquia, Irã ou Arábia Saudita, e poderes Euro-americanos como por exemplo França ou EUA. Assumem que são todos capitalistas e estadistas e portanto anti-revolucionários, que podem no melhor dos casos ser convencidos a apoiarem-nos mas que, em última análise, não estão do seu lado. Depois existem questões ainda mais complicadas da estrutura da chamada comunidade internacional, o sistema global de instituições como a ONU ou FMI, corporações, ONG’s, organizações humanitárias, em que todas presumem uma organização estadista, um governo que pode passar leis e detém o monopólio da aplicação coerciva dessas leis. Só existe um aeroporto em Cizire e está sob o controle do governo sírio. Podem tomá-lo a qualquer altura, dizem. E há uma razão para não o fazerem: como iria um não-Estado dirigir um aeroporto? Tudo o que se faz num aeroporto é sujeito a regulamentos internacionais, o que presume um Estado.

curdas estado islâmico

Tens uma resposta para o porquê da obsessão do EI com Kobani?

Bem, eles não podem ser vistos perdendo. Toda a sua estratégia de recrutamento é baseada na ideia que eles são imparáveis, e que a sua contínua vitória é a prova que representam a vontade de Deus. Serem derrotados por um monte de feministas seria a humilhação final. Enquanto estiverem lutando em Kobani, podem dizer que a mídia mente e que estão avançando verdadeiramente. Quem pode provar o contrário? Se recuassem seria admitir a derrota.

Tens resposta para o que Tayyip Erdogan e o seu partido estão tentando fazer na Síria e o Oriente Médio em geral?

Posso apenas imaginar. Parece que Erdogan passou de uma política anti-Assad e anti-curda para uma estratégia quase puramente anti-curda. Repetidamente tem mostrado vontade de se aliar com fascistas pseudo-religiosos para atacar qualquer experiência de democracia radical inspirada no PKK. Ele vê claramente, como o próprio Daesh (EI), que o que está sendo feito é uma ameaça ideológica, talvez a única alternativa ideológica viável face ao islamismo de direita que se avizinha, e tudo fará para a eliminar.

De um lado existem os curdos iraquianos com uma ideologia bem diferente em termos de capitalismo e noção de independência. Por outro lado, existe este exemplo alternativo em Rojava. E existem os curdos da Turquia que tentam manter um processo de paz com o governo… Pessoalmente, como vês o futuro do Curdistão a curto e a longo prazo?

Quem pode dizer? Neste momento as coisas parecem surpreendentemente boas para as forças revolucionárias. O KDG até desistiu da enorme vala que estava construindo através da fronteira de Rojava, após o PKK intervir e salvar Erbil e outras cidades dos avanços do EI, em Agosto. Um membro do KNK me disse que isso teve um grande impacto na consciência popular; que um mês criou tanta consciência como 20 anos. Os jovens estavam particularmente impressionados pelo fato de seus próprios Peshmerga abandonarem o campo de batalha, mas as mulheres do PKK não. Mas é difícil de imaginar como é que o território de KRG será contudo revolucionado num futuro próximo. Nem o poder internacional o permitiria.

Apesar da autonomia democrática não parecer estar em cima da mesa de negociações na Turquia, o Movimento Político Curdo está trabalhando nisso, especialmente a nível social. Tentam encontrar soluções em termos legais e econômicos para possíveis modelos. Quando comparamos, digamos, a estrutura de classes e o nível de capitalismo no Curdistão Ocidental (Rojava) e no Norte (Turquia), o que pensas sobre as diferenças destas duas lutas para uma sociedade anti-capitalista – ou para um capitalismo minimizado, como o descrevem?

Penso que a luta curda é explicitamente anti-capitalista em ambos os países. É o seu ponto de partida. Conseguiram uma espécie de fórmula: não eliminar o capitalismo sem eliminar o Estado, e não podemos eliminar o Estado sem eliminar o patriarcado. No entanto, o povo de Rojava tem a questão simplificada em termos de classes porque a verdadeira burguesia, tal como existia numa região maioritariamente agrícola, desapareceu com o colapso do regime de Baath. Enfrentarão um problema a longo prazo se não trabalharem no sistema educativo, para assegurar que um estrato tecnocrata de desenvolvimento não tente eventualmente tomar poder, entretanto, é compreensível que se foquem de imediato nas questões de gênero. Na Turquia não sei tanto, mas tenho a sensação que as coisas são muito mais complicadas.

Durante os dias em que as pessoas do mundo não podiam respirar por razões óbvias, a tua viagem a Rojava inspirou-te sobre o futuro? Qual achas que é o “remédio” para as pessoas respirarem?

Foi extraordinário. Passei a minha vida pensando em como poderíamos fazer coisas como estas num futuro remoto e a maioria das pessoas pensa que sou louco por imaginar que isto alguma vez vai acontecer. Estas pessoas estão fazendo agora. Se eles provarem que pode ser feito, que uma sociedade genuinamente igualitária e democrática é possível, isto irá transformar completamente a noção de possibilidades humanas. Pessoalmente, sinto-me dez anos mais novo só de ter lá passado dez dias.

Com que cena te irás recordar da tua viajem a Cizire?

Existem tantas imagens impressionantes, tantas ideias. Gostei da disparidade entre o aspecto das pessoas e as coisas que diziam. Conhece-se alguém, um médico, que parece um militar sírio, vagamente assustador, de casaco de cabedal e expressão austera. Depois fala-se com ele e ele explica: “Bem, sentimos que a melhor abordagem à saúde pública é a prevenção, a maioria das doenças ocorre devido ao stress. Sentimos que se reduzirmos o stress, os níveis de doenças de coração, diabetes, e mesmo o cancro irão diminuir. Assim, o nosso plano final é reorganizar as cidades para terem 70% de espaços verdes…” Existem todos estes planos loucos e brilhantes. Mas depois vai-se ao médico ao lado e explica-nos que, graças ao embargo turco, não conseguem sequer obter equipamento ou medicamentos básicos, que todos os pacientes para diálise que não foram levados dali morreram… Esta disjunção entre as ambições e as incríveis e difíceis circunstâncias. A mulher que era efetivamente a nossa guia era uma vice-chanceler chamada Amina. A certa altura, pedimos desculpa por não termos trazido presentes melhores e ajudado a população de Rojava, que sofre sob o embargo. E ela disse: “No final, isso pouco importa. Temos a única coisa que ninguém nos pode dar. Temos a nossa liberdade. Vocês não. Quem me dera que houvesse uma maneira de poder dá-la”.

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Curdas se preparam para lutar contra EI – imagem de 27 de setembro

 

É as vezes criticado por seres demasiado otimista e entusiasta sobre o que está acontecendo em Rojava. Achas que és? Ou há alguma coisa que não entendem?

Sou otimista de temperamento, procuro situações que carreguem alguma promessa. Não acho que existam garantias que isto resultará no final, que não será esmagado, mas certamente que não será se toda a gente decidir que nenhuma revolução é possível e se recusar a dar-lhe apoio ativamente, ou até dedicar esforços a atacá-la ou aumentar o seu isolamento, como muitos fazem. Se existem alguma coisa da qual tenho consciência e os outros não, talvez seja o fato da história não estar terminada. Os capitalistas têm feito um esforço enorme nos últimos 30 ou 40 anos em convencer as pessoas que os atuais acordos econômicos – nem sequer o capitalismo, mas a forma de capitalismo semi-feudal, financializada, peculiar que temos hoje em dia – são o único sistema econômico possível. Puseram mais esforços nisto do que em criar um sistema capitalista global viável. Como resultado, o sistema está a despedaçar-se à nossa volta no preciso momento em que toda a gente perdeu a capacidade de imaginar outra coisa. Bem, é bastante óbvio que em 50 anos, o capitalismo sob qualquer forma que conhecemos, e provavelmente sob qualquer outra forma, já não existirá. Terá sido substituído por outra coisa. Essa coisa pode não ser melhor. Pode até ser pior. Por esse mesmo motivo, parece-me que é nossa responsabilidade, enquanto intelectuais, ou simplesmente seres humanos pensantes, de pelo menos pensar como será uma coisa melhor. E se existem pessoas que estão verdadeiramente tentando criar essa coisa melhor, é nossa responsabilidade ajudá-las.

Por David Graeber, entrevistado por Pinar Öğünç’s. Originalmente publicado no site Evrensel Tradução: Jornal Mapa.  Reproduzido em Outras Palavras

*Camille Claudel: a quem serve a normalidade?

daniela lima blog camille claudel

Por Daniela Lima.

Não há civilização sem loucura […] ela acompanha a humanidade por todo lugar que haja imposição de limites”.
– Michel Foucault

Eles surgiram de botas e capacetes. A porta arrombada. A matilha em peso a agarrou pela garganta. Golpeada, jogada no chão. Ela não diz uma palavra. […] Lá fora a ambulância espera. 10 de março de 1913. Os dois cavalos relincham sob o chicote. (DELBBÉ, 1988, p. 366-7)

“Censuraram-me (ó, crime horrendo) por ter vivido completamente sozinha”, escreve Camille Claudel do manicômio de Montdevergues. Camille rompeu com alguns destinos impostos às mulheres de sua época como naturais. Não se casou, não teve filhos e se dedicou a uma atividade considerada masculina: a escultura. Até 1897, mulheres eram excluídas das principais escolas de artes francesas, como a École de Beaux-Arts. Trabalhavam como ajudantes ou assistentes de artistas e não podiam assinar as obras que ajudavam a realizar. Camille não assinou Les Portes de l’Enfer ou Les Bourgeois de Calais. Ficou à sombra de Rodin.

Foto do subtítulo

Resistir às tentativas de controle de seus gestos, condutas e opiniões influenciou gravemente na decisão de seu irmão, Paul Claudel, de interná-la à força. “É preciso evitar o escândalo”, ele dizia.  Loucura não é tudo aquilo que age contra a natureza. É tudo aquilo que desnaturaliza formas de poder. A existência de Camille mostrava que não havia um destino natural para mulheres.

No documentário Michel Foucault Par Lui Même, Foucault diz que “experiências que deveriam ser consideradas centrais, valorizadas positivamente, são consideradas experiências-limite, a partir das quais se põe em questão a exclusão social”. Em última instância, o julgamento dessas experiências não se diferencia daquele que determina se um hábito é aceitável ou não. Mulheres eram internadas pelos mais variados motivos: engravidar indevidamente, gastar muito dinheiro, estar desempregada e – ainda mais violento – por um simples pedido da família. Na loucura, parecia caber tudo aquilo que era desviante à média ou à norma.

O laudo de internação concedido por um médico amigo da família afirmava que Camille tinha delírios persecutórios envolvendo Rodin e cultivava hábitos miseráveis: não cuida da aparência, usa roupas puídas e sapatos gastos, não se lava, mantém as cortinas sempre abaixadas e as janelas fechadas, alimenta muitos gatos e vive sozinha, reclusa, numa casa quase sem móveis. São visíveis tanto as marcas da violenta relação com Rodin como o julgamento moral de seus hábitos.

Em seus 29 anos de internação, Camille implorou que Paul Claudel a tirasse de Montdevergues. Este período é retratado nas cartas que Camille escrevia para Paul Claudel e no filme Camille Claudel 1915:

“Hoje, três de março, é o aniversário do meu sequestro em Ville-Evrard: faz sete anos que faço penitência nos asilos de alienados. Depois de terem se apoderado da obra de toda a minha vida, mandam-me cumprir os anos de prisão”. (DELBÉE, 1988, p.201)

“Durante todo inverno não me aqueci, estou gelada até os ossos, cortada ao meio pelo frio. […] Uma amiga minha, uma pobre professora do liceu Fénelon que veio cair aqui, foi encontrada morta de frio na cama. É medonho!” (p. 255)

“Quanto a mim, estou tão desolada por continuar a viver aqui que eu não me sinto mais uma criatura humana”. (p. 275)

Essas experiências desviantes, que deveriam levantar questões sobre o sistema de poder que determina o que é normalidade, eram reconhecidas apenas como um ponto de ruptura em relação a esse sistema. Portanto, passível de punição. Em História da Loucura, Foucault diz: “é verdade que muitas vezes se interna para fazer alguém escapar ao julgamento: mas interna-se num mundo onde o que está em jogo é o mal e a punição, a libertinagem e a imoralidade, a penitência e a correção”.

Camille Claudel nunca saiu de Montdevergues. Morreu em 1943, aos 79 anos. Foi enterrada em vala comum e seu corpo nunca foi encontrado. Paul Claudel não compareceu a seu funeral em Montdevergues.

O crítico de arte Mathias Morhardt escreveu sobre a obra Les Causeuses (1893), de Camille, para o Mercure de France, em 1898:

“a observação da natureza […] não basta para realizar obras-primas. É preciso uma paixão particular. É preciso um dom especial que permita extrair da própria observação da vida o que constitui o elemento primordial da obra-prima e que é, de certa forma, o testemunho da verdade, o sentido da sua beleza. […] Les Causeuses é um poema escrito magnificamente. […] Essas quatro mulheres sentadas em círculo em torno de uma ideia que as domina, em torno de uma paixão que as inspira e penetra. […] Um poema onde o sangue circula, onde alguma coisa palpita, onde há ombros que alguma emoção interior levanta, onde há peitos que respiram, onde se comprova, enfim, a prodigiosa riqueza da vida. […] Ela é viva! Ela vive permanentemente”.

A pequena escultura que cabe na palma de uma mão, como um segredo, parece fazer Camille respirar através do tempo.

Les Causeuses[Detalhes da escultura Les Causeuses, de Camille Claudel]

Quem vigia as fronteiras da normalidade?

“O mais notável não era que fosse a irmã de Paul Claudel e a amante de Auguste Rodin. Não, o que me impressionava, o que me impedia de fechar o livro, era isso: ela era ESCULTORA.” (p.2)

Uma menina com os cabelos desgrenhados, vestido sujo, andando com pesados baldes de barro vermelho no meio do capim cerrado: – Era uma bruxa! Uma bruxa que conseguia transformar o barro em corpo humano.

Quando Camille carregava, cambaleante, baldes de barro para fazer as primeiras esculturas, em Villeneuve, já ouvia de sua mãe que estava louca. Essa demarcação das fronteiras da normalidade é usada para limitar quais são as experiências possíveis para mulheres. A questão da normalidade (ou de como ela se transforma em mecanismo do poder) não é puramente teórica: é parte da nossa experiência.

Aliás, seria mais adequado falar de normalidades e não de normalidade. Normalidade não é uma categoria estável. Depende de critérios sociais, culturais, ideológicos e até religiosos arbitrários. Já foi considerado normal ver duas pessoas lutando até a morte como forma de entretenimento, escravizar populações inteiras, trancar mulheres para o resto da vida em manicômios para tentar normalizá-las. A relação normalidade/loucura é um dos instrumentos divisores do poder. Funciona sob o princípio da porta giratória, que trava de acordo com um comando arbitrário e estabelece demarcações dicotômicas: normais e loucos, pessoas de bem e bandidos, sadio e doente. O sujeito é dividido no seu interior e em relação aos outros:

Esta forma de poder aplica-se à vida cotidiana imediata que categoriza o indivíduo, marca-o com sua própria individualidade, liga-o à sua própria identidade, impõe-lhe uma lei de verdade, que devemos reconhecer e que os outros têm que reconhecer nele. (FOUCAULT, 2009, p. 236)

camila2

Quando Camille transgrediu os estereótipos de gênero de sua época, revelou mecanismos de poder que fabricam esses estereótipos. Era um exemplo perigoso para outras mulheres. Portanto, tentaram “corrigir” violentamente sua anormalidade. O que define o anormal é que ele constitui, em sua existência mesma, a transgressão de leis invisíveis da sociedade, leis que são naturalizadas. O anormal desafia aquilo que é demarcado como impossível e proibido. Imaginem que disparate: uma mulher esculpindo pedras!

Quando se diz “mecanismo de poder”, não se trata de uma abstração, mas de um modo de ação de uns sobre os outros. É uma ação sobre a ação dos outros. É a violência sobre uma vida, que é forçada, dobrada, reduzida, partida: esculpida com martelos e espátulas.

O indivíduo a ser corrigido vai aparecer nesse jogo, nesse conflito, nesse sistema de apoio que existe entre a família e, depois, a escola, […], a igreja, a polícia, etc… (FOUCAULT 2014, p.49)

Por exemplo, uma instituição escolar: sua organização espacial, o regulamento meticuloso que rege sua vida interior, as diferentes atividades aí organizadas, os diversos personagens que aí vivem e se encontram, cada um com uma função, um lugar, um rosto bem definido […] A atividade, que assegura o aprendizado e a aquisição de aptidões ou de tipos de comportamento, aí se desenvolve através de todo um conjunto de comunicações reguladas (lições, perguntas e respostas, ordens, exortações, signos codificados de obediência, marcas diferenciais do “valor” de cada um e dos níveis de saber) e através de toda uma série de procedimentos de poder. (FOUCAULT 2009, p. 241)

As memórias de Camille Claudel (e as nossas próprias memórias) nos dão pistas de como esses mecanismos funcionam:

Camille é diferenciada dos outros: passa a ser “a louca”, o que reduz a sua humanidade ao que possa caber nesse estereótipo. Não se sabe até que ponto ela é chamada de louca para que o poder seja exercido sobre ela ou se existe uma patologia consequente da ação biopolítica brutal desse mesmo poder, possivelmente os dois.

Camille é institucionalizada: se a normalidade é um mecanismo do poder, o enclausuramento, a vigilância, o sistema recompensa/punição, e a hierarquia piramidal são algumas formas de normalização. Reduzir a humanidade de alguém para que ela caiba num determinado estereótipo de normalidade é, por fim, uma forma de governo. Camille passa 29 anos num manicômio.

Foto de abertura

Segundo Georges Canguilhem, “o anormal não é o patológico. Patológico implica pathos, sentimento direto e concreto de sofrimento e de impotência, sentimento de vida contrariada”. O anormal é aquele que revela, no mesmo momento de sua existência desviante, mecanismos de padronização das formas de vida. A anormalidade é aquilo que escapa da normalização imposta pelo poder. E, em certa medida, sempre se escapa dessa normalização. Mas escapar completamente – ou seja: ser livre – é algo que só se alcança coletivamente. A sensação do escape individual não é mais que do uma mera sensação, já que sempre existirá outro mecanismo disciplinar pronto para agir. E não se pode agir contra esses mecanismos individualmente.

A única medida da patologia deveria ser o sofrimento e não a inadequação a um sistema ele próprio patológico. Não um padrão de normalidade criado para que uns governem os outros. A normalização é a supressão brutal daqueles que espontânea ou politicamente mostram as pequenas e grandes irregularidades, ou seja, as falhas, desses mecanismos de governo. É a supressão daquele que são “a forma natural ou política da contranatureza” (FOUCAULT 2014).

Em um dos últimos momentos da História da Loucura, Foucault diz que esse mundo que acredita avaliar e justificar a loucura precisa justificar-se diante dela, já que seus esforços, seus debates se medem por obras desmedidas, como as de Camille Claudel. A loucura é um saber, algumas vezes fechado, inacessível, inquietante. Um saber que desafia o poder.

Loucos são cada vez mais aqueles que ameaçam a conservação do poder.

BIBLIOGRAFIA:

DELBÉE, Anne. Camille Claudel, Uma Mulher. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
FOUCAULT, Michel. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 2005.
FOUCAULT, Michel. Os Anormais. São Paulo: Martin Fontes, 2014.
FOUCAULT, Michel. Maladie mentale et personnalité. Paris: Presses Universitaires, 1954.
FOUCAULT, Michel. “O sujeito e o poder”. In: DREYFUS, H. & RABINOW, P. Michel Foucault. Uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. p. 231-249.

Ler na íntegra em: Camille Claudel: a quem serve a normalidade?

*Analistas e Militares Mostram ‘mão Armada’ dos EUA no Genocídio em Ruanda

Extraído de: Patria Latina

© AFP 2017/ Simon Maina

 

Jornal britânico The Guardian publicou os resultados da investigação do genocídio em Ruanda de 1994, que são completamente o oposto do imaginado.

De acordo com o artigo chamado “A função secreta dos Estados Unidos no genocídio em Ruanda”, o assassinato do presidente Juvénal Habyarimana [hutu] teria sido planejado com o apoio da Agência Central de Inteligência e desencadeado o massacre, que levou a vida de aproximadamente 800 mil pessoas.

Um especialista, que preferiu não se identificar por questões de segurança, falou para a Sputnik que a investigação foi recebida negativamente pelas autoridades de Ruanda. A versão dos acontecimentos de 1994 foi proposta pelo BBC, o que impulsionou a proibição do canal em Ruanda pelo parlamento local.

Ambas as investigações da mídia britânica acusam Paul Kagame (presidente do país desde 2000) de estar envolvido no assassinato do ex-presidente Juvénal Habyarimana, quem governou de 1973 a 1994. Além disso, a mídia estrangeira fala sobre maiores perdas entre hutus, ao invés dos tutsis, assassinados pela Frente Patriótica Ruandesa.

Por razão parecida, em 2006, Ruanda rompeu relações diplomáticas por três anos com a França depois de o juiz francês Jean-Louis Bruguière ordenar detenção de várias pessoas próximas a Kagame como se estivessem envolvidas no assassinato do ex-presidente Juvénal Habyarimana.

O atual presidente de Ruanda “sempre contou com apoio do clã Clinton, em particular, de Madeleine Albright”, afirma o coronel Jacques Ogar, que liderou uma das três unidades de operação de paz chamada Turquoise a mandato da ONU desde junho de 1994.

“Não foram os hutus que mataram os tutsis, e sim os tutsis que mataram os hutus. Mas sobre isso não se pode falar. Esse tema é considerado tabu já que joga uma sombra nas autoridades atuais de Ruanda”, frisa o coronel, acrescentando que “o genocídio em Ruanda foi usado para fins políticos. O ano de 1994 foi uma mera continuação de massacres, que foram continuados em 1995, 1996, 1997, sobre os quais todos se calam”.

Segundo o coronel, depois da criação da missão Turquoise, os norte-americanos “ficaram furiosos ao ver que a França estava voltando à região”. Ele explicou que “Ruanda e Uganda atualmente ajudam os EUA, apoiando grupos armados em Katanga e Kivu [regiões da República Democrática do Congo que faz fronteira com a Uganda e Ruanda]. No início dos anos 90, a França tinha influência em Ruanda por ela ter sido colônia belga no passado e por ser francófona. Os EUA tentaram de tudo para eliminar potencial concorrente [França] que seria capaz de seguir rumo aos recursos minerais [da região]”.

Os norte-americanos queriam controlar a região rica em recursos minerais, e conseguiram. Jacques Ogar continuou dizendo que “todas as riquezas fenomenais de Katanga e Kivu são transportadas aos portos da África Oriental e depois seguem para companhias norte-americanas, israelenses e britânicas”.

Leslie Varenne, jornalista e especialista em assuntos africanos, também acredita que os EUA ajudavam Paul Kagame: “O exército de Kagame recebia armas em Uganda, e Uganda estava sendo influenciada pelos EUA. Kagame recebia as armas através de Uganda, onde estava localizada uma base, constatando participação dos EUA. Na época, o seu objetivo era retomar influência na África. Além disso, eles queriam se livrar de Mobutu [ex-ditador de Zaire], que eles mesmos levaram ao poder”.

“As acusações de revisionismo são apresentadas para justificar Kagame cada vez que voltam a esta história. Sempre surge uma frase ‘os partidários do revisionismo’, porque as palavras genocídio e revisionismo estão lado a lado.”

“Quem derrubou o avião onde estava Habyarimana? […] No artigo [publicado no The Guardian] a resposta é a seguinte: o avião foi derrubado por pessoas de Kagame da Frente Patriótica Ruandesa, o que levou ao genocídio. Kagame nunca vai dizer: ‘sim, fui eu que derrubei o avião.’”

*A Farinha de Lixo e a Plataforma Sinergia

ração de lixo

Publicado originalmente em: http://ebocalivre.blogspot.com.br/2017/10/mais-denuncias-no-caso-da-racao-para.html

 
Um gentil  leitor me chamou a atenção para uma matéria que ele leu no Estadão, datada de 19 de julho de 2017, sobre um abrigo para drogados e indigentes, numa instituição de religiosos católicos, em Jarinu, onde morreram 14 pessoas em um mês,
Desde 2011 a Missão Belém é investigada pelo Ministério Público e pela Prefeitura de Jarinu. Ela funciona como uma “comunidade terapêutica” mas não tem licença para tanto, segundo as regras da Anvisa.
Os que morreram no período apresentavam quadro de diarreia e vomito, seguido de desnutrição, desidratação e intoxicação alimentar. Outros 19, internados com os mesmos sintomas, sobreviveram. As vitimas moravam no sítio da Missão Belém. Metade delas era de idosos e moravam no sítio há anos. 
Do dia 03 a 18 de julho, o hospital de Clinicas de Campo Limpo Paulista recebeu 25 internos da Missão Belém“Se Deus decide levar, já não é problema nosso”,declarou o coordenador da instituição. O Padre Giampietro Carraro, fundador do grupo e que faz esse serviço inclusive no Haiti, não deu entrevista. A Arquidiocese de São Paulo, informou que a Missão Belém é independente.
Tudo isso seria um simples e escabroso caso policial, não fosse a importância de que se reveste agora: a Arquidiocese e a Missão Belém estão, lado a lado, como colaboradores da Plataforma Sinergia, assim como a Prefeitura de São Paulo.
O que significa ser colaborador desse projeto? Ainda mais um abrigo de indigentes e drogados. Seria um campo de provas e experimentos? Como pode a Prefeitura de São Paulo se envolver com parceiros que não dispõem de licença para operar legalmente? O que os ditos “parceiros” estão fazendo para apurar a razão das mortes?
Eis ai um campo muito fértil para o jornalismo independente. 
A sociedade está interessada em conhecer todos os laços da Plataforma Sinergia desde que o prefeito a trouxe para a esfera pública e pretende abraçar o seu projeto, inclusive abrindo-lhe as portas de escolas e creches. Nós, paulistanos, não queremos isso.
Ele não poderá faze-lo, sob pena de responsabilização, se beneficiar de alguma forma entidades inidôneas, envolvidas em mortes até agora misteriosas. É mesmo urgente que a Câmara dos Vereadores aprove a CPI para apurar as verdades, envolvendo os apoios à Plataforma Sinergia.
 
 

Leia na íntegra: Mais denuncias no caso da ração 

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Querem ganhar bilhões com esta ração ao redor do planeta pobre: A mão peluda de Dom Odilo e da Igreja na ração de Dória e na empresa que a fabrica

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*Você Também Pode Dar Um Presunto Legal – (Filme Sobre a Tortura)

Réplica  do filme original postado por PC Toledo no Youtube

Scuderie Detetive Le Cocq

Publicado em 25 de jul de 2014

Direção: Sergio Muniz Edição e Finalização (2007): PC Toledo Filmado clandestinamente entre 1970/71, foi uma reflexão minha – na época – de que o tristemente famoso “esquadrão da morte”, chefiado pelo delegado Sergio Paranhos Fleury, serviu de ensaio geral para a violenta repressão política que veio a seguir, com tortura indiscriminada e assassinatos. Conta inclusive com documento filmado único, no qual o delegado Fleury é condecorado pela Marinha Brasileira pelos serviços prestados. Utilizei também fragmentos de 2 peças de teatro que estavam em cartaz em São Paulo naqueles anos: A Resistível Ascensão de Arturo Ui, de Bertold Brecht e O Interrogatório, de Peter Weis. Um texto que introduzi no inicio do documentário explica as razões pelas quais esse documentário ficou inédito até 2007. Tive a ousadia de reeditar o documentário à partir do único material que eu tinha disponível: uma fita VHS. Quero assinalar que tentei ao máximo manter a edição original, inclusive com seus inúmeros defeitos (imagens que perderam 20% de sua área ao serem transferidas para vídeo, trucagens não feitas, finalização feita à distância e por carta, entre outros) o que também está informado no letreiro inicial. Só alterei o que efetivamente não dava leitura ou estava muito deteriorado. Comecei fazendo uma distribuição “low profile”, enviando mais de 500 cópias para amigas/amigos, companheiras/companheiros que o viram e/ou exibiram para outras pessoas. Além do mais, nos estojos em que envio o DVD coloco um texto que diz que o documentário pode ser exibido e/ou copiado livremente, desde que gratuitamente. O que faz com que, até hoje, eu receba notícias de quartas ou quintas gerações de cópias feitas à partir de algum DVD enviado por mim. Se tivesse sido exibido em sua época teria a função de denunciar o clima de terror e de torturas de então. Hoje em dia serve para informar às atuais gerações que houve tortura no Brasil. E, pouco a pouco, o documentário tem ganho vida e asas próprias, voando por caminhos que – felizmente – não mais controlo. A primeira projeção efetivamente pública foi em março/2007 num cineclube (que não mais existe) na Rua Maria Antonia em São Paulo; no ano anterior foi apresentado na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, na PUC/SP e PUC/RJ, na UNESP/Araraquara, numa universidade em Ribeirão Preto e na Escola Florestan Fernandes (do MST). Foi tema de um GT no congresso brasileiro de Sociologia realizado em Recife/2007; participou da Bienal de Valencia/Espanha/2007 e da programação em 5 cidades do Chile por ocasião da Trienal do Chile/2009. Viajou também pelo circuito de cineclubes do norte/nordeste e pela Argentina e Venezuela; e foi tema do seminário ACTIVAR UMA HISTÓRIA, no Instituto Cervantes/Brasília/2009 dirigido pela especialista espanhola Mónica Carballas. Hoje em dia está no site Memórias Reveladas (do Ministério da Justiça) e no Youtube. Solicito a quem o veja que – posteriormente e caso seja possível – que envie para mim uma opinião, mesma que negativa. Hasta mañana, siempre (espero yo)!!! Sergio Muniz