*Marcondes Namblá: Uma voz que não Deve se Calar

“Aquele que se diz dono da terra, eu o considero um grileiro”

Por Lucien de Campos do Pragmatismo Politico 

Marcondes Namblá tragédia voz não deve calar professor índios

Antes de falarmos do brutal assassinato do professor indígena Marcondes Namblá, permitam-me autorreduzir-me para o que José Saramago denomina como “egoísmo pessoal”, uma “perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for suscetível de servir os nossos interesses”.

Pode parecer estranho à primeira vista, mas meu próprio “egoísmo pessoal” pode estar relacionado com o atual cenário de negligência social frente a um processo de violência estimulada pelo racismo e pela intolerância contra a comunidade indígena no sul do Brasil. E aposto que não sou o único. São milhares de brasileiros que ‒ em sua maioria inconscientemente ‒ adquirem este complexo da “cegueira mental”.

Mas de que forma poderíamos conectar este complexo com a violência indígena? Resposta esta que pode estar nas entranhas do sucateado e débil sistema educacional brasileiro. Nem escolas, nem as universidades têm-se aproximado suficientemente daqueles que são categorizados como grupos marginalizados da nossa sociedade civil. Eu, por exemplo, sou descendente de indígenas, mas com sobrenome europeu. Aliás, quando me perguntam se sou descendente de português, me limito a justificar meu sobrenome ao fato de que no passado algum lusitano se “casou” com uma índia, e, seguindo a política colonialista, impôs seu sobrenome à ela e seus herdeiros. Contudo, hoje tenho a consciência de que nunca me interessei, muito menos fui estimulado a procurar uma maneira de aproximação para com a comunidade indígena, uma raiz importante da minha árvore genealógica.

Na escola, com exceção de algumas aulas de História, pouco aprendi a respeito da comunidade indígena. Apenas nos limitamos a celebrarmos o Dia do Índio, sem entrarmos em grandes discussões relativamente a atual situação desta comunidade esquecida. Já na universidade foi pior. Com 17 anos migrei do Rio Grande do Sul para Santa Catarina para cursar o ensino superior. Justamente Santa Catarina, o estado com maior índice de violência contra indígenas. Naquele ambiente universitário não vi qualquer indígena, sequer palestras, projetos de inclusão ou discussões sobre o assunto. Além do meu desinteresse, havia o desinteresse dos colegas. Mais uma vez citando Saramago, havia ali uma “cegueira mental”, passível de servir somente aos interesses daquela pequena classe fechada.

Quando soube da primeira turma do curso de Licenciatura Intercultural Indígena da Universidade Federal de Santa Catarina (que inclusive Marcondes Namblá integrou, formando-se em 2015), pela primeira vez questionei sobre o assunto: porquê somente na segunda década deste século que se sucede no Brasil a formação da primeira turma de ensino superior em cultura indígena? Lembro-me que a minha indignação foi se agravando na medida em que fui pesquisando este curso em diferentes universidades americanas, canadenses e australianas, descobrindo que esta matriz curricular já existia há décadas naqueles países.

Fugindo da minha experiência pessoal e se aproximando para o sujeito principal desta matéria, tremenda dor permaneço a sentir desde que soube que Marcondes Namblá foi morto a pauladas, nas primeiras horas de 2018, na cidade de Penha, Santa Catarina. Tal crime foi filmado por uma câmera de supermercado e o agressor continua foragido. Encaminhado com vida para o hospital, o professor indígena sofreu da lentidão de um precário atendimento médico, problema endêmico na saúde brasileira, onde pobres, em sua maioria negros e índios, são os maiores afetados.

Em matéria publicada nesta quarta-feira (10), a CartaCapital relembra outro caso semelhante e ainda mais chocante pelo fato da vítima ter sido um bebê, o pequeno indígena Vitor Kaingang, degolado em 2015, quando estava a ser amamentado no colo de sua mãe em frente a rodoviária de Imbituba, Santa Catarina. A matéria também acrescenta a seguinte afirmação: “racismo e intolerância são conceitos necessários para explicar como a violência ‘gratuita’ é distribuída em Santa Catarina”.

Além do mais, a matéria não foge da realidade ao tentar comparar com o Apartheid a segregação e a negligência existente na sociedade brasileira perante a comunidade indígena. Sei que não podemos fazer juízo de qual vida é mais importante, mas é justamente isso que ocorre ao passo que a morte de um cantor sertanejo provoca mais comoção do que a morte de um professor indígena.

Nos centros urbanos brasileiros vemos grupos indígenas reduzidos à sua condição biológica, pois são vistos como seres humanos sem passado, sem vontade e voz política. Invocam apenas as suas feridas, revelando unicamente suas necessidades biológicas (fome, enfermidade e sede). Enquanto isto, os meios de comunicação, em companhia da bancada ruralista, alimentam este ambiente de hostilidade ao veicular ataques e informações tendenciosas sobre os indígenas.

Mas as raízes desta problemática são históricas, particularmente no estado de Santa Catarina, onde no passado, colonos descendentes de imigrantes europeus ofereciam dinheiro à quem matasse índios. Isto nos leva a concluir que a consciência social e o exercício de habilidade da empatia são, tradicionalmente, características desencorajadas pelas classes dominantes. Só estamos seguindo o fluxo da manipulação para mantermos nosso “egoísmo pessoal”.

No entanto, a voz de Marcondes Namblá ainda pode ser ouvida. Dei-me o luxo de ler o seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre a infância indígena da comunidade Laklãnõ. Segundo afirma Marcondes, a criança Laklãnõ adquire “o espaço sem limites, ao contrário do espaço de uma criança em contexto urbano, que é totalmente delimitado por diversos elementos que considero como instrumentos de dominação, o que no contexto de meu povo a pessoa não se torna naquilo para o qual ela foi predestinada, porque cada ser humano nasce com alguma finalidade em sua sociedade e por isso deve descobrir o seu destino”.

Seguindo com o pensamento de Marcondes, oxalá nós descobríssemos nosso próprio destino como cidadãos livres deste “egoísmo pessoal”. Só assim nossa sociedade se tornaria mais justa e igualitária.

Em suas considerações finais, apresentando um método crítico-analítico, Marcondes direciona seu discurso contra a construção da Barragem Norte, em razão dos seus impactos culturais e ambientais para a comunidade indígena. A voz de Marcondes nos leva a crer que essa incansável luta, que passa pela degradação ambiental indígena e se estende para a segregação urbana, deve continuar, embora tenha perdido um grande guerreiro.

*Lucien de Campos é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa e colaborador em Pragmatismo Político.

Referências:
Intolerância é a arma do assassinato do professor Marcondes Namblá

*Fórum Econômico Mundial: Temer Entrega o Jogo… e a Água

por Franklin Frederick
Do portal: Pátria Latina

 

O Estado de São Paulo publicou ontem um artigo revelador sobre a ida do Presidente Temer, João Dória e Henrique Meirelles a Davos, na Suíça, para participarem do Fórum Econômico Mundial que começa no próximo dia 23 de janeiro.

O artigo informa que:

“Na programação, o Fórum Econômico Mundial colocou na agenda o debate: “Moldando a nova narrativa do Brasil”. No dia 24 de janeiro, mesma data do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Porto Alegre (RS), o presidente Michel Temer apresenta sua agenda para 2018 em defesa da necessidade de reformas. O debate contará ainda com o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), com Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, Candido Botelho Bracher, CEO do Itaú Unibanco, e Paul Bulcke, CEO da Nestlé” (grifo meu).

Esta é a única mesa redonda com a participação de Temer dentro da programação do Fórum. Chama a atenção, no entanto, que o único CEO estrangeiro a participar deste debate em que, além de Temer e Dória, os outros dois participantes são banqueiros, seja Paul Bulcke. Faria mais sentido, dentro deste contexto, ser um representante de um banco estrangeiro, o Crédit Suisse ou o UBS, por exemplo. Mas, dentre tantas empresas e CEOs que estarão em Davos, foi justamente o CEO da Nestlé o escolhido para participar deste debate com Temer e dois grandes banqueiros privados brasileiros. Por quê?

Para responder a esta pergunta devemos lembrar, primeiro, de um importante artigo publicado pelo jornal ‘Correio de Brasília’ no dia 22/08/2016 com o título: ‘Multinacionais querem privatizar uso da água e Temer negocia” .

O artigo informa que, “segundo revelou um alto funcionário da Agência Nacional de Águas (ANA), em condição de anonimato (…). O Aquífero Guarani , reserva de água doce com mais de 1,2 milhão de km² , deverá constar na lista de bens públicos privatizáveis (…) As negociações com os principais conglomerados transnacionais do setor, entre elas a Nestlé e a Coca-Cola, seguem ‘a passos largos’.”

É importante lembrar também que, na data deste artigo, a Presidente eleita Dilma Roussef ainda enfrentava o julgamento do processo de impeachment, mas Temer já atuava como Presidente ‘de fato’, ou seja, mesmo antes do golpe consumado, já se negociava a privatização dos recursos naturais brasileiros, a verdadeira razão por trás do golpe. Porém, têm-se escrito e falado mais sobre o acesso ao petróleo brasileiro, privatização da Petrobrás e de outras grandes empresas públicas como razões para o golpe, deixando de lado um outro recurso natural brasileiro enormemente cobiçado pelas multinacionais por trás da onda conservadora neoliberal que toma o planeta: a água. A participação de Paul Bulcke num debate com o Presidente Temer em Davos entrega o jogo: não é o CEO da Shell ou de qualquer outra grande empresa petroleira que estará sentado ao lado do Presidente do Brasil na vitrine do Fórum Econômico Mundial na Suíça, mas o CEO da Nestlé. A mensagem não podia ser mais clara.

Dentro do que se poderia chamar de ‘divisão do trabalho’ na construção da ideologia e das estratégias do capitalismo internacional, a multinacional Nestlé tem um papel fundamental. Peter Brabeck, antecessor de Paul Bulcke, tomou para si e para a Nestlé parte da tarefa de legitimar o capitalismo neoliberal através de várias iniciativas e projetos, dirigindo um poderoso lobby do big business internacional através de uma ampla rede que se estende por vários países e instituições.

O Water Resources Group – WRG – que reúne a Coca-cola, a Pepsi e o Banco Mundial com o objetivo de privatizar a água em todo o mundo através de parcerias público-privadas, para citar um exemplo, foi criado por iniciativa da Nestlé. Paul Bulcke recentemente substituiu Peter Brabeck dentro do ‘Governance Body’ do WRG.

O programa da Nestlé ‘Creating Shared Value’ realiza anualmente um importante evento internacional, sempre em países diferentes, com a participação de governos, altos funcionários de instituições como a ONU e o Banco Mundial, com uma visão estratégica muito bem planejada. Em 2013 o Creating Shared Value Fórum aconteceu na Colômbia com o claro propósito de promover a Colômbia como país ‘modelo’ do capitalismo latino-americano, em oposição à Venezuela e aos países da ALBA.

Em 2011 o Creating Shared Value ocorreu em Washington em parceria  reveladora com o ‘Atlantic Council’, uma associação do big business internacional, principalmente dos EUA, em torno da OTAN, a aliança militar ocidental. Por que uma empresa multinacional produtora de comida para bebês, chocolate e água engarrafada procuraria uma parceria com o ‘Atlantic Council’ e, através deste, com a OTAN? Uma resposta muito simples se encontra dentro do próprio programa deste evento: oportunidades de negócios relativos à nutrição, água e desenvolvimento rural na África e América Latina. Traduzindo a linguagem orwelliana do big business contemporâneo, este programa informa que ‘oportunidades de negócio’, ou seja, recursos naturais a serem tomados pelas grandes empresas, se encontram em vastas quantidades na África e na América Latina. E caso os países desses continentes não queiram disponibilizar estes recursos para o capital internacional, é sempre conveniente ter o poder militar da OTAN para fazê-los mudar de idéia ou de política. E recentemente, não por coincidência, a Colômbia e a OTAN entraram em um acordo de parceria.

Esta influência da Nestlé é tão grande que mesmo dentro do Fórum Econômico Mundial um dos temas escolhidos para ser discutido pelos vários participantes internacionais é justamente ‘Creating Shared Values in a Fractured World’, uma clara alusão ao programa da Nestlé. A conferência de imprensa que o Presidente Temer realizará no Fórum no dia 24, aliás, esta justamente dentro deste tema reforçando ainda mais a ligação de Temer e das atuais políticas de privatização de seu governo com o discurso desenvolvido e promovido pela Nestlé.

Em março próximo o Brasil vai sediar o Fórum Mundial da Água em Brasília. A Nestlé e o Water Resources Group estarão lá, já que este é o Fórum das grandes empresas privadas. As empresas públicas de água brasileiras e ainda mais as águas subterrâneas  e as fontes de água mineral são os  ‘alvos’ que esta proximidade entre Temer e Paul Bulcke indicam. A privatização destas empresas e recursos naturais será naturalmente apresentada como a ‘solução’ dentro do Fórum Mundial da Água.

Espero que o Fórum Mundial ALTERNATIVO da Água que se organiza também em março como resposta da sociedade civil às políticas neoliberais, reserve um bom tempo e espaço para trocar informações e analisar as diversas práticas da Nestlé no mundo. Trata-se de uma questão fundamental.

*De Spinoza a Vilkomerson, as Vozes Judaicas Pela paz Foram Banidas por Muito Tempo por Judeus

A grande notícia sobre a luta de Israel contra o movimento Boycott, Desinvestimento e Sanções esta semana é a publicação de uma lista negra pelo governo israelense de 20 organizações. Notavelmente, o grupo Jewish Jewish Jewish for Peace da JJ foi incluído na lista .

Rebecca Vilkomerson, diretora da organização, escreveu na segunda-feira que “agora, ao contrário de qualquer norma democrática, haverá uma prova política de fogo para entrar no país (Israel)”.

Pode ser uma surpresa para alguns que o estado judeu esteja proibindo a entrada judaica de forma organizada e institucional. Mas o escrutínio da história judaica revela o quão lógico é isso. Simplesmente eles consideravam “o tipo errado de judeus”, como disse o líder sionista Chaim Weizmann Lord Balfour. E o “tipo de judeus errado” pode ser proibido. A tradição judaica de tal expulsão social de judeus é conhecida em hebraico como herem , o termo também se aplica ao “boicote”.

Continue lendo: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=236668

Leia também: Israel, a agonia de uma democracia

*Por que Medicina em Cuba é Famosa no Mundo?

Cuba foi o primeiro país a receber o reconhecimento oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS) para eliminar a transmissão do HIV de mães para crianças.

Desde 1990, todos os dias 15 de janeiro, o Dia da Ciência Cubana é celebrado e é prorrogado ao longo do mês com prêmios, reconhecimentos, conferências, exposições, entre outras atividades.

Em 2017, a Organização Pan-Americana e Mundial da Saúde (OPAS / OMS) reconheceu o progresso feito por Cuba nesta área, cujo modelo está no auge de um país desenvolvido, de acordo com seu representante na ilha, Cristian Morales.

Além disso, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) felicitou a ilha por alcançar a menor taxa de mortalidade em sua história, com 4,0 por mil nascidos vivos, o que traduz em maior cuidado materno e infantil.

Em 2015, com a eliminação da transmissão do vírus da imunodeficiência humana (HIV) das mães para as crianças e da bactéria que causa a sífilis, foi o primeiro país no mundo a receber o reconhecimento oficial da OMS.

Conquistas da medicina cubana para o mundo

Apesar do bloqueio econômico, financeiro e comercial que os Estados Unidos (EUA) ainda tem contra a ilha do Caribe, seu sistema médico tornou-se um dos mais conhecidos na comunidade internacional.

A Eslováquia foi o primeiro país da União Européia (UE) a usar o medicamento cubano Heberprot-P , produzido no Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB), o que reduz o risco de amputação por úlcera diabética e, de acordo com especialistas de Ambos os países, os resultados foram muito positivos.

Além disso, mais de três mil equatorianos foram favorecidos com a Heberprot-P, entre 2011 e 2017, graças ao programa aplicado em cinco províncias do país para combater esta doença.

Como cidade irmã, mais de 30.100 assistentes de saúde cubanos serviram em 18 dos 25 países que compõem a Associação dos Estados do Caribe (ACS).

Outra droga desenvolvida pelo CIGB é Heberferon , especializada em câncer de pele basocelular e freqüente em tumores malignos. É único em seu tipo. Da mesma forma, com a vacina Heberpenta eles contraem a   difteria, o tétano, a tosse convulsa e a hepatite B.

Uma luz de esperança

Embora o governo dos EUA se recusa a levantar o bloqueio contra Cuba , vários cidadãos encontraram neste sistema médico uma esperança para tratar suas respectivas doenças.

Judy Ingels, de 74 anos, sofre de câncer de câncer no quarto estágio, diagnosticada em dezembro de 2015. Ela viaja para Cuba com seu marido e filha para receber uma dose de Cimavax , uma droga contra câncer de pulmão que estimula uma resposta imune em uma proteína no sangue que favorece seu crescimento.

Em janeiro de 2017, os ensaios clínicos de Civamax foram iniciados em pacientes de Buffalo, em Nova York (EUA), mas não foram estendidos a outros estados do território. “Pela primeira vez eu tenho esperança”, disse Ingels, que se beneficia da vacina criada em Cuba.

Atenção médica de qualidade para os cubanos

Por outro lado, mais de 13 milhões de pessoas foram imunizadas contra a hepatite B, graças à vacina recombinante desenvolvida em 1989. Durante uma década, não houve casos desta doença em crianças menores de cinco anos ou em pessoas com mais de 15 anos de idade. .

Durante o Congresso Internacional NeuroCuba de 2017, eles apresentaram o progresso do Programa Multidisciplinar de Cirurgia de Epilepsia, liderado pelo Centro Internacional de Restauração Neurolódica (Ciren), que beneficiou mais de uma centena de cubanos.

Tirado de: https://www.telesurtv.net/news/Por-que-medicina-cubana-es-famosa-en-el-mundo-20180112-0041.html

*Max Stirner: O Grande Filósofo do Egoísmo. Ou Seria do Individualismo ?

Publicado originalmente no jornal Non Serviam, edições 19 e 20 em Primavera de 2000.

Por Svein Olav Nyberg

Obrigado pelo seu convite. Eu fui convidado a falar sobre Max Stirner com o subtítulo “O Grande Filósofo do Egoísmo”. Um subtítulo mais ousado, “O Grande Filósofo do Individualismo?” talvez fosse ainda mais apropriado. Pois, embora Stirner certamente seja um filósofo do egoísmo, eu diria também que ele é o filósofo mais consistente tanto do egoísmo quanto da categoria maior do individualismo. Mas o tema do egoísmo como o individualismo final terá que esperar um pouco. Nesta conversa, meu foco será em apresentar as idéias de Max Stirner, o que pode causar grande prazer ou aborrecimento!

Você provavelmente está familiarizado com o termo “egoísmo” dos escritos de Ayn Rand. Então você provavelmente não vai vir para essa sessão completamente despreparado. No entanto, o tipo de egoísmo que eu irei apresentar para você hoje não é aquele que a Rand falou; não é tão domado. Assim, às vezes estes conceitos de egoísmo não apenas irão ser diferentes, mas eles serão até mesmo completamente opostos. Ao passo que Rand fala sobre a “Natureza do Homem” (“enquanto Homem”), sobre a moralidade e sobre o estado como o protetor dos direitos do Homem, Stirner revela-se como o anti-moralista. Assim como Henrik Ibsen, ele trata o estado como “a maldição do indivíduo”, e quaisquer alegações sobre a “Natureza do Homem” a parte dos propósitos da classificação biológica, são objetivos favoritos de Stirner.

Então quem é esse Max Stirner? E qual é a sua filosofia?

Max Stirner é principalmente conhecido como o autor de Der Einzige und Sein Eigentum (O Único e Sua Propriedade) e é neste livro que ele expõe adiante a maior parte de sua visão filosófica. Sua filosofia é tanto algo fácil quanto algo difícil para compreender. Durante a sua época e por intermédio de seus oponentes, Der Einzige foi caracterizado como o primeiro livro legível em toda a história da filosofia alemã. Seu estilo é cativante e retórico e torna fácil para o leitor tornar-se intrigado. Ao mesmo tempo é uma peça multifacetada de trabalho; não só na estrutura como no conteúdo é embalado com referências implícitas e explícitas tanto de seu passado como de seu presente: É um trabalho de muitas camadas e eu duvido que eu tenha conseguido compreender todas as suas camadas.

Stirner inicia seu trabalho citando Bruno Bauer e Ludwig Feuerbach. “Para o homem, o ser supremo é o homem”, diz Feuerbach. “O homem só agora foi descoberto”, diz Bruno Bauer. As críticas desses dois filósofos são o núcleo do trabalho de Stirner. Através de sua crítica destes dois filósofos em particular, Stirner critica todos os tipos de filosofia moral até a sua própria época, e uma extensão de sua crítica dentro de nossa época se torna bem aplicável para os filósofos mais recentes.

Você não precisa estar familiarizado com Bauer e Feuerbach para entender a crítica da moralidade de Stirner; o próprio Stirner fornece o discernimento suficiente. Todavia, é útil conhecer de onde Stirner vem. Então vamos fazer um resumo histórico:

Max Stirner (1806-1856) nasceu como Johann Kaspar Schmidt. “Max Stirner” é um apelido que ele adquiriu durante seus anos de faculdade por causa da sua testa alta e larga. Ele, mais tarde, adotou esse nome e mais tarde usou-o como seu pseudônimo literário. Ele estudou filosofia, onde teve Hegel como um de seus palestrantes e foi bem eu seu caminho para um doutorado em filosofia. Entretanto, devido as circunstâncias a respeito da saúde de sua mãe, seu doutorado nunca foi terminado. O plano de fundo intelectual de Stirner é o seu profundo conhecimento da filosofia de Hegel, a Bíblia e a antiguidade grega. Então os conteúdos específicos da crítica de Stirner em Der Einzige se refere a estes elementos.

Em 1841 Stirner iniciava sua associação com “Die Freien” (“O Livre”), um círculo de intelectuais que se encontravam para beber e debater no Hippel’s Weinstube em Berlim. Estes “Livre”eram também conhecidos como “Jovens Hegelianos” ou os “Hegelianos de Esquerda“. Observe que o significado de “esquerda” aqui é aquele usado no parlamento francês após a revolução de 1789 e não aquele da classificação política atual. Neste círculo de intelectuais, Stirner era também conhecido por seus poucos, porém perspicazes argumentos, geralmente confinando estes argumentos para o seu próximo. O debate geral ele tendia a observar apenas de uma uma distância com um sorriso irônico. Em 1844 ele publicou seu infame magnus opus; um trabalho que não apenas deu a ele notoriedade imediata, mas também esmagou as ilusões dos Hegelianos de Esquerda, e por todas as propostas práticas destruiu o movimento.

Sendo um bom livro subversivo, Der Einzige foi, claro, confiscado pelo governo. Stirner e seu editor tinham, contudo, se planejado para essa contingência e já tinham distribuído consideravelmente alguns livros antes que a censura pudesse se apossar de suas primeiras cópias. Após um curto tempo, o livro foi lançado novamente, declaradamente “absurdo demais para ser perigoso”! “Absurdo” foi também a reação de Karl Marx. A história é que Engels escreveu para Marx[1] sobre essa publicação e falou simpaticamente sobre Der Einzige. A resposta de Marx não foi preservada, mas em sua seguinte carta à Marx, Engels declara que ele mudou sua opinião e que ele agora acha o livro “o que você julgar, que seja”. Estes dois parceiros no crime então começaram escrever A Ideologia Alemã, originalmente um trabalho de 700 páginas sobre seus contemporâneos. Este trabalho é normalmente publicado em uma versão com seus ataques ad hominem embaraçosos sobre Max Stirner editado de longe – uma versão de umas meras 200 páginas.

Os Hegelianos de Esquerda

O Hegelianismo de Esquerda foi uma resposta ao Hegelianismo e, particularmente, uma reação para a tendência hegeliana para apoiar todo aspecto da ordem estabelecida. Os Hegelianos de Esquerda estavam impressionados pelos métodos de Hegel, em particular a sua dialética.

Na dialética você tem um ponto inicial e por estudar as relações neste ponto inicial, você encontrará os dualismos e a “parcialidade única” que precisa para ser dissolvida através da dialética. O resultado do exercício anterior na dialética irá, então, se tornar o ponto inicial para uma nova investigação dialética e então, nós teremos uma progressão dialética.

Então dialética é especificamente relacionada ao desenvolvimento – desenvolvimento do conceito através da crítica; dualismo são encontrados entre opostos relacionais, em momentos “parcialidade única” ou “premissas escondidas” pura também serão encontradas.

Quão tentador não é – quando o próprio Hegel, o Mestre da dialética, quase declara o fim da história no estado da Prússia e no cristianismo luterano – quão tentador é não continuar e aplicar a dialética para para os resultados finais das investigações próprias do Hegel? Quão tentador é não “aplicar Hegel à Hegel”, para surgir como – o melhor hegeliano?

Isso é exatamente o que os Jovens Hegelianos fizeram. Leben Jesu de Strauss é, provavelmente, o melhor marcador do início deste processo de reexaminar Hegel. Em seu trabalho, Strauss discute o conceito de “Cristo”: por suposição, “Cristo” é o salvador universal da Humanidade. Entretanto: de acordo com a própria metodologia de Hegel, o universal não pode ser identificado com um simples indivíduo. Strauss busca a questão no estilo hegeliano verdadeiro, e termina com a conclusão de que embora Jesus provavelmente foi uma pessoa histórica, ele não poderia ter sido Cristo. “Cristo como um indivíduo” foi meramente uma expressão mítica do salvador “real” da Humanidade – a Humanidade por si mesma.

Naturalmente, isso causou muito rebuliço tanto entre os teólogos quanto aos filósofos. Os seguidores de Hegel estavam certamente na questão menor, e eles terminaram tomando os lados. Um lado, representado por Strauss, pensou que Hegel fosse um ponto inicial para movimentos mais além do Espírito, não um resultado final. Opondo-se a eles estavam os conservadores, em particular Bruno Bauer e o próprio Hegel. Contudo, devia ser observado que não demorou muito Bauer trocou os lados e se tornou um líder Hegeliano de Esquerda.

O trabalho de Strauss foi o a chave que destrancou a porta e vários trabalhos foram publicados, trabalhos que apresentaram saídas radicais dos “resultados” do hegelianismo conservador. O trabalho de maior impacto foi o Das Wesen des Christentums (A Essência do Cristianismo) de Ludwig Feuerbach, primeiramente publicado em 1841. Neste trabalho, Feuerbach desenvolve a tese de Strauss por também negar Deus – que no hegelianismo é visto como O Universal – incorporação num único indivíduo.

“Como nós dissemos conhecer Deus?” Feuerbach pergunta. Seus contemporâneos, os teólogos hegelianos, respondem que ele é conhecido por seus atributos. “Deus é amor”, “Deus é verdade” e etc. Então esse Deus não é conhecido diretamente, mas via atributos dele. Não é verdade então, pergunta Feuerbach, que o que é adorado pode ser tão pouco o próprio Deus? O que é adorado não deve ser os atributos conhecíveis de Deus? Então não estaria mais próximo da verdade se nós invertêssemos sujeito e predicado nestas afirmações, de modo que eles agora lêem: “Amor é divino”, “Verdade é divina” e etc? E uma vez que isso é a verdade, as afirmações originais não são a inversão real? Feuerbach prossegue por perguntar de onde nós conhecemos o amor, a verdade e etc. De onde mais, ele diz, senão de nós mesmos?

Feuerbach conclui por dizer que não somente é a Humanidade o seu próprio Cristo, como também é o seu próprio Deus: “Deus” é nada mais senão uma alienação da essência do Homem, onde essa essência tem sido referenciada para um objeto externo e, desse modo, considerado qualquer outra coisa diferente do que o Homem.

Com esse desvio, os Jovens Hegelianos reduziram a teologia para a antropologia e substituído o Cristianismo por Humanismo. Homem é a medida de todas as coisas. Especulações sobre a natureza de Deus são substituídas por especulações sobre a “essência” do Homem. Questões sobre “a ordem de Deus” e a vontade de Deus são substituídas sobre a ordem e a vontade do Homem – questões sobre moralidade.

Então o que significa ser Homem? Feuerbach, que acabou de trazer Deus para baixo do Céu a fim de embuti-lo na Humanidade, é obrigado a buscar por todos os atributos de Deus no Homem – na essência do Homem. Dessa forma, as afirmações “Deus é amor”, “Deus é verdade” e etc. se transformam no “Amor é a essência do Homem”, “Verdade é a essência do Homem” e etc. Isso é a forma que deve ser se a descrição de Deus de Feuerbach como nada, senão a alienação da essência do Homem é para ser correta.

Mas indivíduos não são sempre amor e eles nem sempre são verdadeiros. Que significa que Feuerbach não pode apresentar essas afirmações como generalizações empíricas dos humanos. Então o ponto de vista de Feuerbach se torna que “amor”, “verdade” e tudo mais não são propriedades dos indivíduos, mas a essência normativa de todos os homens. “Homem”, para Feuerbach, é a essência normativa de homens.

A crítica de Stirner dos Hegelianos de Esquerda

Esse é o ponto inicial de Stirner, e ele dificilmente poderia ter tido um melhor; talvez um Stirner poderia existir somente em um ambiente como esse, onde os princípios de moralidade estivessem, portanto, claramente apresentados.

Então qual é a crítica de Stirner?

A primeira aparência do conceito “egoísta” está em sua crítica – utilizada como uma alavanca dialética. O egoísta é introduzido no prefácio de Der Einzige, por essa ocasião traduzido no norueguês como “Kun for min egen skyld” por mim mesmo e por Hans Trygve Jensen [N. T.: na versão em português foi traduzido como O Único e a Sua Propriedade]. Neste prefácio Stirner apresenta o que pode ser considerado uma escolha existencial; decidir a quem servir – Deus, Humanidade, “O Bom” – ou a si mesmo. Stirner aponta que a última escolha tem sempre sido “vergonhosa”; você está incessantemente instruído a servir alguma coisa “mais alta”, como “Deus”, “Homem” e etc. Mas o que é “mais alto”? Stirner mostra que tal conceito se torna completamente circular; Deus é “mais alto” por medidas de Deus, “Homem” por medidas do Homem e etc. Portanto, Stirner escolherá ele mesmo como sua própria medida. Ele coloca sua própria vontade primeiro e declara – o egoísta, um único homem concreto.

Essa criatura, o egoísta, é então mandada na arena do debate filosófico para combinar força com ideias – em particular com “Homem”, esse conceito abstrato e normativo de Feuerbach.

O principal argumento de Stirner é esse: em relação ao egoísta – homem único e concreto – o “Homem” de Feuerbach se torna uma contradição. Feuerbach não pode negar que o egoísta é um homem. Mais ainda, o egoísta não é “Homem” no sentido normativo: para o egoísta, não poderia se importar menos sobre a essência que Feuerbach tem atribuído a ele, como “Verdade” e “Amoroso”. Assim, na relação ao ideal normativo, o egoísta é tanto homem e não-homem ao mesmo tempo – uma contradição lógica. O argumento de Stirner provocou uma forte reação dos seguidores de Feuerbach e uma reestruturação das ideias deles. Entre esses seguidores estava, como mencionado anteriormente, o jovem – Karl Marx.

Poderia ser difícil pra referir a crítica de Stirner de Feuerbach sem os detalhes que você encontraria nas apresentações de Stirner dele, ou nas próprias apresentações de Feuerbach dele mesmo para esse assunto. Portanto, como um exemplo de como o argumento de Stirner funciona, eu vou usar usar uma filosofia mais próxima para nossa própria época, uma mais famosa; o egoísmo concorrente – Ayn Rand[2].

Para Rand, a ética está fundada sobre uma “escolha existencial”: viver ou não viver. E, de acordo com a Rand, uma vez que tudo tem uma identidade, você não pode simplesmente “viver”; você tem que viver como alguma coisa – “como homem” – enquanto Homem[3]. E se você decidiu viver “enquanto Homem”, então você escolheu uma determinada ética[4].

A crítica de Stirner aplicada a Rand seria o exemplo de um homem que não se encaixa na ética dela, um homem que escolheu o contrário. Não seria difícil encontrar tais exemplos. Portanto, o que está para ser dito sobre esse homem? Nós poderíamos dizer que ele não está vivo – que ele está morto? Dificilmente. E apesar das objeções dos objetivistas, a maioria dos burocratas tem razoavelmente longas vidas. Mas eles não vivem de acordo com a ética de Rand. Então, o que mais Rand e os randianos podem dizer em defesa de suas éticas de que essas pessoas não podem ser – homens?

Assim, o “Homem” de Rand e Feuerbach, com H maiúsculo, portanto, é exposto como qualquer outra coisa diferente do que a generalização empírica que alegaram ser. “Homem” fica exposto como um conjunto de ideais e espectros de que os dois autores desejavam que homens deviam ser, coisa que vai de contra às reivindicações deles a objetividade. Utilizando a palavra “Homem” para descrever suas fantasias é exposto como arbitrário – isto é, arbitrário para qualquer outra proposta que não retórica.

Eu mesmo, eu aprendi muito a partir da crítica de Stirner da moralidade manifestada em Feuerbach, e eu ainda tenho que encontrar uma moralidade que não possa ser criticada utilizando o método de Stirner. Como uma questão geral, Stirner provou que argumentos do tipo “Eu sou um homem, portanto, eu devia ser ‘Homem’ num sentido normativo” são nada mais além de filosofia baseada num trocadilho pobre! Tais trocadilhos ruins, todavia, parecem ser o comum na filosofia moral.

O Stirner político

Anteriormente, mencionamos que Stirner, assim como Ibsen, considerou o estado como “a maldição do indivíduo”. Para considerar o estado ser uma maldição é quase que único. Não há a falta de pessoas amaldiçoando o estado por “tirar a nossa liberdade”, “oprimindo-os como uma classe”, “funcionando contra a vontade de Deus”, “destruindo o meio ambiente”, “oprimindo uma nação/ raça e etc”, e sem esquecer – etc.

Todos eles tem isso em comum: eles amaldiçoam o estado em nome de um ideal. As denúncias deles é de que o estado impede o livre desdobramento do ideal. Stirner e Ibsen, por outro lado, amaldiçoam o estado porque ele impede seus próprios livres desdobramentos.

Stirner identifica duas direções opostas – o indivíduo e o universal. A questão é, quem vai vencer? De um lado você tem o indivíduo com suas exigências de desejo próprio e objetivos individuais. Por outro lado, você tem o universal com suas exigências implícitas de igualdade. Quão diferente, então, os dois lados não vão definir “liberdade”. O indivíduo deseja fugir daqueles que exigem poder sobre ele; ele encontra sua liberdade quando seus movimentos são desimpedidos. O universal, por outro lado, encontra liberdade quando o universal é ilimitado.

Como um exemplo, vamos dar uma olhada na libertação da Noruega da Suécia. Os indivíduos na Noruega obtiveram mais liberdade após esse evento. Não, certamente que seria um mal-entendido. O que foi libertado foi a nação. A naçãoobteve mais poder. De um ponto de vista individual, isso foi uma mera mudança de governantes. Após terem sido governados por um rei sueco, os noruegueses estavam agora para ser governados por um rei dedicando sua realeza para a Noruega apenas.

O mesmo passa pelos movimentos de libertação por toda parte do mundo. Vietnã do Sul foi libertado dos imperialistas, mas os sul-vietnamistas – os indivíduos – tiveram novos e rigorosos mestres. E o Irã não foi libertado do imperialismo americano? Sim, de fato, o Irã está libertado, enquanto indivíduos, como Salman Rushdie, tem o que temer por suas vidas.

Os contemporâneos de Stirner, primeiro de tudo Bruno Bauer, haviam se tornado especialistas em como libertar o universal. E eles particularmente queriam livrar o “Homem”. Contudo, como eu declarei acima, ele não estão falando sobre indivíduos concretos, mas sobre nossa “essência”. Aqui o antagonismo está ainda mais próximo à tona do que na questão da libertação das nações.

Stirner descreve três estágios no desenvolvimento da libertação do “Homem”. A primeira é a partir da revolução francesa de 1789, enquanto as outras duas são tomadas a partir das críticas políticas de que eram contemporâneos de Stirner:

1. A primeira libertação do Homem acontece durante a revolução de 1789. O poder pessoal devia ser removido – ninguém deveria ser mais do que qualquer outro como uma pessoa – todos são “citöyen” – cidadãos do estado. Isso é chamado de liberalismo político.

Mas uma vez que essa libertação é apresentada como uma libertação do Homem, e não de qualquer ser real e concreto com todos os seus interesses pessoais – “egoístas” como Stirner os chama – a revolução de 1789 coloca-se aberta a crítica de que não é uma libertação completa. Distribuição de propriedade é controlada pelo estado, protegendo aqueles que tem dos que não tem. Propriedade é deixada à esfera dos egoístas e não sob o controle do Homem ou da Humanidade.

2. Portanto – se a intenção é libertar o Homem, você tem que remover o poder que os egoístas obtiveram sobre a propriedade, e torná-la disponível para – Humanidade. Com isso nós entramos no Comunismo ou, como também é chamado, o liberalismo social.

Mas isso é apenas o início de uma ladeira escorregadia. Os humanistas, liderado por Bruno Bauer, acham repugnante que mesmo sob o liberalismo social, o tempo de lazer ainda é reservado para interesses privados – para egoísmo.

3. Assim, a fim de chegar mais próximo da completa libertação do Homem do aperto desses egoístas malvados, tempo de lazer deve ser “humano” também. Tudo é para ser organizado em torno do “Homem” e todos os interesses próprios e pessoais são para ser removidos.

Esse “liberalismo humano” é contundentemente similar a sociedade que a personagem principal de Anthem, de Ayn Rand, acorda. Aqui Rand e Stirner se encontram novamente, em crítica conjunta: Rand a faz por meio de um romance e Stirner com um argumento “reductio ad absurdum” contra essa libertação de seres abstratos – espíritos e fantasmas!

Feuerbach transformava Deus no Homem, diz Stirner, enquanto Bauer desejava transformar Homem no meu eu concreto. Para lembrar: no hegelianismo o universal não tem existência sem suas manifestações concretas. Como Stirner expressa: “Homem está perdido sem mim”. E então ele vira as costas para aqueles que desejam tornar o “Homem” a identidade de Stirner ou qualquer outra pessoa concreta.

O Egoísmo de Stirner

O conceito de Stirner de egoísmo tem sido até agora apresentado como algo com uma função negativa – algo que possa ser introduzido num argumento filosófico ou político para liquidar o oponente da sua posição elevada. Mas Stirner também nos dá o egoísmo como um exemplo positivo: aqui está o que eu fiz. Se você quiser e for capaz, o caminho está aberto para fazer da mesma maneira.

Diferente do egoísmo da Rand, o egoísmo de Stirner não é prescritivo. Ele não escolheu o termo para ser a base de um novo -ismo. A filosofia de Stirner é aquela de focar no indivíduo concreto. O âmago do conceito para entender o mundo filosófico de Stirner além de sua crítica é Der Einzige – uma frase que significa “o único”, “o indivíduo” e “o exclusivo”.

Stirner observa que cada indivíduo é único. Hans Trygve[5] e eu não somos a mesma pessoa. Nós somos dois indivíduos concretamente diferentes. Com certeza, nós dois somos seres humanos, mas “seres humanos” somente expressa o que nós temos em comum, não qualquer coisa que devemos nos esforçar para nos tornarmos. Isso que nós temos algo em comum não nos torna o que nós temos em comum em nossa essência. “Essência” é uma característica de conceitos, não de indivíduos; e eu posso ter algo em comum com muitas coisas. Isso que eu tenho em comum com alguma outra coisa não torna essa comunalidade minha essência. Pois eu não sou conceito. Se eu tivesse sido um conceito, você também não poderia me explicar?

Isso é uma simples observação cotidiana. Todavia, nós temos visto que esse pequeno golpe derruba grandes fortalezas filosóficas.

Como único, nossos interesses são únicos – eles expressam o único. É esse interesse único de pessoas únicas que Stirner chama de egoísmo. Egoísmo é o interesse que você tem para suas próprias preocupações, como opostas às preocupações de ideias como Deus, Homem e seu País.

Stirner também sugere que se nós deveríamos elaborar a identificar nossas preocupações com a luta por um ideal, nós ainda deveríamos estar fazendo isso no fundamento de nosso interesse próprio – por egoísmo. Em outras palavras, ele sugere um egoísmo psicológico. Isso é correto e tautológico no sentido de que todos nossos interesses são basicamente – interesses únicos; nossos próprios interesses pessoais, como as pessoas únicas que somos. Pessoalmente, eu acho que a ideia do egoísmo psicológico pode ser um pouco confuso, uma vez que isso levanta o princípio em separar egoístas “inconscientes”, como Madre Teresa, dos egoístas “conscientes” como eu mesmo.

Ao longo de seus trabalhos, Stirner faz uma distinção crucial entre as ideias e sentimentos que tem sido instilados em mim e naqueles que surgem em mim. Em seu artigo Das unwahre Prinzip unserer Erziehung (O Falso Princípio de Nossa Educação), ele ataca as teorias que vêem a grande questão do ensino como aquele de como encher conhecimento nas cabeças das crianças tanto de maneira efetiva quanto possível. Os pedagogos furiosamente discordam entre si sobre os meios, Stirner observa, mas todos eles concordam que o objetivo é encher conhecimento nas cabeças das crianças. Opondo-se a isso, Stirner sugere que as crianças poderiam escolher seus próprios aprendizados; essa edificação delas é melhor baseado em seus próprios – interesses. Essa forma de conhecimento se torna o conhecimento próprio das crianças, e não um pesado fardo de fatos e teorias imputadas. Uma observação interessante nessa consideração, a partir de pesquisas sobre o cérebro em 150 anos após Stirner, é que a química do aprendizado funciona melhor exatamente quando o aprendiz aprende com interesse.

Justamente essa noção de que algo é próprio daquele, como aprendizagem, é nosso segundo e essencial conceito para melhor entender Stirner. De acordo com Stirner, tudo que você entra em contato é sua propriedade. Não num sentido legal, mas no sentido que o que você, como um único, entra em contato, você irá encarar em seus própriostermos e não nos termos prescritos por alguém, por um ideal e etc.

Isso é inegavelmente um modo idiossincrático de utilizar a palavra “propriedade”, então deixe-me explicar: “Propriedade”, num sentido clássico, é o que você controla. Como você especificamente utiliza esse controle cabe a ti e a suas habilidades. “Propriedade” como um “direito” é algo que Stirner já rejeitou, porque o “direito” não é algo que pertence ao indivíduo; pertence ao “Homem”.

Assim, na ausência de ideais dominantes e normativos, “propriedade” significa nada mais do que o que você vem a entrar em contato. É “propriedade” quando você se refere a ele pelo seu eu, e não de acordo para quais ideais e autoridades tem prescritos. E seu controle do objeto depende sobre o seu poder ou – em outras palavras – suas habilidades.

O segundo último conceito de Stirner é exatamente Eigenheit – “eu”. Esse conceito é uma descrição dizendo que você considera a si próprio e suas avaliações – suas. Ele é relacionado ao último conceito de Stirner, Eigner, que significa “eu-proprietário”.

Stirner contrasta “eu” a “liberdade”. “Liberdade” por ela mesma, diz Stirner, é somente um conceito vazio e ineficaz. Liberdade – a palavra “liberdade” – significa, junto com a palavra “livre”, nada exceto “ausência de”. Cerveja sem álcool é, por exemplo, livre de álcool. Mas você não se torna um libertário por bebê-la. Então quando você está buscando por “liberdade”, exatamente você quer liberdade do que? A palavra por ela mesma não fornece qualquer resposta, e você pode argumentar com “liberais humanos” sobre o direito para a palavra por um longo tempo.

Ou você pode simplesmente decidir por seu próprio bem o que essa liberdade devia conter e trabalhar para libertar você mesmo, não uma multidão de homens que não deseja de forma alguma sua liberdade, mas ao contrário, talvez desejar outro tipo de liberdade contrariando as suas.

Mas Stirner prefere “eu” a “liberdade”. Porque liberdade, ao qual é uma ausência, não é um resultado de seus próprios esforços, mas em vez disso, algo que é “concedido” por aqueles que, de outro modo, teria colocado adiante uma presença na esfera onde você teria apreciado sua liberdade. Isso é ecoado na infame frase “Você não pode ter Liberdade de graça”.

Um exemplo ilustrativo da diferença entre liberdade e eu pode ser encontrado no caso de uma criança sendo importunada na escola: se os valentões cansam de importuná-lo por um tempo, a perseguição está ausente por um tempo – ele está livre disso. Mas essa liberdade é facilmente vista para estar nas mãos de algum outro. Por outro lado, se ele começa aprender karatê ou faz amizade com alguns amigos fortes, a situação toma um outro rumo. Ele então utiliza seu eu para lutar com seus assediadores. Ele os resiste por sua vontade. No primeiro cenário: se os valentões decidissem começar a importuná-lo novamente, e ele apelasse para sua liberdade, este apelo vão seria nada mais do que um desejo, um desejo para a ausência dos valentões. Mas esse desejo não cabe a ele próprio cumprir; cabe aos valentões.

Isso novamente mantém uma certa similaridade a Rand: Rand fala sobre “sanção da vítima”: o poder dos valentões sobre você é ilimitado ao menos que você lute contra e diga não.

Na última parte de seu livro, Stirner descreve o que significa relacionar-se com outro como um indivíduo para um indivíduo, ao invés de encarar uns aos outros através por intermédio de um ideal. Ele dá uma resposta, em particular, para aqueles que contestam desesperadamente quando ele destrói seus ideais: “mas se nós não temos os ideais para nos proteger, nós estaremos completamente perdidos! Nós não teremos reivindicações de direito para nos apoiar contra os mal-feitores!” Aqui Stirner responde que “direitos”, assim como cruzes e alhos, nunca foram uma proteção, em todo caso.[6] “A que você está se apoiando?” ele pergunta, “Você não nenhum poder de resistência? Você não tem, também, poder e habilidades?”

Ademais, Stirner enfatiza que poder e habilidades não estão reservados para somente para homens grandes e fortes. Pois se eu me juntar com outros de interesses similares, meu poder será multiplicado de forma numerosa. E todas as mudanças que tem sido realizadas por toda história, se feitas em nome de um ideal ou por algum objetivo das pessoas concretas, tem sempre sido realizadas pelas pessoas concretas; o ideal não fez coisa alguma – tem sido, na melhor das hipóteses, um passageiro clandestino ou um aproveitador nas mentes das pessoas concretas.

Portanto, o que eu obtive não se torna perdido quando eu perco ilusões e ideais, nem mesmo se os ideias perdidos são “direito” e “liberdade”. É, ao invés, que o que tem sido obtido tem se tornado mais solidamente fundado, pela razão de eu não sinto mais eu devo abaixar minha cabeça de vergonha se alguém não me conceder mais o que eu tinha ganhado: a “liberdade” que o menino da escola importunado tem obtido é melhor fundamentado no seu próprio eu do que nos apelos pela liberdade. Igualmente, eu posso ter perdido minha licença para vender licor, mas isso não significa que eu automaticamente irei parar de vender bebidas. Eu posso ter sido negado de importar sobre certos limites, portanto limitando minha “liberdade” no sentido político clássico. Porém no meu eu, eu – contrabandeio. 

Após Stirner

O poeta de origem escocesa-alemã John Henry Mackay tem o crédito pela maior parte do que é conhecido sobre Stirner atualmente. Mackey utilizou vários anos e uma enorme quantidade de sua fortuna para rastrear informação sobre Stirner e o que ele escreveu. Ele mesmo era um anarquista individualista e interpretava Stirner para ser assim também. Eu duvido que isso é verdade sobre Stirner, mas isso é para outra discussão. Stirner, em todo caso, inspirou anarquistas, particularmente anarquistas individualistas como Mackey.

Stirner teve seu segundo período de fama na virada do século. Georg Brandes tinha descoberto e promovido Friedrich Nietzsche. Os seguidores de Nietzsche estavam procurando por um “precursor” para Nietzsche e encontraram isso em Stirner. Brandes, portanto, tinha um mercado quando ele publicou e escreveu um prefácio para a edição dinamarquesa de Der EinzigeI em 1902. Também parece haver razão para assumir que o grande autor da Noruega e correspondente de Georg Brandes, Henrik Ibsen, foi influenciado por Stirner. Mas as ligações de Stirner para arte será o assunto de uma edição posterior.

A reputação de Stirner como um anarquista individualista foi fortalecida quando Benjamin Tucker, o principal libertário americano no início desse século, considerou isso para ser sua maior realização quando ele publicou a primeira edição inglesa de Der Einzige em 1907.

Anos depois, Stirner, para a maior parte, tem sido visto como um filósofo político anarquista. De acordo com a crítica de Herbert Read, contudo, pessoas como Erich Fromm, Jung, Martin Buber, Max Ernst e vários existencialistas do século 20 estão em dívida com Stirner – uma variedade que estou seguro que teria agradado Stirner.

Conclusão histórica

Após Der Einzige, foi publicado coisas que não aconteceram exatamente do jeito que Max Stirner tinha vislumbrado. O trabalho tinha um efeito pesado e imediato, mas no despertar da agitação política e uma revolução em 1848, a atenção recompensou ele e seus contemporâneos Jovens Hegelianos foram perdidos. Muitos dos jovens hegelianos, incluindo Stirner, experimentaram dificuldades tanto financeiramente quanto de outra forma nessa época. O próprio Stirner gastou toda a fortuna de sua próxima ex-esposa em investimentos mal sucedidos.

Antes dele morrer em 1856, Stirner completou a primeira tradução alemã da Riqueza das Nações de Adam Smith e também traduziu alguns livros por um divulgador francês de Smith, Jean-Baptiste Say. No início da década de 1850, Stirner podia ser achado no salão da baronesa von der Goltz, onde ele ainda discutia ideias radicais chocantes.

Em 25 de Junho de 1856 Stirner morreu de uma infecção após tendo sido picado por um inseto. Com ele morre um mundo único.

Post-scriptum sobre feminismo

O ataque de Stirner sobre “a essência do Homem” pode ser nitidamente aplicada numa crítica de papéis de gênero como postuladas por “feministas” e patriarcalistas semelhantemente. Ambos os lados mantém visões normativas do que uma mulher “é”. Dizem-nos, por exemplo, que as mulheres não podem ser musculosas. Quando uma mulher é forte, os patriarcalistas rotulam-na de “não feminino” e até mesmo “pouco mulher”. Tudo isso, durante uma simples inspeção médica, revelaria ela ser uma mulher. Um exemplo similarmente desagradável dos anos oitenta é quando Margareth Thatcher foi primeira ministra. As feministas gritavam que ela não era uma delas, a “mulher”: ela era “um homem”.[7] Seguindo o padrão da crítica de Stirner do “Homem”, nós descobrimos que essencialismo de gênero e papéis de gênero pré-atribuídos são simplesmente auto-contraditórios: não é a mulher desviante que deixa de ser uma mulher quando ela não se encaixa na essência e no papel de “mulher”; é a essência e os papéis de “mulher” que deixam de ser verdadeiro.

Feminismo é, talvez, de interesse particular por causa de Dora Marsden, uma proeminente individualista e feminista no Reino Unido da virada do século. Sua retórica e ideias carregam uma forte semelhança à Stirner e ela explicitamente confirmava essa ligação. Se você estiver interessado em obter melhor conhecimento desta notável mulher, Eu recomendo dar uma olhada nesta página. [N. T.: este link não está mais acessível. No entanto, é possível ler o acervo dos escritos de Marsden aqui.]

Mas esteja avisado: Comparada a Marsden e sua retórica, feministas de hoje parecerão como enfadonhas burocratas!

Ler na íntegra: O grande filósofo do egoísmo

*Mídia Mercenária: O Golpe Compensa !

Escrito por Miguel do Rosário de O Cafézinho

Ler também: Mídia mercenária. O golpe compensa!

Follow the money.

De vez em quando a frase, pronunciada pelo “Garganta Profunda”, a fonte secreta de um dos repórteres do Watergate, badala como um sino em minha cabeça. Siga o dinheiro.

Eu vejo a economia brasileira ir para o buraco, arrastada pela instabilidade política, pela especulação desenfreada, pelo desemprego galopante, pela desinformação caótica promovida pela mídia, e não paro de me perguntar: a quem interessa tudo isso?

A capa da última Exame, dizendo que “Os bons tempos voltaram”, por outro lado, me fez lembrar um belíssimo livro que eu possuía sobre a revolução russa.

O livro se inicia com uma descrição vívida e ilustrada de um baile incrivelmente luxuoso promovido pela aristocracia, pouco antes da revolução bolchevique.

Follow the money.

Em junho do ano passado, a Globo realizou uma operação de crédito de US$ 325 milhões, ou R$ 1 bilhão, em moeda nacional. Em vocabulário leigo, digamos que a Globo conseguiu, bem no meio de uma terrível crise econômica vivida pelo país, rolar boa parte de sua dívida no exterior, estendendo seu vencimento de 2022 para 2025.

No Brasil, no entanto, a informação mereceu apenas discreta notinha no site Meio & Mensagem, um satélite da própria Globo, e uma matéria ainda mais tímida – igualmente laudatória à Globo – na revista Exame.

A própria Globo, mesmo ocultando a informação em seus veículos, comunicou a operação em seu site corporativo. A emissão dos títulos (bonds, em inglês) se deu no dia 8 de junho de 2015.

No site da Merril Lynch, um post de 1 de junho de 2015, traz mais informações. A Globo usou uma offshore nas Ilhas Cayman, a Pontis III, para fazer uma “engenharia financeira” qualquer para melhorar o perfil de sua dívida.

Os bancos que operaram a engenharia foram o Santander, o Itaú e o Bank of America.

Follow the money.

Eu pesquisei quem são os controladores do Bank of America. O principal deles é a Blackrock, o maior fundo de investimento do mundo.

A Blackrock movimentava diretamente, ao fim do terceiro trimestre de 2016, um total de 5,1 trilhões de dólares. Se somados os fundos sobre os quais o grupo tem influência indireta, na forma de consultoria financeira, o montante chega a mais de 15 trilhões de dólares. A economia brasileira em 2015 gerou 1,77 trilhão de dólares. O PIB dos Estados Unidos em 2015 foi de US$ 17,5 trilhões, e do mundo, US$ 73,5 trilhões, segundo o Banco Mundial.

Este fundo é um dos Leviatãs que surgiram das cinzas da última grande crise do capitalismo. É um fundo jovem, nascido ao final da década de 80, mas que ganha musculatura na esteira da devastação causada pelos subprimes, tornando-se o principal ou um dos principais acionistas de quase todas as grandes empresas norte-americanas. Não é exagero. A empresa é uma das principais acionistas de firmas como General Motors, General Eletric, JPMorgan Chase, Citigroup, Bank of America, Goldman Sachs, Morgan Stanley, Ford, AT&T, Verizon, Google, Facebook, Apple, Exxon Mobil and Chevron.

Os teóricos da conspiração encontrarão aqui um prato cheio. Os judeus do Protocolo dos Sábios de Sião pareceriam barnabés inofensivos diante do poderio da Blackrock, considerada por alguns analistas como um dos quatro grupos que controlam o mundo: os outros seriam State Street, Vanguard e Fidelity.

A Blackrock, de fato, está por trás de tudo, e se alguém procura uma força interessada no golpe, encontrou um suspeito forte. A Blackrock é acionista majoritária da Chevron e da Exxon Mobil, dentre inúmeras outras companhias do setor de petróleo e infra-estrutura interessadas no desmonte da indústria petroquímica brasileira, na privatização da Petrobrás, quebra do monopólio estatal e desregulamentação do mercado.

O fundo tem importante participação acionária no Nasper, empresa de mídia sul-africana que comprou 30% da Abril.

Sob suas asas estão ainda alguns dos maiores players do universo da mídia e do entretenimento: Time Warner, Walt Disney, Viacom, Rupert Murdoch’s News Corporation., CBS Corporation, NBC Universal.

No Brasil, a Blackrock tem participação em todas as principais empresas nacionais, incluindo as mais estratégicas, como Petrobrás, Vale, Embraer, Itaú, Gerdal, Globo.

notícia da Merril Lynch (que agora pertence ao Bank of America) sobre a Globo deixa bem claro que ela conseguiu financiamentos tão generosos por causa de seus números no mercado e do ambiente de regulamentação jurídica favorável ao monopólio.

Segundo a Lynch, nos últimos 12 meses, a Globo teve audiência média de 37%, chegando a 41% em alguns horários.

A receita líquida da Globo em 2015, segundo relatório oficial do próprio grupo, foi de R$ 16,0 bilhões em 2015, contra R$ 16,24 bilhões no ano anterior.

O lucro líquido da Globo em 2015 ficou em R$ 3,06 bilhões, contra R$ 2,35 bilhões no ano anterior, um crescimento de 30%.

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Deste lucro, vale ressaltar que praticamente tudo fica em mãos dos controladores, a família Marinho.

Para efeito de comparação, o Blackrock, que, como já disse, é o maior fundo de investimento do mundo, registrou lucro de US$ 2,36 bilhões no acumulado dos nove primeiros meses de 2016, ou R$ 7,63 bilhões, para distribuir para um monte de gente.

Considerando os interesses das companhias internacionais no mercado brasileiro, mais o poder financeiro da Globo, que conseguiu elevar seus lucros durante a crise econômica e política que ela mesmo ajudou a criar, entende-se porque o desemprego, a queda no PIB e a destruição das grandes empresas nacionais de engenharia, não incomodaram a cumeeira, a pontinha no alto da pirâmide, da nossa elite.

A Globo não precisa de hidrelétricas, estradas, submarino nuclear. Quanto mais crise, mais os brasileiros terão de ficar em casa assistindo TV, sem nem mesmo poder assinar tvs fechadas ou Netflix, e mais a Globo vai lucrar.

Delfim Neto cunhou a famosa frase, de que é preciso deixar o bolo crescer, para depois repartir com o povo. Alguns setores da elite brasileira, no entanto, inventaram uma fórmula muito mais diabólica: não é preciso fazer o bolo crescer; basta pegar uma fatia maior.

As castas do serviço público ganharam fortes aumentos salariais, os rentistas estão com seu dinheiro assegurado, o imperialismo está bem servido. A mídia corporativa nunca ganhou tanto dinheiro.

O povo que se dane.

*Imperialismo sem Máscaras

Publicado em 01/04/2018Norellys Alastre

O ano de 2017 foi ano claro, conseguiu abrir políticas internacionais e pôr à prova a política externa da República Bolivariana da Venezuela, a Diplomacia Bolivariana da Paz. Não há mais dúvidas possíveis, o unilateralismo americano e o imperialismo foram reafirmados. Muitos no mundo tendiam a se confundir após o sorriso de Barack Obama e o caminho trabalhado e amigável, descartando o caráter devastador do atual império. A verdade é mais do que evidente hoje.

Aqueles que pensavam que os grupos terroristas no Oriente Médio surgiam espontaneamente sem financiamento e o apoio do Pentágono ficava sem suporte e sem argumentos; aqueles que mantiveram a ilusão ao afirmar que Washington não intervém mais nos assuntos internos de outros países, nem financia planos desestabilizadores e golpes de Estado; que o Departamento de Estado já não fabrica fraudes eleitorais em sua conveniência, nem cria matrizes tendenciosas na mídia para justificar ações de guerra subsequentes; Quão errado foram aqueles que alegaram que as instituições dos EUA não planejam e desenvolvem perseguições financeiras implacáveis ​​contra povos inteiros para “gritar” suas economias e forçar as mudanças do governo pela força.

Aqueles que declararam que os EUA não consideram seus rivais e concorrentes firmes para a Rússia e a China, ao estilo da Guerra Fria, estavam errados; como também, aqueles que pensaram que os EUA estavam em tempos de rectificação e respeitariam as instituições multilaterais e o Direito Internacional Público; pior ainda, aqueles que já acreditavam que os EUA cumpririam de forma responsável o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas; bem como aqueles que negaram que o Departamento de Estado seja capaz de pressionar economicamente estados iguais, se se atrever a ocupar posições soberanas na ONU em questões relativas ao Oriente Médio.

Muitos analistas alegaram que a chegada de empresários ricos em nossos países não tem nada a ver com Washington; ou aqueles que sugeriram que Washington não mais dominava a OEA, nem o usaria para atacar e intervir nos assuntos internos da América Latina e do Caribe. Mesmo muitos criadores de opinião no mundo chegaram a questionar a inexorável tese do domínio do complexo militar-industrial ou que a economia americana é alimentada e energizada através da produção e venda de equipamentos e armas militares, isto é, através da guerras de geração e sangue.

Aqueles que pensavam (ou queriam acreditar) que esses fatos irrefutáveis ​​eram mitos ou invenções dos “comunistas, esquerdistas e ecologistas” testemunharam, como o mundo inteiro também é, a verdade irrefutável dessas práticas, políticas e ações , antes da sinceridade aberta com a qual o presidente Donald Trump revelou orgulhosamente e assumiu a autoria intelectual e material de todas essas violações à ordem internacional (reconhecimento que é apreciado).

Como os advogados afirmam: uma confissão de uma parte, alívio de provas. Demonstrou-se indiscutivelmente e enfaticamente que o imperialismo não só existe, mas antes dos sinais de seu declínio e do evidente fracasso do seu sistema de apoio econômico e do seu pensamento único, entrou em uma fase de desespero agressivo, passando a representar a principal ameaça (embora usual e comum, como toda ameaça imperial) para a humanidade. Na medida em que o mundo multipolar é consolidado, as ações dos principais atores do quadro imperial tornam-se mais perigosas.

Em uma universidade dos EUA, um empresário interrogado e muito enfraquecido, o presidente latino-americano, muito perto de Washington, produziu sinceridade para qualificar o papel que os EUA e o direito latino-americano dão ao nosso povo e aos seus governos: “América Latina é um bom cão dormindo no tapete, não cria nenhum problema “. O tratamento discriminatório e racista que a Casa Branca mostrou em relação aos nossos países nos últimos meses confirma esta teoria da submissão.

A construção de muros entre cidades, a expulsão e maus tratos cruéis dos migrantes, o cancelamento de políticas de preferências em relação aos países do Caribe e América Central, sanções econômicas e perseguições financeiras, interferência permanente nos assuntos internos, arrogância econômica para nos dominam, a humilhação na renegociação de acordos comerciais, entre outros insultos, atesta a ofensiva imperialista ativa em nossa América.

A partir da inefável OEA, o senhor, não honorável, Luis Almagro apresentou uma disciplina antes das ordens de Washington, através de inúmeras horas de trabalho, enormes esforços e recursos incalculáveis ​​investidos com o único objetivo de derrubar o governo da Venezuela. Sua ação induzida é uma parte evidente da estratégia desvelada da ofensiva imperialista na região. No entanto, sua eficiência tem sido muito fraca. O presidente Maduro não só permanece no comando, mas acumulou uma vitória política após a outra. A favor do Sr. “Amargo”, devemos dizer que ele tem sido muito eficaz em admitir a OEA na sala de cuidados intensivos da história, moralmente em um estado vegetativo irreversível e politicamente em estado ridículo e disfuncional de absoluta inutilidade.

O imperialismo, ansioso e furioso pela ineficácia de suas ações e aqueles que instruem a direita incapaz da Venezuela para liquidar a Revolução Bolivariana, foi ativado em todas as frentes. O Departamento de Estado (e com eles sempre a CIA) foi implantado em toda a América Latina e no Caribe, bem como na Europa (ordenando sancionar a Venezuela) e antes dos governos dos cinco continentes. Ele colocou o Canadá para baixar um grupo de governos submissos na região para tentar encurralar o governo de Caracas, fez mil movimentos nas Nações Unidas, ambos no Conselho de Direitos Humanos, mesmo no próprio Conselho de Segurança, buscando acompanhamento sob pressão , em sua obsessão de perseguir a Venezuela. Em todos os casos, ele foi derrotado.

E precisamente, as máscaras que caíram com o advento do supremacista e do governo racista de Donald Trump, permitem, mesmo por padrão, deixá-los em evidência. O principal argumento para atacar a Revolução Bolivariana foi o dos Direitos Humanos. Agora, sem entrar no detalhe da situação de violação permanente pelos governos dos Estados Unidos em matéria de Direitos Humanos em seu país e no mundo, deixe-me citar um eloqüente parágrafo sobre isso, extraído da intervenção da Venezuela na década de 1970. sessão da Assembléia Geral da ONU, em resposta à afirmação imoral do Representante Permanente dos Estados Unidos nessa organização, afirmando que a Venezuela e Cuba não merecem ser membros do Conselho de Direitos Humanos:

“Se algum país não merecer pertencer ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, são precisamente os Estados Unidos da América. É o principal infrator dos direitos humanos, não só no seu território, mas em todo o mundo. Guerras injustificadas, bombardeios da população civil, prisões clandestinas com aplicação de métodos de tortura, imposição de medidas unilaterais ilegais contra economias de vários países, pressões econômicas diversas e políticas migratórias imprudentes. É o único país que se atreveu a usar armas nucleares contra outras pessoas, gerando centenas de milhares de mortes. Um país que, violando a institucionalidade essencial da ONU, liderou a invasão do Iraque em 2003, sob o argumento da busca de armas de destruição em massa, que nunca encontraram, apesar de mais de um milhão de mortes que essa sangrenta operação militar gerou. Os Estados Unidos construíram o muro na fronteira com o México e há contas a pagar 7% às remessas dos imigrantes, não pela segurança social, mas para financiar a construção do muro indigno.

Usando dados verificáveis ​​de agências da ONU e relatorias, podemos concluir que: os EUA não ratificaram 62% dos principais tratados de direitos humanos; Nos EUA, não existe uma instituição independente para a defesa e promoção dos direitos humanos; o Relator Especial da ONU sobre execuções extrajudiciais e arbitrárias denuncia a falta de independência do poder judiciário nos EUA; o confinamento solitário é uma prática prolongada neste país; o número de sem-abrigo atinge 3,5 milhões, 1,5 milhão de crianças entre eles; 28% das pessoas na pobreza não têm cobertura em saúde; A taxa de mortalidade materna aumentou dramaticamente nos últimos anos, 10 mil crianças são alojadas em prisões para adultos, as crianças podem ser condenadas à prisão perpétua (70% delas afro-americanas); o relator especial para a educação denunciou o uso de choques elétricos e meios físicos de coerção em centros de estudo; Os EUA são um dos 7 países do mundo que não ratificou a convenção para a eliminação da discriminação contra as mulheres; Nos EUA, a licença de maternidade paga não é obrigatória; As queixas sobre abusos policiais, especialmente contra a população afro-americana, são comuns, mais de 10 milhões de afro-americanos ainda estão na pobreza, metade deles em situação de miséria; Em um país onde a escravidão deveria ser abolida, a décima terceira alteração admite a escravidão como uma modalidade de condenação criminal; uma em cada três mulheres indígenas americanas é estuprada ao longo de suas vidas; É um país onde a discriminação racial não é apenas não superada,

Após a derrota da violência política na Venezuela (financiada em grande parte por centros de poder nos EUA), graças à paz trazida pela eleição popular da Assembléia Nacional Constituinte e quando os mais diversos atores se preparavam para novas lutas democráticas e até mesmo retomar o processo de diálogo, o governo dos EUA tirou outra máscara, impondo uma série de medidas coercivas e ilegais unilaterais contra a economia venezuelana. Desta forma, formalizou e reforçou a perseguição financeira contra a Venezuela que tinha sido exercida com rudeza desde o tempo de Obama.

Não nos referimos às absurdas sanções individuais e inócuas contra funcionários do governo, membros do Conselho Eleitoral ou da Assembléia Constituinte. São medidas para impedir a Venezuela de obter financiamento e realizar transações internacionais para garantir o cumprimento de seus compromissos e obter matérias-primas para produção ou produtos acabados para atender às necessidades das pessoas. É uma modalidade de bloqueio que emula a imposta à irmã República de Cuba por 5 décadas.

Essas medidas destinadas a suspender a economia, isto é, o povo, forçar o cumprimento da vontade imperial na Venezuela, também visam evitar qualquer tipo de diálogo entre atores políticos. Essas chamadas sanções, apesar de terem causado danos, serviram em grande medida para unificar a consciência anti-imperialista e libertária do povo de Bolívar. Além disso, essas decisões unilaterais aceleraram a velocidade com que o governo do presidente Maduro procura livrar-se da economia dos EUA e do dólar patrono escravizante.

Através de alianças com a China, a Rússia, a Turquia, o Irã e os países ALBA, entre outros, a Venezuela vem projetando rotas alternativas para minimizar os efeitos das sanções ilegais de Washington e novamente por padrão, consolidar um novo tipo de relações econômicas, com novos padrões de troca que protegem a economia venezuelana, na sua determinação de se tornar independente e superar o modelo rentier imposto no século XX.

Da Venezuela, hoje vivemos novamente as bandeiras de todos aqueles que demonstraram que o imperialismo, com qualquer rosto que decida mostrar, não é invencível nem inquestionável. Evocemos o “momento intermitente” que o pensador alemão Walter Benjamin apontou; A estrela de cinco pontas de Ho Chi Minh e os bravos vietnamitas; a incalculável façanha das pessoas barbeadas da Serra Maestra e a resistência de quase seis décadas ao cerco de diferentes gerações de abutres que flutuam na ilha sem poder quebrar a dignidade do povo cubano; a façanha da Angola libertária nas profundezas da África que ainda ressoa entre os tambores e os ritmos ancestrales. A história nos ensina que apenas a determinação de uma pessoa unida e consciente pode enfrentar qualquer imposição,

Em 2018, existem novos desafios em Nossa América. A unidade deve ser um princípio fundamental e um princípio de resistência, lutas e triunfos contra o imperialismo. Além da noção de integração, nos referimos à UNION real, a original, o bolivariano. A ALBA e Petrocaribe levam em sua essência o espírito sindicalista dos povos e são fortalecidos em momentos de ofensiva imperialista comprovada. Com a ALBA como um núcleo virtuoso, devemos fortalecer os mecanismos autônomos de integração da América Latina e do Caribe, que hoje sofrem ataques externos e tentativas de implosão. A solidariedade, a complementaridade e a justiça social e econômica devem prevalecer diante de novas tentativas de anexar o capital.

Na Venezuela, o processo de diálogo continuará e, como disse o presidente Maduro, chove, pisca ou pisca, haverá eleições presidenciais este ano. A consciência das pessoas que lideram Bolívar como guia e exemplo será impostas à inconsciência das elites submisas que existem e preservar os privilégios, graças à Doutrina Monroe e ao esforço de fraturação de dominação sobre nossos povos. A Diplomacia Bolivariana da Paz continuará a defender a dignidade de um povo determinado a ser livre e independente e o direito da humanidade à Paz e à Justiça. Pensando nos meses vindouros e, embora possa parecer repetitivo, não podemos deixar de lembrar o slogan e o reflexo da luta que o Comandante Chávez nos deixou, plantados há pouco mais de 5 anos: Unidade, Luta, Batalha e VITÓRIA!

Sempre, vamos ganhar!

Ler na íntegra em Espanhol: Imperialismo sem máscaras (+ Opinião)