*Panteras Negras, Todo Poder ao Povo

Do: ALMA PRETA

O Partido dos Panteras Negras ganha ares de mítico para alguns grupos do movimento negro e para setores da esquerda em todo o mundo. A organização viveu diferentes fases, tinha uma diversidade interna de visões políticas, e sofreu repressão ilegal do FBI, que somadas a erros estratégicos dos dirigentes, definiram o fechamento do partido. A reportagem conta com entrevista de Emory Douglas, Ministro da Cultura do grupo, e Raquel Barreto, primeira a se debruçar sobre o tema no doutorado no Brasil.

Texto / Pedro Borges
Imagem / Mosca Santana

Em 15 de Outubro de 2017, o partido dos Panteras Negras atinge a marca de 51 anos de sua fundação. Apesar do fim do grupo datar de 1982, e os últimos anos dos Panteras terem sido de uma entidade com poucos seguidores, o legado e a influência de uma das principais manifestações políticas da comunidade negra no século XX permanecem.

Figuras como Huey P. Newton, Kathleen Cleaver, Bobby Seale, Ericka Huggins, Eldridge Cleaver e Fred Hampton compõem o imaginário do ativismo anti-racista em todo mundo.

Alma Preta conversou com pesquisadores, ativistas e com o ex-Ministro da Cultura dos Panteras Negras, Emory Douglas, para entender quais foram as influências, fases, e singularidades que compõem a história do partido.

Raquel Barreto, a primeira pesquisadora a se debruçar sobre o tema no doutorado no Brasil, foi outra fonte importante. A doutoranda em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que as pessoas dialogam com muita paixão sobre os Panteras Negras, que há em torno da organização ares míticos, e que é preciso compreender os diferentes momentos da entidade e a diversidade política do grupo.

As influências

A década de 1960 viu as nações do chamado “terceiro mundo” se rebelarem. A Guerra Fria colocou nos lados opostos os modelos econômicos capitalista, representado pelos Estados Unidos da América (EUA) e a Europa Ocidental, e o socialismo, figurado pela antiga União Soviética (URSS), China, e na América Latina, por Cuba. O tensionamento entre as propostas políticas capitalistas e socialistas estimulou o crescimento de organizações de cunho marxista em todas as partes do mundo.

Algumas das experiências políticas desse período histórico vão compor o imaginário dos Panteras Negras. Entre elas, destaque para a Revolução Cubana, de 1959, coordenada por Che Guevara e Fidel Castro, e para os movimentos que lutavam pelo fim do domínio europeu no continente africano. Franz Fanon, psicanalista e um dos nomes que se mobilizou na luta contra o colonialismo francês e pela liberdade da Argélia, era outra grande referência para o partido.

A Guerra Fria propiciou um capítulo à parte para o fortalecimento do imaginário revolucionário dos Panteras Negras, a Guerra do Vietnã. A pequena nação asiática impunha derrotas bélicas à principal potência militar do mundo. A mensagem deixada pelos vietcongues de que “sim, é possível derrotar os EUA” vai motivar as ações políticas de parte de juventude negra americana da época.

A justificativa dos Estados Unidos para atacar o Vietnã e outras nações no mundo era e ainda é marcada pela ideia de levar a liberdade para fora do país. Essa premissa foi questionada pelos Panteras Negras, porque para eles, a comunidade negra era uma colônia dentro dos EUA e não gozava de liberdade e nem de direitos.

O pedido de mudanças da juventude nos anos 1960 também vai inflar os Panteras. A Guerra do Vietnã motivava o dilema “Não faça guerra, faça amor”, na mesma medida em que crescia a segunda onda do feminismo e os movimentos de contra-cultura se espalhavam pelo mundo, como o Hippie e o de estudantes na França.

“A imaginação histórica do momento, 1966, permitia sonhar em mudanças revolucionárias e transformadoras”, afirma Raquel Barreto.

Emory Douglas, ministro da Cultura dos Panteras Negras, que ingressou no Partido em 1967, era o responsável pelo jornal The Black Panther e pela identidade visual da organização. Em entrevista ao Alma Preta, o ex-integrante do Comitê Central dos Panteras Negras diz que a produção artística do movimento bebeu das mesmas fontes que construíram a linha política do grupo. 

Seus desenhos e traços foram influenciados por aquilo que era produzido pelos artistas dos movimentos políticos de libertação na África, Ásia, América Latina e da Palestina, e também pelas produções da comunidade negra americana.

“Todas esses movimentos influenciaram meu trabalho. Mas no partido dos Panteras Negras, a arte era um reflexo da comunidade. Então o impacto e a influência também vinha da comunidade, ao ouvir os problemas deles, as dores, e os sofrimentos”, conta Emory Douglas.

No ambiente interno, os EUA viviam momentos de mudanças. Em 1964, o movimento pelos direitos civis norte-americanos, liderado por Martin Luther King Jr., havia conquistado para os cidadãos negros os mesmos direitos concedidos aos cidadãos brancos. Na prática, era o fim das Leis Jim Crow, legislação que permitia e garantia na constituição a segregação racial entre brancos e negros.

A conquista de Martin Luther King foi muito importante, sobretudo, para a população negra do Sul do país, de acordo com Flávio Thales, professor de Ciências Humanas e Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC). Era ela quem mais sofria por conta das Leis Jim Crow, e quem mais se identifica com a promulgação da Lei dos Direitos Civis.

A historiadora Raquel Barreto acrescenta que naquela altura, a população negra no Sul do país era pequena, se comparada à do Norte, e que esta enfrentava uma outra modalidade de racismo.

No Norte, a violência sofrida pela comunidade negra era mais próxima daquilo que se chama hoje de racismo institucional. A legislação não permitia de maneira aberta a manifestação do racismo, mas a sociedade estruturada na segregação racial incentivava essa prática por parte das instituições.

Um exemplo era o mercado imobiliário. A classe média negra não conseguia acesso ao crédito e não tinha suporte financeiro para morar em bairros mais nobres, habitados por uma maioria de brancos. Apesar da impossibilidade de se viver em outras regiões das grandes cidades, Raquel Barreto conta que essa barreira fez a comunidade negra ter uma interação maior, apesar das diferenças de classe social.

Outro exemplo era a ação policial. Mesmo que sem a presença marcante de brancos sulistas com os trajes da Ku Klux Klan, a violência dos agentes de segurança direcionada sobretudo contra homens negros era uma realidade constante.

Se o racismo se configurava de uma maneira distinta na região Norte, cabia à comunidade negra pensar em diferentes estratégias de luta. “A ideia de não-violência não faz nenhum sentido porque a questão de brancos sulistas se articulando, de pegar um cara, enforcar o sujeito, não é mais comum em Los Angeles”, afirma Flávio Thales.

O pesquisador da UFABC acrescenta que o próprio Martin Luther King Jr., nas suas passagens pela grandes cidades do Norte, percebia que o método da não-violência dialogava mais com o modelo racial da região Sul do país.

Não à toa, a expectativa criada em torno da Lei dos Direitos Civis gerou frustração para a comunidade e os ativistas negros, em especial, da região Norte. As poucas mudanças sentidas por aqueles que continuavam a enfrentar a violência policial, vão fazer uma geração de jovens abandonar a estratégia da não violência.

Flávio utiliza como exemplo o ativista Stokely Charmichael, uma importante liderança da Coordenação do Comitê Estudantil de Não-Violência (SNCC), organização de juventude do movimento de Martin Luther King Jr.. Depois de ser preso inúmeras vezes, Charmichael decide por abandonar a não-violência como prática de enfrentamento ao racismo.

“Ele é uma, entre várias figuras da época, que vai fazer essa transição, que saem dessa cultura política da não-violência, que tinha como símbolo o Martin Luther King Jr., e vão começar a fazer um discurso, que é do Black Power”, conta Flávio. À Stokely Charmichael se atribui a criação do movimento Black Power.

O Black Power começou a nomear, a partir de 1966, uma série de grupos, movimentos e indivíduos, que apesar de díspares, possuíam características em comum. Esse movimento foi outro impulsor dos Panteras Negras. A estética do “Black is beautiful”, ou “O negro é lindo” em português alimentou um movimento que viria a ter uma série de organizações. A mais importante delas foram os Panteras Negras.

A cidade de Oakland, berço da entidade, também apresenta singularidades que ajudam a explicar o surgimento do partido. O município cresceu de maneira significativa durante a Segunda Guerra Mundial por conta da construção naval bélica norte-americana.

A queda da produção de navios e o fechamento de postos de trabalho após o término da Segunda Guerra Mundial deixaram a população negra em condição de vulnerabilidade social.

“Você tem uma juventude negra em sua grande maioria sem perspectiva. Esse contexto econômico e social é outro fator importante”, descreve Raquel Barreto.

Flávio Thales destaca outro ponto para o surgimento dos Panteras Negras e o seu repentino sucesso, as características pessoais e políticas dos dois fundadores do partido, Bobby Seale e Huey P. Newton. Para ele, ambos eram “prodígios”, “carismáticos”, com vasta formação intelectual e política.

Imagem 2 Bobby Seale e Huey Newton

Bobby Seale (esquerda) e Huey Newton (direita), os dois fundadores do Partido dos Panteras

Os movimentos internacionais de libertação no mundo e especial em África, a Guerra do Vietnã, a Revolução Cubana, os movimentos de juventude e contra-cultura em todo o planeta, a especificidade do racismo no norte do país, a decepção com a Lei dos Direitos Civis, o surgimento do movimento Black Power, a situação social e econômica da cidade de Oakland e o perfil de Bobby Seale e Huey P. Newton são os fatores que vão possibilitar o surgimento dos Panteras Negras.

É nesse contexto que Huey Newton e Bobby Seale, com 24 e 30 anos respectivamente, constroem o Partido dos Panteras Negras para Autodefesa, em 15 de Outubro de 1966.

O nascimento e a construção do mito

A história do partido pode ser dividida em quatro partes. A primeira, que vai de 1966 até 1971, é o período de ouro da entidade, quando Bobby Seale, presidente do grupo de 1966 a 1974, diz que a organização chegou a ter, em 1970, 45 sedes em todo o país e 5 mil filiados. Esse momento é também posto como representante de toda a história do partido, deixando de lado as singularidades de cada umas das fases.

Na primeira parte, dois discursos se aproximam, de maneira geral, ao grupo. No início, há um alinhamento maior ao “Black Power”, visão que se aproximava do nacionalismo negro e que entendia a comunidade negra como uma colônia dentro dos EUA.

A partir de 1969, os Panteras Negras se veem mais próximos a uma visão específica do marxismo, que Raquel Barreto apresenta como o Terceiro Mundismo, fincado na teoria e prática não dos pensadores e ativistas europeus, mas dos movimentos de libertação no continente africano, asiático e latino-americano.

“Quando nos declaramos marxista-leninista queremos dizer que estudamos e compreendemos os princípios fundamentais do socialismo científico e que retomamos estes princípios com vista a adaptá-los à nossa situação. E, portanto não abordamos com espírito fechado as ideias novas e a informação. Ao mesmo tempo, sabemos que, para resolver os nossos problemas ideológicos específicos, temos de confiar nas nossas próprias cabeças”, disse Eldridge Cleaver no seu livro, “A ideologia do partido dos Panteras Negras”.

Essa é a visão compartilhada por Emory Douglas, Ministro da Cultura dos Panteras Negras. “A minha visão política é um reflexo da visão política do partido. Nós tínhamos uma perspectiva e um ritmo, uma plataforma e um formato que nos guiava. Era basicamente uma concepção socialista e marxista, mas com uma interpretação no contexto urbano”, relata Emory Douglas.

O partido também vai se sustentar a partir do centralismo democrático. Os temas e as estratégias eram debatidos até o esgotamento, mas depois de decididas, as propostas eram tomadas sem questionamentos. Essa metodologia ganha mais força conforme há maior centralidade na figura de Huey Newton.

A primeira ação política dos Panteras Negras foi a autodefesa contra a violência policial, entendida como uma manifestação do racismo. Para enfrentar esse problema, decidiram por acompanhar as patrulhas policiais com armas em mãos e uma cópia da legislação do Estado da Califórnia, que dava a permissão para o porte legal de armamentos. A ideia era evitar que qualquer abuso de autoridade fosse feito por parte dos agentes de segurança do Estado.

No documentário, “Panteras Negras: a Vanguarda da Revolução”, é possível ver o discurso de policiais, que se diziam “intimidados” com a postura dos ativistas da entidade.

O choque causado no Estado da Califórnia, na polícia e sociedade local, motivaram um deputado da época a propor a revogação do direito de porte de arma para todo e qualquer cidadão.

A votação no legislativo da Califórnia aconteceu, no dia 2 de Maio de 1967, e marcou o fim do porte legal de arma em vias públicas no estado. Mesmo que a medida tenha sido tomada menos de um ano depois da fundação da entidade, a imagem de jovens negros armados é uma das principais marcas em torno do imaginário do partido até os dias de hoje.

A aprovação, contudo, não se deu sem os Panteras Negras comparecem ao local, enfileirados, num grupo de 30 pessoas, com boinas, jaquetas de couro e armados. Os jovens chamaram a atenção de toda a imprensa do estado, e as imagens ganharam proporções nacionais.

Foi nesse momento que os Panteras Negras apresentaram ao público uma outra característica que os marcaria: a performance.

“Eles eram muito performáticos. A jaqueta e as boinas, e tinha a questão da performance, que era militarizada”, relata Flávio Thales.

Meses depois da revogação e da aparição pública do partido, um novo fato tomaria grandes proporções em nome dos Panteras Negras. Huey Newton, co-fundador do grupo, foi acusado de matar a tiros o policial John Frey, de 23 anos, durante uma blitz, em 28 de Outubro de 1967.

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Panteras Negras acompanham armados a votação sobre o porte de armas na Californa.

Algemado no hospital a uma maca, enquanto sangrava e recebia tratamento médico, o Ministro da Defesa dos Panteras Negras, cargo mais importante da organização, foi preso depois de receber alta. Ele se transformou num catalisador, na medida em que a situação foi divulgada como mais um exemplo da violência policial e o partido transformou Huey Newton em preso político. Exemplo disso ocorreu em 1968, quando os Panteras Negras lançam a sua candidatura para o Congresso americano de maneira simbólica.

A campanha faz o partido crescer e receber uma série de novos filiados. Entre eles, uma figura importante, o já reconhecido autor do livro “Uma Alma no Exílio”, Eldridge Cleaver. Ele ingressa na organização e aumenta o diálogo dos Panteras Negras com grupos da esquerda e intelectualidade branca norte-americana.

A expansão em nível nacional exige uma modificação na estrutura do partido. Entre 1967 e 1968, Huey era Ministro da Defesa, Bobby Seale, o Presidente, e Eldridge Cleaver o Ministro da Informação. Existiam também os líderes regionais e locais dos Panteras Negras, que se reportavam à estrutura central.

No início de 1968, no dia 4 de Abril, outro fator intensifica a força da organização. Depois da juventude negra acompanhar a morte do líder radical Malcolm X, em 21 de Fevereiro de 1965, o assassinato de Martin Luther King Jr. causou comoção e revolta no país.

Mais do que assassinar um dos grandes líderes do Século XX, Martin Luther King Jr. representava o modelo de luta da não-violência. De acordo com os Panteras Negras da época, a sociedade norte-americana enterrou com Martin Luther King Jr. a possibilidade de dialogar e resolver o racismo e a violência contra a comunidade negra de modo pacífico.

O discurso de autodefesa dos Panteras Negras ganha mais reconhecimento e adeptos, o que aumenta a força da entidade.

É nesse contexto que Eldridge Cleaver e o jovem Bobby Hutton, de 17 anos, foram encurralados por agentes de segurança depois de uma operação policial em Oakland. Em menor número, Cleaver sugeriu que os dois tirassem toda a roupa e saíssem nus para que os policiais não desconfiassem que eles estivessem armados. Cleaver fez isso, mas o jovem ficou envergonhado, e tirou apenas a camiseta.

Bobby Hutton foi alvejado e assassinado pelos policiais, o que o transformou em mártir da causa e no primeiro ativista a morrer no conflito entre os Panteras Negras e a polícia, que gerou entre os anos de 1966 e 1970 a morte de pelo menos 15 policiais e 34 “Panteras”.

Após essa ação, em 28 de Novembro de 1968, Cleaver vai para Cuba e depois para a Argélia, para fugir da perseguição do Estado norte-americano. Lá, funda a seção internacional dos Panteras Negras.

Os olhares em torno do Partido haviam crescido. Ainda na primeira fase, e bem incipiente, os Panteras Negras passaram a despertar o olhar não só da polícia local. Depois de 1967, o partido passa a ser monitorado pelo FBI.

Repressão

Após a vitória do ex-governador da Califórnia, Richard Nixon, para o cargo de presidente dos Estados Unidos, em 1968, John Edgard Hoover, secretário da presidência, passou a investigar de maneira mais forte o partido e a agir para “neutralizar” os Panteras Negras.

No contexto da Guerra Fria, um grupo de jovens negros armados com posicionamentos críticos ao modelo econômico capitalista assustava. Hoover temia que os Panteras Negras se articulassem de maneira mais orgânica com setores da esquerda norte-americana e ganhassem o respaldo da juventude branca, o que faria o partido ganhar mais poder e influência.

Apesar da dificuldade em crer que uma organização, que atingiu no período máximo os 5 mil filiados, poderia derrubar o governo norte-americano, Raquel Barreto, doutoranda em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e especialista no tema, recorda que aquele momento histórico era propício para imaginar e lutar por mudanças radicais.

“Quem imaginaria que uma revolução socialista poderia acontecer em Cuba, pequeno país tão próximo aos EUA?”, conta Raquel.

Hoover utiliza de maneira secreta o Serviço de Contra-Inteligência (COINTELPRO), cujo principal objetivo passava a ser naquele momento “desmascarar, perturbar, desorientar, desacreditar ou, caso contrário, neutralizar” as atividades das organizações do Black Power. Por conta dessas ações, os Panteras Negras proíbem a entrada de novos membros na entidade em 1969, por conta da infiltração de agentes do FBI.

O principal alvo da COINTELPRO foram os Panteras Negras. Das 290 ações feitas pelo serviço secreto, 245 foram direcionadas ao partido. As táticas utilizadas foram as mais diversas, desde aumentar as disputas internas, que ganhariam corpo com a discordância entre Eldridge Cleaver e Huey Newton, pela ameaça e perseguição constante dos membros, pelo forjar de provas para o aprisionamento de líderes, e até a execução de integrantes do grupo. O serviço de contra-inteligência também estimulou a rivalidade entre os Panteras Negras e outras organizações do Black Power, fazendo com que essas entidades chegassem inclusive aos conflitos físicos.

Em 1969, um caso notório atingiu a organização. William O’Neal atuou de maneira infiltrada pelo FBI como guarda-costas do proeminente membro do Panteras Negras de Chicago, Fred Hampton, quem fez alianças estratégicas e muito temidas pelo serviço secreto americano, como aproximar grupos de imigrantes hispânicos e ativistas brancos de esquerda para perto do partido.

O cerco do FBI sobre Hampton chegou ao fim em 4 de dezembro de 1969. Após um forte discurso em uma igreja em Chicago, a polícia fez uma operação às quatro da manhã em sua casa. Entre 82 e 99 foram disparados, que resultaram na morte de Fred Hampton e Mark Clark, liderança do partido da cidade de Peoria, no Estado de Illinois. Como forma de recompensa, o FBI deu 300 dólares para William O’Neal, agente infiltrado do serviço de inteligência dos EUA, como bônus pelo assassinato de Fred.

Imagem 4 Fred Hampton Editado

Fred Hampton era um dos mais proeminentes líderes do partido.

Quatro dias depois da morte de Fred Hampton e Mark Clark em Chicago, a polícia de Los Angeles invadiu o escritório dos Panteras Negras na cidade. Em 8 de dezembro de 1969, 300 membros da SWAT atacaram a sede da organização. Os Panteras não se renderem, o que resultou num conflito armado que durou cerca de 5h, deixando alguns feridos, e que contabilizou a utilização de 5 mil cartuchos.

Outra forma encontrada foi a perseguição jurídica. Multas de trânsito e prisões arbitrárias com elevadas taxas de fiança fizeram o partido despender altas quantias financeiras para libertar membros, recursos que poderiam ter sido investidos nas propostas da entidade. O pesquisador Ollie A. Johnson, em seu artigo “Explicando a extinção do partido dos Panteras Negras: o papel dos fatores internos”, estima em seus estudos que “entre dezembro de 1967 e dezembro de 1969, o Partido pagou mais de duzentos mil dólares em fianças”.

Dois casos evidenciam bem essa estratégia da COINTELPRO. Os “21 Panteras”, como ficaram conhecidos, foram presos em 2 de abril de 1969, na cidade de Nova York, acusados de atividades ligadas ao terrorismo. Entre as condenadas estava Afeni Shakur, mãe do rapper Tupac Shakur.

Para libertar os ativistas, condenados a 360 anos de prisão e com fianças em valores exorbitantes, foi preciso protestar e lutar por cerca de 13 meses. Nesse processo, os Panteras Negras contaram com a colaboração da comunidade negra e de estrelas, como a atriz Jane Fonda.

Outro exemplo da perseguição jurídica foram as sucessivas prisões dos líderes do partido. Depois de Huey Newton ser condenado, ainda em 1967, e Eldridge Cleaver se exilar em 1968, Bobby Seale, presidente da organização, foi condenado, em 1970, por assassinar um membro dos Panteras Negras, suspeito de ser um informante do FBI.

Durante o processo, Seale pediu para que se adiasse o seu julgamento por conta da não presença do advogado. Como o pedido foi negado, Seale solicitou o direito de fazer a sua própria defesa.

A sessão de julgamento do presidente dos Panteras Negras foi marcada pela tentativa do então líder se defender e o juiz pedir o seu silêncio. A continuidade de Seale fez o juiz ordenar que os policiais o amarrassem e o amordaçassem em uma cadeira, enquanto seu julgamento prosseguia sem qualquer defesa.

Nesse momento, ainda vivo, Fred Hampton pronunciou uma frase que marcaria a luta dos Panteras Negras. “Você pode prender um revolucionário, mas não pode prender a revolução”.

Em resposta às operações da COINTELPRO, os membros do partido criaram centros comunitários chamados de “Panther Pads”. Tratavam-se de moradias comunitárias, em que as atividades eram divididas em grupo, e que a segurança era rotativa para garantir a vigia do local 24h por dia.

Uma modalidade de ação da COINTELPRO que não pode ser desconsiderada é o fortalecimento de tensionamentos internos na organização. O caso mais célebre é a discordância entre o Ministro da Defesa Huey Newton e o Ministro da Informação e depois Ministro das Relações Internacionais, Eldridge Cleaver.

Newton acreditava que o partido deveria fortalecer seus programas sociais, enquanto Cleaver entendia que os Panteras Negras eram um grupo revolucionário que deveria acabar com o capitalismo norte-americano.

O FBI soube explorar as divergências dos dois líderes e as visões políticas das sedes do Partido. Mesmo que seja possível descrever que houve um maior alinhamento ao Black Power, e depois ao marxismo, assim como havia um olhar distinto para as estratégias de luta, as diferenças locais existiam.

A sede de Nova York tinha uma visão mais próxima do nacionalismo negro, diferente dos núcleos de Oakland e Chicago, mais próximos ao socialismo.

Mais do que a divergência política, haviam diferentes olhares sobre a organização e o uso do dinheiro do partido. A sede de Nova York guardava uma série de descontentamentos com a organização central, mas acreditava que com a saída de Huey Newton da prisão, suas questões seriam levadas em conta.

Depois da sua liberdade, Newton ficou na casa de Bert Schneider, um produtor de cinema de Hollywood, que ofereceu a sua residência como forma de proteger o agora visado líder do partido. Essa situação foi utilizada para criar o rumor, em outras filiais dos Panteras Negras, de que a sede de Oakland e em especial Huey Newton viviam em determinado luxo.

Os tensionamentos chegam ao ápice entre os anos de 1969 e 1971. Durante a campanha pela liberdade dos “21 Panteras”, a sede de Nova York teria supostamente pedido auxílio financeiro para o comitê central, e sem resposta pediram à outra organização, o que culminou na expulsão do grupo por parte de Newton. Cleaver sai em defesa dos integrantes de Nova York.

Em 1971, agora livre, Huey Newton é convidado a participar de um programa televisivo e a dialogar com Eldridge Cleaver, exilado e morando na Argélia. Cleaver crítica as posições de Newton ao vivo, o que gera um posterior desentendimento entre os líderes. A saída de Eldridge Cleaver da organização e o desligamento da sede de Nova York diminuem muito a força do partido. Sem que soubessem, o FBI agia desde 9 de Março de 1970 para dividir Cleaver e Newton, e a seção de Nova York da sede nacional.

As ações da COINTELPRO aconteceram de maneira mais orgânica até 1971, ano em que marca o fim da primeira fase dos Panteras Negras, com o racha entre Huey Newton e Eldridge Cleaver.

Programas sociais e a conexão com a comunidade

Ainda na primeira fase dos Panteras Negras, o grupo dá início aos seus programas sociais. As ações ganham mais força depois da proibição do uso de armas em vias públicas no Estado da Califórnia.

Alinhados aos 10 pontos do Partido, os programas sociais preenchiam as lacunas dos serviços que deveriam ser prestados pelo Estado norte-americano.

Imagem 5 Lista com os 10 princípios dos Panteras Negras Baixa

Essa é a lista dos 10 pontos do programa. Depois, nas fases seguintes da organização, há uma mudança em alguns deles.

Mais do que isso, com a forte repressão policial, e o medo espalhado pela mídia acerca dos Panteras Negras, os programas sociais foram a solução encontrada para fortalecer os laços entre a organização e a comunidade negra.

Kathleen Cleaver, a primeira mulher a compor o Comitê Central na figura de Secretária de Comunicações, foi personagem importante na articulação dos programas sociais dos Panteras Negras.

O programa que ganhou mais repercussão foi o café da manhã gratuito, com início em Janeiro de 1969. Os membros do partido se encontravam nas primeiras horas da manhã para cozinhar para as crianças negras da região. Era do conhecimento do Comitê Central que as crianças que pouco se alimentavam antes das aulas tinham um pior rendimento na escola. No auge do programa, calcula-se que foram servidas em média 20 mil refeições por semana.

Na educação, os Panteras Negras organizaram escolas locais que apresentavam a história do país e do mundo a partir do olhar dos afro-americanos. “Eles vão construir uma história que vai funcionar como uma contra-narrativa, e essas crianças vão aprender o conteúdo a partir dessa contra-narrativa”, explica Flávio Thales, professor de Ciências Humanas e Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Clínicas de saúde populares também foram criadas para atender a comunidade negra. Uma delas foi a Clínica de Saúde e Pesquisa Médica Gratuita George Jackson.

Outros programas incluíam também o transporte gratuito para visitas à prisão e roupas gratuitas.

Os Panteras sustentavam essas ações com a doação de recursos de uma burguesia negra, de artistas e intelectuais simpatizantes, profissionais liberais como advogados, com a arrecadação de recursos dos comerciantes locais, e por meio de conferências, como a de 1969, que reuniu organizações de esquerda contra o fascismo.

Em agosto de 1971, um boicote foi feito a uma loja de bebidas de Oakland depois de um dos comerciantes se recusar a dar dinheiro para os Panteras Negras. Essa era uma das estratégias utilizadas para pressionar os lojistas a colaborarem com a entidade.

Outra fonte de renda e que também fortaleceu o laço entre a organização e a comunidade, e permitiu a oferta da informação à população foi o jornal “The Black Panther”, que teve 537 edições entre 1967 e 1971, e chegou a circular 150 mil exemplares semanais.

Importante fonte de renda da organização, e sob os cuidados do Ministro da Cultura, Emory Douglas, o jornal era produzido com o gasto de 12 centavos e vendido a 25 centavos. O periódico apresentava os posicionamentos da entidade e os fatos que envolviam o movimento negro no país. O jornal contou com muitos colaboradores, com destaque para as artistas Matilaba e Asali.

Emory Douglas considera que a mídia negra serve como poderosa ferramenta na luta contra a opressão racial.

“A mídia negra pode lutar contra o racismo mostrando que o racismo é atrelado ao sistema e é institucionalizado. No jornal você pode expor o que você trata, e mostrar para as pessoas as contradições entre o que deveria estar acontecendo e o que não está sendo feito, em relação às pessoas de cor e negras”, disse Emory Douglas.

Foram nessas publicações que um dos personagens mais famosos de Emory Douglas ganhou força, o “porco”, desenhado como forma de representar os policiais norte-americanos. O personagem, pedido de Huey Newton e Bob Seale, se transformou no mais emblemático do artista.

Ao todo, foram contabilizadas cerca de 60 programas sociais organizados pelos Panteras Negras durante a história do partido.

Huey Newton e o reformismo

Depois da liberdade de Huey Newton, em Agosto de 1970, e do primeiro importante racha da organização, entre o Ministro da Defesa e Eldridge Cleaver, tem início a segunda fase da entidade, que persiste até 1973, ano da derrota nas eleições municipais de Oakland. Bob Seale descreve que em 1971, o Partido tinha em torno dos três mil filiados.

Os conflitos entre as organizações do Black Power ganham força nesse período, o que passou a diminuir de maneira gradativa a força do partido. Exemplo disso foi a morte de Robert Webb, um ativista dos Panteras da Costa Oeste, que seguia as ideias de Cleaver, e foi assassinado em 8 de Março de 1971.

Pouco tempo depois, em 17 de Abril, Samuel Nappler, Gerente de Distribuição do jornal “The Black Panther”, foi torturado e morto em Nova York. Acredita-se que a morte tenha sido uma retaliação ao assassinato de Robert Webb.

O assassinato dos dois, figuras carismáticas dentro da entidade, aumentou o clima de insegurança dentro das organizações negras, intensificou a tensão entre os diferentes grupos do Black Power e ainda motivou a debandada de muitos membros do partido. Bob Seale estima que entre 30% a 40% dos integrantes dos Panteras Negras saíram da organização depois das mortes de Robert Webb e Samuel Nappler.

O partido, enquanto estrutura, também sofre uma mudança na orientação política. Os Panteras Negras começam a se fundamentar na teoria do intercomunalismo, criada por Huey Newton. Elisa Larkin Nascimento, autora do livro: “O Sortilégio da Cor, identidade, raça e gênero no Brasil”, define na página 38 a teoria como “…a meta do futuro é estabelecer o intercomunalismo revolucionário, uma espécie de socialismo mundial em que o poder e as riquezas sejam distribuídos em nível intercomunal, ao mesmo tempo em que as comunidades alcancem o poder de decisão sobre as suas instituições e os seus destinos”.

Imagem 6 Kathleen Cleaver Editada

Kathleen Cleaver foi uma das principais lideranças do partido.

A pesquisadora Raquel Barreto diz que essa é também uma fase que, em certos momentos e análises, é tida como total da história do partido. É nessa etapa que começa a existir uma centralidade na figura de Huey Newton, o que vai lhe dar poderes que em alguns momentos foram utilizados para fortalecer a sua posição em detrimento da organização.

Huey Newton começa a desenvolver ações subterrâneas, sem o conhecimento de Bobby Seale, presidente da organização, como regulamentar e taxar as atividades criminosas feitas na cidade de Oakland.

Desde o início dos Panteras Negras, Huey Newton é construído como um mito, como a figura que lideraria a comunidade negra na luta contra a supremacia branca, imaginário esse que só se fortalece com sua liberdade.

O jovem, preso quando o partido ainda tinha características locais, volta às ruas e encontra uma organização que crescera também por conta da campanha pela sua liberdade e que naquele momento tinha reconhecimento no país e em outras partes do mundo.

A principal mudança da segunda fase dos Panteras Negras, porém, está no campo das estratégias políticas. Em 1972, Huey Newton decide por mobilizar toda a força política da organização para a eleição de Bob Seale para prefeito de Oakland, e Eliane Brown, para um cargo na Câmara Municipal.

Para essa ação, os Panteras decidem por fechar quase todas as suas sedes em outras regiões do país e convidam todos os membros possíveis para ajudar na campanha com o objetivo de vencer e mostrar para o mundo a cidade de Oakland como um exemplo a ser seguido para os municípios com forte presença de afro-americanos e a transformar em modelo de administração.

A decisão gerou descontentamento. Muitos integrantes do partido não queriam acabar com o trabalho desenvolvido em suas comunidades, pois programas comunitários estavam em andamento, assim como muitos presos políticos e integrantes sob acusação da justiça norte-americana precisavam de apoio legal do partido.

O segundo lugar nas eleições com mais de 500 mil votos para Bobby Seale e a não eleição de Eliane Brown, marcou uma etapa na desmobilização dos Panteras Negras. A organização havia centrado todos seus recursos humanos, políticos, financeiros nas disputas para a câmara municipal e a prefeitura.

O revés resultou na saída de muitos membros, desgastados com o processo eleitoral, e com a perda do imaginário revolucionário dos Panteras Negras, que para a prefeitura de Oakland fizeram uma parceria com o Partido Democrata local e adotaram discurso mais brando e menos radical.

A negação às ideias de Cleaver, que entendia os Panteras Negras como um grupo revolucionário, o maior investimento nos programas sociais e o desejo por disputar a prefeitura de Oakland fazem os Panteras Negras perderem seu aspecto revolucionário e ganharem um caráter mais reformista.

Sucesso na política institucional

A terceira fase, que vai de 1973 a 1977, se inicia com cerca de 500 filiados, de acordo com Bobby Seale. O início dessa etapa, em 31 de Julho de 1974, conta com o desligamento de Seale do partido, depois de grave desentendimento com Huey Newton. Depois de sua saída, uma série de integrantes abandonam a organização, que passa a registrar 200 filiados.

Huey Newton, naquele momento, tinha status de celebridade local, prestígio por parte de alguns membros do partido, e medo de outros.

Ainda em 1974, Huey Newton se vê obrigado a deixar o país, por conta de uma acusação de assassinato e agressão, e se exila em Cuba. A saída de Newton abriu espaço para Eliane Brown assumir a presidência dos Panteras Negras, retomar parte do prestígio regional da entidade, arranhada por conta de comportamentos violentos de Huey Newton.

Apesar de contar com poucos filiados, Eliane Brown tem êxito na estratégia dos Panteras Negras de influir na política de Oakland.

Ela participou de nova campanha para a Câmara Municipal de Oakland, terminando em segundo lugar, no ano de 1975, e também representou o governador da Califórnia, Jerry Brown, enquanto delegada do Partido Democrata na convenção nacional dos democratas.

Imagem 7 Eliane BrownEditada

Eliane Brown foi presidenta dos Panteras Negras na fase final do partido.

Eliane também teve papel destacado na eleição do primeiro prefeito negro de Oakland, o Juiz Lionel Wilson, em 1977.

Brown segue com as atividades clandestinas do partido, iniciadas por Newton, e recorre aos castigos corporais para manter sua autoridade. Essa era uma prática dos Panteras Negras, mesmo nos seus períodos iniciais, como forma de coerção a atitudes reprovadas pelo grupo.

Eliane Brown representou um respiro para o partido, e foi importante para a manutenção dos programas sociais na cidade de Oakland.

O fim

O fim do partido, e o início da quarta e última fase, que vai de 1977 a 1982, tem como marca fundamental o retorno de Huey Newton aos Estados Unidos. Em 1977, Eliane Brown alega falta de condições físicas e mentais para seguir na dirigência do partido e sai da entidade.

Absolvido das acusações, Newton manteve posturas violentas diante de outros integrantes da organização, não conseguiu gerir da melhor maneira possível os fundos partidários, sendo posteriormente acusado de desvio de recursos, fatores que prejudicaram o andamento das ações comunitárias feitas pelo partido.

Em 1980, é publicada a última versão do jornal “The Black Panther”, e o fim dos Panteras Negras é marcado de maneira oficial em 1982, com o fechamento da escola comunitária de Oakland.

Além das pressões do FBI e das disputas internas, erros estratégicos como o fechamento da estrutura nacional para as eleições de Oakland, e a centralidade das decisões de Huey Newton, foram outros fatores que colaboraram para o fim do partido dos Panteras Negras.

Ollie Johnson, em seu artigo “Explicando a extinção do partido dos Panteras Negras: o papel dos fatores internos”, descreve da seguinte maneira a trajetória do Partido entre 1966 e 1982. “Nesse período, o BPP [partido dos Panteras Negras] passou de uma grande organização descentralizada e revolucionária, com aproximadamente cinco mil membros distribuídos em quarenta seções, para uma organização local, altamente centralizada e reformista, com menos de cinqüenta Panteras nos arredores de Oakland, Califórnia”.

Diversidade política dentro do partido

A existência de muitas sedes e as diferentes formas de ação de cada localidade resultaram na diversidade política interna dos Panteras Negras. Como dito no início da reportagem, a pesquisadora Raquel Barreto afirma que trechos da história do Partido são utilizados para ilustrar toda a narrativa dos Panteras Negras. O mesmo vale para a identidade política do grupo. Além das tendências terem se transformado em nível estrutural, primeiro mais próximo ao “Black Power”, depois ao “Socialismo”, e por último ao “Intercomunalismo”, a diversidade era significativa entre os ativistas e as sedes.

Emory Douglas, ex-Ministro da Cultura do partido, se coloca como marxista e conta da admiração que parte dos jovens tinham pela figura de Mao Tse-Tung. Ele, porém, reconhece que essa não era a única visão política no interior da organização.

“Nós tínhamos professores marxistas que compuseram o partido, mas tinham Panteras que vinham de todas as orientações da vida. Tínhamos Panteras que eram cristãos, que eram muçulmanos, que eram ateus, alguns que eram marxistas, alguns eram rasta, mas todos colocavam isso de lado para trabalhar juntos pela organização”.

Para ele, a diversidade ajudava na compreensão da realidade norte-americana, porque toda fonte de saber tem suas potências e limitações.

“Qualquer “ismo” que possa melhorar e dar esclarecimento pode ajudar na luta contra o racismo e para transformação da sociedade. Mas todo “ismo” também tem suas limitações”, conta Emory Douglas.

Imagem 8 Obra de Emory Douglas

O porco enquanto representação dos policiais norte-americanos é uma das principais obras de Emory Douglas.

O tensionamento com relação à teoria marxista ganhava corpo no relacionamento dos Panteras Negras com parte da burguesia negra, fonte importante de financiamento do programa de café da manhã. Os empreendedores negros tinham receio desse discurso e posicionamento socialistas.

Apesar das muitas diferenças e dos tensionamentos existentes dentro da organização, Raquel acredita que os Panteras Negras estavam próximos de construir a sua própria forma de compreender o mundo.

“Na minha avaliação, o partido estava construindo a sua própria ideologia, e as transformações das conjunturas influenciaram determinadas posições que o partido tomou”, conta Raquel Barreto.

As Mulheres e o Machismo

O Partido dos Panteras Negras, com uma representação muito associada às lideranças masculinas, é rotulado pelo machismo.

Raquel Barreto faz algumas ressalvas, e se distancia de afirmações categóricas cpmo a de que o “partido era machista”.

Ela aponta que, como historiadora, prefere olhar para aquele período histórico. A década de 1960 é o momento em que ocorre a chamada segunda onda do feminismo. Muitas das conhecidas feministas da época vinham de movimentos progressistas e de esquerda, onde apontavam a presença do machismo nesses espaços.

“A mesma coisa acontecia dentro das organizações do movimento negro. Você tem uma série de entidade, além dos Panteras, que tinham o problema do machismo. O machismo era um problema da época, histórico”, relata Raquel Barreto.

Ela, ao analisar a postura do partido, pensa que os Panteras Negras tinham um discurso avançado, de reconhecer o machismo como um problema dentro da organização e de tomar medidas para mudar essa situação, apostando na igualdade e na não essencialização dos papéis de gênero.

Uma das propostas de Elaine Brown, única presidenta do Partido, foi a de fazer as mulheres articularem os programas de autodefesa e os homens cuidarem do café da manhã.

Em 15 de Agosto de 1970, Huey Newton faz uma declaração em que apontava para a necessidade de maior diálogo entre o movimento negro, e as organizações feministas e LGBTs.

“Mas na prática, o machismo acontecia, apesar de se reconhecer a igualdade de gênero”, afirma Raquel Barreto.

Ela acha que é preciso ter cuidado com determinadas afirmações categóricas, como a de marcar o Partido dessa maneira, como machista.

“Há uma forma de demonizar o Partido chamando eles de machistas, como se só eles fossem, como se fossem diferentes daquela conjuntura histórica onde eles estavam inseridos”, explica.

Além do reconhecimento e da tentativa de enfrentar o machismo, o partido teve papel destacado das lideranças femininas para a mudança dos papéis de gênero e a luta contra o sexismo.

De acordo com o documentário “Panteras Negras: A Vanguarda da Revolução”, o partido era composto a partir do final da década de 60 e início de 70 por uma maioria de mulheres.

As quatro lideranças mais proeminentes do grupos, Ericka Huggins, Kathleen Cleaver, Assata Shakur, e Eliane Brown foram muito representativas na luta contra o racismo e o machismo. Kathleen foi a primeira mulher a compor o Comitê Central e Eliane Brown a primeira presidenta do partido.

Influência e legado

Todas as lutas travadas e o mito construído em torno dos Panteras Negras fez a organização ter grande influência nos EUA, no Brasil e em outras partes do mundo.

No campo político, os EUA hoje vêem a existência do Black Lives Matter, organização composta por uma série de entidades, em que há uma autonomia local, apesar de um alinhamento na luta contra o racismo e a violência policial. A descentralização e a autonomia são características da primeira fase dos Panteras Negras.

Raquel lembra que ambos, Black Lives Matter e os Panteras Negras, surgiram de momentos de enfrentamento à violência policial. O Black Lives Matter ganhou muita força nos EUA depois de Ferguson, com a morte do jovem Michael Brown, de 18 anos.

Flávio recorda que os Panteras Negras também serviram de inspiração para outras entidades nos EUA, como as organizações de latino-americanos e os movimentos de porto-riquenhos contra o domínio dos Estados Unidos.

Ainda na esfera política, Flávio acredita que o partido representa um golpe à ideia de excepcionalismo democrático dos EUA. A nação, que prega a democracia por todo o mundo, teve as suas contradições também apresentadas pelos Panteras Negras.

As escolas comunitárias e a importância de educar a juventude negra a partir do olhar afro-americano influenciou a construção dos “Black Studies”, que em português significam “Estudos Negros”. Hoje em muitas universidades norte-americanas há centros de African Studies (Estudo Africanos) ou African-American Studies (Estudos Afro-Americanos). No Brasil, de maneira mais recente, há a criação dos Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), em muitas universidades federais pelo país.

No esporte, a imagem de Toomie Smith e John Carlos no pódio dos jogos olímpicos de 1968, com o punho cerrado vestido por uma luva preta enquanto tocava o hino norte-americano, marcou a herança esportiva da época.

Imagem 9 Toomie Smith John Carlo Editada

Toomie Smith e John Carlos marcaram os jogos olímpicos de 1968 com o símbolo do Black Power.

Na música, além do grupo musical do partido, “The Lupens”, com um estilo próximo do Funk e do Soul, pode-se dizer que houve uma influência no Hip Hop, em grupos que faziam uma discussão acerca do racismo e da violência policial. Tupac Shakur, filho de Afeni Shakur, presa durante a operação dos “21 Panteras” de Nova York, é um dos exemplos. Em uma das suas músicas “Dear Mama”, Tupac faz uma série de referências ao partido.

No campo político brasileiro, os Panteras Negras influenciam a construção do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, organização que simboliza o movimento negro moderno, e a principal entidade da segunda metade do Século XX.

José Adão Oliveira, um dos fundadores do MNU, destaca como legado dos Panteras Negras o conhecimento da legislação nacional para desmascarar o racismo, a utilização do orgulho negro como forma de ação política e a luta contra o modelo econômico vigente.

“O legado dos Panteras Negras foi o de encarar o racismo no coração do sistema capitalista”, afirma José Adão Oliveira.

Mais do que o MNU, os Panteras Negras influenciaram na atuação política dos militantes negros em todas as áreas.

Maria José Menezes, integrante do Núcleo de Consciência Negra da USP, aponta um dos aspectos do programa do partido, a “autonomia política e econômica para a comunidade negra”, como central para a luta contra o racismo.

Ela lamenta o momento brasileiro da época, no auge da Ditadura Civil-Militar, e acredita que a conjuntura tenha sido impossibilitadora para uma leitura mais aberta e ampla dos princípios e da atuação política dos Panteras Negras.

Para ela, os partidos de esquerda no Brasil têm muito a aprender com a experiência dos Panteras Negras.

“No Brasil os partidos políticos ainda não tiveram a capacidade de incorporar as nossas pautas em seus programas. Somos a maioria da população e ainda vemos nossa juventude ser morta e aprisionada. Vemos o desemprego em massa de nosso povo, a exploração, o trabalho escravo. Os partidos de esquerda ainda não estão a serviço da maioria. É urgente uma mudança de paradigma”.

O artigo de Raquel Barreto, “Os Panteras Negras e o Brasil: Notas sobre uma História da Diáspora”, é uma fonte para entender as relações existentes entre o partido e o país.

Em 1969, durante a campanha pela liberdade Huey Newton, Abdias do Nascimento, um dos principais nomes do movimento negro brasileiro, foi aos EUA prestar apoio ao partido. Abdias do Nascimento pintou a obra cuja título é “Liberdade para Huey” como forma de colaborar na luta.

A partir da leitura, é possível observar que não foram só os Panteras Negras que influenciaram o movimento negro brasileiro. Na lista de leituras obrigatórias do partido em casos de emergência, em momentos de maior pressão do Estado, estava o Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighella, integrante da Ação Libertadora Nacional (ALN). O texto foi traduzido para o inglês por volta de 1969.

Quatro dias depois da morte de Carlos Marighella, assassinado pela Ditadura Militar, a edição do jornal dos Panteras Negras de 8 de Novembro de 1969 publicou na sessão de notícias internacionais o texto de Carlos Marighela, “Chamamento ao Povo Brasileiro”, de 1968. Mesmo sem uma indicação direta de que aquilo é uma homenagem, há fortes indícios de que sim.

As trocas e influências, porém, foram além do universo político.

Flávio Thales, professor de Ciências Humanas e Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), diz que o movimento Black Power, ao qual os Panteras Negras compunham, gerou inspirações no Brasil no campo estético. O lema de “Black is beautiful”, que significa “O negro é lindo”, foi impulsionador do sucesso dos bailes blacks em São Paulo e no Rio de Janeiro. No mesmo período, no ano de 1971, Jorge Ben divulga um álbum com o nome “O negro é lindo”.

“Essa juventude não vai achar elementos para a construção de uma identidade negra na cultura nacional. Ela vai buscar fora. Você tem um discurso de que não há problema de raça no Brasil, e essa juventude está criando uma identidade racial e está fazendo discurso de orgulho negro”, conta Flávio Thales.

O ator e cineasta Zózimo Bulbul também bebeu da fonte dos Panteras Negras. Em 1973, o artista apresentou o curta-metragem com o título de “Alma no Alho”, inspirado no livro de Eldridge Cleaver, “Alma no Exílio”. A obra do Ministro da Informação do partido foi divulgada em 1971 no Brasil, e o filme de Zózimo não chegou a ser publicado, pois foi censurado pela Ditadura.

O principal grupo de rap do Brasil, os Racionais MC’s, lançaram em 2012 o clipe “Mil Faces de um Homem Legal”, música feita em homenagem a Carlos Marighella. Em uma das cenas da produção, todos os integrantes do grupo de rap aparecem fazendo a saudação do “Black Power”.

As imagens de Emory Douglas e os seus traços também influenciaram a produção artística no país. Prova disso foi a realização do Encontro Nacional de Estudantes e Coletivos Universitários Negros (EECUN), em Maio de 2016, cuja identidade visual foi feita por Vinícius de Araújo, inspirada nas obras de Emory Douglas.

Entre os dias 8 de março e 4 de junho de 2017, o Sesc Pinheiros recebeu a exposição “Todo Poder ao Povo! Emory Douglas e os Panteras Negras”. A abertura da programação contou com a presença de Emory Douglas, que falou sobre a sua arte e a organização política dos Panteras Negras. A mostra, organizada pelo coletivo colombiano La Silueta e pelo artista Juan Pablo Furtado, apresentou algumas das obras do então diretor artístico, designer, ilustrador do periódico The Black Panther e também Ministro da Cultura do Partido dos Panteras Negras.

Imagem 10 Fundação Movimento Negro UnificadoEditada

Movimento Negro Unificado (MNU) teve grandes influências dos Panteras Negras.

New Black Panthers

Existe hoje nos Estados Unidos um movimento chamado New Black Panthers, ou Novos Panteras Negras em português. Apesar de carregar a marca e a simbologia do Partido dos Panteras Negras, líderes da história organização afastam as aproximações.

Bobby Seale, em entrevista, disse que os New Black Panthers nada tem a ver com os originais e Mumia Abu-Jamal, em texto escrito, diz que esse grupo está mais próximo da Nação do Islã, de Malcolm X, do que dos Panteras Negras.

“Os princípios ideológicos e as perspectivas são outros. O partido dos Panteras Negras não pregava o ódio aos brancos enquanto pessoas e indivíduos. Eles pregavam o fim da opressão classista e racista, o fim da supremacia branca, o fim da violência policial, mas não entendiam isso como um problema de indivíduos, mas um problema estrutural”, conta Raquel Barreto, Doutoranda em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e especialista no tema.

Flávio diz que não há uma ideologia anti-colonial, marxista, assim como há uma ausência de intelectuais negros, marcas dos antigos Panteras Negras.

“São grupos para-militares que utilizam essa representação dos Panteras Negras e tentam se colocar como os Novos Panteras Negras. Não existe algo que estabeleça uma relação direta entre esse grupo e o que atuou nas décadas de 60 e 70”, explica Flávio Thales.

Panteras Negros presos

Mesmo depois de 50 anos da fundação do partido dos Panteras Negras e de décadas da sua diluição, há um grande contingente de ex-integrantes presos na condição perpétua.

Organizações internacionais de direitos humanos, como a Aliança pela Justiça Global e o Movimento Jericó, fizeram uma lista com os presos políticos norte-americanos. De um total de 54 nomes, há 3 indígenas, 28 negros, 2 latinos, 4 militantes de esquerda, 2 ambientalistas, 3 Hackers e militares, 12 islâmicos. Dos 28 negros presos, 14 são Panteras Negras. A lista não inclui os encarcerados de Guantánamo ou estrangeiros julgados nos Estados Unidos por crimes cometidos no exterior.

Albert Woodfox, ex-integrante dos Panteras Negras, ficou 43 anos preso, muitos deles na solitária. Acusado de assassinar um policial, Albert ficou conhecido como “os três de Angola”. Angola é o nome de uma prisão norte-americana, criada sob uma antiga fazenda, em que os negros que trabalhavam no local de forma escrava vinham do país homônimo. Albert Woodfox foi libertado em 2016.

Apesar dos anos se passarem, Flávio Thales acredita que essas prisões representam que os EUA, assim como o Brasil, é um país marcado pelo racismo.

“Eu não consigo ter outro argumento para a manutenção dessas prisões senão a de como a supremacia branca resiste na justiça norte-americana”.

Referências:

Artigo de Raquel Barreto: “Os Panteras Negras e o Brasil: Notas sobre uma história da diáspora”.

Artigo de Ollie A. Johnson: “Explicando a extinção do Partido dos Panteras Negras: o papel dos fatores internos”.

Documentário de Stanley Nelson Jr. e Laurens Grant: “Os Panteras Negras: Vanguarda da Revolução”.

*Haiti: Bandeira Americana Queimada por Manifestantes

Os manifestantes acusam o atual chefe de estado de ser colocado pelos Estados Unidos.

Os manifestantes acusam o atual chefe de estado de ser colocado pelos Estados Unidos.
 afp.com/HECTOR RETAMAL

Do: LEXPRESS

Mais de uma semana depois do início da crise, os manifestantes pediram à Rússia e à China na sexta-feira.

Eles chamam Putin e não querem mais os americanos. Um grupo de manifestantes queimou uma bandeira americana na tarde de sexta-feira no coração da capital haitiana, Porto Príncipe, pedindo ajuda da Rússia para resolver a crise que paralisou o país por mais de uma semana. 

“Queremos dizer que nos divorciamos completamente dos americanos: nós tomamos muita ocupação nas mãos dos Estados Unidos, não podemos”, disse Bronson, manifestante de um pequeno grupo que incendiou a bandeira. De acordo com cerca de 200 participantes do comício, o ex-presidente haitiano Michel Martelly e seu potro, o atual chefe de estado Jovenel Moise , foram colocados no poder pelos Estados Unidos. 

Depois de ter queimado a bandeira, os jovens gritavam “Abaixo os americanos, Viva Putin”. “Estamos pedindo à Rússia, Venezuela e China para ter um olho na miséria que vivemos aqui”, disse Bronson. 

A resposta tardia do presidente

Os confrontos entre os manifestantes e a polícia eclodiram. Várias detonações foram ouvidas. Mais cedo, a polícia dispersou a maior parte do rali usando grandes quantidades de gás lacrimogêneo. No resto da capital, as atividades recomeçaram um pouco na sexta-feira, mas o medo da violência continuou em uma população que preferia não sair às ruas. 

Jovenel Moise, que falou pela primeira vez na noite de quinta-feira desde o início dos distúrbios em 7 de fevereiro, rejeitou totalmente a idéia de uma saída do poder. “Já vimos uma série de governos de transição que deram um pacote de desastres e desastres”, disse ele em um discurso pré-gravado transmitido pela televisão estatal TNH. 

Não fazendo nenhuma proposta para responder às demandas, esse discurso está longe de satisfazer os manifestantes. “Ele não disse nada e, como resultado, chegou a agravar a situação, porque com sua arrogância em falar conosco, ficou ainda mais mimado”, disse Cesar. , que ajuda as pessoas no centro da cidade a encher recipientes de água. 

Pelo menos 7 mortos

Desde 7 de fevereiro, pelo menos sete pessoas morreram e os transbordamentos causaram danos materiais significativos, principalmente na capital. 

Assista o vídeo: No Haiti, a revolta contra o presidente faz 7 mortos

Leia também: HAITI – 100 anos de ocupação perpétua: o legado de Woodrow Wilson

*O luto parece não ter fim

O luto não tem fim

Leonardo Boff

O Brasil parece tomado por um luto que nunca termina. As pessoas andam acabrunhadas por causa do desemprego e pelas reformas conservadoras que o novo governo pretende introduzir, tirando direitos dos trabalhadores e atacando diretamente várias políticas sociais que beneficiavam os mais destituídos. Estudantes universitários que viviam com bolsas do governo tiveram que interromper seus estudos. Reformas na educação nos remetem à fase anterior ao Iluminismo, em alguns pontos, à Idade Média. Uma sombra escura pesa sobre o rosto de milhões de compatriotas.

Parece que cada dia acontece algo sinistro. Sem dúvida o grande luto nacional foi o criminoso desastre de Bromadinho-MG que, com o rompimento da barragem da mineradora Vale, foram dizimadas centenas de vidas em meio a um tsunami de resíduos de metais pesados, lama e água, poluindo o rio por dezenas de quilômetros. Luto foi a morte do conhecido jornalista Ricardo Boechat com a queda de um…

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*A Direita e sua Guerra Ideológica Contra a América Latina

Do: AUCA EN CAYO HUESO

A direita e sua guerra ideológica contra a América Latina

Frei Betto visita Cuba . Ele participa ativamente dos eventos políticos, culturais e sociais que ocorreram em Cuba nos dias de hoje (13/02/2019). E não é por acaso, porque no meio de circunstâncias adversas que está sendo experimentado na América Latina, a Revolução Cubana deve reforçar os seus movimentos de esquerda e aprender com os erros, não só nos países da região, mas também da sua própria.

Entre as reuniões de Pedagogia 2019 ou a 28 Feira Internacional do Livro em Havana levou tempo para compartilhar com os trabalhadores do jornal Granma, (órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba). Em um discurso, ele voltou ao tema dos desafios que os países de esquerda latino-americanos enfrentam hoje e como a direita vem ganhando terreno.

“Nós, da esquerda, ainda somos analfabetos em redes digitais, não sabemos trabalhar com elas, e a direita tem um monte de formados …”, disse Betto, ao analisar o contexto de Cuba, um país fortemente atacado por campanhas de mídia em redes digitais contra o governo, especialmente hoje, aproveitando o processo de informatização da sociedade, recentemente iniciado .

“A direita produz toda a informação falsa, uma verdadeira guerra ideológica que atinge todos os celulares e todos os computadores. Isso não está certo … e é um desafio para nós. É importante formar equipes com muito treinamento em informática, não para responder à ofensiva virtual do imperialismo, da direita, mas para tornar nossa diretriz mais ofensiva. E enquanto não conseguirmos isso, continuaremos em uma situação muito difícil, com mentiras, mentiras e mentiras … e sem a possibilidade de responder à altura “, continuou.

Cuba trabalha incansavelmente para manter seus ganhos sociais, no entanto os meios da extrema direita continuam em sua atitude humilhante e desrespeitosa para com o jornalismo de verdade, que não tem nada a ver com a montagem e a falsa interpretação da informação.

O ilustre intelectual brasileiro refletiu sobre o valor de homens e mulheres de um país que celebra os 60 anos de Revolução, um país pequeno e bloqueado e o único na história do Ocidente que optou pelo socialismo. De maneira oportuna, e de sua proximidade com o processo que seu país experimentou, ele compartilhou sua experiência: “No Brasil, Bolsonaro praticamente venceu as eleições através de redes digitais. Eu realmente não gosto do termo redes sociais, porque muitas vezes ela não cria sociabilidade, mas hostilidade “.

“Em geral, apesar de todos os avanços, conquistas, pessoas muito pobres que saíram da pobreza, zero de fome no Brasil, pessoas que nos anos de governo Lula tiveram acesso a saúde, educação e habitação Para créditos … cometemos erros muito grandes e o primeiro não é ter feito uma alfabetização política do povo. E isso será um problema também para Cuba se a alfabetização política das novas gerações não for realizada. Porque na política não há posição neutra. Ou fazemos esse trabalho cultural ou o inimigo faz isso. E é um inimigo muito poderoso. Vem do romance, do filme, da informação no rádio … “

UM OLHAR DA EXPERIÊNCIA LATINO-AMERICANA

guerra ideológica é a técnica mais comum usada pelos Estados Unidos para interferir nos países que trabalham duro na América Latina para realizar campanhas de saneamento, educação e preparação política da população.

“O inimigo tem muitas possibilidades, porque projeta uma imagem da vida burguesa, e as pessoas que vivem com dificuldades têm esse sonho burguês de melhorar suas vidas. Em nossos países temos feito o erro de priorizar o acesso das pessoas à propriedade pessoal: ter uma TV, geladeira … Você vai a um fabela de São Paulo e em uma pequena casa de madeira tem TV a cores, microondas, tem telefone celular, mas as pessoas não têm moradia, não têm saneamento, educação, saúde, segurança … E então cometemos o erro de não priorizar os bens sociais. Criamos uma nação de consumidores, não de protagonistas sociais da política “, afirmou Betto.

Na sua opinião, outro dos problemas que as pessoas enfrentam é a corrupção, porque há altos funcionários do governo ou do Partido que não respondem às demandas do momento histórico que estamos vivendo: “Não tem havido muitos, mas o suficiente para desmoralizar o governo.” esquerda, especialmente porque muitas vezes não punimos nossos colegas. Eles foram sancionados mais tarde, em alguns países, pela justiça, mas não pelo partido de esquerda. E Fidel disse que um revolucionário pode perder tudo, trabalho, casa, pátria quando ele vai viver em outra cidade, liberdade, quando ele vai para a cadeia … até que a vida quando ele está morto, tudo que você não pode perder é a moral, se ele perder a moral, toda a causa se desfaz.

“Em muitos países, não conseguimos eliminar a corrupção, superar essa bola de neve que nossos partidos de esquerda são corruptos. O povo votou em Bolsonaro, não para ele, mas contra o Partido dos Trabalhadores. Quão curioso é que as pessoas fazem uma distinção entre Lula e seu Partido! Quem é corrupto? Na verdade, não é todo o partido, mas alguns líderes. E Lula, não. As pessoas têm plena convicção da inocência de Lula e sabem que não há provas do que ele é acusado. Foi dito em entrevistas que não há provas, mas a convicção de sua culpa, uma justiça feita a partir da subjetividade.

O FORTALECIMENTO DA ECONOMIA INTERNA É ESSENCIAL

Os Estados Unidos não têm capacidade para reconhecer o que foi feito em Cuba quando se trata de corrigir erros. É importante ter em mente que um país bloqueado desenvolve um modelo de melhoria econômica juntamente com programas sociais. Frei Betto também deu seu ponto de vista sobre o que está acontecendo na América Latina: “Não aproveitamos o período de alta dos preços para criar um mercado interno, nossas tecnologias eram muito dependentes das exportações. Por isso, quando o preço da soja cai, no caso do Brasil, ou do petróleo, no caso da Venezuela, ficamos mal, porque não aproveitamos os bons momentos da economia para criar uma infraestrutura, para promover um mercado melhor. internamente, e este é um momento, infelizmente, de um avanço incrível do certo “.

E enquanto a América Latina precisa impulsionar sua economia interna, não será à custa de suas conquistas. Este modelo da vida burguesa que fascina as pessoas a partir do norte metas mancilla movimentos de esquerda, porque ele está por trás do desejo de bem-estar, o seu objectivo é alargar o seu domínio sobre a região para aumentar o poder; é vencer na luta com o vizinho mais pobre; é destruir recursos naturais, ganhar posições estratégicas e oprimir através de um slogan de liberdade.

“A direita avançou no Brasil, agora em El Salvador, e avançou no Equador com o projeto apresentado por Moreno, na Argentina com Macri … Não sabemos o que acontecerá na Venezuela, na Nicarágua, o que acontecerá com o presidente da Bolívia … Vivemos em um momento muito difícil, no qual temos que avaliar nossos erros, refrescar na memória das pessoas as conquistas … E não basta reconhecer os erros, é preciso manter o pessimismo para dias melhores. Não temos o direito de ser pessimistas “, disse o teólogo brasileiro.

A RELIGIÃO, COMO A POLÍTICA, PODE IMPRIMIR OU LIBERTAR

Um dos pontos centrais de Fidel e da religião é precisamente aprofundar os contatos entre política e religião. Frei Betto explicou como isso pode ser alcançado, não apenas uma coexistência entre a Igreja e a Revolução, mas uma integração na construção socialista da sociedade: “Agora a esquerda percebeu que a religião como política serve para liberar ou servir para pressionar. Foi uma má interpretação da tradição marxista, afirmar que a religião era alienante, opressora dos povos e não é verdade. O próprio Marx em seu livro afirma que a religião é o clamor dos pobres em um mundo sem coração, é o grito de um oprimido. Isto é, ele tinha uma visão dialética da religião. O marxismo que veio da União Soviética impôs esse preconceito à religião.

“De fato, formamos na América Latina um movimento muito forte de cristianismo progressista e revolucionário. Comunidades eclesiásticas refletem a teoria da libertação. Se você conhece a luta dos sandinistas na Nicarágua, os cristãos participaram lá; a guerrilha do salvador, ali os cristãos participaram; os guerrilheiros da Colômbia, a Frente de Libertação Nacional foi fundada por um padre … Então houve uma grande dose de cristianismo progressista evangélica, mas depois veio anos de pontificados conservadores, com João Paulo II e Bento XVI, e não sofreu um desmobilização do cristianismo progressivo da igreja católica, falo apenas da igreja católica.

“Hoje, felizmente, pela graça de Deus, temos o Papa Francisco , que se identifica com a ideologia da libertação, que promoveu três encontros mundiais de líderes, movimentos populares … Nenhum Papa fez isso na história da igreja, isso criou um slogan de dignidade humana, os três: trabalho, telhado e terra. Infelizmente, hoje a Igreja Católica é um corpo conservador com uma cabeça progressista, porque mudar esse corpo conservador não é tarefa fácil “.

Mais tarde, ele explica a evolução que esta posição conservadora teve em Cuba: “A igreja cubana tem uma história peculiar. Primeiro, foi uma igreja marcada pelo conservadorismo da Espanha, especialmente na ditadura do generalíssimo Franco, e que não passou por um processo, por exemplo no Brasil, de se aproximar das pessoas mais pobres. O próprio Fidel chamou a atenção para essa questão. Antes quase não havia igrejas, mas agora você passa pela Quinta Avenida, e em ambos os lados, praticamente todos os quarteirões há uma igreja.

“Então, acho que o livro Fidel e a religião ajudaram a desbloquear a questão dos crentes. O partido mudou seus estatutos, não é mais um partido ateu, mas um leigo. Houve uma mudança na constituição, não é mais um estado ateu, é secular. Até os crentes podem entrar no partido. Naquela época, o chefe do Escritório de Assuntos Religiosos era meu amigo Carneato, e eu disse: “Olhe Carneato, muitos cristãos entram no Partido, agora é permitido”, e ele disse: “Não, Betto, é o contrário, muitos Os comunistas agora confessam que sempre tiveram fé. Antes eles não podiam dizer publicamente, mas agora “”.

Na mesma medida em que a sociedade cubana avança, novos termos nascerão para definir seus processos de mudanças. Atualmente tem um nome, Diretrizes, o teólogo disse que este é o segredo da resistência do povo cubano, de sua resiliência, de sua capacidade de crescer e se reorganizar. “Quando você não reconhece seus erros, as pessoas pensam que a culpa é dos partidos políticos e que o Partido é cego …”, disse ele.

Esta é uma verdade que as pessoas devem conhecer. Essa é a maneira de saber qual é a principal arma da direita: a manipulação da mídia tira proveito da menor fissura e dos ataques …

De CubaHora

*Partilha e Limpeza Étnica da Palestina

Posto de controle de Qalandia. Foto: Tamar Fleischman

Do: DESACATO

Por Sayid Marcos Tenório e Aysha M. Gouveia.

O conflito quase secular existente na Palestina é tratado erroneamente pela opinião pública como um problema palestino-israelense, originado de uma disputa supostamente político-religiosa travada entre os judeus, por um lado, e pelos palestinos (muçulmanos e cristãos), por outro. Alguns são levados e pensar que se trata de um problema meramente relacionado à disputa por um território que pertencera aos judeus – os “escolhidos”, para exercer o seu domínio sobre o gênero humano – em tempos remotos da história e que voltaram para reclamar o seu direito histórico adquirido e fundar o seu Estado naquilo que eles chamam de “Terra Prometida”.

Podemos afirmar que o conflito é parte de um contexto mundial que evoluiu a partir do surgimento do movimento sionista internacional, um movimento nacionalista judaico surgido na Europa no século XIX, que pregava o estabelecimento de um “lar nacional para o povo judeu”, que seria concretizado através da criação, na Palestina histórica, de um Estado puramente judeu para judeus, não só em sua estrutura sociopolítica, mas também em composição étnica, de cuja estratégia paz parte o atua lestágio de apartheid racista e limpeza étnica, que teve início quando em 1947 a ONU promoveu a partilha injusta e ilegal da Palestina, território sobre o qual não tinha qualquer jurisdição ou poder.
Com seus 27.000 km², a Palestina é um território que do ponto de vista econômico, político e militar tem uma posição bastante estratégica, localizada na divisa da África e Ásia, e bem próxima da Europa. A Palestina é dona de um vasto litoral banhado pelo Mar Mediterrâneo e pelo Sul chega-se ao Golfo de Áden, ao Mar da Arábia, ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico. E daí, para o resto de mundo. Este é o sentido estratégico geopolítico da Palestina, além de ser a terra sagrada para as três principais religiões monoteístas: muçulmana, cristã e judaica.

Dois episódios contribuíram decisivamente para o agravamento desse cenário e estão na raiz do conflito interminável e pelo sofrimento, desterramento e apartheid vivido pelos palestinos até os dias de hoje. O primeiro foi a chamada Declaração Balfour, uma carta enviada em 2 de novembro de 1917 pelo secretário de Assuntos Estrangeiros britânico, Lord Arthur James Balfour, ao Barão Lionel Rothschild, líder da Federação Sionista da Grã-Bretanha. Na carta, Balfour transmitia aos sionistas a intenção do governo britânico em facilitar a criação de um “lar nacional judeu” na Palestina, caso a Inglaterra se consagrasse vitoriosa na guerra contra o Império Otomano, que detinha o poder sobre a Palestina.

A Declaração Balfour foi uma iniciativa unilateral de uma grande potência europeia sobre um território não europeu, em completo desrespeito à população nativa. Uma promessa ilegal feita por meio de uma carta, tornou-se um documento considerado internacionalmente, passando a influenciar e integrar um sistema de normas da Liga das Nações, uma organização internacional criada em 1919 pelas nações que se sagraram vitoriosas na Primeira Guerra Mundial. A carta tornou-se base jurídica das reivindicações do movimento sionista e suas pretensõespela terra palestina.

A segunda foi a decisão da recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU), através da aprovação da Resolução nº 181, definindo um Plano de Partilha que dividiu a Palestina secular em dois Estados: um palestino eoutro judeu, que adotou o nome de Israel e tornou-se oficialmente um Estado, em 1948, dando início a toda sorte de violações e apartheid racista e genocida que conhecemos hoje.

Uma partilha ilegal em todos os sentidos

Em decorrência da tensão entre os movimentos nacionalistas árabes e judaico, a Grã-Bretanha solicitou ao Secretário-Geral da ONU, o norueguês Trygve HalvdanLie, a convocação de uma sessão extraordinária da Assembleia Geral para discutir alternativas políticas para o problema palestino. Assim, em 5 de maio de 1947, foi criado o Comitê Especial das Nações Unidas para a Palestina (UNSCOP, da sigla em inglês), formado por onze Estados-Membros, entre os quais não figurava nenhuma das grandes potências, destinado a investigar as questões relevantes da disputa territorial e recomendar uma solução diplomática, a ser deliberada pela Assembleia Geral, cujo tema mais importante era o fim do Mandato Britânico, reivindicado tanto por palestinos quanto por judeus.

A primeira possibilidade oferecida pelos membros do UNSCOP, foi a da Palestina se tornar um único Estado democrático, cujo futuro seria decidido pelo voto majoritário da população. Essa proposta teve inicialmente o apoio dos Estados Unidos. Porém, sob pressão do lobby judaico e com o objetivo de conquistar o apoio e o voto dos judeus para sua reeleição em 1948, o presidente Harry Truman decidiu que os Estados Unidos apoiariam o Plano de Partilha. Como se vê, os Estados Unidos não adotaram o seu voto por qualquer consideração estratégica na questão palestina, mas por puro oportunismo eleitoral do seu presidente para captar o dinheiro e o voto dos judeus para sua eleição.

Após dois meses de intensos debates, foi aprovado no Comitê a proposta da partilha territorial da Palestina para a criação de dois Estados nacionais independentes, ignorando totalmente a composição étnica da população do país. Se essa composição tivesse sido considerada, o chamado Estado de Israel teria sido criado com não mais do que 10% do território, porque era o que representava a população de judeus na Palestina.

O Plano de Partilha foi aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 29 de novembro de 1947, numa sessão presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha. A Assembleia contou com a presença de 56 dos 57 Estados-Membros e teve o voto favorável de 33 países, 13 votaram contra e 10 se abstiveram. A decisão da ONU tornou a Palestina no único Estado destruído para que fosse implantado sobre as ruinas do seu território e sobre os corpos dos seus mártires, um estado monstruoso. A decisão da ONU colocou a vida de milhares de palestinos nas mãos de um movimento racista que pregava a transformação de um território de etnia mista em um Estado de pureza étnica, bem ao gosto dos nazistas.

Na Partilha, a parte destinada para criação do Estado judeu incluía as áreas agrícolas e as cidades comerciais, ou seja, as melhores terras férteis, as fontes de água e todo o litoral da Palestina, enquanto que para os palestinos foi destinado nada menos que um deserto, terras pedregosas e morros inférteis. Além do mais, decidiu-se por Jerusalém sob o controle da ONU, tirando a cidade árabe milenar das mãos dos palestinos.

Os países árabes rejeitaram terminantemente essa solução, porque representava uma grande injustiça doar as terras palestinas para um povo estrangeiro, pois deslocariaa população milenarmente estabelecida e criaria uma anomalia no mundo árabe, colocando sob o controle dos judeus trazidos da Eurásia e Europa, áreas econômicas consideradas chaves para os palestinos.

Com a Partilha, os judeus que detinham 7% do território, passaram a ter 53%, enquanto os palestinosficaram com 47%. Uma partilha injusta sobre todos os aspectos, já que aquela terra era o lar de mais de 1 milhão e 400 mil palestinos, enquanto que a população de judeus era de 630 mil, dos quais dois terços eram imigrantes, vindos particularmente da Polônia e da antiga União Soviética, que haviam chegado à Palestina por meio da transferência populacional ilegal, promovida pelo movimento sionista internacional, desde o final do século XIX.

A Partilha foi também uma decisão ilegal da Assembleia Geral das Nações Unidas, porque não foi realizada qualquer forma de consulta aos habitantes da Palestina. Ademais, a ONU não estava investida de nenhuma soberania sobre a Palestina e não poderia valer-se de nenhuma autoridade ou direito de soberania. A ONU não tinha nenhuma prerrogativa que a permitisse dividir um Estado para atribuir parte do seu território para que uma minoria estrangeira oriunda da Europa fundasse o seu Estado. A ONU não tinha direito ou permissão para conceder a imigrantes de diversas nacionalidades, direitos territoriais e políticos diferentes dos concedidos aos habitantes seculares da Palestina.

A decisão da Assembleia Geral da ONU violou o princípio elementar do direito onde “quem não tem a propriedade de uma coisa, não pode cedê-la a outro”. Então, há de se perguntar: a ONU tinha direito de ceder parte do patrimônio nacional milenar palestino a estrangeiros provenientes de diversas partes do mundo, sem nenhum vínculo com aquela terra, para criação de um estado ideológico e racista?

Uma outra questão a ser considerada é a de que a Assembleia Geral das Nações Unidas não era uma instância dotada de soberania para a tomada de uma decisão compulsória de tal envergadura. A Assembleia Geral ultrapassou os limites de suas atribuições, já que este poder, segundo a Carta das Nações Unidas, é reservado ao Conselho de Segurança, a quem compete decidir e aplicar com exclusividade.


Após a efetivação da partilha, o que se viu foi início da Nakba, palavra árabe que significa catástrofe e se refere à partilha da Palestina, para criação do estado de Israel através da destruição de mais de 400 aldeias e vilarejos, expulsão deliberada de mais de 800 mil palestinos de suas casas e terras, e a morte de mais de 250 mil pessoas. Após a criação do Estado de Israel, as ordens dos chefes sionistas foram claras: matem qualquer árabe que encontrarem, incendeiem todos os objetos voláteis e derrubem as portas com explosivos.

Israel segue violando o Direito Internacional

As atitudes adotadas pelos sionistas após a criação do estado de Israel não aconteceram por acaso e nem somente naquele momento da ocupação. É um comportamento corriqueiro, fruto da brutal arrogância que caracteriza o Estado judeu desde o seu nascimento em 1948, cuja lei que predomina é a do mais forte e do fato consumado, num desafio permanente diante da mais alta instância internacional. Israel negou-se sempre a respeitar as disposições da Resolução 181, ignorando as fronteiras delineadas na resolução, que tinha sido uma das condições, juntamente com a Carta das Nações, para a aceitação de Israel como Estado membro da ONU.

Entretanto, este não é o único dispositivo/norma internacional que o Estado de Israel ignora. Israel vemobstinada e repetidamente desrespeitando a maioria das decisões e tratados internacionais ratificados por eles mesmos. Israel nega-se a respeitar a Resolução 194, de 7 de dezembro de 1948, que assegura o retorno dos refugiados palestinos a seus lares. Também não respeita a resolução 303, de 9 de dezembro de 1949, que proclamou a internacionalização de Jerusalém e a sua administração pela ONU, enquanto não para de propalar ao mundo que Jerusalém é a sua capital.


Em 1967, Israel utilizou a Guerra árabe-israelense (Guerra dos Seis Dias) como desculpa para a ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental e alguns territórios de outros países. Mais uma, e pela segunda vez desde a Nakba em 1948, ao menos 500 mil palestinos foram expulsos de suas casas, em outra tentativa de anexação de território e limpeza ética.

Nesse mesmo ano, após a ocupação desses novos territórios, o Conselho de Segurança da ONU adotou a Resolução nº 242, de 22 de novembro de 1967, na qual solicitava, entre outras coisas, a retirada das Forças Armadas israelenses dos territórios recém ocupados e o respeito pelo reconhecimento da soberania, da integridade territorial e da independência política de todos os Estados na região e seus direitos de viver em paz com segurança e fronteiras reconhecidas. É claro que esta resolução do Conselho de Segurança da ONU também foi desrespeitosamente ignorada por Israel, que permaneceu nos territórios palestinos ocupados, não reconheceu o Estado da Palestina nem permitiu que seu povo vivesse em paz.

Em 2004, novamente utilizando-se de subterfúgios para dizimar o povo palestino, expulsá-los de suas terras e mutilar seus jovens capazes de lutar, após a morte de 3 israelenses, Israel ataca e bombardeia Gaza impiedosamente durante 50 dias, resultando em mais de 270 mil refugiados, mais de 2 mil civis mortos (incluindo mais de 500 crianças), e mais de 11 mil civis palestinos feridos, incluindo quase 4 mil crianças. Além disso, cerca de 7 mil dispositivos explosivos não detonados continuam no local, representando constante risco para a população, principalmente para as crianças.

Ainda em 2004, após o início da construção do muroda vergonha que segrega os territórios palestinos, a Corte Internacional de Justiça lançou parecer consultivo concluindo sobre a ilegalidade da construção do muro em território palestino ocupado, e o Conselho de Segurança da ONU adotou a resolução nº 1544, de 19 de maio, exortando Israel a cumprir os tratados e normas internacionais.

Em 2016, o Conselho de Segurança da ONU aprovou nova resolução, novamente exortando Israel a por fim a seus assentamentos ilegais em territórios ocupados após a guerra de 1967. Nem é preciso dizer que Israel novamente ignorou por completo mais esta decisão da ONU, da qual é membro e, em teoria, obrigado a cumprir as decisões dela provenientes.

Desde a adoção da Partilha do território palestino para a criação do estado de Israel, em 1947, dezenas de massacres foram cometidos com o objetivo de realizar uma limpeza étnica que permitisse a transformação de uma terra milenar e multicultural, em um Estado judeu apenas para judeus. Desde a partilha, 534 cidades, aldeias e vilarejos foram despovoados e centenas de milhares de palestinos expulsos de suas terras, cujos descendentes cobram permanentemente o direito ao retorno, assegurado pelo Direito Internacional.


Que país é este que os sionistas criaram sobre as ruinas da Palestina, destruídas pelas bombas e balas de seus fuzis? De acordo com as regras das ciências políticas, para que um território seja considerado como um país, são necessárias três regras: ter uma terra, um povo e um governo. Até hoje não se sabe qual a terra e as fronteiras de Israel; não se sabe quais são as características e de onde vem historicamente o povo israelense; e não se tem uma forma, segundo os padrões internacionais, em relação ao governo fora da lei que governa Israel.

Desde a partilha ilegal da Palestina, diversas tentativas de confecção de um acordo de paz definitivo foram feitas. No entanto, de que adianta assinar novos acordos, se Israel simplesmente ignora a todos? De que adianta nova decisão de organismos internacionais, se elas são obstinada e ilegalmente ignoradas? Israel age como se estivesse acima da lei e de toda a comunidade internacional, vivendo de acordo com a lei da força, onde o mais forte consegue o que quer e passa por cima dos mais fracos, impunemente. De nada adianta criar novos tratados e resoluções, se os já assinados e adotados não são cumpridos e não passam de letra morta. É necessário aplicar os já existentes, utilizando todos os meios cabíveis de coerção, a começar por sua suspensão das Nações Unidas, já que o cumprimento do acordo de partilha de 1947 foi condição para sua aceitação como membro da ONU. Tudo isso de forma a obrigar Israel a respeitar o Plano de Partilha, que eles já aceitaram e assinaram, voltando às fronteiras delimitadas antes de 1967, reconhecendo o Estado da Palestina e assegurando sua soberania.


O povo palestino busca a libertação da ocupação ilegal sionista, quer que os ocupantes saiam de suas terras para que possam constituir o seu Estado e para que os expulsos e seus descendentes possam regressar para ela. Esse é um direito natural, humanitário e político, assegurado pela Carta das Nações Unidas e por diversas Convenções internacionais.

Um povo que lutou tantos séculos contra ocupações, não se importa quanto tempo a ocupação judaica permaneça em sua terra, eles sabem que os ocupantes serão derrotados, porque os palestinos estão com a justiça, apesar de todo aparato militar e apoio estadunidense que Israel possui. O direito à terra e ao retorno são inalienáveis. Palestinos são persistentes no direito de retornar e de reestabelecer o seu Estado independente.

Fotos: Twitter.

*Sayid Marcos Tenório é historiador e internacionalista e Secretário-Geral do Instituto Brasil-Palestina (IBRASPAL) e Aysha M. Gouveia é advogada e especialista em Relações Internacionais.

*Políticas De Gênero, Pepe, O Sapo E Personalidades Polarizam O Debate Digital Antes Das Eleições No Brasil

Do: ALTO – DATA ANALYTICS

Uma análise (técnica) da esfera digital pública das campanhas eleitorais brasileiras de 2018.

Para entender as forças políticas sociais que impulsionam a atual eleição do Brasil, a Alto Data Analytics realizou uma análise avançada da esfera pública digital de 20 a 17 de setembro de 2018 em português. Dois conjuntos de dados primários foram analisados:

  • O conjunto de dados 1 era composto por fontes de dados públicos: Twitter 75,9%, Facebook 17,5%, YouTube 5,8%, além de blogs, fóruns e mídia de notícias, de 3,7 milhões de autores gerando um total de 34,1 milhões de resultados e representando até 5.944 milhões de Potenciais Impressões máximas.
  • O conjunto de dados dois foi uma amostra de 50.180 anúncios pagos de exibição digital do Facebook conectados à campanha eleitoral dos arquivos de publicidade do Facebook  . Esse conjunto de dados representou entre 473M e 1,17M de impressões de anúncios, o equivalente a um investimento entre R $ 4,2M e R $ 19,6M , uma parte do investimento total da campanha estimado em no máximo R $ 67,7 milhões durante o período de análise.

O novo normal nas campanhas eleitorais digitais

A análise de Alto do Brasil mostra que as atuais campanhas eleitorais se encaixam no novo padrão que está sendo definido por seis tendências-chave nas recentes eleições globais:

  1. Alta polarização no debate.
  2. A personalidade e o estilo de liderança do candidato atraem mais atenção do que estruturas políticas e partidos.
  3. A importância do voto feminino e o surgimento da política de gênero como temas de campanha.
  4. os utilizadores de alta actividade anormal (isto é, além do comportamento humano normal ao afixar, em resposta, re-twittar,), sugerindo o uso de bots ou estratégias de combinação de tecnologias humanos e automação automatizados ou quasi-automatizado.
  5. Usuários geo-localizados de vários locais também influenciam o debate.
  6. Grandes mudanças no panorama da mídia, com plataformas emergentes de mídia digital e sites não brasileiros atingindo níveis significativos de viralidade.

Debate altamente polarizado

Para quase todas as cinco menções de candidatos, há apenas uma menção de um partido político. Nossa análise indica que os candidatos capturaram 26.313.837 resultados – 77,2% do total de conversas públicas – em comparação com 5.428.296 menções de quaisquer outros partidos políticos envolvidos.

Personalidade vs. Partidos Políticos

Ao analisar os 160 termos de frequência mais alta interconectados da discussão pública através de 2,67 milhões de mensagens, os analistas de Alto observaram dois grupos distintos de narrativas: os que apoiam e os que contra o Bolsonaro. Bolsonaro ou temas relacionados diretamente a ele capturaram 51,2% dos termos de freqüência mais alta, enquanto os 48,8% restantes se conectaram a todos os outros candidatos.

Análise narrativa - principais termos de alta frequência

Política de gênero

As mulheres estavam no centro do debate e capturaram um número significativo dos termos mais frequentemente mencionados – isso ocorreu tanto nas narrativas pró e contra Bolsonaro quanto nos termos dedicados e nas principais hashtags que impulsionaram as campanhas:

# elenão
#elenunca
#mulherescontraobolsonaro
#mulheresunidascontrabolsonaro
#mulherescontraofascismo
#Listasujadomachismo
#mulherescombolsonaro
# mulherescombolsonaro17
#soumulhervotobolsonaro
#mulheresapoiambolsonaro
#soumulhersoubolsonaro

Narrativas políticas de gênero salientes e sua relevância no debate público têm sido uma tendência consistente dentro da amostra digital de 50.180 anúncios do Facebook. Nossa análise mostrou mulheres de 35 a 65 anos ou mais, e aquelas entre 13 e 17 anos de idade foram submetidas a uma maior intensidade de impressões nos anúncios do Facebook do que os homens nos mesmos segmentos de idade.

Impressões de anúncios do Facebook por gênero

Usuários anormais de alta atividade

Para entender como a informação digital pública se propaga, Alto analisou uma rede Twitter de 10.603.473 mensagens de 238.066 usuários com pelo menos uma de suas mensagens redistribuída ou re-tweetada. Essa rede representou o núcleo do debate público, já que o Twitter era a fonte de dados pública mais ativa. Equipe de ciência de dados do Alto, em seguida, detectou quatro comunidades-chave:

  1. Comunidade de esquerda: PT (Lula da Silva e Fernando Haddad) e PSOL (Guilherme Boulos).
  2. Comunidade Centro-Esquerda: PDT (Ciro Gomes) e REDE (Marina Silva).
  3. Comunidade Centro-Direita: Partido Novo (João Amoêdo), MDV (Michel Temer) e PSDB (Geraldo Alckim).
  4. Comunidade Certa: Bolsonaro.

O centro-esquerda era a maior comunidade: 138.802 usuários gerando 1.780.305 mensagens, 13 por usuário. A comunidade da direita era mais ativa na saída de mensagens: com apenas 50.355 usuários gerando 5.921.834 mensagens, 117 por usuário, o que pode ser considerado um sinal antecipado de nível anormal de atividade.

Análise Comunitária: 4 principais comunidades emergentes

O impacto digital de Bolsonaro foi muito superior a qualquer outro candidato no Twitter. O perfil de Bolsonaro foi o mais influente calculado usando os algoritmos proprietários da Alto para análise de topologia de rede. Sua comunidade reuniu 6 dos 15 perfis mais influentes da rede. O PSL também foi o partido político mais influente no debate digital, mas ainda abaixo do nível de influência alcançado por Bolsonaro.

Os 15 principais influenciadores entre os candidatos

A Alto Data Analytics detectou usuários anormais de alta atividade no Twitter, ou seja, além da automação normal do comportamento humano. Ao analisar usuários com ou mais de 4.000 re-tweets e usuários com atividade entre 1.500 e 3.999 re-tweets, os cientistas estimaram que 30% de todos os re-tweets nas comunidades direita e esquerda foram publicados por 1,3% dos usuários. A comunidade Right de Bolsonaro inclui 663 usuários com essa atividade anormal, enquanto a comunidade Left reuniu 290 usuários com níveis semelhantes de alta atividade.

Usuários com alta atividade tendem a se agrupar nas comunidades direita e esquerda

Localizações geográficas de usuários com maior envolvimento

Com foco nos usuários com o maior engajamento, os analistas confirmaram que a maioria desses usuários estava geo-localizada no Brasil (55,5%) e que cerca de 1/3 deles (37,9%) não indicavam geo-localizações em seus perfis. Outras localizações geográficas de usuários incluíram os Estados Unidos (4.321 usuários), Argentina (1.739 usuários), Portugal (1.412 usuários), Espanha (1.352 usuários) e Venezuela (785 usuários).

Ao analisar as interações dos usuários, os analistas descobriram que os  usuários argentinos e venezuelanos tendiam a se agrupar e interagir mais ativamente com a comunidade de esquerda. Um pequeno grupo de utilizadores geo-localizados em Portugal tendeu a estar altamente ligado à comunidade de Bolsonaro.

Grandes mudanças no cenário da mídia

Analisando o papel da mídia, os cientistas de dados identificaram os 150 domínios mais virais, ou seja, os domínios com maior número de compartilhamento. Alto encontrou 331.626 usuários propagaram estes 150 domínios principais em 2.882.034 comentários ou mensagens. Uma análise mais profunda veio à tona essas percepções:

Os sites de notícias e de partidos políticos desempenharam papéis fundamentais no debate: 58% dos 150 principais domínios pertencem a sites focados em Notícias e 11,3% a Partidos Políticos . Sites de financiamento coletivo, sites de podcasting e sites do governo estavam entre os 150 principais sites.

Os 30 domínios mais compartilhados *  indicaram o número de vezes que o domínio foi compartilhado durante nosso período de análise. Os principais domínios incluem:

DomínioTimes compartilhados
uol.com.br362.816
oantagonista.com288.606
globo.com266.996
brasil247.com157.615
renovamidia.com.br145,609
abril.com.br134,463
diariodocentrodomundo.com.br123,773
estadao.com.br108,541
lula.com.br71,522
conexaopolitica.com.br52,563
revistaforum.com.br50.675
pt.org.br49,939
gazetadopovo.com.br37,272
elpais.com34.892
curiouscat.me33,738
gab.ai31,363
tchauqueridos.net28,740
theintercept.com27,756
infomoney.com.br26,133
istoe.com.br25.857
jornaldacidadeonline.com.br24,156
bcharts.net23,718
crusoe.com.br22,243
obrasilfelizdenovo.com21.404
poder360.com.br18,935
redebrasilatual.com.br18.162
falandoverdades.com.br18.102
tijolaco.com.br18.030
republicadecuritiba.net16.842
brasildefato.com.br16,634

Os sites distribuídos pelos usuários das  comunidades Left ou Center-Left incluem : brasil247.com, diariodocentrodomundo.com.br, lula.com.br, revistaforum.com.br e pt.org.br. Usuários da comunidade certa concentraram-se em  oantagonista.com, renovamidia.com.br, conexaopolitica.com.br, gab.ai e tchauqueridos.net.

A comunidade de Bolsonaro é a única comunidade com um domínio não brasileiro dentro de seus principais domínios compartilhados: Gab.ai. Apenas no Twitter 8.430 usuários compartilharam pelo menos um conteúdo do Gab.ai durante o período de análise. 

O que é o Gab.ai? Gab define-se como “uma rede social que defende a liberdade de expressão, a liberdade individual e o livre fluxo de informações online. Todos são bem-vindos. ”De acordo com a Wikipedia,“ Gab é um serviço de rede social baseado em Filadélfia, Pensilvânia, anteriormente baseado em Austin, Texas. Foi criado como uma alternativa ao Twitter e promove-se como suporte à liberdade de expressão ”“ Gab foi descrito como uma plataforma para os defensores da supremacia branca e para o direito de alt. Dentro da análise de Gabai, Alto identificou seis narrativas emergindo em forte conexão com Bolsonaro:

  1. #ImprensaCretina. Narrativa apresentando seguidores de Bolsonaro como vítimas da mídia tradicional que esses seguidores rotulam como a “esquerda fascista”.
  2. “#PesquisasMENTEM”. Narrativa apoiando a ideia de que as pesquisas de opinião estão mentindo e não são confiáveis.
  3. Ataque de Bolsonaro: notícias em torno do assulto e apoio dos seguidores.
  4. Agenda Financeira. O economista Paulo Guedes adverte os meios de comunicação de que eles terão que encontrar novas maneiras de se financiar caso Bolsonaro vença (#PauloGuedesNaGloboNews).
  5. Gaba como um espaço livre longe daqueles dispostos a silenciar Bolsonaro e seus partidários.
  6. Diversas questões ou referências em relação a Bolsonaro: Deus, Família, Segurança, Menos Brasília e mais Saúde e Educação, Fim do PT.

Ao analisar os usuários compartilhando ou mencionando Gab, os cientistas de dados de Alto descobriram que   95,9% pertenciam à comunidade de Bolsonaro e também compartilhavam principalmente conteúdo de dois domínios: oantagonista.com e renovamidia.com.br .

Parte das grandes mudanças observadas no cenário midiático também estão ligadas às novas mídias emergentes que alcançaram posições de destaque em nossa análise de domínio como Renovamídia.com.br. O Renovamídia é um site de notícias fundado em março de 2017 e dirigido por um jornalista, sua esposa e um grupo de apoiadores, com visão, missão e valores claros, conforme descrito em seu perfil de crowdfunding: https://apoia.se/renova.

Pepe a rã

Durante a análise, os cientistas de dados de Alto observaram como grupos de autores em várias fontes usavam extensivamente o ícone “Pepe the Frog”. Pepe the Frog é descrito pela Wikipedia “ como um meme popular da Internet. Um sapo antropomórfico verde com um corpo humanóide, Pepe se originou em uma história em quadrinhos por Matt Furie chamado Boy’s Club. Tornou-se um meme da Internet quando sua popularidade cresceu constantemente no Myspace, Gaia Online e 4chan em 2008. […] Em 2016, a imagem do personagem foi apropriada como um símbolo do controverso movimento alt-right . 

Os usuários do Pepe the Frog permitiram que Alto entendesse até que ponto havia uma transferência cultural desse símbolo para o Brasil: só no Twitter analistas encontraram 3.335 autores produzindo 162.229 mensagens, incluindo Pepe the Frog, os usuários também o incluíram como parte de seus nomes ou biografias. Autores com alta atividade incluíam:  https://twitter.com/Gregory61935764com 9.061 mensagens e  https://twitter.com/victovargas com 4.945 mensagens.

80% dos usuários do Pepe the Frog também compartilharam conteúdo relacionado à comunidade de Bolsonaro, incluindo sites como oantagonista.com, renovamidia.com.br, conexaopolitica.com.br, gab.ai e tchauqueridos.net.

A atividade desses usuários aumentou constantemente durante o período de análise, da atividade agregada normal de 30.000 mensagens por dia, para mais de 60.000 mensagens por dia até o final desta análise. Sua atividade combinada era contínua, com quase nenhuma hora do dia restante sem postagem.

Ao geo-localizarem, 91,9% deles não estavam localizados geograficamente e apenas 8,1% estavam localizados geograficamente no Brasil. Este parece ser um desvio relevante da média em que 37,9% dos usuários não indicaram nenhuma localização geográfica em seus perfis.

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* Notas metodológicas

Influência: Alto mediu a influência matematicamente com base nas conexões estruturais da identidade no debate digital e sua capacidade de propagar suas mensagens para públicos maiores na rede (medição de centralidade).

Análise de domínio: Alto baseou a análise de domínio nesta pesquisa no Twitter, portanto, o Twitter.com foi removido da lista dos principais domínios. Por questões de consistência 4 outros domínios também foram removidos para entender a visibilidade e propagação de mídia: Facebook.com, YouTube.com, Instagram.com e Blogspot.com. A direção e os insights dos resultados não mudam ao incluí-los na análise. No entanto, entender onde esses domínios estão no topo poderia fornecer uma perspectiva melhor dos resultados gerais: Twitter.com (posição # 1, 8.917.072 vezes compartilhada), YouTube.com (posição # 2, 425.626 vezes compartilhada), Facebook.com (posição # 5, 269.384 vezes compartilhado), Instagram.com (posição # 13, 55.786 vezes compartilhado), Blogspot.com (posição # 24, 27,625 vezes compartilhado).

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