*Para Enriquecer o Debate Sobre “Luta de Classes”

(#rede_libertária) Para olhar para realidades novas não podemos continuar a mobilizar as mesmas categorias velhas

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(Agradecemos muito as vossas partilhas e a hipótese de construirmos um espaço comum de discussão e debate, que só poderá ter efeitos bastante construtivos. Esta troca de ideias – e mesmo de galhardetes – parece-nos muito benéfica para observar esta situação com mais clarividência. Principalmente pelas dificuldades inerentes a pensar o hiper-presente no hiper-presente, não havendo o distanciamento necessário para que se proceda a uma análise crítica mais fina. Mas a urgência assim o exige. Só uma informação preliminar: todas as opiniões que expressamos não vinculam o CEL, mas apenas a redação atual do jornal.)

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A resposta do Luís Bernardes ao nosso correio é muito pertinente e o texto é uma resposta muito adequada. Não se trata sequer de uma questão menor: será que o sujeito “classe” é pertinente, hoje, para pensar o mundo de trabalho? Podem os anarquismos contemporâneos, preocupados com as lutas do presente, ter uma dimensão classista? A resposta que gostaríamos de dar é muito simples: sim, claro que podem, estejam à vontade. Na realidade, qualquer outra resposta que não fosse esta poderia sempre deslizar num certo autoritarismo de cátedra, que pretende definir o anarquismo, na sua forma mais singularizada e mais homogênea. Não nos parece que haja um anarquismo, que isso seja sequer possível ou desejável. Por isso, aceitamos plenamente que existam, ainda hoje, correntes classistas. Isso, no entanto, não nos impede de criticá-las nos aspectos que consideramos pertinentes. Há, por agora, dois deles que gostaríamos de apresentar de forma muito sumária e, evidentemente, consiste apenas na nossa opinião:

1. A ideia de classe é obsoleta: já não se pode pensar em termos de uma consciência de classe proletária ou num movimento operário unificado. A meta-narrativa da grande revolução proletária colapsou. As subjetividades hoje estão dispersas, fragmentadas e são demasiado heterogêneas. Parece-nos indesejável continuar a pensar em “classe”, pois esse sujeito pressupõe uma homogeneidade interna e, necessariamente, uma exclusão. Esta crítica não é propriamente nova. Já Bakunin se opunha à concepção de classe no séc. XIX, por excluir os camponeses, indigentes, não-produtivos, ou os denominados delinquentes. Por isso, preferia falar de massas, que tem um aspecto profundamente inorgânico, difuso e múltiplo, talvez mais perto daquilo que observamos hoje em dia nas lutas dos novos e novíssimos movimentos sociais. A classe pressupõe a representação de uma identidade fixa e imutável, um conjunto de desejos e necessidades que entra habitualmente em colapso perante as transformações que ocorrem na vida diária de cada pessoa. A única forma de acreditar na sua existência é, obviamente, depositar uma enorme fé no imobilismo ou, pura e simplesmente, apelar a que uma vanguarda a dirija e a ponha em ordem.

2. A nossa pergunta inicial partia desta nossa desconfiança em relação a uma pergunta que foi feita ao Carlos Taibo e divulgada pelo Portal Anarquista (semelhante terminologia é hoje utilizada em mais um textículo medíocre do Rui Tavares no Público). A resposta do Luís Bernardes parece ir de encontro a esta nossa ideia, de que de facto a classe trabalhadora não existe de forma unitária. Em seu lugar, fala de “classes trabalhadoras”, que não nos choca minimamente. Por nós, preferimos falar de trabalhadores, mas também não nos interessa entrar em grandes contendas terminológicas e bafientas. E será certamente difícil representar a existência de uma classe ou subclasse quando dentro da própria corporação profissional convivem trabalhadores de classe A e classe B. Se nos cingirmos ao caso português, nem é preciso verificar essa hierarquia só nas empresas ou na função pública. Podemos ainda constatar a divisão entre trabalhadores independentes: nem todos os freelancers são nômades digitais – que combinam a função de trabalhador e patrão, representando-se na figura do trabalhador-empreendedor. Alguns desempenham as mesmas funções que os seus colegas, mas ao contrário destes não têm acesso ao contrato de trabalho (os falsos recibos verdes), trabalhadores temporários, não-contratualizados no trabalho informal, bolseiros, etc. Uma panóplia de subgéneros de explorados, que, porém, têm interesses muito diferentes e reivindicações particulares. A transformação do mercado de trabalho, a sua gradual precarização, subdivisão, a crescente desigualdade contratual e desigualdade de representação, romperam com qualquer hipótese de unir todos os explorados numa grande identidade comum à qual se poderia chamar classe. Por isto, a ideia de classe não só nos parece uma impossibilidade intrínseca, como também a sua possibilidade histórica foi completamente anulada pelo trabalho eficiente do tardo-capitalismo, na construção de uma competição entre miseráveis, rompendo com grande parte dos laços de solidariedade que poderiam surgir.

Finalmente, só um apontamento que gostávamos de realçar: desconfiar de um anarquismo ou de uma política radical classista não significa um afastamento ao mundo do trabalho. “Trabalho” e “classe” não são termos co-dependentes. Simplesmente consideramos que para olhar para realidades novas, não podemos continuar a mobilizar as mesmas categorias velhas. E neste sentido, subscrevemos na totalidade o que o Luís Bernardes diz acerca da enorme importância que têm as lutas das trabalhadoras, como as práticas de igualdade de género, os movimentos indígenas, as reivindicações das minorias, as expressões de empoderamento das comunidades exploradas economicamente e dominadas politicamente no sul global, as manifestações culturais que procurem romper com as lógicas robustas da institucionalização, mercantilização e esvaziamento da criação artística em produto assimilável pela sociedade do entretenimento.

Deixamos só aqui uma provocação final, para aligeirar a boa conversa nestes tempos tenebrosos: quanto ao resto do texto, prometemos não acreditar em todas as notícias que lemos. Nem a assinar de cruz por baixo de todos os textos do espaço anarquista.

Gostaríamos ainda de saudar o Portal e a VOE por terem subscrito a primeira e única manifestação de preocupação de que temos conhecimento, aqui em território “nacional”, pela gradual racialização do vírus. É bastante preocupante verificar que estamos já numa segunda fase de racialização: a primeira, evidentemente, refere-se ao “vírus chinês”. Esta segunda etapa servirá para construir bodes expiatórios sobre a propagação do vírus. Os alvos estão encontrados: as comunidades ciganas e os bairros sociais.

Saudações libertárias

Leia na íntegra: Portal Anarquista