*A Economia Mundial Entraria em Colapso se a City de Londres Deixasse de Fazer Lavagem de Dinheiro

City de Londres.

A Gran-Bretanha deixou a União Europeia em 31 janeiro, mas não há sinais de que os bancos deixem a City de Londres, uma das principais reivindicações dos Remainers [NT] antes do referendo do Brexit. Mas serão as engrenagens da City mantidas a girar apenas com a lavagem de dinheiro?

Nicholas Wilson , que denunciou escândalos financeiros e deu a conhecer os milhões de libras de cobranças injustas a clientes, tendo em consequência sido demitido do escritório de advocacia britânico Weightmans, afirma que a City de Londres depende do “dinheiro sujo” e diz que a economia mundial entraria em colapso se ela parasse de lavá-lo .

O Reino Unido tentou bloquear uma proposta da UE para apertar o controle à lavagem de dinheiro

Nicholas Wilson, um ex-gerente de litígios, afirmou: “A UE queria reforçar o controle à lavagem de dinheiro, o Reino Unido foi o único país que votou contra“. “O capitalismo depende do dinheiro sujo, movimentado para realizar investimentos em todo o mundo“.

Um relatório do ano passado do Centro de Pesquisa Bancária da Cass Business School pintou um quadro róseo da City no pós-Brexit. A coautora do relatório, professora Barbara Casu Lukac, escreveu: “Londres continuará sendo um elemento importante no setor global dos serviços financeiros e no mercado de capitais após o Brexit. No entanto, algumas de suas operações, capacidades e margens serão afetadas pela incerteza política da regulação a longo prazo, subjacente ao processo Brexit“.

Isto contrasta fortemente com as declarações alarmistas sobre o futuro da City feitas pelo então Chanceler George Osborne, como parte de seu “Projeto Medo“, antes do referendo do Brexit em 2016.

Após o referendo, David Cameron renunciou e foi substituído por outro Remainer, Theresa May.

Quando seus esforços para aprovar um acordo no Brexit falharam, ela foi substituída por Boris Johnson , desde o início um entusiástico defensor da saída de UE.

Em junho de 2019, durante a campanha para a liderança do Partido Conservador, Boris Johnson gabou-se de quanto havia feito pela City de Londres.

Johnson renegociou um novo acordo com a UE, mas o futuro da City fará parte das negociações sobre comércio, a realizarem-se ainda este ano. Os bancos poderão continuar a prestar serviços durante o período de transição, a começar em 1 de fevereiro, mas devem perder os seus “direitos de passaporte“, que lhes permitiam oferecer serviços aos clientes nos 27 estados da UE. Uma solução possível é que os bancos do Reino Unido precisem criar uma subsidiária num estado membro da UE e então, nesse país, solicitar uma “licença de passaporte“.

O Chefe da Financial Conduct Authority foi promovido, mas será que ele estava a ‘dormir ao volante‘?

No mês passado, o governo anunciou a nomeação de Andrew Bailey, atual chefe do Departamento Financeiro, da Financial Conduct Authority – o regulador que supervisiona os serviços financeiros e os mercados de capitais no Reino Unido – para o cargo de Governador do Banco da Inglaterra, que assumirá em março.

Mr. Bailey disse: “O Banco tem um trabalho muito importante e, como Governador, continuarei o trabalho que Mark Carney fez para garantir que o interesse público esteja no centro de tudo o que faz. É importante para mim que o Banco continue trabalhando para o público, mantendo a estabilidade monetária e financeira, garantindo que as instituições financeiras sejam seguras e sólidas.

Mas Nicholas Wilson, declarou que apenas nos últimos 12 meses Bailey fracassou em vários escândalos de destaque, como o colapso da empresa London Capital and Finance , a implosão da Woodford Investment Management e o bloqueio do imobiliário da M&G Property Portfolio por questões de liquidez. Acrescentando: “Mr. Bayley falhou seguramente ao longo de todos estes anos ao lidar com a fraude do HSBC , que relatei pela primeira vez à FCA em 2012“.

Wilson foi demitido depois de ter demonstrado que o HFC Bank, uma subsidiária do HSBC, impunha ilegalmente uma sobretaxa de 16% aos clientes caso não cumprissem pontualmente o pagamento dos créditos contratados e empréstimos subprime.

Em 2017, venceu a sua batalha contra o HSBC, que foi forçado a pagar mais de 4 milhões de libras a milhares de clientes. Em 2019, outras 18 500 vítimas foram identificadas. Até agora, o HSBC concordou em pagar 30 milhões de libras e Wilson acredita que o total chegará a 200 milhões de libras.

Em março de 2019, Adrian Hill , ex-CEO do HFC Bank, afogou-se na sua casa de luxo em Oxfordshire. Num inquérito sobre sua morte, foi dito que sofria de stress, por estar convencido de que seria enviado para a prisão em resultado da investigação da FCA sobre o HFC.

Nicholas Wilson salientou que o chanceler do Tesouro do governo sombra, John McDonnell, afirmou no Parlamento em 8 de janeiro, que o histórico de Bailey na FCA deveria ter sido levado em consideração antes de ser nomeado. McDonnell disse que Bailey esteve “a dormir ao volante durante seu mandato na FCA“.

O chanceler, Sajid Javid, insistiu que Bailey era “um excelente candidato, o mais relevante candidato para ser o próximo governador do Banco da Inglaterra“.

Reino Unido, o país mais corrupto do mundo

Em 2016, o jornalista italiano Roberto Saviano , que passou a maior parte de sua carreira investigando a máfia, disse que a Grã-Bretanha era o país mais corrupto do mundo.

Numa intervenção no Hay-on-Wye Book Festival, Saviano disse ao público:

“Se eu perguntasse qual é o lugar mais corrupto do mundo, você poderia dizer-me que é o Afeganistão, talvez a Grécia, a Nigéria, o sul da Itália e eu vou dizer-lhe: é o Reino Unido. Não é a burocracia, não é a polícia, não é a política, mas o que é corrupto é o capital financeiro: 90% dos proprietários de capital em Londres têm sua sede no exterior”.

Em resposta, Nicholas Wilson, disse: “Concordo com isso. Ele está falando sobre a City de Londres, que é a capital mundial da lavagem de dinheiro. Nada pode ser feito para limpar a City. Se algum político tentasse desmantelá-la, a economia mundial entraria em colapso. O dinheiro das drogas foi a única coisa que manteve em funcionamento os bancos durante a crise financeira de 2008“.

Em 2016, o Home Affairs Select Committee declarou que 100 mil milhões de libras de dinheiro ilícito eram lavados no mercado imobiliário de Londres todos os anos.

Wilson disse ainda que o banco com a pior reputação era o HSBC , que estava envolvido em 18 dos 25 principais escândalos de corrupção listados pelo órgão de fiscalização Transparency International no ano passado. Rona Fairhead, ex-diretora do HSBC, que também foi presidente do BBC Trust e é atualmente membro da Câmara dos Lordes, foi ministra no governo de Theresa May, até maio do ano passado.

Como afirmou Wilson, as instituições políticas e financeiras estão estreitamente entrelaçadas. Existem vários exemplos de ex-parlamentares e ministros que foram trabalhar para bancos e ex-banqueiros a entrarem na política ou em cargos influentes.

A City of London Corporation recusou-se a comentar e a Financial Conduct Authority, que também foi abordada, não fez comentários.

[NT] Remainers: pessoas que no referendo de 2016 votaram pela permanência do Reino Unido na União Europeia.

O original encontra-se em sputniknews.com/…

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

Ler na íntegra: A economia mundial entraria em colapso se a City de Londres deixasse de fazer lavagem de dinheiro

Leia também: Os 5 Maiores Latifundiários do Planeta

*Estaria os EUA Preparados Para o Desastre ?

Verifica-se que Trump e o Pentágono estavam a mentir. Novamente. Desta vez, quanto ao verdadeiro impacto do contra-ataque iraniano sobre as forças americanas no Iraque. Primeiro alegaram que não havia pessoal ferido dos EUA, só para finalmente terem de confessar que 34 soldados haviam sofrido uma lesão cerebral traumática (a qual Trump “reclassificou” como uma “dor de cabeça”). A seguir tiveram de admitir que não eram realmente 34, mas na verdade 50 !

Segundo algumas fontes, nem todo o pessoal dos EUA estava escondido em bunkers e alguns foram mobilizados para defender o perímetro da base. Seja como for, isso acrescenta mais uma indicação de que o contra-ataque iraniano foi muito mais robusto do que o relatado originalmente pelo Império. De facto, fontes iranianas indicam que, a seguir ao ataque, um certo número de vítimas feridas foi transportada para Israel, Kuwait e Alemanha. Mais uma vez, provavelmente nunca descobriremos a verdade completa sobre o que aconteceu naquela noite, mas agora duas coisas são certas:

1. O ataque iraniano foi extremamente eficaz e é inegável que todas as forças dos EUA / NATO / Israel na região estão agora expostas como patos à espera do próximo ataque iraniano.
2. O tio Shmuel teve que subestimar dramaticamente a extensão real e a natureza do contra-ataque iraniano.

Sejamos claros quanto à qualidade do aviso recebido pelo pessoal dos EUA. Agora sabemos que houve pelo menos as seguintes advertências:

1. Advertência através do governo iraquiano (a quem os iranianos informaram das suas intenções).
2. Advertência através das autoridades suíças (que representam os interesses dos EUA no Irão e a quem os iranianos informaram das suas intenções).
3. Advertência através das capacidades de reconhecimento / inteligência dos EUA em terra, ar e espaço.

Mas, ainda assim, apesar destas condições quase ideais (do ponto de vista da defesa), vemos agora que nem um único míssil iraniano foi interceptado, que todos os mísseis aterraram com uma precisão muito alta, que a própria base dos EUA sofreu danos extensos (incluindo a destruição de helicópteros e drones) e que houve dezenas de feridos (ver este artigo para uma discussão pormenorizada das imagens pós-ataque).

Se encararmos este ataque primariamente como uma operação de “prova de factibilidade” (“proof of concept”), fica bastante claro que do lado iraniano aquilo que ficou provado foi um excelente grau de precisão e capacidade robusta de mísseis balísticos, ao passo que do lado dos EUA a única coisa que o ataque fez foi provar que as forças americanas na região são extremamente vulneráveis aos mísseis iranianos. Imagine se os iranianos quisessem maximizar as baixas dos EUA e se não tivessem feito qualquer advertência – qual seria o registo então?! E se os iranianos tivessem alvejado, digamos, depósitos de combustível e munições, edifícios onde vivia pessoal dos EUA, instalações industriais (incluindo nós logísticos chave do CENTCOM), portos ou até aeródromos? Consegue imaginar a espécie de inferno que os iranianos teriam desencadeado contra instalações basicamente não protegidas?!

Ainda em dúvida?

Então pergunte-se por que a Trump & Co. tiveram de mentir e minimizar o alcance real do ataque iraniano. É bastante óbvio que a Casa Branca decidiu mentir e apresentar o ataque como sendo quase sem impacto, porque se tivesse admitido a magnitude do mesmo, então teria de admitir também a sua impotência total para travar ou mesmo reduzi-lo significativamente. Não só isso, mas um público americano ultrajado (a maioria dos americanos ainda acredita na tradicional linha de propaganda sobre “A maior força militar da história da galáxia”!) teria exigido um contra-ataque retaliatóro contra o Irão, o que teria disparado um ataque iraniano imediato a Israel o qual, por sua vez, teria mergulhado toda a região numa guerra maciça para a qual os EUA não tinham estômago.

Compare isso com as afirmações iranianas as quais, no mínimo, possivelmente exageraram o impacto do ataque e que 80 militares foram feridos (eu acrescentaria aqui que, pelo menos até agora, o governo iraniano tem sido muito mais sincero e menos inclinado a recorrer mentiras grosseiras do que os EUA). Claramente os iranianos estavam prontos exatamente para a espécie de nova escalada que os EUA queriam evitar a quase qualquer custo.

Então, o que realmente aconteceu?

Existem duas maneiras básicas de se defender de um ataque: negação e punição. Negação é o que os sírios têm estado a fazer contra os EUA e Israel toda vez que abatem mísseis. A negação é ideal porque minimiza as próprias baixas, sem necessariamente aumentar a “escala de escalada”. Em contraste, a punição é quando não se impede um ataque e, sim, inflige-se um contra-ataque retaliatório ao lado atacante, mas só depois de ser atacado. Isto é o que os EUA poderiam fazer contra o Irão, a qualquer momento (sim, ao contrário de algumas alegações totalmente irrealistas, as defesas aéreas iranianas não podem impedir que as forças armadas dos EUA provoquem imensos danos ao Irão, à sua população e sua infraestrutura).

O problema de punir o Irão é que se está a lidar com um inimigo realmente disposto a absorver imensas perdas, desde que estas perdas levem finalmente à vitória. Como se pode deter alguém está disposto a morrer pelo seu país, povo ou fé?

Não há dúvida de que os iranianos, que são excelentes analistas, estão plenamente conscientes dos danos que os EUA podem infligir. O fator-chave aqui é que eles também percebem que, uma vez que os EUA desencadeiem os seus mísseis e bombardeiros e uma vez que destruam muitos (se não todos) os seus alvos, não terão mais nada para tentar conter o Irão.

Aqui está como se pode pensar da estratégia iraniana:

  • Se os EUA não fizerem nada ou apenas se envolvem em ataques simbólicos (digamos, como os ataques de Israel à Síria), os iranianos podem simplesmente ignorá-los porque embora sejam muito eficazes em dar aos americanos (ou israelenses) uma ilusão de poder, eles realmente falham em alcançar algo militarmente significativo.
  • Se os EUA finalmente decidirem atacar o Irão duramente, esgotarão sua “carta de punição” nesse contra-ataque e não terão mais opções para deter o Irão.
  • Se os EUA (ou Israel) decidirem usar armas nucleares, então tal ataque simplesmente dará ao Irão uma “carta de joker político”, dizendo em essência “agora está justificado com qualquer espécie de retaliação que possa imaginar”. E podem estar certos de que os iranianos virão com todos os tipos de formas penosas de retaliação!

Pode-se pensar a atual postura dos EUA como “binária”: ela é ou “tudo desligado” ou “tudo ligado”. Não por opção, é claro, mas essas condições são a resultante das realidades geoestratégicas do Médio Oriente e das muitas assimetrias entre os dois lados:

País EUA Irão
Superioridade aérea sim não
Forças terrestres capazes de combater não sim
Disposição para incorrer em grandes perdas não sim
Linhas de abastecimento longas e vulneráveis sim não
Preparado para grandes operações defensivas não sim

O acima exposto é obviamente uma simplificação, mas também é fundamentalmente verdadeiro. A razão para estas assimetrias está numa diferença muito simples mas crucial: os norte-americanos foram submetidos a uma lavagem cerebral que os leva a acreditar que grandes guerras podem ser vencidas a baixo custo. Os iranianos não têm tais ilusões (certamente não depois de o Iraque, apoiado pelos EUA, URSS e Europa, ter atacado o Irão e infligido imensa destruição à sociedade iraniana). Mas a era das “guerras baratas” está definitivamente acabada .

Além disso, os iranianos também sabem que a superioridade aérea dos EUA por si só não resultará magicamente numa vitória dos EUA. Finalmente, os iranianos tiveram 40 anos para se prepararem para um ataque americano. Os EUA só foram notificados disso em 8 de Janeiro deste ano.

Novamente, para os EUA, é “tudo ligado” ou “tudo desligado”. Vimos o “tudo desligado” nos dias seguintes ao contra-ataque iraniano e podemos ter uma ideia de como seria o “tudo ligado” recordando as operações israelenses contra o Hezbollah em 2006.

Os iranianos, no entanto, têm uma capacidade escalatória muito mais gradual, o que acabaram de demonstrar com o seu ataque às forças americanas no Iraque: eles podem lançar apenas alguns mísseis ou centenas deles. Eles podem tentar maximizar as baixas dos EUA ou podem optar por atacar a infraestrutura do CENTCOM. Eles podem escolher atacar o tio Saumel diretamente, ou podem decidir atacar seus aliados (Arábia Saudita) e patrões (Israel). Podem optar por receber o crédito por qualquer acção ou podem ocultar-se por trás do que a CIA chama de negação plausível.

Assim, apesar de os EUA e o império anglo-sionista como um todo serem muito mais poderosos que o Irão, o Irão desenvolveu habilmente métodos e meios que lhe permitem controlar o que os analistas militares chamam de “controle da escalada”.

O Irão acabou de lançar os poderosos EUA à parede?

Lembram de Michael Ledeen? Ele é o Neocon que se saiu com este aforismo histórico: “A cada dez anos, mais ou menos, os Estados Unidos precisam pegar um pequeno país de merda e lançá-lo contra a parede, só para mostrar ao mundo o que querem dizer negócios”.

Não é irônico que o Irão tenha feito exatamente isso, eles pegaram os EUA e “lançaram-no contra uma parede, só para mostrar que queriam dizer com negócios”?

E o que é que tudo isso nos diz?

Por um lado, os militares dos EUA estão em perturbação real. É bastante óbvio que as defesas aéreas dos EUA são irremediavelmente ineficazes: vimos o seu “desempenho” na Arábia Saudita contra os ataques houthis. A verdade é que os mísseis Patriot nunca tiveram um desempenho adequado, nem na primeira Guerra do Golfo, nem hoje. A grande diferença é que o Iraque de Saddam Hussein não possuía mísseis de alta precisão e que as suas tentativas de atacar os EUA (ou Israel, pouco importa) não eram muito eficazes. Assim, foi fácil para o Pentágono falsificar o desempenho real (ou a falta dele!) dos seus sistemas de armas. Agora que o Irão foi capaz de localizar com precisão alguns edifícios, ignorando cuidadosamente outros, todo o Médio Oriente entrou numa era radicalmente nova.

Em segundo lugar, é igualmente óbvio que as bases americanas no Médio Oriente são muito vulneráveis a ataques de mísseis balísticos e de cruzeiro. As defesas aéreas são um ramo militar muito complicado e de alta tecnologia, e muitas vezes leva anos, se não décadas, para desenvolver um sistema de defesa aérea verdadeiramente eficaz. Devido em parte à sua tendência de atacar apenas países fracos e mal defendidos, e também devido ao dissuasor muito real que as forças armadas dos EUA costumavam ter no passado, os EUA nunca tiveram de se preocupar muito acerca de defesas aéreas. Os “rapazinhos” não tinham mísseis, ao passo que os “grandalhões” nunca ousariam atacar abertamente as forças do tio Samuel.

Até recentemente.

Agora, é o Poder Hegemônico Mundial, anteriormente todo-poderoso, que foi jogado contra uma parede por um Irão muito mais fraco e, assim, viu-se sendo tratado como um “paiseco de merda”.

Doce ironia!

Mas há muito mais nesta história.

O verdadeiro objectivo iraniano: remover os EUA do Médio Oriente

Os iranianos (e muitos aliados iranianos na região) deixaram claro que a verdadeira retaliação pelo assassinato do general Soleimani seria provocar uma retirada completa das forças estadonidenses do Iraque e da Síria primariamente, seguida de uma retirada completa de todo Médio Oriente.

Qual a probabilidade de tal resultado?

Neste momento, eu diria que as probabilidades de isto realmente acontecer são microscopicamente pequenas. Afinal, quem poderia imaginar seriamente os EUA a saírem da Arábia Saudita ou de Israel? Isto não irá acontecer sem um verdadeiro cataclismo.

E quanto a países como a Turquia ou o Paquistão, formalmente aliados dos EUA mas que também mostram sinais claros de estarem fartos do tipo de “patrocínio” que os EUA gostam de prestar a seus “aliados”? Teremos nós alguma razão para acreditar que estes países algum dia exigirão oficialmente que os mercenários do tio Samuel (porque isso é que são as forças americanas, invasores pagos) saiam?

E há países como o Iraque ou o Afeganistão que abrigaram uma insurgência antiamericana muito bem-sucedida e ativa, que manteve as forças americanas acocoradas em bases pesadamente fortificadas. Não penso que exista por aí alguém mentalmente são que possa apresentar um cenário semi-crível de como seria uma “vitória” dos EUA nestes países. O facto de os EUA permanecerem no Afeganistão por mais tempo do que os soviéticos demonstrou não só que as forças soviéticas eram muito mais eficazes (e populares) do que suas contrapartes americanas, como também que o Politburo de Gorbachev estava mais em contacto com a realidade do que o Conselho de Segurança Nacional de Trump.

Seja qual for o caso, acredito ser inegável que as guerras no Iraque e no Afeganistão estão perdidas e que nenhuma quantidade de exibicionismo mudará este resultado. O mesmo vale para a Síria, onde os EUA estão basicamente a aferrar-se por pura obstinação e uma incapacidade total de admitir a derrota.

A “visão de paz” do tio Samuel para o Médio Oriente

Plano para a paz dos EUA.Acabei de ouvir o idiota em chefe apresentar orgulhosamente o “seu” plano de “paz” no Oriente Médio a Bibi Netanyahu e ao mundo. Esta última proeza mostra duas coisas cruciais sobre a mentalidade em Washington, DC:

1. Não há nada que as classes dominantes dos EUA não façam para tentar obter o favor e o apoio do lobby de Israel.

2. Os EUA não se importam, nem mesmo marginalmente, com o que pensam as pessoas do Médio Oriente.

Esta dinâmica, que não tem nada de novo mas que com Trump recebeu uma injeção qualitativa de esteroides, só contribuirá ainda mais para o inevitável colapso do Império no Médio Oriente. Por um lado, todos os chamados “aliados dos EUA” na região entendem que o único país que importa para os EUA é Israel e que todos os outros contam quase nada. Além disso, todos os governantes do Oriente Médio agora também sabem que ser aliado aos EUA também significa ser uma prostituta barata para Israel, o que, por sua vez, é um suicídio político garantido para qualquer político que não seja suficientemente sábio para farejar a armadilha. Finalmente, as guerras no Afeganistão, Iraque, Iémen, Líbano e Síria mostraram que o “Eixo da Bondade” (“Axis of Kindness”) é extenso em hipérbole e arrogância, mas muito curto em termos de capacidade de combate real.

A verdade simples é que a abjeta bajulação do lobby de Israel em que Trump se tem empenhado desde o primeiro dia de seu mandato só serve para isolar e enfraquecer ainda mais os EUA no Médio Oriente (e para além dele, na verdade!).

Neste contexto, quão realista é o objetivo iraniano de expulsar o tio Shmuel da região?

Como eu disse, nada realista de todo, se visto unicamente no curto prazo. Mas apresso-me a acrescentar que é muito realista a médio prazo se olharmos para alguns, mas não todos, os países da região. Finalmente, no longo prazo, não é apenas realista, é inevitável, mesmo que os próprios iranianos não façam muito, ou nada, para que isso aconteça.

Conclusão: os dias de “Israel” estão contados

Os israelenses têm-nos alimentado com uma dieta constante sobre este ou aquele país ou político ser um “novo Hitler” que gaseia “outra vez” seis milhões de judeus, ou quer varrer Israel do mapa ou mesmo empenhar-se num novo holocausto. Gilad Atzmon chama brilhantemente esse transtorno mental de “transtorno de stress pré- traumático”, e ele é observável. Os israelenses utilizaram principalmente este ” geschrei [1] antecipativo” como uma maneira de extrair tantas concessões (e dinheiro) dos goyim ocidentais quanto possível. Mas, num sentido profundo, é possível que os israelenses estejam pelo menos vagamente conscientes de que todo o seu projeto simplesmente não é viável, que não se pode garantir a sobrevivência de nenhum estado ao aterrorizar todos os seus vizinhos. A violência, especialmente cruel, raivosa, pode de facto aterrorizar pessoas, mas só por algum tempo. Mais cedo ou mais tarde, a alma humana superará qualquer medo, por mais visceral que seja, e substituirá aquele medo por um novo e imensamente poderoso senso de determinação.

Aqui está o que disse Robert Fisk em 2006, há 14 anos atrás:

Você ouvia Sharon, antes de ter sofrido o seu derrame, a usar esta frase no Knesset: “Os palestinos devem sentir dor”. Isto foi durante uma das intifadas. A ideia de que, se continuar a bater e bater e bater os árabes, eles se submeterão, e que finalmente ficarão de joelhos e darão o que você deseja. E isto é total, absolutamente ilusório, porque não se aplica mais. Isto se aplicava há 30 anos, quando cheguei ao Médio Oriente. Se os israelenses cruzavam a fronteira libanesa, os palestinos saltavam para os seus carros, guiavam para Beirute e iam ao cinema. Agora, quando os israelenses cruzam a fronteira libanesa, o Hezbollah salta para os seus carros em Beirute e corre para o sul para se juntar à batalha com eles. Mas o principal agora é que os árabes não têm mais medo. Seus líderes têm medo, os Mubaraks deste mundo, o presidente do Egipto, o rei Abdullah II da Jordânia. Eles estão com medo. Eles sacodem-se e tremem nas suas mesquitas douradas, porque foram apoiados por nós. Mas o povo já não tem medo.

O que era verdade só para alguns árabes em 2006, agora se tornou verdade para a maioria (talvez mesmo para todos?) dos árabes em 2020. Quanto aos iranianos, eles nunca tiveram medo do tio Shmuel, foram eles que “injetaram” o recém-criado Hezbollah com esta espécie qualitativamente nova de “coragem especial” (a qual é o ethos xiita, realmente!) quando foi fundado este movimento.

Impérios podem sobreviver a muitas coisas, mas, uma vez que não são mais temidos, então o seu fim está próximo. O ataque iraniano se provou uma nova realidade fundamental para o resto do mundo: os EUA têm muito mais medo do Irão do que o Irão tem medo dos EUA. Os governantes e políticos dos EUA alegarão, é claro, o contrário. Mas esse esforço fútil para remodelar a realidade está agora fadado ao fracasso, nem que seja porque mesmo os houthis podemagora desafiar aberta e com êxito o poder combinado do “Eixo da Bondade”.

Pode-se pensar dos líderes americanos e israelenses como a orquestra do Titanic: eles tocam bem, mas ainda ficarão molhados e depois morrerão.

2

1] geschrei:   palavra iídiche para gritar, gritar, berrar.

O original encontra-se em http://thesaker.is/u-s-posture-in-the-middle-east-preparing-for-disaster/

Este artigo encontra-se em https://resistir.info

Ler na íntegra: PÁTRIA LATINA

 

*Introdução à “A Personalidade Autoritária” [1950]*

DO: Theodor W Adorno

[* Publicado originalmente em Theodor Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel Levinson e  Nevitt Sanford, The Authoritarian Personality. Nova York: Harper, 1950. Reproduzido em Gesammelte Schriften Vol. 9, T. I [Soziologische Schriften II] Frankfurt: Surhkamp Verlag, 1975, p. 143-. Traduzido por Francisco Rüdiger de acordo com a versão editada em Critical Theory ana Society – A Reader, organizado  por Douglas Kellner e Stephen Bronner. Nova York: Routledge, 1989].

 

O assunto deste livro é a discriminação social mas seu propósito não é simplesmente acrescentar algumas descobertas empíricas a um corpo de informação já bastante extenso. A temática central do trabalho é um conceito relativamente novo – o surgimento de uma espécie “antropológica”, que podemos chamar de homem autoritário. Em contraste com o fanático de velho estilo, esse último parece combinar as idéias e habilidades típicas da sociedade altamente industrializada com crenças irracionais ou anti-racionais. Ele é ao mesmo tempo esclarecido e supersticioso, orgulhoso de ser um individualista e sempre temeroso de não ser igual aos outros, ciumento de sua independência e inclinado a se submeter cegamente ao poder e à autoridade. A estrutura de caráter que abarca essas tendências conflitantes já atraiu a atenção dos pensadores políticos e filósofos modernos. Este livro aborda o problema com os meios da pesquisa psicossociológica.

As implicações e valores do estudo são práticos tanto quanto teóricos. Os autores não acreditam que existe um desvio que leve à educação saindo da estrada longa e muita vezes sinuosa da pesquisa esmerada e da análise teórica. Também não pensam que o problema das minorias na sociedade moderna, e mais especificamente o problemas dos ódios raciais e religiosos, possam ser tratados com sucesso nem pela propaganda da tolerância nem pela refutação apologética dos seus erros e mentiras. Por outro lado, a atividade teórica e a aplicação prática não estão separadas por um abismo intransponível. Bem pelo contrário: os autores estão imbuídos da convicção de que a elucidação científica, sistemática e sincera de um fenômeno de tal significado histórico pode contribuir diretamente ao melhoramento da atmosfera cultural da qual o ódio se alimenta.

Trata-se de uma convicção que não deve ser posta de lado como uma ilusão otimista. Na história da civilização, tem havido muitos momentos em que as ilusões coletivas não foram curadas pela propaganda mas, no final da análise, porque os homens de ciência e seus hábitos de trabalho insistentes e discretos estudaram o que jaz na raiz da impostura.

Gostaríamos de citar dois exemplos. A crença supersticiosa na feitiçaria foi superada nos séculos dezessete e dezoito, depois que os homens começaram a viver sob influência dos resultados da ciência moderna. O impacto do racionalismo cartesiano foi decisivo. Essa escola filosófica demonstrou que a crença no efeito imediato dos fatores espirituais no domínio corporal, até então aceita, era ilusória. Os cientistas naturais que os seguiram fizeram uso prático desse formidável discernimento. Os fundamentos da crença na magia foram pois destruídos, uma vez eliminado aquele dogma, tornado cientificamente insustentável.

Como exemplo mais recente, só podemos pensar no impacto da obra de Sigmund Freud na cultura moderna. Sua importância primeira não repousa no fato de que o conhecimento e a pesquisa psicológica foram enriquecidos por novas descobertas mas no fato de que há cerca de cinquenta anos o mundo intelectual, especialmente o educacional, se tornou muito mais consciente da conexão entre a repressão infantil (fora e dentro de casa) e a ingênua ignorância social a respeito da dinâmica psicológica da vida da criança tanto quanto do adulto. A penetração espontânea na consciência social  da experiência cientificamente adquirida de que os eventos da primeira infância são de primordial para a felicidade e o potencial de trabalho do adulto produziu uma revolução na relação entre pais e filhos que teria sido julgada impossível cem anos atrás.

O presente trabalho esperamos, encontrará um lugar nesta história de dependência mútua entre ciência e clima cultural. Seu objetivo último é abrir novos caminhos numa área de pesquisa que pode se tornar de significado prático imediato. Ele procura desenvolver e promover o entendimento dos fatores socio-psicológicos que tornam possível ao tipo autoritário ameaçar o posto do tipo democrático e individualista dominante em nossa civilização no último século e meio, assim como os fatores por meio dos quais essa ameaça pode ser contida. A análise progressista desse novo tipo antropológico, bem como de suas condições de crescimento, através de sua permanente diferenciação científica,  fortalecerão as chances de um contra-ataque genuinamente educativo.

A confiança na possibilidade de um estudo mais sistemático dos mecanismos de discriminação e, em especial, da caracteriologia do tipo descriminador não se baseia apenas na experiência histórica dos últimos quinze anos mas, também, nos desenvolvimentos ocorridos dentro das ciências sociais em décadas recentes. Esforços consideráveis e bem sucedidos têm sido feitos neste país tanto quanto na Europa para conduzir as várias disciplinas que têm o homem como fenômeno até o plano da cooperação  organizacional com que já se acostumou as ciências naturais. Assim o que pensamos não é apenas um arranjo mecânico com o objetivo de reunir o trabalho feito em vários campos de estudo, como ocorre em simpósios e livros textos; mas uma mobilização de diferentes métodos e habilidades desenvolvidos em distintos campos da teoria e pesquisa empírica com o objetivo de desenvolver um programa de pesquisa comum.

Afinal é exatamente essa fertilização recíproca de diferentes ramos das ciências sociais e da psicologia que tem lugar no presente volume. Os especialistas nos campos da teoria social e da  psicologia profunda, da análise de conteúdo, psicologia clínica, sociologia política e testes projetivos congregaram suas experiências e descobertas. Tendo trabalhado juntos na mais íntima colaboração, eles agora apresentam como resultado de seus esforços conjuntos os elementos de uma teoria do tipo autoritário na sociedade moderna.

Eles estão cientes de que não são os primeiros a estudar este fenômeno e reconhecem com gratidão seu débito para com os notáveis perfis psicológicos do indivíduo preconceituoso feitos por Sigmund Freud, Maurice Samuel, Otto Fenichel e outros. Discernimentos brilhantes como os deles foram em certo sentido pré-requisitos indispensáveis da integração metodológica e organização da pesquisa a que se propôs este estudo. Desejamos pensar que a realizamos até certo ponto e com uma dimensão que, até agora, não tinha sido atingida.

A pesquisa a ser relatada neste volume foi guiada pela seguinte hipótese principal: as convicções econômicas,, políticas e sociais de um indivíduo muitas vezes foram uma padrão amplo e coerente, como que se estivessem ligadas por uma “mentalidade” ou “espírito”, e esse padrão é expressão de tendências profundas em  sua personalidade.

A  preocupação maior foi com o indivíduo potencialmente fascista, aquele cuja estrutura é tal que é capaz de torná-lo particularmente suscetível à propaganda antidemocrática. Dizemos “potencial” porque nós não estudamos indivíduos que eram confessadamente fascista ou que pertenciam a conhecidas organizações fascistas. Na época em que a maior parte de nossos dados foi recolhida, o fascismo recém tinha sido derrotado e, por isso, não podíamos esperar encontrar sujeitos que abertamente se identificassem com ele. No entanto não houve dificuldade em descobrir sujeitos cujo perfil era capaz de indicar que eles rapidamente aceitariam  o fascismo, se ele se tornasse um movimento social forte ou respeitável.

Concentrando-nos no fascista em potencial não queremos deixar implícito que outros padrões de personalidade e ideologia não poderiam ser estudados do mesmo modo e com igual proveito. É nossa opinião,  porém , que nenhuma tendência político-social impõe uma ameaça maior a nossos valores e instituições do que o fascismo, e que o conhecimento das forças subjetivas que favorecem sua aceitação, derradeiramente, podem se mostrar úteis em seu combate. A questão que pode ser levantada é porque se desejamos explorar novos recursos para combater o fascismo, nós não demos muita atenção para o “potencial antifascista”. A resposta é que nós estudamos a tendência que se coloca em oposição ao fascismo, mas nós não cremos que ela constitua um simples padrão. Uma das maiores descobertas do presente estudo é que os indivíduos que revelam extrema suscetibilidade à propaganda fascista têm muito em comum. (Eles exibem numerosas características que se juntam para formar uma síndrome, ainda que variações típicas dentro desse padrão mais amplo possam ser distinguidas.) Os indivíduos que estão no extremo da direção oposta ao fascismo são muito mais diversificados. A tarefa de diagnosticar o potencial de fascismo e estudar seus fatores determinantes exigiu técnicas especialmente desenhadas para esses propósitos; não se poderia pedir que servissem também para os vários outros tipos de padrão. No entanto, foi possível distinguir vários tipos de estrutura de personalidade que nos pareceram particularmente resistentes às idéias antidemocráticas, como se pode ver pela atenção que lhes demos no último capítulo.

Se o indivíduo potencialmente fascista existe, com o que, precisamente ele se parece ? O que faz com que haja um pensamento antidemocrático ? E se tal pessoa existe, quais têm sido os determinantes e qual o curso de seu desenvolvimento ?

A presente pesquisa foi desenhada para lançar alguma luz sobre essas  questões. Embora a noção segundo a qual o indivíduo potencialmente antidemocrático é uma totalidade possa ser aceita como hipótese plausível, é preciso alguma análise para começar. Na maioria das abordagens do problema dos tipos políticos, pode-se distinguir entre a concepção da ideologia e a concepção das necessidades subjacentes na pessoa. Embora ambas possam ser pensadas como formando um todo organizado dentro do indivíduo, elas todavia podem ser estudadas separadamente. As mesmas tendências ideológicas podem ter diferentes fontes em diferentes indivíduos, e as mesmas necessidades pessoais podem se expressar em diferentes tendências ideológicas.

O termo ideologia é usado neste livro do modo que é comum na literatura corrente, para dar conta de uma organização de opiniões, atitudes e valores – um modo de pensamento  do homem e da sociedade. Podemos falar de uma ideologia total do indivíduo ou de seu ideologia com relação a diferentes aspectos da vida social: economia, religião, grupos minoritários e assim por diante. As ideologias têm uma existência independente em relação à qualquer indivíduo; e aqueles que existem em uma determinada época são resultado ao mesmo tempo de processos históricos e eventos sociais contemporâneos. Essas ideologias têm diferentes graus de apelo para diferentes indivíduos, pois isso depende das necessidades individuais e do grau em que essas necessidades estão sendo satisfeitas ou frustradas.

Para ser exato, existem indivíduos que tomam para si idéias de mais de um sistema ideológico existente, misturando-as em padrões mais ou menos exclusivos. Entretanto, ao examinar-se as opiniões, atitudes e valores de numerosos indivíduo, pode-se descobrir padrões comuns. Embora esses padrões possam não corresponder em todos os casos às ideologias correntes, ainda assim satisfazem a definição de ideologia dada acima e, caso a caso,  desempenham uma função dentro do ajustamento geral do indivíduo.

A presente investigação sobre a natureza do indivíduo potencialmente fascista começou tendo como foco de atenção o anti-semitismo. Os autores, como a maioria dos cientistas sociais, defendem a visão, primeiro,  de que o anti-semitismo se baseia mais amplamente em fatores subjetivos e em sua situação global do que em reais características dos judeus e, segundo , de que os determinantes de suas opiniões e atitudes devem ser procurados dentro das pessoas que as expressam. Considerando que essa ênfase na personalidade requeria focar a atenção na psicologia mais do que na sociologia ou na história, embora em última análise os três campos só possam ser separados artificialmente, não haveria nenhuma tentativa de dar conta da existência de idéia anti-semitas em nossa sociedade. A questão que se colocou foi, antes, saber porque é que certos indivíduos aceitam essas idéias enquanto outros não ? E dado que desde o início a pesquisa foi guiada pelas hipóteses acima mencionadas, supôs-se que (1) o anti-semitismo provavelmente não é um fenômeno específico ou isolado, mas parte de um quadro de referência ideológico mais amplo; e (2) a suscetibilidade do indivíduo a essa ideologia depende primariamente de suas necessidades psicológicas.

Os discernimentos e hipóteses relativas ao indivíduo antidemocrático, presentes em nosso clima cultural mais amplo, precisam ser corroboradas por uma grande quantidade de observação meticulosa, e em muitos casos pela mensuração, antes de poderem ser vistas conclusivamente. Como se pode dizer com segurança que as numerosas opiniões, atitudes e valores expressos por um indivíduo realmente constituem um padrão consistente ou totalidade organizada ? Para tanto parece-nos que seria necessária a mais completa investigação desse indivíduo. Como se pode dizer que as opiniões atitudes e valores descobertos em um grupo de pessoas se juntam para formar padrões, dos quais alguns são mais comuns do que outros ? Não existe outro caminho adequado para proceder do que realmente medindo a ampla variedade de conteúdos do pensamento da população examinada e determinando quais são os que se juntam, por meio de métodos estatísticos padronizados.

Para muitos psicólogos sociais, o estudo científico da ideologia, como tem sido definido, parece uma tarefa sem esperança. Medir com cuidado confiável uma atitude específica, singular e isolada é um procedimento árduo e demorado, quer para o sujeito quer para o pesquisador. (Freqüentemente se argumenta que uma atitude  só pode ser medida de maneira adequada se for específica e isolada.) Como então esperamos sondar, dentro de um período de tempo razoável, as várias atitudes e idéias que formam um ideologia ? Evidentemente algum tipo de seleção é necessária. O investigador precisa se limitar ao que é mais importante, e os juízos de relevância só podem ser feitos com base em uma  teoria.

As teorias que guiaram a presente pesquisa serão apresentadas de acordo com o contexto, mais adiante. Embora as considerações teóricas tenham um papel em cada etapa do trabalho, o princípio foi o estudo objetivo das opiniões, atitudes e valores mais observáveis e relativamente específicos.

Opiniões, atitudes e valores, tais como os concebemos, são expressas mais ou menos abertamente em palavras. Psicologicamente eles estão sempre “na superfície”. Precisa ser reconhecido porém que quando se chega a questões muito carregadas de afeto, como as concernentes às minorias e tópicos de política atual, o grau de abertura com o qual a pessoa fala dependerá da situação em que ela se encontra. Poderá haver uma discrepância entre o que ela diz em uma ocasião particular e o que ela “realmente pensa”. Dizemos que o que ela realmente pensa ela expressa em discussões confidenciais com os que lhe são íntimos. Embora ainda muito superficial do ponto de vista psicológico, isso [suas idéias]  todavia também  pode ser observado diretamente pelo psicólogo, se ele usa as técnicas apropriadas. Foi isso que tentamos fazer.

Precisamos reconhecer porém que o indivíduo pode ter pensamentos “secretos”, que ele não revelará a ninguém, em nenhuma circunstância, se puder evitar. Ele pode ter idéias que não admite nem para si mesmo, assim como pode ter idéias que não expressa, porque  são tão vagas e mal-formadas que não consegue pô-las em palavras. Ter acesso a essas tendências profundas é particularmente importante, porque exatamente aí pode repousar o potencial do indivíduo para o pensamento e a ação democrática ou para o pensamento e ação antidemocrática em situações cruciais.

O que as pessoas dizem e, em menor grau, o que elas realmente pensam depende em muito do clima de opinião em que ela vivem; mas quando esse  clima muda, alguns indivíduos se adaptam muito mais rapidamente do que outros. Se houvesse um aumento marcante na propaganda antidemocrática, deveríamos esperar que algumas pessoas a aceitem e passem a repeti-la; outras, que assim o façam  quando “todos o mundo estiver acreditando”; e, ainda, que haja  outras que não o façam. Noutras palavras, os indivíduo diferem em sua prontidão para exibir as tendências antidemocráticas. Parece necessário estudar a ideologia neste “nível de prontidão” a fim de medir o potencial de fascismo deste país. Observadores têm notado que a quantidade de anti-semitismo implícito existente na Alemanha antes de Hitler era menor do que a existente neste país, mas isso só pode ser sabido através de uma investigação intensiva; através de uma sondagem detalhada do que há na superfície e através do exame do que está por detrás dela.

A questão que pode ser levantada é sobre qual é o grau de relacionamento entre a ideologia e a ação. Se um indivíduo está fazendo propaganda antidemocrática ou se engajando em ataques abertos contra os membros de uma minoria, é geralmente assumido que suas opiniões, atitudes e valores são congruentes com sua ação; mas às vezes se encontra conforto na idéia de que, embora verbalmente o indivíduo expresse idéias antidemocráticas, ele não as põe, nem vai pô-la, em ação. Aqui de novo existe a questão das potencialidades. A ação aberta tanto quanto uma expressão verbal do mesmo tipo depende em grande parte da situação existente, de algo que pode ser melhor descrito em termos socioeconômicos e políticos. Mas os indivíduos diferem amplamente com respeito a sua prontidão, quando é para serem levados à ação. O estudo desse potencial é parte do estudo da ideologia global do indivíduo; saber que tipos de crença, atitude e valor o levam à ação, assim como o que as intensifica e quais forças dentro dele servem de inibidores dessa ação são assuntos da maior importância prática.

Parece haver pouca razão para duvidar que a prontidão ideológica (receptividade ideológica) e a ideologia em palavras e ação são essencialmente a mesma coisa. A  descrição da ideologia global de um indivíduo precisa retratar  não apenas a organização de cada nível mas a organização entre os níveis ideológicos [de sua personalidade]. O que o indivíduo diz  em público com consistência; o que ele diz quando se sente à salvo de crítica; o que ele pensa mas não dirá de modo algum; o que ele pensa mas não admitirá sequer para si mesmo; o que ele está disposto a pensar ou fazer quando vários tipos de apelo forem feitos a ele – todos esses fenômenos podem ser concebidos como constituindo uma só estrutura. A estrutura pode não ser integrada, conter contradições tanto quanto consistência, mas é organizada de forma que suas partes constitutivas sejam relacionadas de modo psicologicamente significativo.

A fim de entender tal estrutura, necessitamos de uma teoria global da personalidade. De acordo com a teoria que guia a presente pesquisa, a personalidade é uma organização de forças mais ou menos duradoura dentro do indivíduo. As forças da personalidade ajudam a determinar a resposta a várias situações e portanto é sobretudo a elas que devemos atribuir a consistência – seja verbal ou física – do referido comportamento. Entretanto comportamento, ainda que consistente, não é a mesma coisa que personalidade; personalidade é o que repousa atrás do comportamento e dentro do indivíduo. As forças da personalidade não são respostas mas prontidão para resposta; se essa prontidão vai ou não resultar em expressão aberta, depende não apenas da situação do momento mas também de qual outra prontidão se encontra em oposição a ela. As forças personalidade que são inibidas o são em um nível mais profundo daquelas que se expressam de maneira imediata e consistente no comportamento aberto.

Quais são as forças da personalidade e quais são os processos através dos quais são organizados ? Para dar conta teoricamente da estrutura da personalidade nós nos baseamos muito em Freud, enquanto no tocante à formulação mais ou menos sistemática dos aspectos mais observáveis e mensuráveis da personalidade fomos guiados sobretudo pela psicologia acadêmica. As forças da personalidade são antes de mais nada necessidades (instintos, desejos, impulsos emocionais) que variam de um indivíduo para outro em quantidade, intensidade, modo de gratificação e objetos de fixação. Além disso, elas  interagem umas com as outras de acordo com padrões harmoniosos ou conflitantes. Existem necessidades emocionais primitivas; existem necessidades para evitar punição e para manter a boa vontade do grupo social; e existem necessidades para manter a harmonia e integração dentro do eu.

Considerando que será aceita a idéia de que as opiniões, atitudes e valores se baseiam em necessidades humanas e dado que a personalidade é essencialmente uma organização de necessidades, a personalidade pode ser vista pois como um determinante das preferências ideológicas. Entretanto  a personalidade não deve ser hispotasiada como um determinante último. Longe de ser algo que é dado, que permanece fixo e atua sobre o mundo circundante, a personalidade se desenvolve sob o impacto do meio social e jamais pode ser isolada da totalidade social dentro da qual esse processo ocorre. De acordo com esta teoria, os efeitos dos fatores ambientais na modelagem da personalidade são, em geral, mais profundas quanto mais cedo eles se fazem presentes na história de vida do indivíduo. As principais influências sobre o desenvolvimento da personalidade surgem no curso do ensinamento dado à criança no cenário da vida familiar. O que acontece aqui é profundamente influenciado pelos fatores econômicos e sociais. O problema não é apenas o  fato de cada família tentar criar suas crianças de acordo com as normas dos grupos sociais, étnicos e religiosos a que pertencem. Também ocorre que fatores econômicos afetam diretamente o comportamento dos pais em relação às crianças. Isso significa que as mudanças mais amplas nas condições sociais e nas instituições terão relevância direta no tipo de personalidade que se desenvolve em uma sociedade.

A presente pesquisa procura descobrir as correlações entre a ideologia e os fatores sociológicos que operam no passado individual – quer eles continuem ou não a operar no presente. Tentando explicar essas correlações, faz-se um retrato das relações entre a personalidade e ideologia. A abordagem geral consiste em considerar a personalidade como um agência através da qual os fatores sociológicos são os mais cruciais e, além disso, o modo como esses últimos produzem seus efeitos.

Embora a personalidade seja produto do ambiente social passado, uma vez desenvolvida ela deixa de ser um mero objeto do ambiente contemporâneo. O que se desenvolveu é uma estrutura dentro do indivíduo, algo que é capaz de selecionar os vários estímulos que lhe são impingidos e que é capaz de iniciar suas próprias ações no contexto social; algo que embora seja sempre modificável é muitas vezes resistente à mudanças fundamentais. Essa concepção é necessária para explicar a consistência do comportamento em situações que variam de forma tão ampla; para explicar a persistência das tendências ideológicas em face dos fatos que as contradizem e de condições sociais que são alteradas radicalmente; para explicar por que as pessoas de mesma situação social têm visões diferentes ou mesmo conflitantes sobre as mesmas questões sociais; e [enfim] para explicar   por que pessoas cuja  conduta foi mudada através de manipulação psicológica retornam às suas velhas maneiras logo que as agências de manipulação são removidas.

A concepção da personalidade como estrutura é a melhor salvaguarda contra a inclinação a atribuir as tendências persistentes no indivíduo a algo “inato” ou “básico” ou “racial” que existe dentro dele. A alegação nazista segundo a qual são os traços naturais e biológicos que decidem o modo de ser global de uma pessoa não seria um expediente político tão bem sucedido se não fosse possível apontar as numerosas instâncias de fixação relativa na conduta humana e desafiasse aqueles que pensam poder explicá-las em qualquer outra base que não a biológica. Privados do entendimento da personalidade como estrutura, os autores cuja abordagem  descansa na premissa de que a capacidade humana de responder e se adaptar à situação social existente é infinita em nada ajudaram, no tocante à matéria, ao referir-se às tendências persistentes com as quais eles não concordam como “confusão”,  “psicose” ou o [próprio] mal, sob um ou outro nome. Obviamente, existe alguma base para descrever como “patológicos” os padrões  de conduta que não se conformam às respostas tidas como mais comuns e, aparentemente, mais regulares aos estímulos do momento. Porém isso é usar o termo patológico no sentido muito estreito de desvio da média encontrada em um contexto social particular e, o que é pior, sugerir que tudo aquilo que existe na estrutura da personalidade pode ser posto sob esse título. Realmente a personalidade abarca variáveis amplamente disseminadas na população e que, como tais, possuem relações regulares umas com as outras. Os padrões de personalidade que têm sido desprezados como “patológicos”, porque não estão de acordo com as tendências manifestas mais comuns, ou mesmo com a maioria dos ideais dominantes existentes na sociedade, revelam-se à luz de uma investigação mais detalhada não ser senão exageros de algo que é quase universal no plano subjacente a essa sociedade. O que é “patológico” hoje pode se tornar a tendência dominante de amanhã, com a mudança das condições sociais.

Parece claro então que uma abordagem adequada dos problemas que temos pela frente precisa levar em conta ao mesmo a fixidez e flexibilidade [da personalidade]; precisa ver as duas coisas não como categorias  mutuamente exclusivas, mas como extremos de um mesmo contínuo, ao longo do qual as características humanas podem ser colocadas; e, por fim, precisa nos dar a base para entender as condições que favorecem um ou outro extremo. Personalidade é um conceito para dar conta de uma permanência relativa. Porém podemos enfatizar mais uma vez que ele designa  sobretudo um potencial;  é a prontidão para conduta antes  que a própria conduta. Embora consista em disposições para se conduzir de certo modo, a conduta realmente verificada vai depender da situação  objetiva. Onde a preocupação é com as tendências antidemocráticas, a delimitação das condições para expressão individual requer um entendimento das organização global da sociedade.

Afirma-se há algum tempo que a estrutura da personalidade pode ser tal que torna o indivíduo suscetível à propaganda antidemocrática. Pode-se agora perguntar quais são as condições sob as quais tal propaganda poderia, aumentando seu grau e volume, vir a dominar a imprensa e o rádio e excluir os estímulos ideológicos contrários, de modo que o que agora jaz em potencial se tornasse efetivamente manifesto. A resposta não deve ser procurada em qualquer personalidade singular, nem nos fatores de personalidade existentes na massa da população, mas nos processos em ação na sociedade. Atualmente parece bem entendido que se a propaganda antidemocrática vai ou não se tornar uma força dominante neste país depende fundamentalmente da situação da maior parte dos interesses econômicos mais poderosos; se eles, seja ou não através  de um plano consciente, farão uso desse expediente para manter seu status dominante; e essa é uma matéria sobre a qual a grande maioria das pessoas teria pouco a dizer.

A presente pesquisa, limitada, como o é, aos aspectos psicológicos do fascismo, até agora amplamente negligenciados, não está preocupada com a produção da propaganda. Seu foco de atenção é, antes o consumidor, o indivíduo a quem a propaganda é projetada. Procedendo assim tenta dar conta não apenas da estrutura psicológica do indivíduo mas da situação objetiva global em que ele vive. Ela parte da hipótese de que as pessoas em geral tendem a aceitar os programas políticos e sociais que elas acreditam servirão a seus interesses econômicos. Quais são esses interesses depende, em cada caso, da posição econômica e social do indivíduo. Por isso, a tentativa de descobrir quais são os padrões socioeconômicos que se associam à receptividade mas também à resistência à propaganda antidemocrática foi um importante elemento levado em conta na presente investigação.

Ao mesmo tempo, porém, considerou-se que as motivações econômicas que agem sobre o indivíduo podem não ter o papel determinante e crucial que muitas vezes lhes são atribuídas. Se o interesse econômico fosse o único fator determinante da opinião, deveríamos esperar que as pessoas do mesmo status socieconômico tivessem opiniões muito similares; deveríamos esperar que a opinião variasse significativamente apenas de um para outro grupo socioeconômico. A pesquisa não trouxe porém apoio expressivo a essas expectativas. Existe apenas a similaridade mais geral de opinião entre as pessoas de um mesmo status socioecômico, mas com flagrantes exceções. Por outro lado, as variações de um grupo socioeconômico para outro só poucas vezes são simples ou bem delimitadas. Para explicar por que as pessoas do mesmo status socioeconômico muitas vezes possuem ideologias diferentes, mas também por que as pessoas de status diverso muitas vezes têm ideologias similares, precisamos levar em conta outras necessidades que não as meramente econômicas.

Além disso, está se tornando cada vez mais claro que, na maior parte das vezes, as pessoas não se comportam de uma certa maneira porque visam seus interesses materiais, mesmo quando é claro para elas quais são esses interesses. A resistência dos trabalhadores de colarinho branco à organização não se deve à crença de que o sindicato não os ajudará economicamente; a tendência dos pequenos empresários a se aliar aos grandes na maioria dos assuntos políticos e econômicos não se deve inteiramente à crença de que isso é um modo de garantir sua independência econômica. Em casos como esses, o indivíduo parece não apenas não  considerar seus interesses materiais mas mesmo ir contra eles: é  como se ele pensasse em termos de um grupo de identificação mais amplo, como se seu ponto de vista fosse determinado mais por sua necessidade de apoiar esse grupo e suprimir os que lhes fazem oposição do que pela consideração racional de seus próprios interesses.

Na realidade, é procurando alívio que se assegura hoje de que um conflito de grupo não passa de um choque de interesses econômicos, de que cada um dos lados está meramente superar o outro –  não sendo uma luta na qual estão em jogo impulsos emocionais muito profundos. A verdade porém é que quando se chega à maneira como as pessoas julgam o mundo social, as tendências irracionais sobressaem-se claramente. Pode-se conceber que um profissional que se opõe à imigração dos refugiados judeus com base em que isso aumentará a competição com que tem de lidar e, assim, poderá vir a diminuir seus rudimentos. Por mais que isso possa ser antidemocrático, ao menos tem algum racionalidade. Para que esse homem porém vá adiante e, como fazem a maioria dos pessoas que se opõem aos judeus nestes termos,  aceite uma ampla variedade de opiniões, muito das quais contraditórias sobre esse povo em geral, atribuindo vários males do mundo aos mesmo, é preciso algo totalmente ilógico, como o é também, aliás,  elogiar todos os judeus, de acordo com o seu estereótipo “positivo”. Indubitavelmente existe hostilidade contra  grupos  baseada em frustrações reais provocadas por alguns de seus integrantes.  Entretanto essas experiências de frustração dificilmente dão conta do fato de como o preconceitos tem aptidão a se generalizar. Evidências do presente estudo confirmam o que tem sido muitas vezes indicado: o homem que é hostil para com uma muito provavelmente o será também contra uma ampla variedade de outras minorias; e não existe base racional concebível para esse tipo de generalização. Porém o que é mais surpreendente é que tanto  o preconceito contra quanto a aceitação totalmente acrítica de um grupo particular muitas vezes existe na total ausência de experiência com membros desse grupo. A situação objetiva do indivíduo parece pois um fonte improvável de tal irracionalidade e, sendo assim, devemos procurá-la antes lá onde a psicologia já encontrou as fontes do sonhos, fantasias e interpretações equivocadas do mundo; isto é, nas necessidades profundas da personalidade.

Outro aspecto da situação individual que devemos esperar afete a sua  receptividade ideológica é sua pertença aos grupos sociais, sejam ocupacionais, fraternais, religiosos e assemelhados. Devido a razões históricas e sociológicas, esses grupos favorecem e sancionam, oficial ou não-oficialmente, diferentes padrões de pensamento. Existe razão para acreditar que os indivíduos, em meio as suas necessidades de se ajustar, relacionar e crer através de expedientes como imitação e condicionamento, assumem as opiniões, atitudes e valores mais ou menos prontas e que caracterizam  os grupos a que pertencem. Na medida em que as idéias que prevalecem em tal grupo são implícita ou explicitamente antidemocráticas, pode-se esperar que seus  integrantes individuais sejam receptivos à propaganda portadora de mesma direção ideológica. De acordo com isso, a presente pesquisa investiga a variedade de grupos a que o indivíduo se filia, com o objetivo de descobrir, em cada um deles, quais são e como variam as tendências gerais de pensamento.

No entanto,  sabe-se que a correlação entre os membros de um grupo e a ideologia pode, em cada indivíduo, dever-se a diferentes tipos de determinação. Em alguns casos, pode ocorrer por exemplo que o indivíduo meramente repita as opiniões aceitas em seu meio social e que, por isso, ele não tenha razão para questionar. Em outros casos, porém, pode ocorrer que o indivíduo escolha se juntar a um grupo particular porque ele representa idéias com as quais ele já tinha simpatia. O fato é que, à despeito da extensão de sua cultura comum, na sociedade moderna é raro uma pessoa se sujeitar apenas a um padrão de idéias, depois que se tornou velha o bastante para as idéias ainda significarem algo para ela. Pode-se supor pois que geralmente alguma seleção é feita, de acordo com as necessidades da personalidade. Mesmo quando os indivíduos são expostos durante seus anos de formação apenas a um conjunto de padrões de idéias políticas econômicas, sociais e religiosas, descobre-se que alguns se conformam enquanto outros se rebelam, o que parece sugerir a propriedade de se inquirir se os fatores subjetivos não fazem a diferença. De todo modo, a abordagem mais frutífera seria, ao que parece, considerar que na determinação da ideologia, como na determinação de qualquer conduta, existe um fator situacional e um fator subjetivo, e que só a mensuração cuidadosa do papel de cada um deles possibilitará a predição mais acurada [do comportamento individual].

Fatores situacionais, sobretudo a condição econômica e a afiliação a grupos sociais, têm sido muito estudados em recentes trabalhos sobre opinião e atitudes, enquanto os fatores mais internos e individualísticos não têm recebido a merecida atenção. Além disso, ainda existe uma outra razão para que o presente estudo dê ênfase particular sobre a personalidade. O fascismo precisa ter uma base de massas, a fim de ser bem sucedido como movimento político. Ele precisa se assegurar não apenas da submissão aterrorizada mas da cooperação ativa da grande maioria da população. Dado que por sua própria natureza ele favorece uns poucos às custas da maioria, ele provavelmente não pode demonstrar que vai melhorar a situação dessa última servindo a seus reais interesses. Desse modo precisar dirigir seus maiores apelos não ao interesses racional mas às necessidades emocionais, muitas vezes aos desejos e medos mais primitivos e irracionais. Argüindo que a propaganda fascista engana as pessoas fazendo-as crer que sua sorte vai melhorar, surge então a questão: Por que elas são tão facilmente enganadas ? Podemos pensar que é por causa de sua estrutura de personalidade; por causa de modelos de esperança e aspirações, medos e ansiedades há muito tempo estabelecidos, que as predispõem a certas crenças e as tornam resistentes a outras. Noutros termos, pode-se dizer que a tarefa da propaganda fascista é tornada mais fácil na medida em que os potenciais antidemocráticos já existem na grande massa das pessoas. Aceita-se como dado que na Alemanha os conflitos econômicos e abalos sociais eram tais que o triunfo do fascismo seria mais ou mais tarde inevitável. Entretanto, os líderes nazistas não agiram como se eles assim acreditassem; ao invés, agiram como se fosse necessário a cada momento levar em conta a psicologia popular – ativar cada grama de seu potencial antidemocrático, comprometer-se com as pessoas, suprimir a menor faísca de rebelião. Parece pois que qualquer tentativa de avaliar as chances do triunfo do fascismo nos Estados Unidos precisa dar conta do respectivo potencial existente no caráter das pessoas.

Os autores deste trabalho acreditam que cabe ao povo decidir se este país vai ou não se tornar fascista. Assume-se porém que o conhecimento da natureza e extensão do potencial antidemocrático indicará os programas para ação democrática. Mas esses programas não se deveriam  limitar aos expedientes para manipular as pessoas de modo tal que eles se comportem mais democraticamente. Deveriam, ao invés, dedicar-se a aumentar o tipo de auto-consciência e auto-determinação que tornam impossível qualquer tipo de manipulação.

[Afinal] Existe uma explicação para a a existência de uma ideologia individual que ainda não foi considerada: a visão de mundo que um homem razoável, com algum entendimento do papel dos determinismos discutidos acima e com total acesso as fatos necessários pode organizar para si mesmo. Essa concepção, embora tenha sido deixada por último, é de crucial importância para uma correta abordagem da ideologia. Sem ela nós teríamos de compartilhar a visão destrutiva, que ganhou certa aceitação no mundo moderno, e segundo a qual não existe base para dizer que uma ideologia ou filosofia tem mais mérito do que outra, dado que todas elas derivam de fontes não-racionais.

Porém, convém notar que  o sistema racional de um homem objetivo e consciente não é uma coisa separável de sua personalidade. Esse sistema também é motivado. Do ponto de vista de suas fontes o que o distingue  é sobretudo o tipo de organização da personalidade que delas se origina. Poder-se-ia dizer que uma personalidade madura (usemos  o termo sem defini-lo, no momento) chegará mais perto de obter um sistema racional de pensamento do que uma imatura. Entretanto uma personalidade não é menos dinâmica e menos organizada por ser madura; por isso, a descrição da estrutura dessa personalidade não é diferente em espécie da descrição de qualquer outra personalidade. Teoricamente, as variáveis de personalidade que mais têm a ver com a determinação da objetividade e racionalidade de uma ideologia são aquelas que pertencem ao ego, aquela parte da personalidade que julga a realidade, integra suas outras partes e opera com a percepção mais consciente.

No final das contas, é o ego que se torna consciente  e assume as responsabilidades pelas forças que operam na personalidade. É essa a base da nossa crença de que o objetivo de saber quais são as determinações psicológicas da ideologia é fazer com que o homem se torne mais razoável. Obviamente não se está pretendendo com isso eliminar as diferenças de opinião. O mundo é suficientemente complexo e difícil de conhecer; os homens têm muitos interesses reais em conflito entre si; e existem na personalidade diferenças aceitáveis pelo ego em  número suficiente para assegurar que os argumentos sobre política, economia e religião jamais se entorpecerão. O conhecimento das determinações psicológicas da ideologia não pode nos dizer qual é a ideologia mais verdadeira; ele só pode remover algumas das barreiras que se antepõem à sua procura.

http://adorno.planetaclix.pt/

*A Morte Anunciada do US Dólar

Do: PÁTRIA LATINA

Depois de publicar o artigo de Michael Hudson ” EUA intensificam sua guerra democrática pelo petróleo do Médio Oriente “, decidi pedir ao Michael para responder a algumas perguntas. Michael concordou muito gentilmente.

The Saker: Trump tem sido acusado de não pensar à frente, de não ter uma estratégia de longo prazo quanto às consequências do assassínato do general Soleimani. Será que os Estados Unidos têm de facto uma estratégia no Médio Oriente ou trata-se apenas de ações pontuais?

Michael Hudson: É claro que estrategistas americanos negarão que as ações recentes não refletem uma estratégia deliberada, porque a sua estratégia a longo prazo é tão agressiva e exploradora que chocaria o público americano como sendo imoral e ofensiva se eles viessem a público e a declarassem.

O presidente Trump é apenas o motorista do táxi, ele leva os passageiros que aceitou – Pompeo, Bolton e os neocons com a síndrome do transtorno iraniano – aonde quer que lhe digam que querem ser conduzidos. Eles querem fazer um assalto e ele está a ser usado como o motorista da fuga (aceitando totalmente seu papel). Seu plano é manter a principal fonte de receita internacional: a Arábia Saudita e os excedentes e recursos monetários em torno das exportações de petróleo do Médio Oriente. Eles veem os EUA a perderem sua capacidade de explorar a Rússia e a China e procuram manter a Europa sob o seu controle através da monopolização de setores-chave, de modo a terem o poder de usar sanções para esmagar países que resistam a transferir o controle das suas economias e monopólios naturais rentistas a compradores dos EUA. Em suma, os estrategistas dos EUA gostariam de fazer à Europa e ao Médio Oriente exatamente o que fizeram à Rússia sob Yeltsin: entregar infraestrutura pública, recursos naturais e sistema bancário a proprietários dos EUA, confiando no crédito em US dólar para financiar seus gastos governamentais internos e o investimento privado.

Isto é basicamente uma captura de recursos. Soleimani estava na mesma posição de Allende do Chile, de Qadaffi da Líbia, de Saddam do Iraque. O lema é aquele: “Nenhuma pessoa, nenhum problema”.

The Saker: A sua resposta levanta uma pergunta acerca de Israel: No seu artigo recente mencionou Israel apenas duas vezes e foram só comentários de passagem. Além disso, você também diz claramente que o lobby do petróleo dos EUA é muito mais crucial que o lobby de Israel. Então aqui está a minha pergunta seguinte: com que base chegou a essa conclusão e quão poderoso acredita que seja o lobby de Israel em comparação com, digamos, o lobby do petróleo ou o complexo industrial militar dos EUA? Em que grau seus interesses coincidem e em que grau eles diferem?

Michael Hudson: escrevi meu artigo para explicar as preocupações mais básicas da diplomacia internacional dos EUA: a balança de pagamentos (dolarizando a economia global, baseando as poupanças dos bancos centrais estrangeiros em empréstimos ao Tesouro dos EUA para financiar os gastos militares, que são os principais responsáveis pelas despesas internacionais e pelo déficit orçamental interno), o petróleo (e a enorme receita produzida pelo comércio internacional de petróleo) e o recrutamento de combatentes estrangeiros (dada a impossibilidade de recrutar soldados americanos dos EUA em número suficiente). Desde o momento em que estas preocupações se tornaram críticas até hoje, Israel era encarado como uma base militar e um apoiante dos EUA, mas a política estadounidense fora formulada independentemente de Israel.

Recordo-me de um dia em 1973 ou 74 quando viajava com meu colega do Instituto Hudson, Uzi Arad (mais tarde chefe do Mossad e conselheiro de Netanyahu), para a Ásia, fazendo escala em São Francisco. Numa quase festa, um general dos EUA aproximou-se de Uzi, tocou-lhe no ombro dele e disse: “Você é nosso porta-aviões no Médio Oriente” e manifestou a sua amizade.

Uzi ficou um pouco envergonhado. Mas era assim que os militares dos EUA pensavam de Israel naquela época. Naquele tempo, as três tábuas da estratégia de política externa dos EUA que esbocei já estavam firmemente em vigor.

É claro que Netanyahu aplaudiu os movimentos dos EUA para fragmentar a Síria e a opção de Trump do assassínio. Mas a decisão é dos EUA e são os EUA que estão a actuar em defesa do padrão do dólar, do poder petrolífero e a mobilizar o exército wahabi da Arábia Saudita.

Israel ajusta-se na diplomacia global estruturada nos EUA, tal como a Turquia. Eles e outros países agem de modo oportunista, dentro do contexto estabelecido pela diplomacia dos EUA, para seguirem suas próprias políticas. Obviamente Israel quer garantir as Colinas de Golã; daí sua oposição à Síria e também sua luta com o Líbano; daí sua oposição ao Irão como apoiante de Assad e do Hezbollah. Isto se encaixa na política estado-unidense.

Mas quando se trata da resposta global e interna dos EUA, são os Estados Unidos que são a força ativa determinante. E sua preocupação reside acima de tudo em proteger sua vaca leiteira da Arábia Saudita, bem como em trabalhar com os jihadistas sauditas para desestabilizar governos cuja política externa é independente da direção dos EUA – desde a Síria até à Rússia (wahabis na Chechênia) e China (wahabis na região uigur ocidental). Os sauditas fornecem a base para a dolarização dos EUA (reciclando suas receitas de petróleo em investimentos financeiros e compras de armas nos EUA) e também fornecendo e organizando os terroristas do ISIS e coordenando sua destruição com os objetivos dos EUA. Tanto o lobby do petróleo quanto o complexo industrial militar obtêm enormes benefícios econômicos dos sauditas.

Portanto, concentrar unilateralmente em Israel é uma diversão que se afasta do que realmente importa: a ordem internacional centrada nos EUA.

The Saker: No seu artigo recente você escreveu: “O assassinato pretendia escalar a presença da América no Iraque para manter o controle das reservas de petróleo da região”. Outros acreditam que o objetivo era precisamente o oposto: obter um pretexto para remover as forças americanas tanto do Iraque como do Síria. Quais são os seus motivos para acreditar que a sua hipótese é a mais provável?

Michael Hudson: Por que matar Soleimani ajudaria a remover a presença dos EUA? Ele foi o líder da luta contra o ISIS, especialmente na Síria. A política dos EUA era continuar a usar o ISIS para desestabilizar permanentemente a Síria e o Iraque, a fim de impedir que um crescente xiita chegasse do Irão ao Líbano – que aliás serviria como parte da iniciativa chinesa da Rota da Seda (Belt and Road). Assim, matou Soleimani para impedir a negociação de paz. Ele foi morto porque fora convidado pelo governo do Iraque para ajudar a mediar uma aproximação entre o Irão e a Arábia Saudita. Era isso que os Estados Unidos temiam acima de tudo, porque efetivamente impediria o seu controle da região e o esforço de Trump para agarrar o petróleo iraquiano e sírio.

Assim, utilizando a habitual dupla linguagem orwelliana, Soleimani foi acusado de ser um terrorista e assassinado de acordo com a Lei de Autorização militar de 2002 dos EUA que permite ao presidente movimentar-se contra a Al Qaeda sem autorização do Congresso. Trump utilizou-a para proteger os rebentos terroristas ISIS da Al Qaeda.

Considerando minhas três tábuas da diplomacia dos EUA descritas acima, os Estados Unidos devem permanecer no Médio Oriente para manter a Arábia Saudita e tentar tornar o Iraque e a Síria estados clientes igualmente subservientes à balança de pagamentos e à política petrolífera dos EUA.

Certamente os sauditas devem perceber que, como suporte da agressão e terrorismo dos EUA no Médio Oriente, seu país (e suas reservas de petróleo) são o alvo mais óbvio. Suspeito que esta é a razão porque procuram uma aproximação com o Irão. E acho que isso está destinado a acontecer, pelo menos para proporcionar espaço para respirar e remover a ameaça. Os mísseis iranianos para o Iraque foram uma demonstração de quão fácil seria direcioná-los para os campos de petróleo sauditas. Qual seria então a avaliação do mercado das ações da Aramco?

The Saker: No seu artigo escreveu: “O grande défice na balança de pagamentos dos EUA tem sido os gastos militares no exterior. Todos os défices de pagamentos, a começar pela Guerra da Coreia em 1950-51 e estendendo-se à Guerra do Vietname da década de 1960, foram responsáveis por forçar o dólar a retirar-se do ouro em 1971. O problema enfrentado pelos estrategistas militares dos EUA era como continuar a suportar a 800 bases militares estado-unidenses por todo o mundo e suportar suas tropas aliadas sem perder a alavancagem financeira da América”. Quero perguntar uma questão básica e realmente primitiva a este respeito: como se preocupar com balança de pagamentos enquanto 1) os EUA continuam a imprimir moeda; 2) a maior parte do mundo ainda quer dólares. Será que isto não dá aos EUA um orçamento essencialmente “infinito”? Qual é o viés nesta lógica?

Michael Hudson: O Tesouro dos EUA pode criar dólares para gastar internamente e o Fed pode aumentar a capacidade do sistema bancário de criar dólar a crédito e pagar dívidas denominadas em US dólares. Mas eles não podem criar divisas estrangeiras para pagar a outros países, a menos que estes desejem aceitar dólares ad infinitum – e isso implica em arcar com os custos de financiar o défice dos EUA em balança de pagamentos, obtendo apenas títulos de dívida (IOUs) em troca de recursos reais que venderão a compradores estado-unidenses.

Esta foi a situação que surgiu há meio século. Os Estados Unidos podiam imprimir dólares em 1971, mas não podiam imprimir ouro.

Na década de 1920, o Reichsbank da Alemanha podia imprimir marcos alemães – trilhões deles. Quando se tratava de pagar a dívida das reparações da Alemanha ao estrangeiro, tudo o que ele pôde fazer foi lançar estes D-marcos no mercado de divisas estrangeiras. Isto esmagou a taxa de câmbio da moeda, forçando o preço das importações a subir proporcionalmente e provocando a hiper-inflação alemã.

A questão é quantos dólares excedentes governos estrangeiros querem possuir. Suportar o padrão dólar acaba por suportar a diplomacia estrangeira dos EUA e sua política militar. Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, a maior parte do mundo em crescimento rápido procura desdolarizar suas economias pela redução da dependência a exportações dos EUA, investimento dos EUA e empréstimos bancários dos EUA. Este movimento está a criar uma alternativa ao dólar, provavelmente para substituí-lo com grupos de outras divisas e ativos nas reservas financeiras nacionais.

The Saker: No mesmo artigo você também escreve: “De modo que manter o dólar como a divisa de reserva do mundo tornou-se um esteio do gasto militar estado-unidense”. Frequentemente ouvimos pessoas a dizerem que o dólar está prestes a afundar e que quando isto acontece a economia dos EUA (e, segundo alguns, também a economia da UE) entrará em colapso. Na comunidade de inteligência há algo a que se chama rastrear os “indicadores e advertências”. A pergunta que lhe faço é: quais são os “indicadores e advertências” económicos de um possível (provável?) colapso do US dólar seguido por um colapso dos mercados financeiros mais ligados ao dólar? O que deverão pessoas como eu próprio (sou um ignorante em economia) manter debaixo de olho e procurar?

Michael Hudson: O que é mais provável é um declínio lento, em grande parte devido à deflação da dívida e cortes em gastos sociais, nas economias da Eurozona e dos EUA. Naturalmente, o declínio forçará as companhias mais altamente alavancadas pela dívida a perderem seus títulos de pagamentos e serem conduzidas à insolvência. Este é o destino de economias thatcherizadas. Mas será longo e penosamente arrastado, em grande medida porque neste momento à esquerda há pouca alternativa socialista ao neoliberalismo.

As políticas protecionistas de Trump e as suas sanções estão a forçar outros países a tornarem-se auto-suficientes e independentes de fornecedores dos EUA, desde culturas agrícolas até aviões e armas militares, contra a ameaça estadounidense de um corte ou de sanções contra reparações, peças sobressalentes e serviços. O sancionamento da agricultura russa ajudou-a a tornar-se uma grande exportadora agrícola e tornou-a muito mais independente em hortaliças, produtos lácteos e queijo. Os EUA têm pouco a oferecer industrialmente, especialmente considerando o facto de que suas TI em comunicações são enxertadas com equipamento da espionagem estado-unidense.

A Europa portanto está a enfrentar pressão crescente do seu sector de negócios para escolher a aliança económico não-EUA que está a crescer mais rapidamente e oferece um mercado de investimento mais lucrativo e é um fornecedor comercial mais seguro. Países voltar-se-ão tanto quanto possível (diplomaticamente bem como financeiramente e economicamente) para fornecedores não-EUA porque os Estados Unidos não são confiáveis e porque estão a ser contraídos pelas políticas neoliberais apoiadas por Trump e os democratas assemelhados. O sub-produto provavelmente será um movimento contínuo rumo ao ouro como uma alternativa ao dólar na liquidação de défices de balanças de pagamentos.

The Saker: Finalmente, minha última pergunta: que país considera como o adversário mais capaz da atual ordem política e econômica mundial imposta pelos EUA? Quem você pensa que, nos EUA, o Estado Profundo e os neocom mais temem? A China? A Rússia? Algum outro país? Como você os compararia na base desse critério?

Michael Hudson: O principal país [que ameaça] romper a hegemonia dos EUA são obviamente os próprios Estados Unidos. Esta é a grande contribuição de Trump. Ele está a unir o mundo num movimento rumo ao multi-centrismo muito mais ostensivamente do que qualquer ostensivamente antiamericano poderia ter feito. E está a fazer tudo isso em nome do patriotismo e do nacionalismo americano – o supremo embrulho da retórica orwelliana!

Trump levou a Rússia e a China a juntarem-se com os outros membros da Organização de Cooperação de Shangai (SCO), incluindo um observador do Irão. Seu pedido para que a NATO se juntasse aos EUA nas capturas de petróleo e no seu apoio ao terrorismo no Médio Oriente e na confrontação militar com a Rússia na Ucrânia e alhures provavelmente levará a manifestações europeias contra a NATO e contra a ameaça dos EUA de III Guerra Mundial.

Nenhum país isolado pode conter a ordem mundial uni-polar dos EUA. É preciso uma massa crítica de países. Isto já está a acontecer entre os países que listou acima. Eles estão simplesmente a actuar no seu próprio interesse comum, utilizando suas próprias divisas mútuas para comércio e investimento. O efeito é uma divisa multilateral alternativa e uma área comercial.

Os Estados Unidos estão agora a apertar os parafusos exigindo que outros países sacrifiquem seu crescimento a fim de financiar o império uni-polar estado-unidense. Com efeito, países estrangeiros começam a responder aos Estados Unidos o que as dez tribos de Israel disseram quando se retiraram do sul do reino de Judá, cujo rei Roboão se recusou a aliviar suas exigências (1 Reis 12). Eles refletem o grito de Sheba filho de Bikri uma geração antes: “Cuide da sua própria casa, ó Davi!” A mensagem é: O que outros países têm a ganhar com a permanência no mundo neo liberalizado uni-polar dos EUA, em comparação com o uso da sua própria riqueza para edificar suas próprias economias? É um problema antigo.

O dólar ainda desempenhará um papel no comércio e investimento dos EUA, mas ele será apenas mais uma divisa, mantida à distância até que finalmente abandone sua tentativa dominadora de despojar a riqueza de outros países. Contudo, a sua morte pode não ser uma visão bonita.

09/Janeiro/2020

 

O original encontra-se em www.unz.com/tsaker/the-saker-interviews-michael-hudson-2/

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

*Novo McCarthyismo (na era Trump)

Do: The Grayzone

Indignação entre NBA e China revela como a liberdade de expressão está sendo esmagada pela nova Guerra Fria de Washington

Ao contrário de sua pretensão de proteger universalmente a liberdade de expressão, a NBA demonstrou repetidamente sua disposição de sancionar o discurso de seus jogadores, particularmente quando cruza as linhas com a agenda anti-China de Washington.

Por Ajit Singh:

As tensões entre os Estados Unidos e a China aumentaram novamente nas últimas semanas, com a última disputa sendo desencadeada por uma das raras fontes de unidade entre os dois países: o basquete.

Inflamada por um tweet agora excluído, no qual um executivo de alto escalão da Associação Nacional de Basquete (NBA) manifestou apoio ao movimento de protesto em Hong Kong, a questão se transformou em um confronto ideológico entre Washington e Pequim por questões cobradas como a livre discurso, censura e soberania nacional.

Nos EUA, a história inspirou condenação vociferante à China, com Washington e a mídia corporativa apresentando a história de maneira uniforme em termos de defesa da “liberdade de expressão” americana contra a “censura” chinesa.

No entanto, a denúncia e o silenciamento de qualquer dissidência dessa narrativa, mesmo pelo ícone da NBA LeBron James, revela que a expressão política está sendo abafada nos EUA não por potências estrangeiras, mas por Washington em busca de sua nova Guerra Fria.

Antecedentes do surto da Guerra Fria da NBA

Em 4 de outubro, Daryl Morey, gerente geral do Houston Rockets, twittou uma foto que dizia “Luta pela liberdade. Fique com Hong Kong ”. O tweet foi feito durante a peregrinação anual de pré-temporada da NBA à China para jogos de exibição, com numerosos funcionários e jogadores da NBA no país para jogos de exibição após os comentários de Morey.

Pacific News Corporation@PacificNewsCo

On October 4th, this tweet by Daryl Morey supporting the protests in Hong Kong received instant backlash from Chinese fans.

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A resposta chinesa às observações de Morey sobre a questão delicada foi rápida, com o tweet provocando indignação pública de uma população que inclui 500 milhões de fãs da NBA, juntamente com uma condenação oficial do Consulado Geral da China em Houston , que expressou sua “forte insatisfação” .

Inúmeros parceiros chineses da NBA suspenderam os laços com a liga , incluindo a Associação Chinesa de Basquete, liderada pelo ex-jogador do Hall da Fama do Houston Rockets Yao Ming, pelas emissoras Tencent e pela estatal China Central Televison (CCTV).

A NBA rapidamente divulgou uma declaração reconhecendo que os comentários de Morey “ofenderam muitos de nossos amigos e fãs na China” e que, embora a NBA apoie seus funcionários “compartilhando suas opiniões sobre assuntos importantes para eles”, as opiniões de Morey não representam a liga.

No entanto, a tentativa da NBA de neutralizar as tensões sobre a questão gerou uma nova onda de reação , agora oriunda da mídia e do establishment político dos EUA. Manchete após manchete, acusou a NBA de “curvar-se à China” quando o assunto se tornou um ponto de partida para pressionar a agenda anti-China de Washington e a nova estratégia da Guerra Fria.

A histeria reuniu parlamentares americanos de todo o espectro político, com o presidente Trump criticando os membros da NBA por “perambularem para a China”, o vice-presidente Pence acusando a NBA de agir “como uma subsidiária integral do regime autoritário [da China]”, e Hillary Clinton afirmando “[e] muito os americanos têm o direito de expressar seu apoio à democracia e aos direitos humanos em Hong Kong. Ponto final.”

Em um exemplo mais revelador de consenso bipartidário sobre o assunto, figuras como Alexandra Ocasio-Cortez, Ted Cruz e Tom Cotton se uniram para co-assinar uma carta beligerante denunciando a NBA e o governo chinês.

A carta condena a NBA como “ultrajante” por “ceder ao governo chinês” e sua “traição aos valores americanos fundamentais”, além de atacar o “Partido Comunista Chinês [por] usar seu poder econômico para suprimir o discurso de Americanos nos Estados Unidos. ”

Evitando qualquer aparência de diplomacia, a carta insta a NBA e outras empresas americanas a escalar as hostilidades e a “enfrentar agressivamente” a “campanha de intimidação” do “governo repressivo de partido único” da China. Indo além da questão da “liberdade de expressão”, a carta sugeria que a NBA deveria apoiar abertamente o movimento de protesto em Hong Kong, pois “esperamos ver os americanos se levantando e se manifestando em defesa dos direitos do povo de Hong Kong”. contrariar a “propaganda do governo” chinesa.

Diante da crescente pressão, Adam Silver, comissário da NBA, emitiu uma segunda declaração , apelando a Washington, esclarecendo que “[é] uma liga de basquete baseada nos EUA”, a NBA valoriza “liberdade de expressão” e que “a NBA não se comprometerá uma posição de regular o que jogadores, funcionários e donos de equipes dizem ou não dizem ”.

Silver adotou cada vez mais a retórica alinhada com Washington, destacando noções de que a liga está defendendo a liberdade de expressão e os valores americanos contra a repressão chinesa.

Na Cúpula da Saúde do TIME 100, em 17 de outubro, Silver afirmou que inicialmente “estava se esforçando demais para ser um diplomata” em relação à China e afirmou que, como “uma empresa americana”, “os valores americanos … viajam conosco onde quer que vamos . E um desses valores é a liberdade de expressão. Queríamos ter certeza de que todos entendessem que estávamos apoiando a liberdade de expressão. ”

Indo além, Silver alegou ter sido solicitado pelo governo chinês para demitir Morey e que a NBA se recusou a ceder a essas demandas.

O Ministério das Relações Exteriores da China negou a alegação de que, em 18 de outubro, Pequim nunca fez tal exigência. Um comentário da emissora estatal CCTV argumenta que , para “agradar a alguns políticos americanos, Silver inventou mentiras do nada e tentou pintar a China de maneira implacável”.

É incerto neste momento qual o impacto a longo prazo que esse caso terá sobre as relações entre a NBA e a China. Nos EUA, a saga tem sido um para-raios, atraindo críticas vociferantes à China, com a história sendo apresentada quase uniformemente em termos de censura chinesa à “liberdade de expressão” americana, à necessidade de apoiar a “democracia e liberdade” em Hong Kong, e o crescente alcance global da “tirania chinesa”.

Há, no entanto, vários fatores importantes que estão sendo deixados de fora desta narrativa, que este artigo irá explorar.

O lado sombrio do movimento de protesto de Hong Kong

Embora os protestos em Hong Kong tenham sido glorificados pelo Ocidente como uma luta progressiva pela “liberdade e democracia”, as representações principais do movimento higienizaram muitos de seus aspectos problemáticos.

Como o Grayzone relatou anteriormente , o movimento é de fato dominado pela xenofobia, nativismo e apologismo colonial, e cada vez mais propenso a distúrbios, violência de multidões e crimes de ódio .

Max Blumenthal

@MaxBlumenthal

Hong Kong protesters gathered outside the British consulate on 9/1 to demand full British citizenship, waved Hong Kong colonial and UK flags, and sang, “I’m British, and we never shall be slaves” (via @Ruptly)

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O movimento recebeu apoio significativo de Washington, que busca encorajar elementos separatistas na ex-colônia britânica e pressão crescente sobre Pequim como parte de sua “estratégia de contenção” contra a China.

Enquanto o establishment dos EUA descarta as noções de que Washington apóia os protestos de Hong Kong como um produto da “paranóia” chinesa, parece haver fortes evidências para apoiar a visão. Somente no último ano, numerosos grupos de oposição de Hong Kong receberam centenas de milhares de dólares do equipamento de mudança de regime dos EUA, o National Endowment of Democracy (NED).

Reuniões e coordenação extensas foram realizadas entre políticos dos EUA e líderes dos protestos de Hong Kong. Isso incluiu reuniões com a representante do governo americano Julie Eadeh , diplomata do consulado dos EUA em Hong Kong, além de políticos que viajaram para a cidade como o senador Ted Cruz .

Os manifestantes de Hong Kong pediram ao presidente Trump para “libertar” Hong Kong , com os líderes da oposição viajando a Washington para se encontrar com o governo Trump , incluindo o vice-presidente Mike Pence e o ex-conselheiro de Segurança Nacional John Bolton, e pressionaram o Congresso a tomar medidas contra a China.

Testemunhando no Capitólio, líderes do movimento, incluindo Joshua Wong e Denise Ho, instaram os legisladores dos EUA a aprovar a Lei de Direitos Humanos e Democracia de Hong Kong . Com o objetivo de “proteger” a democracia e a autonomia de Hong Kong, o projeto de fato aumenta a subordinação da cidade à agenda de política externa de Washington, criando novas justificativas legais para os EUA imporem sanções à China e exigindo que o governo dos EUA examine minuciosamente se Hong Kong “aplica [s] sanções impostas pelos Estados Unidos “contra a Coréia do Norte, o Irã e quaisquer outros países que Washington considere” ameaçam a segurança nacional, a política externa ou a economia dos Estados Unidos “.

Tais atos atrevidos de intromissão deixam claro que, sob a preocupação declarada de Washington por “direitos humanos”, os EUA de fato pretendem manipular e alimentar inquietação em Hong Kong para avançar sua nova estratégia da Guerra Fria contra a China, ao lado de seu “pivô” militar na Ásia e na Ásia. “Guerra comercial”.

A história da NBA de repressão à liberdade de expressão

Com esse contexto tão necessário, fica claro o motivo pelo qual o tweet de Morey sobre esse assunto delicado causou protestos na China. Além disso, o tweet de Morey não era apenas uma expressão de apoio aos protestos em Hong Kong; ele compartilhou o logotipo de uma organização que pede intervenção estrangeira e agressão econômica contra a China.

A organização, “Luta pela liberdade. Stand with Hong Kong ”, acredita que o Reino Unido, como ex-governantes coloniais de Hong Kong,“ tem um direito e uma responsabilidade únicos ”para com a cidade e exorta explicitamente o governo do primeiro-ministro Boris Johnson, de direita, a impor sanções econômicas à China.

Enquanto a NBA se apresenta como corajosos defensores da liberdade de expressão contra a China, a história demonstra o contrário. Como o blackball da NFL de Colin Kaepernick por seu protesto de hino e críticas ao racismo e brutalidade policial dos EUA, a NBA também suprimiu o discurso de jogadores que expressaram abertamente críticas aos EUA.

Em 1992, durante a visita do Chicago Bulls à Casa Branca depois de vencer o campeonato da NBA, o então jogador do Bulls Craig Hodges entregou uma carta ao então presidente George HW Bush, criticando as políticas racistas de seu governo. Hodges, que tinha 32 anos na época e acabara de sair de duas temporadas jogando por times do campeonato, nunca receberia outro contrato ou mesmo um convite para tentar um time da NBA.

Da mesma forma, a NBA suspendeu e acabou se afastando da liga Mahmoud-Abdul Rauf , então uma jovem estrela da NBA, por protestar contra o hino nacional da bandeira dos EUA como um símbolo global de “tirania e opressão” em resposta à primeira Guerra do Iraque.

A NBA continua demonstrando sua disposição em sancionar o discurso, mas geralmente em uma direção mais progressiva, dada a posição mais forte que os jogadores da NBA lutaram e alcançaram. Em 2014, a liga implementou uma proibição vitalícia do proprietário de longa data do Los Angeles Clippers, Donald Sterling , depois que vazou uma fita na qual ele fez extensos comentários anti-negros. Embora a liga tenha ignorado o conhecido racismo e sexismo de Sterling por várias décadas, foi forçada a agir diante de um possível boicote por parte da maioria dos jogadores negros, juntamente com fãs indignados.

Assim, contrariamente à sua pretensão de proteger universalmente a liberdade de expressão, a NBA demonstrou repetidamente sua disposição de sancionar o discurso, particularmente quando cruza as linhas com a agenda política de Washington e, com menos frequência, em resposta à pressão de jogadores e consumidores.

No que diz respeito à China, parece que a questão não é uma questão de defender a “liberdade de expressão”, mas que a NBA se sentiu pressionada a seguir a agenda de Washington e, como todas as empresas americanas, não vê a soberania dos países do Sul global. como uma razão suficiente para sancionar o discurso de Morey.

O silenciamento de estrelas da NBA pela Nova Guerra Fria de Washington

A saga NBA-China revelou os limites das concepções americanas de liberdade de expressão. Quando pressionados pela mídia a comentar, jogadores e treinadores da NBA são forçados a ficar do lado de Washington ou, como foi testemunhado pelo candidato presidencial democrata Tulsi Gabbard , ser acusado de “tomar partido do inimigo” e ser rotulado como traidor. Nem mesmo um dos atletas mais populares do mundo conseguiu escapar da toxicidade da nova cultura da Guerra Fria que consome os EUA.

Solicitado pelos repórteres a avaliar a controvérsia, a estrela da NBA LeBron James afirmou que sentiu Morey “não foi educado sobre a situação em questão” ao comentar sobre Hong Kong e que “não acreditava que houvesse consideração [por Morey]. pelas consequências e ramificações do tweet “.

James acrescentou que, embora acredite que os americanos tenham liberdade de expressão, eles devem exercitá-la com cautela e “ter cuidado com o que twittamos”, especialmente quando se trata de situações políticas “muito delicadas [e] muito sensíveis”: “Sim, temos liberdade do discurso, mas também pode haver muitos aspectos negativos … Às vezes, a mídia social nem sempre é a maneira correta de fazer as coisas. ”

Apesar da natureza decididamente branda de seus comentários, James foi imediata e fortemente denunciado pelo establishment americano. Os meios de comunicação corporativos criticaram James por “dobrar os joelhos” e “capitulação”, dando à China “exatamente o que ela quer” , e imagens amplamente divulgadas nas redes sociais zombaram de James como membro do Partido Comunista da China.

Uma nova camiseta lançada pela Barstool Sports representando LeBron James como líder revolucionário chinês Mao Zedong.

James foi criticado pelos senadores republicanos Rick Scott por “se prostrar na China comunista”, Ben Sasse por “imitar a propaganda comunista” e Ted Cruz por “beijar comunistas e tiranos chineses e pedir desculpas por assassinos”.

A enxurrada de críticas efetivamente silenciou James, que agora disse a repórteres que “não voltará a falar sobre a China”. Semelhante à maneira como James foi infamesamente instruído a “calar a boca e driblar” ao falar contra o racismo e criticar o presidente Trump, a estrela da NBA foi novamente instruída a ficar calada por não criticar o Inimigo Oficial de Washington, na China.

Apesar de toda a tagarelice sobre a censura chinesa, o tratamento de James deixa claro que, nos EUA, a “liberdade de expressão” é reservada apenas para aqueles que apoiarão a agenda política de Washington.

Os padrões duplos de “liberdade de expressão” nos EUA não passaram despercebidos, com vários jogadores da NBA apontando que estão desencorajados de expressar suas crenças sobre questões políticas domésticas nos EUA, mas pressionados a apoiar os interesses da política externa de Washington em países como China.

Falando contra as críticas que James recebeu, o veterano Andre Iguodala declarou : “[O] que mais me incomodou foi quando fazemos nossas declarações sobre estar em casa, ser americano e questões que temos na América, é como: ‘ Cale a boca e drible.

“É interessante nessa situação com a China, eles estão colocando uma câmera na nossa cara e dizendo ‘Não, você não pode comentar, precisamos que você fale sobre isso’”, continuou Iguodala. “Eles estão prontos para atacar LeBron por fazer uma declaração, porque não gostam da declaração, sentem que ele deveria ter adotado outra postura. Mas quando ele está em casa e ele se posiciona sobre … e é como, ‘Não, este não é o seu lugar para fazer essa afirmação’. Isso foi simplesmente alucinante. Foi isso que me incomodou mais.

O jogador aposentado da NBA Etan Thomas expressou críticas semelhantes à “reação conservadora” contra James como sendo hipócrita. Thomas escreveu no The Guardian :

“Críticos conservadores … que denegrem atletas por se manifestarem contra as violações de direitos humanos que acontecem nas ruas americanas e fazem o mesmo quando não o fazem por questões do outro lado do mundo, estão negociando no padrão duplo que alegam. Essas pessoas se preocupam apenas com a democracia e a liberdade de expressão e permitem que os atletas usem suas plataformas para falar sobre injustiça quando a posição adotada for conveniente para suas agendas. Caso contrário, eles querem que os atletas calem a boca e driblem. E essa é a essência da hipocrisia. ”

Finalmente, o jogador aposentado da NBA David West twittou que a reação contra James é uma tentativa de pressioná-lo a ecoar a linha de Washington na China:

David West

@D_West30

Yall want him to puke up talking points crafted by false narrative pushers who lead people to war under false pretenses or figure out words that best express his point of view? https://twitter.com/WhitlockJason/status/1183962508484202496 

Jason Whitlock

@WhitlockJason

Here’s what LeBron is showing you. Nike, The NBA and LeBron are far more concerned with China than the U.S. NBA growth is predicated on China, not America.

À medida que a nova Guerra Fria contra a China se aquece, Washington restringe o espaço para a liberdade de expressão e pontos de vista alternativos da classe dominante dos EUA sobre questões de guerra e paz.

A pressão exercida sobre as poderosas organizações e indivíduos como a NBA e LeBron James é um sinal perturbador para quem deseja contestar o consenso político em Washington.

É, portanto, ainda mais importante que os progressistas resistam à emergente histeria da Guerra Fria e defendam as poucas vozes proeminentes dispostas a desafiar a linha militarista de Washington.

ajit singh

Ajit Singh é escritor e advogado baseado no Canadá. Ele tweets em @ajitxsingh.

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Resultado de imagem para charge da estatua da liberdade, porém não

Liberdade ? Não