*Pelo Fim das linhas Burguesas Divisórias…

Destruindo As Barreiras e as Linhas Divisórias, Acaba-se com o Movimento Migratório: Pelo Fim do Regime Burguês de Produção e Dominação

*O movimento Migratório Atual – por villorblue

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algum tempo atrás, fui a uma exposição de fotografias no MON, do foto/jornalista Sebastião Salgado, fiquei pensando sobre o processo migratório e suas causas, desde 1993 Salgado vem fotografando o movimento migratório de seres humanos em todo planeta. Inteirei – me (surpreso), que quase cento e cinqüenta milhões de pessoas sofrem deste processo migratório atualmente e vivem fora de seus locais de origem, numero altíssimo se levarmos em consideração o aumento da população mundial atual que paira em torno de cem milhões de seres humanos anualmente. O aumento é ainda mais assustador, cerca de dez milhões de pessoas engrossam este cordão todos os anos, mantendo estas proporções, daqui a dez anos esta enorme fila migratória terá duzentos e cinqüenta milhões de pessoas, em 1985 eram trinta milhões. Partindo desta analise, Salgado andou por 45 países, durante 7 anos, 45 países é quase um quarto do numero total de nações, se levarmos em consideração os 202 países existente, (dados de 2002, de acordo com a Wikipédia), o que da ao seu trabalho uma importância impar.
Os primeiros povos a migrarem para as Américas (por volta de 48 a 60 mil anos) emigraram da Ásia, provavelmente atravessando o estreito de Bering, alguns teóricos pensam também, que povos oriundos da Polinésia, Malásia e Austrália atingiram a America do sul navegando através do Oceano Pacífico, esta seria outra corrente.
Próximo ao ano de 1500 habitavam o Brasil entre 5 a 6 milhões de nativos, (destes , sobreviveram em péssimas condições de vida e com suas culturas em frangalhos, aproximadamente 200 mil pessoas), poderíamos discorrer ainda mais sobre muitas situações historicamente conhecidas, mais isto não vem bem ao caso, o que eu gostaria de evidenciar seriam as “causas de repulsão e de atração” que evidenciam alguns destes movimentos migratórios em alguma regiões.
Partindo das três causas que a meu ver são as mais importantes, “perseguições político/regionais, econômicas e de natureza climática”, sigo minha linha de pensamento e procurarei me concentrar na atualidade, sendo que posso retornar a historia para ilustrar ou reforçar algum raciocínio.
Segundo o ACNUR (Auto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), a maioria dos refugiados internacionais migra em busca de empregos, ou melhores empregos e melhores salários, após isso vem ás causas de guerras, perseguições étnicas e religiosas, – não nesta ordem obrigatoriamente -, este movimento objetiva principalmente ao EUA e a Europa ocidental e se originam a partir da África, America do Sul e regiões sul e sudeste da Ásia, como podemos constatar, das nações mais pobres do planeta.
Se as causas principais de repulsão da migração atualmente são as acima citadas, poderemos pensar um pouco mais sobre as causas de atração.
Esta analogia é bem simples, mais a partir dela entraremos em uma noção maior. Tenho um trabalho atualmente, ganho muito pouco, na cidade vizinha tem varias empresas com muitos empregos e remuneração maior, a cidade tem uma qualidade de vida melhor. O que eu faço? Fico? Migro? Ai esta a duvida.
Para sobreviver mais confortavelmente, o sistema capitalista teorizou e generalizou. Nas regiões em que ele retira matérias primas para manter seu parque industrial manufatureiro, os salários são vergonhosos, em regiões onde estão implantados os parques industriais os salários são menos vergonhosos e onde estão alojados os executivos, as gerencias, diretorias, etc., os salários são bem melhores. O leitor quer um exemplo? A Adidas abriu uma fabrica na Ásia, mão de obra barata e matéria prima quase de graça, os executivos continuam no EUA com seus salários fabulosos, é assim com todas as transnacionais, carros, cigarros, alimentos, eletrônicos, informática, roupa, etc, etc…Um exemplo mais fácil de confirmar por estar mais próximo, a Cba, (companhia brasileira de alumínio) do grupo Votorantim, comprou a troco de bananas uma vasta extensão de terras na região do Vale do Ribeira (a região com o menor IDH do estado de São Paulo), na divisa entre Paraná e São Paulo, Brasil.
Porque comprou a preço de banana? Primeiro a região sofreu todo um processo de empobrecimento regional ao longo dos últimos anos, fatos divulgados na mídia, falta de investimentos sociais, inexistência de investimentos em infra- estrutura para escoamento da produção agrícola, criação de empregos, etc. A região em evidencia ficou abandonada por um longo tempo, noticiou-se que a Cba (Cia Brasileira de Alumínio) iria construir uma represa (Usina do Alto Tijuco) no rio Ribeira do Iguape, esta represa iria alagar uma vasta área e “ai daquele que teimasse em viver nas regiões abaixo”, na cidade vizinha, Apiaí em São Paulo, tem uma grande mineradora de Cimento, (matéria prima), em outro município limítrofe Adrianópolis no Paraná, tem uma mina (meio desativada..?) de chumbo, prata e ouro (matéria prima), dizem os moradores da região, mais esclarecidos e antigos, que as serras que serpenteiam a região são ricas em ferro, alumínio, prata, urânio e outros. Estas terras atualmente pertencem a Cba, a maioria foi comprada a um preço muito baixo, como a região há muito tempo esta sem investimentos nas áreas sociais, a população em geral, (os pequenos proprietários de terra, etc), venderam ou abandonaram as terras, indo engrossar as periferias das grandes cidades em busca de trabalho. Este exemplo, simplório, por estar mais próximo, faz com que entendamos melhor a situação global.
Nos últimos anos no Brasil, vemos constantemente migrantes morando clandestinamente nas grandes cidades. Quem são estes migrantes? Geralmente oriundos da África, Ásia e America do Sul e geralmente se movimentam por causas econômicas. Quanto ao movimento nacional, sempre tivemos uma grande movimentação da região nordeste e norte do Brasil rumo a região Sudeste/Sul, como a situação de empregos em São Paulo e Rio de Janeiro esta saturada atualmente, se detecta movimentos do Nordeste em direção a alguns estados do Norte (Tocantins, Pará, etc) originados do Piauí, Maranhão, e outros. E na região Sudeste nota-se também o contrario de anos anteriores, habitantes de origens nordestinas estão migrando ou retornando para sua região de origem.
Retornando aos movimentos internacionais, vamos citar um país de origem, poderia citar a China, qualquer região da África, Coréia, qualquer um, especificando citarei apenas a Bolívia. Temos visto constantemente na mídia principalmente em São Paulo, historias de bolivianos que migram e se vem envolvidos em algum problema, geralmente são vitimas de aproveitadores, que lhes tiram o pouco dinheiro que ganham, prometem rios e fundos e não cumprem o que prometem, estes irmãos trabalhadores, que arriscam tudo para conseguir um lugar ao sol, vivem escondidos, trabalham até 20 horas por dia para ter algum lucro, numa clássica relação corroída entre capital e trabalho, isto é, semi escravidão. Este é apenas um exemplo brasileiro, (isto é, falando apenas dos movimentos dentro do território brasileiro. No geral este tipo de problema é igual –só ampliando ou diminuindo suas proporções/micro ou macro- em todas as regiões do planeta onde existe a recepção de migrantes, veja o caso do Japão e seus migrantes brasileiros, “os decasséguis”, eles são vigiados quando entram em supermercados, lojas, etc.), talvez por ignorância e um perfeito desconhecimento da situação destes trabalhadores, olham estes migrantes como se fossem os grandes (ou parte) responsáveis pela péssima situação ou problemas em que vivem, ou por todos os problemas gerados na região onde moram e por serem geralmente pobres, são vistos abaixo da linha do preconceito, desprezados e se não bastasse a falta de benefícios e os baixos salários a que são submetidos em seus trabalhos semi escravos.
COMO O TRABALHADOR DE UMA NAÇÃO POBRE, VÊ UMA NAÇÃO RICA E IMPERIALISTA…
Esta visão serve para quaisquer países em qualquer continente, para facilitar o entendimento exemplificaremos o Brasil como receptor do movimento.
Como um paraguaio, peruano, boliviano, etc, vê o Brasil lá fora? Geralmente sendo este trabalhador um pouco mais consciente, pensa de primeira, é um pais rico e imperialista. Espera lá. Imperialista? Com certeza, desde há muito tempo. Lembram do tratado de Tordesilhas? E da guerra do Paraguai? E a situação do Acre? E do estado de Santa Catarina? A mudança destas divisas e ganho de território foram simples manobras imperialistas, tenho em consciência que toda nação receptora de movimentos migratórios são diretamente responsável pelas regiões pobres do planeta.
Se existe regiões empobrecidas, os mais ricos exploram suas matérias primas como um aspirador de pó absorve a poeira de um tapete. Só os países mais ricos têm parques industriais para transformar esta matéria prima em objetos comerciáveis, apenas eles possuem também saída para estes produtos através das câmaras mundiais, sendo assim impõe a estas matérias prima o preço que querem, relegando aos mais pobres apenas o trabalho e o (in) conformismo.
O Brasil é visto pelo proletário da America Latina, África, sul e sudeste da Ásia, como um país rico e imperialista (não me refiro a população extremamente pobre e as suas tristes realidades), a historia e os dados estão aí para atestar este imperialismo e os índices confirmam que o pais (não a população) não é pobre (PIB, reservas internas e internacionais, arrecadação de impostos, etc.), miserável somos nós, sua massa explorada, esta miséria geralmente não é mostrado no exterior, infelizmente a propaganda internacional mostra apenas mulheres de biquíni, corpos torrados ao sol, como se o Brasil fosse apenas uma grande nação de fornicadores e lascivos.
Como entrar no Brasil é mais fácil do que entrar em países da Europa ocidental e EUA, o Brasil seria uma das opções para se trabalhar e ganhar dinheiro, por três motivos maiores, em parte por se falar o português, o brasileiro aceita razoavelmente o migrante, temos muitas empresas (micro, pequenas, e medias) que admitem estrangeiros sem constrangimentos, incluindo neste aceite os clandestinos, estas facilidades agem como um farol sobre os mais pobres de outros países, norteando e obcecando.
Na idade media o tema dos bárbaros colonizadores, era “não existe pecado ao sul do equador”, isso prevalece como se fosse um arquétipo maldito (este lema foi um dos grandes responsável pelo extermínio da nação indígena brasileira).
Voltando um pouco, se exige pouco das empresas que exploram matéria prima nas áreas das, relações do trabalho, ecologia e sociais, as matérias primas geralmente são vendidas na sua forma pura para outros países (a não ser em países do primeiro mundo onde geralmente são beneficiadas e manufaturadas no local de extração, ver o vale do silício na Califórnia-EUA), deveriam ser beneficiadas em seus locais de extração, se assim ocorresse, seriam gerados um grande numero de empregos nos países do terceiro mundo, contribuindo para o aumento do IDH nestas regiões e segurando os trabalhadores em suas regiões de origem, reduzindo em muito o movimento migratório.
ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS SOBRE O TRABALHO DE MIGRANTES ILEGAIS..
Local: Japão, qualquer estado ou cidade, alguns decasséguis moram num prédio de apartamentos simples, dividem um quarto/cozinha, trabalham para um empreiteiro que não conhecem bem o nome, não tem carteira assinada, não tem benefícios, não tem convenio medico, não tem décimo terceiro, apenas saem de férias quando ocasionam férias coletivas na empresa, 15 ou 20 minutos de almoço, não podem financiar imóvel, carro, ou quaisquer bens duráveis, compram somente a vista, não podem se envolver em acidentes de transito. Como vemos, não difere muito de trabalhadores estrangeiros que moram e trabalham no Brasil, ilustrei este constatado, apenas para mostrar que as contradições entre o capital e o trabalho são comuns em qualquer lugar do planeta, apenas minimizado em algumas regiões, este exemplo poderia acontecer nos EUA, Alemanha, França, ou qualquer outro país, o capital abre e fecha filiais em qualquer parte do mundo, não se importa com o ser humano, ele migra ao bel prazer. Para abrir uma fabrica no Brasil e oferecer 750 empregos diretos, uma indústria automobilística francesa fechou uma fabrica na Bélgica onde mantinha 7500 postos de trabalho diretos (Para onde foram estes trabalhadores demitidos?), isso é apenas um exemplo entre milhares. O sistema só não consegue mudar os locais de exploração das matérias primas.
CONCLUSÃO
Gostaria ao concluir, explanar algumas idéias para tentarmos, senão sanar definitivamente (não acredito que nos parâmetros do sistema capitalista estes conflitos sejam solucionados definitivamente), ao menos amenizar o gravíssimo problema do movimento migratório, não é concebível, seres humanos trabalhando em condições subumanas em regimes escravagistas ou semi-escravagistas apenas porque vêem de uma região mais pobre, por pertencer a outras minorias, etc., na situação de foragidos ou banidos políticos, ou então por causa de cataclismos naturais, ou simplesmente por pertencer às áreas mais pobres do planeta, todos devemos ser respeitados dignamente. Se o sistema vigente não tem capacidade para solucionar esta e outras situações degradantes referente ao ser humano, que reconheça. Só assim a humanidade poderá debater e encontrar seu caminho. Para abrir a discussão, seleciono alguns tópicos para serem colocados em prática a curto e médio prazo, estes tópicos, apesar de gerarem um grande trabalho para sua concretização, são viáveis.

• Beneficiamento das matérias no local de origem de extração, ex. minério do ferro, alumínio, cobre, cal, cimento, madeira, grãos, subprodutos do petróleo, etc.
• Após serem beneficiadas estas matérias (não havendo condições de serem manufaturadas no local), as empresas compradoras por excelência devem exigir das vendedoras as, ISO’s 9000, 14000 e 18000, que regem sobre o controle das qualidades ambientais e das relações do trabalho.
• Um fundo internacional (teoricamente já existe) uma espécie de tributo cobrado de empresas transnacionais e destinados a educação e saúde em países do terceiro mundo, principalmente as regiões mais pobres do planeta, para que não houvesse desvios este fundo seria aplicado pela FAO e UNESCO, seria fiscalizado por ONGs, associações locais, organismos internacionais de auditoria, toda a comunidade envolvida, sindicatos, etc., quanto mais fiscalização mais eficiente sua distribuição.
• Uma reformulação dos salários nas regiões onde originam os disparos emigratórios, para que estas regiões se tornem atrativas para todos. As nações devem envolver-se neste processo, através de fóruns constantes e soluções diretas e praticas.
• O debate constante em fóruns, seminários, nas escolas, nas igrejas, dentro de secretarias e ministérios de governos, para solucionarmos definitivamente o problema dos preconceitos raciais, sociais, étnicos, sexo, etc. …

Com alguns destes tópicos alinhados, gostaria agora de prendê-lo um pouco mais nesta leitura e falar sobre alguns relatórios atuais de organismos com aos quais não tenho duvidas sobre exatidão e seriedade:
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o aumento dos preços dos alimentos no mundo fez o numero de famintos aumentar em 40 milhões em 2008. a FAO divulgou na data de 09/12/2008 que a fome já atinge 963 milhões de pessoas. A FAO disse ainda que a crise mundial levara ainda mais pessoas a esta condição. Segundo a FAO, os problemas estruturais da fome, como falta de acesso à terra, ao credito, e ao emprego, combinados com o aumento dos preços dos alimentos permanecem como uma dura realidade para milhões de pessoas . A FAO relatou ainda que grande maioria destes famintos -907 milhões- vive nos países pobres. Destes, 590 milhões moram em sete países, são estes; Índia, China, Congo, Bangladesh, Indonésia, Paquistão e Etiópia, este mesmo relatório informa que na África Subsaariana, um terço da população -236 milhões- vive em estado de fome crônica. Sendo a maior proporção dentre os continentes. O Congo foi disparado o país Africano onde a fome mais se alastrou. A população de famintos passou de, 26 por cento em 2003/05 para 76 por cento em 2008. Na America Latina e Caribe, a fome atinge 51 milhões de pessoas atualmente.
Outro relatório desta vez emitido pela Comissão Econômica para a America Latina e o Caribe, ( Cepal ), informa que a crise do “sistema capitalista” (eles não usam sistema capitalista, usam crise financeira global), provocara um aumento no numero de pobres e indigentes na America Latina nos próximos anos, acirrando ainda mais os problemas que atravessamos.

Minha opinião para abertura de uma discussão sobre o tema “MOVIMENTO MIGRATÓRIO”.
Como em todas as crises da historia, quem sofre realmente são as massas oprimidas, pagando um alto preço pela dissolução dos problemas do sistema de exploração, nada mais sensato que, as massas tomem as rédeas para a condução de uma sociedade onde realmente a fraternidade e a solidariedade sejam focados como ponto central de todas as políticas. Não vejo outra solução.

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*Eles apenas pensavam e protestavam…foram assassinados – por villorblue

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43 crianças sequestradas e assassinadas no dia 27 de setembro de 2014… México e o extermínio sistemático dos povos autóctones nas AméricasIsso é uma herança do maldito psi e parece não ter fim…

O que aconteceu no México, após o 27 de setembro de 2014? As fotos em redes sociais, o vídeo na Internet, e acima de tudo, as experiências pessoais de boca transmissíveis, passeatas realizadas, intervenções artísticas e políticas em espaços públicos, greves em universidades e milhões de pessoas indignados com um evento que já passou as fronteiras nacionais. “Vivos foram levados, vivos nós queremos!”, “Não somos nós todos, faltando 43”, “Somos todos Ayotzinapa” “Você pode ser você, eles poderiam ser seus filhos” fazem parte dos slogans que gritavam nas últimas semanas, cansados de impunidade e vendo essa afronta à sociedade como os professores-alunos. É a consciência coletiva que ganhou uma batalha feroz contra o individualismo até então invicto. E é por isso que não é raro (quando você acessa os solidários do Facebook ou do Twitter) ver banners mexicanos em vários idiomas, mostrando fisionomia solidaria: “A sua luta é a nossa luta”, “Nous Sommes Tous Ayotzinapa” ” Demokratie em Mexiko ist ein Betrug “. A partir da eleição de 2012, Colima começou a cantar no mesmo tom que o resto do país, ou pelo menos uma parte da sociedade de Colima. A quarta-feira do lado de fora da catedral, na marcha organizada pelo CEU e por estudantes de filosofia, podemos ver unidos os zapatistas, as feministas de diferentes grupos, artistas, professores, sindicalistas, estudantes organizados e não organizados e uma série de pessoas difíceis de classificar. É Colima se opondo solidariamente ao silêncio indolente das elites.

Leia mais;…http://ceucolima.blogspot.com.br/

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*A Syngenta na guerra do Vietnã – por villorblue

Leia tambem: https://radioproletario.wordpress.com/2016/01/12/mosquitos-geneticamente-modificados-liberados-aos-milhoes-inclusive-no-brasil/

História e Sociedade (27)

A Syngenta é uma empresa transnacional do agronegócio com sede na Suíça. A empresa tem operações em mais de 90 países, e emprega mais de 19.500 pessoas. Em 2006, suas vendas foram de US$8,1 bilhões, tendo 80% de sua receita proveniente de agrotóxicos e 20% da produção de sementes. A Syngenta é a terceira maior empresa do setor de sementes no mundo.

A Syngenta resulta de mais de dois séculos de fusões de empresas européias do setor químico. Segundo Brian Tokar, o antecessor mais velho da Syngenta foi J.R. Geigy Ltd., que foi fundada na Suíça em 1758, e começou a produzir químicos industriais inclusive tintas, tinturas e outros produtos. A Geigy ficou famosa e rica quando descobriu a eficácia inseticida do Dicloro Difenil Tricloroetano (DDT, atualmente, produto este proibido em boa parte do planeta). A Syngenta também tem raízes na Industrial Chemical Industries (ICI), uma empresa de explosivos fundada na Grã Bretanha em 1926 por Alfred Nobel, o inventor da dinamite. A ICI abastecia as Forças Aliadas durante a Segunda Guerra Mundial com explosivos e químicos para uso como arma química. Em 1940, a ICI descobriu as propriedades seletivas do ácido alphanapthylacetic, e sintetizaram os herbicidas MCPA e 2,4-D. O herbicida, agente laranja como é conhecido popularmente, derivado do 2,4-d, posteriormente foi usado pelos militares dos estados unidos durante a guerra imperialista do Vietnã , a grande propaganda de guerra americana na época, dizia que o agente laranja era utilizado para desfolhar as arvores, porém na realidade era utilizado para desfolhar a carne dos norte-vietnamitas. Em 1970 a Geigy e a Ciba se fundiram para formar a Ciba-Geigy, uma grande empresa com operações em mais de 50 países. Em 1994 a ICI desmembrou seus setores de químicos farmacêuticos e agrotóxicos dando origem à Zeneca Group PLC. A Zeneca fundiu-se com a Astra AB da Suécia em 1998, criando a AstraZeneca. Em 1996, a Sandoz, uma outra empresa Suíça formada em 1876, fundiu-se com a Ciba-Geigy para formar a Novartis, a maior fusão empresarial na história daquela época. Em 2000, a Novartis fundiu-se com o setor do agronegócio da AstraZeneca, formando a Syngenta, o primeiro grupo global focado exclusivamente no agronegócio.

A biotecnologia é muito importante para a Syngenta. Entre 2001 e 2002, a Syngenta foi responsável pela maior contaminação genética da história, quando vendeu ilegalmente sementes transgênicas de milho BT10 aos agricultores nos Estados Unidos. Este milho transgênico entrou nos sistemas alimentares dos humanos e de animais. A Syngenta também é líder no desenvolvimento da “Tecnologia Terminator”, um processo de engenharia genética que torna sementes estéreis numa tentativa de forçar os agricultores a sempre comprarem suas sementes, em oposição à prática camponesa de selecionar, cuidar e compartilhar sementes livremente.

O Crime da Syngenta e a Ocupação

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A Ciba-Geigy começou suas operações no Brasil em 1971 e passou a ser demominada Syngenta em 2001. No início de março de 2006, a Terra de Direitos, uma organização localizada em Curitiba, que atua nas áreas de direitos humanos e meio ambiente, e trabalha com os movimentos sociais, denunciou ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais (IBAMA), que a Syngenta e doze outros produtores plantaram ilegalmente soja transgênica na zona de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu. Dado a suas ameaças à biodiversidade, por determinação da legislação federal brasileira, é proibido cultivar transgênicos na zona de amortecimento dos parques nacionais. Uma investigação feita pelo IBAMA confirmou que a Syngenta e os agricultores violaram a lei ambiental federal e multou a todos. A multa da Syngenta é de aproximadamente US$465,000. Enquanto todos os agricultores recorreram à multa, perderam e em seguida pagaram suas multas, a Syngenta tem se recusado a reconhecer qualquer crime, sendo a única que ainda não efetivou o pagamento.

Após a investigação do IBAMA ter confirmado a violação da lei federal pela Syngenta, a Via Campesina ocupou não violentamente o seu campo experimental. A Via Campesina e a Terra de Direitos defendem legalmente a ocupação com base num artigo constitucional que diz que a terra precisa cumprir uma função social. Eles argumentam que o campo experimental da Syngenta não estava cumprindo a sua função social, e que o cultivo ilegal da soja transgênica na zona de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu constituiu uma ameaça direta à sociedade brasileira, porque colocou em risco sua biodiversidade, os recursos naturais e o sistema alimentar do país.

Em julho de 2008, a Terra de Direitos e a Via Campesina lançaram uma campanha internacional de solidariedade, conquistando apoio de mais de 75 organizações de todo o mundo. A campanha dirigiu emails diretamente para Pedro Rugeroni, chefe da Syngenta no Brasil, exigindo que a empresa reconheça seu crime e pague a multa ao IBAMA. A campanha também dirigiu emails ao Governador Requião (Paraná), motivando-o a desapropriar o sítio da Syngenta. Em resposta, a Syngenta comprou uma página inteira nos dois maiores jornais brasileiros, onde publicou uma mensagem em sua defesa. Na sua resposta hostil aos apoiadores da campanha internacional, continuou negando qualquer crime e atacou a “invasão ilegal” do seu campo experimental.

Segundo a Céleres, especializada em agronegócio, o total da área plantada com cultivos geneticamente modificadas em 2013, chegou a 37,1 milhões de hectares, o que representou um aumento de 14% em relação ao ano anterior (que por sua vez, já tinha registrado um aumento de mais de 21% em relação à safra de 2010/2011) – ou seja, 4,6 milhões de novos hectares dedicados a variedades transgênicas.

Segundo o IBGE em 2013, a área recorde dedicada à atividade agrícola no país de 67,7 milhões de hectares. Cruzando o dado do IBGE com o da consultoria Céleres, chega-se à conclusão de que os transgênicos responderam por 54,8% de toda a área cultivada na safra 2012/2013 no país. Os maiores produtores entre os países em desenvolvimento são Brasil, Argentina, Índia e China. Ironicamente, no pais sede da ‘sungenta’  (proposital) não se planta transgênicos.  “Variedades de algodão resistente a insetos são os cultivares transgênicos comercialmente na Ásia e na África”, diz a FAO. Na América Latina, “são a soja  seguida pelo milho resistente a inseto”. Nem os insetos querem produtos transgênicos…

Como vemos, suecos, suíços, americanos, ingleses, canadenses, etc, são todos santos…

O que já estamos consumindo de transgênico direta ou indiretamente : Milho, soja, algodão, mamão papaya, queijos, trigo, centeio, abobrinha, arroz, feijão, salmão

Fonte : http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/02/130207_transgenicos_cultivo_tp

Isto tudo parece um filme de terror.

*Introdução à “A Personalidade Autoritária” [1950]*

DO: Theodor W Adorno

[* Publicado originalmente em Theodor Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel Levinson e  Nevitt Sanford, The Authoritarian Personality. Nova York: Harper, 1950. Reproduzido em Gesammelte Schriften Vol. 9, T. I [Soziologische Schriften II] Frankfurt: Surhkamp Verlag, 1975, p. 143-. Traduzido por Francisco Rüdiger de acordo com a versão editada em Critical Theory ana Society – A Reader, organizado  por Douglas Kellner e Stephen Bronner. Nova York: Routledge, 1989].

 

O assunto deste livro é a discriminação social mas seu propósito não é simplesmente acrescentar algumas descobertas empíricas a um corpo de informação já bastante extenso. A temática central do trabalho é um conceito relativamente novo – o surgimento de uma espécie “antropológica”, que podemos chamar de homem autoritário. Em contraste com o fanático de velho estilo, esse último parece combinar as idéias e habilidades típicas da sociedade altamente industrializada com crenças irracionais ou anti-racionais. Ele é ao mesmo tempo esclarecido e supersticioso, orgulhoso de ser um individualista e sempre temeroso de não ser igual aos outros, ciumento de sua independência e inclinado a se submeter cegamente ao poder e à autoridade. A estrutura de caráter que abarca essas tendências conflitantes já atraiu a atenção dos pensadores políticos e filósofos modernos. Este livro aborda o problema com os meios da pesquisa psicossociológica.

As implicações e valores do estudo são práticos tanto quanto teóricos. Os autores não acreditam que existe um desvio que leve à educação saindo da estrada longa e muita vezes sinuosa da pesquisa esmerada e da análise teórica. Também não pensam que o problema das minorias na sociedade moderna, e mais especificamente o problemas dos ódios raciais e religiosos, possam ser tratados com sucesso nem pela propaganda da tolerância nem pela refutação apologética dos seus erros e mentiras. Por outro lado, a atividade teórica e a aplicação prática não estão separadas por um abismo intransponível. Bem pelo contrário: os autores estão imbuídos da convicção de que a elucidação científica, sistemática e sincera de um fenômeno de tal significado histórico pode contribuir diretamente ao melhoramento da atmosfera cultural da qual o ódio se alimenta.

Trata-se de uma convicção que não deve ser posta de lado como uma ilusão otimista. Na história da civilização, tem havido muitos momentos em que as ilusões coletivas não foram curadas pela propaganda mas, no final da análise, porque os homens de ciência e seus hábitos de trabalho insistentes e discretos estudaram o que jaz na raiz da impostura.

Gostaríamos de citar dois exemplos. A crença supersticiosa na feitiçaria foi superada nos séculos dezessete e dezoito, depois que os homens começaram a viver sob influência dos resultados da ciência moderna. O impacto do racionalismo cartesiano foi decisivo. Essa escola filosófica demonstrou que a crença no efeito imediato dos fatores espirituais no domínio corporal, até então aceita, era ilusória. Os cientistas naturais que os seguiram fizeram uso prático desse formidável discernimento. Os fundamentos da crença na magia foram pois destruídos, uma vez eliminado aquele dogma, tornado cientificamente insustentável.

Como exemplo mais recente, só podemos pensar no impacto da obra de Sigmund Freud na cultura moderna. Sua importância primeira não repousa no fato de que o conhecimento e a pesquisa psicológica foram enriquecidos por novas descobertas mas no fato de que há cerca de cinquenta anos o mundo intelectual, especialmente o educacional, se tornou muito mais consciente da conexão entre a repressão infantil (fora e dentro de casa) e a ingênua ignorância social a respeito da dinâmica psicológica da vida da criança tanto quanto do adulto. A penetração espontânea na consciência social  da experiência cientificamente adquirida de que os eventos da primeira infância são de primordial para a felicidade e o potencial de trabalho do adulto produziu uma revolução na relação entre pais e filhos que teria sido julgada impossível cem anos atrás.

O presente trabalho esperamos, encontrará um lugar nesta história de dependência mútua entre ciência e clima cultural. Seu objetivo último é abrir novos caminhos numa área de pesquisa que pode se tornar de significado prático imediato. Ele procura desenvolver e promover o entendimento dos fatores socio-psicológicos que tornam possível ao tipo autoritário ameaçar o posto do tipo democrático e individualista dominante em nossa civilização no último século e meio, assim como os fatores por meio dos quais essa ameaça pode ser contida. A análise progressista desse novo tipo antropológico, bem como de suas condições de crescimento, através de sua permanente diferenciação científica,  fortalecerão as chances de um contra-ataque genuinamente educativo.

A confiança na possibilidade de um estudo mais sistemático dos mecanismos de discriminação e, em especial, da caracteriologia do tipo descriminador não se baseia apenas na experiência histórica dos últimos quinze anos mas, também, nos desenvolvimentos ocorridos dentro das ciências sociais em décadas recentes. Esforços consideráveis e bem sucedidos têm sido feitos neste país tanto quanto na Europa para conduzir as várias disciplinas que têm o homem como fenômeno até o plano da cooperação  organizacional com que já se acostumou as ciências naturais. Assim o que pensamos não é apenas um arranjo mecânico com o objetivo de reunir o trabalho feito em vários campos de estudo, como ocorre em simpósios e livros textos; mas uma mobilização de diferentes métodos e habilidades desenvolvidos em distintos campos da teoria e pesquisa empírica com o objetivo de desenvolver um programa de pesquisa comum.

Afinal é exatamente essa fertilização recíproca de diferentes ramos das ciências sociais e da psicologia que tem lugar no presente volume. Os especialistas nos campos da teoria social e da  psicologia profunda, da análise de conteúdo, psicologia clínica, sociologia política e testes projetivos congregaram suas experiências e descobertas. Tendo trabalhado juntos na mais íntima colaboração, eles agora apresentam como resultado de seus esforços conjuntos os elementos de uma teoria do tipo autoritário na sociedade moderna.

Eles estão cientes de que não são os primeiros a estudar este fenômeno e reconhecem com gratidão seu débito para com os notáveis perfis psicológicos do indivíduo preconceituoso feitos por Sigmund Freud, Maurice Samuel, Otto Fenichel e outros. Discernimentos brilhantes como os deles foram em certo sentido pré-requisitos indispensáveis da integração metodológica e organização da pesquisa a que se propôs este estudo. Desejamos pensar que a realizamos até certo ponto e com uma dimensão que, até agora, não tinha sido atingida.

A pesquisa a ser relatada neste volume foi guiada pela seguinte hipótese principal: as convicções econômicas,, políticas e sociais de um indivíduo muitas vezes foram uma padrão amplo e coerente, como que se estivessem ligadas por uma “mentalidade” ou “espírito”, e esse padrão é expressão de tendências profundas em  sua personalidade.

A  preocupação maior foi com o indivíduo potencialmente fascista, aquele cuja estrutura é tal que é capaz de torná-lo particularmente suscetível à propaganda antidemocrática. Dizemos “potencial” porque nós não estudamos indivíduos que eram confessadamente fascista ou que pertenciam a conhecidas organizações fascistas. Na época em que a maior parte de nossos dados foi recolhida, o fascismo recém tinha sido derrotado e, por isso, não podíamos esperar encontrar sujeitos que abertamente se identificassem com ele. No entanto não houve dificuldade em descobrir sujeitos cujo perfil era capaz de indicar que eles rapidamente aceitariam  o fascismo, se ele se tornasse um movimento social forte ou respeitável.

Concentrando-nos no fascista em potencial não queremos deixar implícito que outros padrões de personalidade e ideologia não poderiam ser estudados do mesmo modo e com igual proveito. É nossa opinião,  porém , que nenhuma tendência político-social impõe uma ameaça maior a nossos valores e instituições do que o fascismo, e que o conhecimento das forças subjetivas que favorecem sua aceitação, derradeiramente, podem se mostrar úteis em seu combate. A questão que pode ser levantada é porque se desejamos explorar novos recursos para combater o fascismo, nós não demos muita atenção para o “potencial antifascista”. A resposta é que nós estudamos a tendência que se coloca em oposição ao fascismo, mas nós não cremos que ela constitua um simples padrão. Uma das maiores descobertas do presente estudo é que os indivíduos que revelam extrema suscetibilidade à propaganda fascista têm muito em comum. (Eles exibem numerosas características que se juntam para formar uma síndrome, ainda que variações típicas dentro desse padrão mais amplo possam ser distinguidas.) Os indivíduos que estão no extremo da direção oposta ao fascismo são muito mais diversificados. A tarefa de diagnosticar o potencial de fascismo e estudar seus fatores determinantes exigiu técnicas especialmente desenhadas para esses propósitos; não se poderia pedir que servissem também para os vários outros tipos de padrão. No entanto, foi possível distinguir vários tipos de estrutura de personalidade que nos pareceram particularmente resistentes às idéias antidemocráticas, como se pode ver pela atenção que lhes demos no último capítulo.

Se o indivíduo potencialmente fascista existe, com o que, precisamente ele se parece ? O que faz com que haja um pensamento antidemocrático ? E se tal pessoa existe, quais têm sido os determinantes e qual o curso de seu desenvolvimento ?

A presente pesquisa foi desenhada para lançar alguma luz sobre essas  questões. Embora a noção segundo a qual o indivíduo potencialmente antidemocrático é uma totalidade possa ser aceita como hipótese plausível, é preciso alguma análise para começar. Na maioria das abordagens do problema dos tipos políticos, pode-se distinguir entre a concepção da ideologia e a concepção das necessidades subjacentes na pessoa. Embora ambas possam ser pensadas como formando um todo organizado dentro do indivíduo, elas todavia podem ser estudadas separadamente. As mesmas tendências ideológicas podem ter diferentes fontes em diferentes indivíduos, e as mesmas necessidades pessoais podem se expressar em diferentes tendências ideológicas.

O termo ideologia é usado neste livro do modo que é comum na literatura corrente, para dar conta de uma organização de opiniões, atitudes e valores – um modo de pensamento  do homem e da sociedade. Podemos falar de uma ideologia total do indivíduo ou de seu ideologia com relação a diferentes aspectos da vida social: economia, religião, grupos minoritários e assim por diante. As ideologias têm uma existência independente em relação à qualquer indivíduo; e aqueles que existem em uma determinada época são resultado ao mesmo tempo de processos históricos e eventos sociais contemporâneos. Essas ideologias têm diferentes graus de apelo para diferentes indivíduos, pois isso depende das necessidades individuais e do grau em que essas necessidades estão sendo satisfeitas ou frustradas.

Para ser exato, existem indivíduos que tomam para si idéias de mais de um sistema ideológico existente, misturando-as em padrões mais ou menos exclusivos. Entretanto, ao examinar-se as opiniões, atitudes e valores de numerosos indivíduo, pode-se descobrir padrões comuns. Embora esses padrões possam não corresponder em todos os casos às ideologias correntes, ainda assim satisfazem a definição de ideologia dada acima e, caso a caso,  desempenham uma função dentro do ajustamento geral do indivíduo.

A presente investigação sobre a natureza do indivíduo potencialmente fascista começou tendo como foco de atenção o anti-semitismo. Os autores, como a maioria dos cientistas sociais, defendem a visão, primeiro,  de que o anti-semitismo se baseia mais amplamente em fatores subjetivos e em sua situação global do que em reais características dos judeus e, segundo , de que os determinantes de suas opiniões e atitudes devem ser procurados dentro das pessoas que as expressam. Considerando que essa ênfase na personalidade requeria focar a atenção na psicologia mais do que na sociologia ou na história, embora em última análise os três campos só possam ser separados artificialmente, não haveria nenhuma tentativa de dar conta da existência de idéia anti-semitas em nossa sociedade. A questão que se colocou foi, antes, saber porque é que certos indivíduos aceitam essas idéias enquanto outros não ? E dado que desde o início a pesquisa foi guiada pelas hipóteses acima mencionadas, supôs-se que (1) o anti-semitismo provavelmente não é um fenômeno específico ou isolado, mas parte de um quadro de referência ideológico mais amplo; e (2) a suscetibilidade do indivíduo a essa ideologia depende primariamente de suas necessidades psicológicas.

Os discernimentos e hipóteses relativas ao indivíduo antidemocrático, presentes em nosso clima cultural mais amplo, precisam ser corroboradas por uma grande quantidade de observação meticulosa, e em muitos casos pela mensuração, antes de poderem ser vistas conclusivamente. Como se pode dizer com segurança que as numerosas opiniões, atitudes e valores expressos por um indivíduo realmente constituem um padrão consistente ou totalidade organizada ? Para tanto parece-nos que seria necessária a mais completa investigação desse indivíduo. Como se pode dizer que as opiniões atitudes e valores descobertos em um grupo de pessoas se juntam para formar padrões, dos quais alguns são mais comuns do que outros ? Não existe outro caminho adequado para proceder do que realmente medindo a ampla variedade de conteúdos do pensamento da população examinada e determinando quais são os que se juntam, por meio de métodos estatísticos padronizados.

Para muitos psicólogos sociais, o estudo científico da ideologia, como tem sido definido, parece uma tarefa sem esperança. Medir com cuidado confiável uma atitude específica, singular e isolada é um procedimento árduo e demorado, quer para o sujeito quer para o pesquisador. (Freqüentemente se argumenta que uma atitude  só pode ser medida de maneira adequada se for específica e isolada.) Como então esperamos sondar, dentro de um período de tempo razoável, as várias atitudes e idéias que formam um ideologia ? Evidentemente algum tipo de seleção é necessária. O investigador precisa se limitar ao que é mais importante, e os juízos de relevância só podem ser feitos com base em uma  teoria.

As teorias que guiaram a presente pesquisa serão apresentadas de acordo com o contexto, mais adiante. Embora as considerações teóricas tenham um papel em cada etapa do trabalho, o princípio foi o estudo objetivo das opiniões, atitudes e valores mais observáveis e relativamente específicos.

Opiniões, atitudes e valores, tais como os concebemos, são expressas mais ou menos abertamente em palavras. Psicologicamente eles estão sempre “na superfície”. Precisa ser reconhecido porém que quando se chega a questões muito carregadas de afeto, como as concernentes às minorias e tópicos de política atual, o grau de abertura com o qual a pessoa fala dependerá da situação em que ela se encontra. Poderá haver uma discrepância entre o que ela diz em uma ocasião particular e o que ela “realmente pensa”. Dizemos que o que ela realmente pensa ela expressa em discussões confidenciais com os que lhe são íntimos. Embora ainda muito superficial do ponto de vista psicológico, isso [suas idéias]  todavia também  pode ser observado diretamente pelo psicólogo, se ele usa as técnicas apropriadas. Foi isso que tentamos fazer.

Precisamos reconhecer porém que o indivíduo pode ter pensamentos “secretos”, que ele não revelará a ninguém, em nenhuma circunstância, se puder evitar. Ele pode ter idéias que não admite nem para si mesmo, assim como pode ter idéias que não expressa, porque  são tão vagas e mal-formadas que não consegue pô-las em palavras. Ter acesso a essas tendências profundas é particularmente importante, porque exatamente aí pode repousar o potencial do indivíduo para o pensamento e a ação democrática ou para o pensamento e ação antidemocrática em situações cruciais.

O que as pessoas dizem e, em menor grau, o que elas realmente pensam depende em muito do clima de opinião em que ela vivem; mas quando esse  clima muda, alguns indivíduos se adaptam muito mais rapidamente do que outros. Se houvesse um aumento marcante na propaganda antidemocrática, deveríamos esperar que algumas pessoas a aceitem e passem a repeti-la; outras, que assim o façam  quando “todos o mundo estiver acreditando”; e, ainda, que haja  outras que não o façam. Noutras palavras, os indivíduo diferem em sua prontidão para exibir as tendências antidemocráticas. Parece necessário estudar a ideologia neste “nível de prontidão” a fim de medir o potencial de fascismo deste país. Observadores têm notado que a quantidade de anti-semitismo implícito existente na Alemanha antes de Hitler era menor do que a existente neste país, mas isso só pode ser sabido através de uma investigação intensiva; através de uma sondagem detalhada do que há na superfície e através do exame do que está por detrás dela.

A questão que pode ser levantada é sobre qual é o grau de relacionamento entre a ideologia e a ação. Se um indivíduo está fazendo propaganda antidemocrática ou se engajando em ataques abertos contra os membros de uma minoria, é geralmente assumido que suas opiniões, atitudes e valores são congruentes com sua ação; mas às vezes se encontra conforto na idéia de que, embora verbalmente o indivíduo expresse idéias antidemocráticas, ele não as põe, nem vai pô-la, em ação. Aqui de novo existe a questão das potencialidades. A ação aberta tanto quanto uma expressão verbal do mesmo tipo depende em grande parte da situação existente, de algo que pode ser melhor descrito em termos socioeconômicos e políticos. Mas os indivíduos diferem amplamente com respeito a sua prontidão, quando é para serem levados à ação. O estudo desse potencial é parte do estudo da ideologia global do indivíduo; saber que tipos de crença, atitude e valor o levam à ação, assim como o que as intensifica e quais forças dentro dele servem de inibidores dessa ação são assuntos da maior importância prática.

Parece haver pouca razão para duvidar que a prontidão ideológica (receptividade ideológica) e a ideologia em palavras e ação são essencialmente a mesma coisa. A  descrição da ideologia global de um indivíduo precisa retratar  não apenas a organização de cada nível mas a organização entre os níveis ideológicos [de sua personalidade]. O que o indivíduo diz  em público com consistência; o que ele diz quando se sente à salvo de crítica; o que ele pensa mas não dirá de modo algum; o que ele pensa mas não admitirá sequer para si mesmo; o que ele está disposto a pensar ou fazer quando vários tipos de apelo forem feitos a ele – todos esses fenômenos podem ser concebidos como constituindo uma só estrutura. A estrutura pode não ser integrada, conter contradições tanto quanto consistência, mas é organizada de forma que suas partes constitutivas sejam relacionadas de modo psicologicamente significativo.

A fim de entender tal estrutura, necessitamos de uma teoria global da personalidade. De acordo com a teoria que guia a presente pesquisa, a personalidade é uma organização de forças mais ou menos duradoura dentro do indivíduo. As forças da personalidade ajudam a determinar a resposta a várias situações e portanto é sobretudo a elas que devemos atribuir a consistência – seja verbal ou física – do referido comportamento. Entretanto comportamento, ainda que consistente, não é a mesma coisa que personalidade; personalidade é o que repousa atrás do comportamento e dentro do indivíduo. As forças da personalidade não são respostas mas prontidão para resposta; se essa prontidão vai ou não resultar em expressão aberta, depende não apenas da situação do momento mas também de qual outra prontidão se encontra em oposição a ela. As forças personalidade que são inibidas o são em um nível mais profundo daquelas que se expressam de maneira imediata e consistente no comportamento aberto.

Quais são as forças da personalidade e quais são os processos através dos quais são organizados ? Para dar conta teoricamente da estrutura da personalidade nós nos baseamos muito em Freud, enquanto no tocante à formulação mais ou menos sistemática dos aspectos mais observáveis e mensuráveis da personalidade fomos guiados sobretudo pela psicologia acadêmica. As forças da personalidade são antes de mais nada necessidades (instintos, desejos, impulsos emocionais) que variam de um indivíduo para outro em quantidade, intensidade, modo de gratificação e objetos de fixação. Além disso, elas  interagem umas com as outras de acordo com padrões harmoniosos ou conflitantes. Existem necessidades emocionais primitivas; existem necessidades para evitar punição e para manter a boa vontade do grupo social; e existem necessidades para manter a harmonia e integração dentro do eu.

Considerando que será aceita a idéia de que as opiniões, atitudes e valores se baseiam em necessidades humanas e dado que a personalidade é essencialmente uma organização de necessidades, a personalidade pode ser vista pois como um determinante das preferências ideológicas. Entretanto  a personalidade não deve ser hispotasiada como um determinante último. Longe de ser algo que é dado, que permanece fixo e atua sobre o mundo circundante, a personalidade se desenvolve sob o impacto do meio social e jamais pode ser isolada da totalidade social dentro da qual esse processo ocorre. De acordo com esta teoria, os efeitos dos fatores ambientais na modelagem da personalidade são, em geral, mais profundas quanto mais cedo eles se fazem presentes na história de vida do indivíduo. As principais influências sobre o desenvolvimento da personalidade surgem no curso do ensinamento dado à criança no cenário da vida familiar. O que acontece aqui é profundamente influenciado pelos fatores econômicos e sociais. O problema não é apenas o  fato de cada família tentar criar suas crianças de acordo com as normas dos grupos sociais, étnicos e religiosos a que pertencem. Também ocorre que fatores econômicos afetam diretamente o comportamento dos pais em relação às crianças. Isso significa que as mudanças mais amplas nas condições sociais e nas instituições terão relevância direta no tipo de personalidade que se desenvolve em uma sociedade.

A presente pesquisa procura descobrir as correlações entre a ideologia e os fatores sociológicos que operam no passado individual – quer eles continuem ou não a operar no presente. Tentando explicar essas correlações, faz-se um retrato das relações entre a personalidade e ideologia. A abordagem geral consiste em considerar a personalidade como um agência através da qual os fatores sociológicos são os mais cruciais e, além disso, o modo como esses últimos produzem seus efeitos.

Embora a personalidade seja produto do ambiente social passado, uma vez desenvolvida ela deixa de ser um mero objeto do ambiente contemporâneo. O que se desenvolveu é uma estrutura dentro do indivíduo, algo que é capaz de selecionar os vários estímulos que lhe são impingidos e que é capaz de iniciar suas próprias ações no contexto social; algo que embora seja sempre modificável é muitas vezes resistente à mudanças fundamentais. Essa concepção é necessária para explicar a consistência do comportamento em situações que variam de forma tão ampla; para explicar a persistência das tendências ideológicas em face dos fatos que as contradizem e de condições sociais que são alteradas radicalmente; para explicar por que as pessoas de mesma situação social têm visões diferentes ou mesmo conflitantes sobre as mesmas questões sociais; e [enfim] para explicar   por que pessoas cuja  conduta foi mudada através de manipulação psicológica retornam às suas velhas maneiras logo que as agências de manipulação são removidas.

A concepção da personalidade como estrutura é a melhor salvaguarda contra a inclinação a atribuir as tendências persistentes no indivíduo a algo “inato” ou “básico” ou “racial” que existe dentro dele. A alegação nazista segundo a qual são os traços naturais e biológicos que decidem o modo de ser global de uma pessoa não seria um expediente político tão bem sucedido se não fosse possível apontar as numerosas instâncias de fixação relativa na conduta humana e desafiasse aqueles que pensam poder explicá-las em qualquer outra base que não a biológica. Privados do entendimento da personalidade como estrutura, os autores cuja abordagem  descansa na premissa de que a capacidade humana de responder e se adaptar à situação social existente é infinita em nada ajudaram, no tocante à matéria, ao referir-se às tendências persistentes com as quais eles não concordam como “confusão”,  “psicose” ou o [próprio] mal, sob um ou outro nome. Obviamente, existe alguma base para descrever como “patológicos” os padrões  de conduta que não se conformam às respostas tidas como mais comuns e, aparentemente, mais regulares aos estímulos do momento. Porém isso é usar o termo patológico no sentido muito estreito de desvio da média encontrada em um contexto social particular e, o que é pior, sugerir que tudo aquilo que existe na estrutura da personalidade pode ser posto sob esse título. Realmente a personalidade abarca variáveis amplamente disseminadas na população e que, como tais, possuem relações regulares umas com as outras. Os padrões de personalidade que têm sido desprezados como “patológicos”, porque não estão de acordo com as tendências manifestas mais comuns, ou mesmo com a maioria dos ideais dominantes existentes na sociedade, revelam-se à luz de uma investigação mais detalhada não ser senão exageros de algo que é quase universal no plano subjacente a essa sociedade. O que é “patológico” hoje pode se tornar a tendência dominante de amanhã, com a mudança das condições sociais.

Parece claro então que uma abordagem adequada dos problemas que temos pela frente precisa levar em conta ao mesmo a fixidez e flexibilidade [da personalidade]; precisa ver as duas coisas não como categorias  mutuamente exclusivas, mas como extremos de um mesmo contínuo, ao longo do qual as características humanas podem ser colocadas; e, por fim, precisa nos dar a base para entender as condições que favorecem um ou outro extremo. Personalidade é um conceito para dar conta de uma permanência relativa. Porém podemos enfatizar mais uma vez que ele designa  sobretudo um potencial;  é a prontidão para conduta antes  que a própria conduta. Embora consista em disposições para se conduzir de certo modo, a conduta realmente verificada vai depender da situação  objetiva. Onde a preocupação é com as tendências antidemocráticas, a delimitação das condições para expressão individual requer um entendimento das organização global da sociedade.

Afirma-se há algum tempo que a estrutura da personalidade pode ser tal que torna o indivíduo suscetível à propaganda antidemocrática. Pode-se agora perguntar quais são as condições sob as quais tal propaganda poderia, aumentando seu grau e volume, vir a dominar a imprensa e o rádio e excluir os estímulos ideológicos contrários, de modo que o que agora jaz em potencial se tornasse efetivamente manifesto. A resposta não deve ser procurada em qualquer personalidade singular, nem nos fatores de personalidade existentes na massa da população, mas nos processos em ação na sociedade. Atualmente parece bem entendido que se a propaganda antidemocrática vai ou não se tornar uma força dominante neste país depende fundamentalmente da situação da maior parte dos interesses econômicos mais poderosos; se eles, seja ou não através  de um plano consciente, farão uso desse expediente para manter seu status dominante; e essa é uma matéria sobre a qual a grande maioria das pessoas teria pouco a dizer.

A presente pesquisa, limitada, como o é, aos aspectos psicológicos do fascismo, até agora amplamente negligenciados, não está preocupada com a produção da propaganda. Seu foco de atenção é, antes o consumidor, o indivíduo a quem a propaganda é projetada. Procedendo assim tenta dar conta não apenas da estrutura psicológica do indivíduo mas da situação objetiva global em que ele vive. Ela parte da hipótese de que as pessoas em geral tendem a aceitar os programas políticos e sociais que elas acreditam servirão a seus interesses econômicos. Quais são esses interesses depende, em cada caso, da posição econômica e social do indivíduo. Por isso, a tentativa de descobrir quais são os padrões socioeconômicos que se associam à receptividade mas também à resistência à propaganda antidemocrática foi um importante elemento levado em conta na presente investigação.

Ao mesmo tempo, porém, considerou-se que as motivações econômicas que agem sobre o indivíduo podem não ter o papel determinante e crucial que muitas vezes lhes são atribuídas. Se o interesse econômico fosse o único fator determinante da opinião, deveríamos esperar que as pessoas do mesmo status socieconômico tivessem opiniões muito similares; deveríamos esperar que a opinião variasse significativamente apenas de um para outro grupo socioeconômico. A pesquisa não trouxe porém apoio expressivo a essas expectativas. Existe apenas a similaridade mais geral de opinião entre as pessoas de um mesmo status socioecômico, mas com flagrantes exceções. Por outro lado, as variações de um grupo socioeconômico para outro só poucas vezes são simples ou bem delimitadas. Para explicar por que as pessoas do mesmo status socioeconômico muitas vezes possuem ideologias diferentes, mas também por que as pessoas de status diverso muitas vezes têm ideologias similares, precisamos levar em conta outras necessidades que não as meramente econômicas.

Além disso, está se tornando cada vez mais claro que, na maior parte das vezes, as pessoas não se comportam de uma certa maneira porque visam seus interesses materiais, mesmo quando é claro para elas quais são esses interesses. A resistência dos trabalhadores de colarinho branco à organização não se deve à crença de que o sindicato não os ajudará economicamente; a tendência dos pequenos empresários a se aliar aos grandes na maioria dos assuntos políticos e econômicos não se deve inteiramente à crença de que isso é um modo de garantir sua independência econômica. Em casos como esses, o indivíduo parece não apenas não  considerar seus interesses materiais mas mesmo ir contra eles: é  como se ele pensasse em termos de um grupo de identificação mais amplo, como se seu ponto de vista fosse determinado mais por sua necessidade de apoiar esse grupo e suprimir os que lhes fazem oposição do que pela consideração racional de seus próprios interesses.

Na realidade, é procurando alívio que se assegura hoje de que um conflito de grupo não passa de um choque de interesses econômicos, de que cada um dos lados está meramente superar o outro –  não sendo uma luta na qual estão em jogo impulsos emocionais muito profundos. A verdade porém é que quando se chega à maneira como as pessoas julgam o mundo social, as tendências irracionais sobressaem-se claramente. Pode-se conceber que um profissional que se opõe à imigração dos refugiados judeus com base em que isso aumentará a competição com que tem de lidar e, assim, poderá vir a diminuir seus rudimentos. Por mais que isso possa ser antidemocrático, ao menos tem algum racionalidade. Para que esse homem porém vá adiante e, como fazem a maioria dos pessoas que se opõem aos judeus nestes termos,  aceite uma ampla variedade de opiniões, muito das quais contraditórias sobre esse povo em geral, atribuindo vários males do mundo aos mesmo, é preciso algo totalmente ilógico, como o é também, aliás,  elogiar todos os judeus, de acordo com o seu estereótipo “positivo”. Indubitavelmente existe hostilidade contra  grupos  baseada em frustrações reais provocadas por alguns de seus integrantes.  Entretanto essas experiências de frustração dificilmente dão conta do fato de como o preconceitos tem aptidão a se generalizar. Evidências do presente estudo confirmam o que tem sido muitas vezes indicado: o homem que é hostil para com uma muito provavelmente o será também contra uma ampla variedade de outras minorias; e não existe base racional concebível para esse tipo de generalização. Porém o que é mais surpreendente é que tanto  o preconceito contra quanto a aceitação totalmente acrítica de um grupo particular muitas vezes existe na total ausência de experiência com membros desse grupo. A situação objetiva do indivíduo parece pois um fonte improvável de tal irracionalidade e, sendo assim, devemos procurá-la antes lá onde a psicologia já encontrou as fontes do sonhos, fantasias e interpretações equivocadas do mundo; isto é, nas necessidades profundas da personalidade.

Outro aspecto da situação individual que devemos esperar afete a sua  receptividade ideológica é sua pertença aos grupos sociais, sejam ocupacionais, fraternais, religiosos e assemelhados. Devido a razões históricas e sociológicas, esses grupos favorecem e sancionam, oficial ou não-oficialmente, diferentes padrões de pensamento. Existe razão para acreditar que os indivíduos, em meio as suas necessidades de se ajustar, relacionar e crer através de expedientes como imitação e condicionamento, assumem as opiniões, atitudes e valores mais ou menos prontas e que caracterizam  os grupos a que pertencem. Na medida em que as idéias que prevalecem em tal grupo são implícita ou explicitamente antidemocráticas, pode-se esperar que seus  integrantes individuais sejam receptivos à propaganda portadora de mesma direção ideológica. De acordo com isso, a presente pesquisa investiga a variedade de grupos a que o indivíduo se filia, com o objetivo de descobrir, em cada um deles, quais são e como variam as tendências gerais de pensamento.

No entanto,  sabe-se que a correlação entre os membros de um grupo e a ideologia pode, em cada indivíduo, dever-se a diferentes tipos de determinação. Em alguns casos, pode ocorrer por exemplo que o indivíduo meramente repita as opiniões aceitas em seu meio social e que, por isso, ele não tenha razão para questionar. Em outros casos, porém, pode ocorrer que o indivíduo escolha se juntar a um grupo particular porque ele representa idéias com as quais ele já tinha simpatia. O fato é que, à despeito da extensão de sua cultura comum, na sociedade moderna é raro uma pessoa se sujeitar apenas a um padrão de idéias, depois que se tornou velha o bastante para as idéias ainda significarem algo para ela. Pode-se supor pois que geralmente alguma seleção é feita, de acordo com as necessidades da personalidade. Mesmo quando os indivíduos são expostos durante seus anos de formação apenas a um conjunto de padrões de idéias políticas econômicas, sociais e religiosas, descobre-se que alguns se conformam enquanto outros se rebelam, o que parece sugerir a propriedade de se inquirir se os fatores subjetivos não fazem a diferença. De todo modo, a abordagem mais frutífera seria, ao que parece, considerar que na determinação da ideologia, como na determinação de qualquer conduta, existe um fator situacional e um fator subjetivo, e que só a mensuração cuidadosa do papel de cada um deles possibilitará a predição mais acurada [do comportamento individual].

Fatores situacionais, sobretudo a condição econômica e a afiliação a grupos sociais, têm sido muito estudados em recentes trabalhos sobre opinião e atitudes, enquanto os fatores mais internos e individualísticos não têm recebido a merecida atenção. Além disso, ainda existe uma outra razão para que o presente estudo dê ênfase particular sobre a personalidade. O fascismo precisa ter uma base de massas, a fim de ser bem sucedido como movimento político. Ele precisa se assegurar não apenas da submissão aterrorizada mas da cooperação ativa da grande maioria da população. Dado que por sua própria natureza ele favorece uns poucos às custas da maioria, ele provavelmente não pode demonstrar que vai melhorar a situação dessa última servindo a seus reais interesses. Desse modo precisar dirigir seus maiores apelos não ao interesses racional mas às necessidades emocionais, muitas vezes aos desejos e medos mais primitivos e irracionais. Argüindo que a propaganda fascista engana as pessoas fazendo-as crer que sua sorte vai melhorar, surge então a questão: Por que elas são tão facilmente enganadas ? Podemos pensar que é por causa de sua estrutura de personalidade; por causa de modelos de esperança e aspirações, medos e ansiedades há muito tempo estabelecidos, que as predispõem a certas crenças e as tornam resistentes a outras. Noutros termos, pode-se dizer que a tarefa da propaganda fascista é tornada mais fácil na medida em que os potenciais antidemocráticos já existem na grande massa das pessoas. Aceita-se como dado que na Alemanha os conflitos econômicos e abalos sociais eram tais que o triunfo do fascismo seria mais ou mais tarde inevitável. Entretanto, os líderes nazistas não agiram como se eles assim acreditassem; ao invés, agiram como se fosse necessário a cada momento levar em conta a psicologia popular – ativar cada grama de seu potencial antidemocrático, comprometer-se com as pessoas, suprimir a menor faísca de rebelião. Parece pois que qualquer tentativa de avaliar as chances do triunfo do fascismo nos Estados Unidos precisa dar conta do respectivo potencial existente no caráter das pessoas.

Os autores deste trabalho acreditam que cabe ao povo decidir se este país vai ou não se tornar fascista. Assume-se porém que o conhecimento da natureza e extensão do potencial antidemocrático indicará os programas para ação democrática. Mas esses programas não se deveriam  limitar aos expedientes para manipular as pessoas de modo tal que eles se comportem mais democraticamente. Deveriam, ao invés, dedicar-se a aumentar o tipo de auto-consciência e auto-determinação que tornam impossível qualquer tipo de manipulação.

[Afinal] Existe uma explicação para a a existência de uma ideologia individual que ainda não foi considerada: a visão de mundo que um homem razoável, com algum entendimento do papel dos determinismos discutidos acima e com total acesso as fatos necessários pode organizar para si mesmo. Essa concepção, embora tenha sido deixada por último, é de crucial importância para uma correta abordagem da ideologia. Sem ela nós teríamos de compartilhar a visão destrutiva, que ganhou certa aceitação no mundo moderno, e segundo a qual não existe base para dizer que uma ideologia ou filosofia tem mais mérito do que outra, dado que todas elas derivam de fontes não-racionais.

Porém, convém notar que  o sistema racional de um homem objetivo e consciente não é uma coisa separável de sua personalidade. Esse sistema também é motivado. Do ponto de vista de suas fontes o que o distingue  é sobretudo o tipo de organização da personalidade que delas se origina. Poder-se-ia dizer que uma personalidade madura (usemos  o termo sem defini-lo, no momento) chegará mais perto de obter um sistema racional de pensamento do que uma imatura. Entretanto uma personalidade não é menos dinâmica e menos organizada por ser madura; por isso, a descrição da estrutura dessa personalidade não é diferente em espécie da descrição de qualquer outra personalidade. Teoricamente, as variáveis de personalidade que mais têm a ver com a determinação da objetividade e racionalidade de uma ideologia são aquelas que pertencem ao ego, aquela parte da personalidade que julga a realidade, integra suas outras partes e opera com a percepção mais consciente.

No final das contas, é o ego que se torna consciente  e assume as responsabilidades pelas forças que operam na personalidade. É essa a base da nossa crença de que o objetivo de saber quais são as determinações psicológicas da ideologia é fazer com que o homem se torne mais razoável. Obviamente não se está pretendendo com isso eliminar as diferenças de opinião. O mundo é suficientemente complexo e difícil de conhecer; os homens têm muitos interesses reais em conflito entre si; e existem na personalidade diferenças aceitáveis pelo ego em  número suficiente para assegurar que os argumentos sobre política, economia e religião jamais se entorpecerão. O conhecimento das determinações psicológicas da ideologia não pode nos dizer qual é a ideologia mais verdadeira; ele só pode remover algumas das barreiras que se antepõem à sua procura.

http://adorno.planetaclix.pt/

*A Morte Anunciada do US Dólar

Do: PÁTRIA LATINA

Depois de publicar o artigo de Michael Hudson ” EUA intensificam sua guerra democrática pelo petróleo do Médio Oriente “, decidi pedir ao Michael para responder a algumas perguntas. Michael concordou muito gentilmente.

The Saker: Trump tem sido acusado de não pensar à frente, de não ter uma estratégia de longo prazo quanto às consequências do assassínato do general Soleimani. Será que os Estados Unidos têm de facto uma estratégia no Médio Oriente ou trata-se apenas de ações pontuais?

Michael Hudson: É claro que estrategistas americanos negarão que as ações recentes não refletem uma estratégia deliberada, porque a sua estratégia a longo prazo é tão agressiva e exploradora que chocaria o público americano como sendo imoral e ofensiva se eles viessem a público e a declarassem.

O presidente Trump é apenas o motorista do táxi, ele leva os passageiros que aceitou – Pompeo, Bolton e os neocons com a síndrome do transtorno iraniano – aonde quer que lhe digam que querem ser conduzidos. Eles querem fazer um assalto e ele está a ser usado como o motorista da fuga (aceitando totalmente seu papel). Seu plano é manter a principal fonte de receita internacional: a Arábia Saudita e os excedentes e recursos monetários em torno das exportações de petróleo do Médio Oriente. Eles veem os EUA a perderem sua capacidade de explorar a Rússia e a China e procuram manter a Europa sob o seu controle através da monopolização de setores-chave, de modo a terem o poder de usar sanções para esmagar países que resistam a transferir o controle das suas economias e monopólios naturais rentistas a compradores dos EUA. Em suma, os estrategistas dos EUA gostariam de fazer à Europa e ao Médio Oriente exatamente o que fizeram à Rússia sob Yeltsin: entregar infraestrutura pública, recursos naturais e sistema bancário a proprietários dos EUA, confiando no crédito em US dólar para financiar seus gastos governamentais internos e o investimento privado.

Isto é basicamente uma captura de recursos. Soleimani estava na mesma posição de Allende do Chile, de Qadaffi da Líbia, de Saddam do Iraque. O lema é aquele: “Nenhuma pessoa, nenhum problema”.

The Saker: A sua resposta levanta uma pergunta acerca de Israel: No seu artigo recente mencionou Israel apenas duas vezes e foram só comentários de passagem. Além disso, você também diz claramente que o lobby do petróleo dos EUA é muito mais crucial que o lobby de Israel. Então aqui está a minha pergunta seguinte: com que base chegou a essa conclusão e quão poderoso acredita que seja o lobby de Israel em comparação com, digamos, o lobby do petróleo ou o complexo industrial militar dos EUA? Em que grau seus interesses coincidem e em que grau eles diferem?

Michael Hudson: escrevi meu artigo para explicar as preocupações mais básicas da diplomacia internacional dos EUA: a balança de pagamentos (dolarizando a economia global, baseando as poupanças dos bancos centrais estrangeiros em empréstimos ao Tesouro dos EUA para financiar os gastos militares, que são os principais responsáveis pelas despesas internacionais e pelo déficit orçamental interno), o petróleo (e a enorme receita produzida pelo comércio internacional de petróleo) e o recrutamento de combatentes estrangeiros (dada a impossibilidade de recrutar soldados americanos dos EUA em número suficiente). Desde o momento em que estas preocupações se tornaram críticas até hoje, Israel era encarado como uma base militar e um apoiante dos EUA, mas a política estadounidense fora formulada independentemente de Israel.

Recordo-me de um dia em 1973 ou 74 quando viajava com meu colega do Instituto Hudson, Uzi Arad (mais tarde chefe do Mossad e conselheiro de Netanyahu), para a Ásia, fazendo escala em São Francisco. Numa quase festa, um general dos EUA aproximou-se de Uzi, tocou-lhe no ombro dele e disse: “Você é nosso porta-aviões no Médio Oriente” e manifestou a sua amizade.

Uzi ficou um pouco envergonhado. Mas era assim que os militares dos EUA pensavam de Israel naquela época. Naquele tempo, as três tábuas da estratégia de política externa dos EUA que esbocei já estavam firmemente em vigor.

É claro que Netanyahu aplaudiu os movimentos dos EUA para fragmentar a Síria e a opção de Trump do assassínio. Mas a decisão é dos EUA e são os EUA que estão a actuar em defesa do padrão do dólar, do poder petrolífero e a mobilizar o exército wahabi da Arábia Saudita.

Israel ajusta-se na diplomacia global estruturada nos EUA, tal como a Turquia. Eles e outros países agem de modo oportunista, dentro do contexto estabelecido pela diplomacia dos EUA, para seguirem suas próprias políticas. Obviamente Israel quer garantir as Colinas de Golã; daí sua oposição à Síria e também sua luta com o Líbano; daí sua oposição ao Irão como apoiante de Assad e do Hezbollah. Isto se encaixa na política estado-unidense.

Mas quando se trata da resposta global e interna dos EUA, são os Estados Unidos que são a força ativa determinante. E sua preocupação reside acima de tudo em proteger sua vaca leiteira da Arábia Saudita, bem como em trabalhar com os jihadistas sauditas para desestabilizar governos cuja política externa é independente da direção dos EUA – desde a Síria até à Rússia (wahabis na Chechênia) e China (wahabis na região uigur ocidental). Os sauditas fornecem a base para a dolarização dos EUA (reciclando suas receitas de petróleo em investimentos financeiros e compras de armas nos EUA) e também fornecendo e organizando os terroristas do ISIS e coordenando sua destruição com os objetivos dos EUA. Tanto o lobby do petróleo quanto o complexo industrial militar obtêm enormes benefícios econômicos dos sauditas.

Portanto, concentrar unilateralmente em Israel é uma diversão que se afasta do que realmente importa: a ordem internacional centrada nos EUA.

The Saker: No seu artigo recente você escreveu: “O assassinato pretendia escalar a presença da América no Iraque para manter o controle das reservas de petróleo da região”. Outros acreditam que o objetivo era precisamente o oposto: obter um pretexto para remover as forças americanas tanto do Iraque como do Síria. Quais são os seus motivos para acreditar que a sua hipótese é a mais provável?

Michael Hudson: Por que matar Soleimani ajudaria a remover a presença dos EUA? Ele foi o líder da luta contra o ISIS, especialmente na Síria. A política dos EUA era continuar a usar o ISIS para desestabilizar permanentemente a Síria e o Iraque, a fim de impedir que um crescente xiita chegasse do Irão ao Líbano – que aliás serviria como parte da iniciativa chinesa da Rota da Seda (Belt and Road). Assim, matou Soleimani para impedir a negociação de paz. Ele foi morto porque fora convidado pelo governo do Iraque para ajudar a mediar uma aproximação entre o Irão e a Arábia Saudita. Era isso que os Estados Unidos temiam acima de tudo, porque efetivamente impediria o seu controle da região e o esforço de Trump para agarrar o petróleo iraquiano e sírio.

Assim, utilizando a habitual dupla linguagem orwelliana, Soleimani foi acusado de ser um terrorista e assassinado de acordo com a Lei de Autorização militar de 2002 dos EUA que permite ao presidente movimentar-se contra a Al Qaeda sem autorização do Congresso. Trump utilizou-a para proteger os rebentos terroristas ISIS da Al Qaeda.

Considerando minhas três tábuas da diplomacia dos EUA descritas acima, os Estados Unidos devem permanecer no Médio Oriente para manter a Arábia Saudita e tentar tornar o Iraque e a Síria estados clientes igualmente subservientes à balança de pagamentos e à política petrolífera dos EUA.

Certamente os sauditas devem perceber que, como suporte da agressão e terrorismo dos EUA no Médio Oriente, seu país (e suas reservas de petróleo) são o alvo mais óbvio. Suspeito que esta é a razão porque procuram uma aproximação com o Irão. E acho que isso está destinado a acontecer, pelo menos para proporcionar espaço para respirar e remover a ameaça. Os mísseis iranianos para o Iraque foram uma demonstração de quão fácil seria direcioná-los para os campos de petróleo sauditas. Qual seria então a avaliação do mercado das ações da Aramco?

The Saker: No seu artigo escreveu: “O grande défice na balança de pagamentos dos EUA tem sido os gastos militares no exterior. Todos os défices de pagamentos, a começar pela Guerra da Coreia em 1950-51 e estendendo-se à Guerra do Vietname da década de 1960, foram responsáveis por forçar o dólar a retirar-se do ouro em 1971. O problema enfrentado pelos estrategistas militares dos EUA era como continuar a suportar a 800 bases militares estado-unidenses por todo o mundo e suportar suas tropas aliadas sem perder a alavancagem financeira da América”. Quero perguntar uma questão básica e realmente primitiva a este respeito: como se preocupar com balança de pagamentos enquanto 1) os EUA continuam a imprimir moeda; 2) a maior parte do mundo ainda quer dólares. Será que isto não dá aos EUA um orçamento essencialmente “infinito”? Qual é o viés nesta lógica?

Michael Hudson: O Tesouro dos EUA pode criar dólares para gastar internamente e o Fed pode aumentar a capacidade do sistema bancário de criar dólar a crédito e pagar dívidas denominadas em US dólares. Mas eles não podem criar divisas estrangeiras para pagar a outros países, a menos que estes desejem aceitar dólares ad infinitum – e isso implica em arcar com os custos de financiar o défice dos EUA em balança de pagamentos, obtendo apenas títulos de dívida (IOUs) em troca de recursos reais que venderão a compradores estado-unidenses.

Esta foi a situação que surgiu há meio século. Os Estados Unidos podiam imprimir dólares em 1971, mas não podiam imprimir ouro.

Na década de 1920, o Reichsbank da Alemanha podia imprimir marcos alemães – trilhões deles. Quando se tratava de pagar a dívida das reparações da Alemanha ao estrangeiro, tudo o que ele pôde fazer foi lançar estes D-marcos no mercado de divisas estrangeiras. Isto esmagou a taxa de câmbio da moeda, forçando o preço das importações a subir proporcionalmente e provocando a hiper-inflação alemã.

A questão é quantos dólares excedentes governos estrangeiros querem possuir. Suportar o padrão dólar acaba por suportar a diplomacia estrangeira dos EUA e sua política militar. Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, a maior parte do mundo em crescimento rápido procura desdolarizar suas economias pela redução da dependência a exportações dos EUA, investimento dos EUA e empréstimos bancários dos EUA. Este movimento está a criar uma alternativa ao dólar, provavelmente para substituí-lo com grupos de outras divisas e ativos nas reservas financeiras nacionais.

The Saker: No mesmo artigo você também escreve: “De modo que manter o dólar como a divisa de reserva do mundo tornou-se um esteio do gasto militar estado-unidense”. Frequentemente ouvimos pessoas a dizerem que o dólar está prestes a afundar e que quando isto acontece a economia dos EUA (e, segundo alguns, também a economia da UE) entrará em colapso. Na comunidade de inteligência há algo a que se chama rastrear os “indicadores e advertências”. A pergunta que lhe faço é: quais são os “indicadores e advertências” económicos de um possível (provável?) colapso do US dólar seguido por um colapso dos mercados financeiros mais ligados ao dólar? O que deverão pessoas como eu próprio (sou um ignorante em economia) manter debaixo de olho e procurar?

Michael Hudson: O que é mais provável é um declínio lento, em grande parte devido à deflação da dívida e cortes em gastos sociais, nas economias da Eurozona e dos EUA. Naturalmente, o declínio forçará as companhias mais altamente alavancadas pela dívida a perderem seus títulos de pagamentos e serem conduzidas à insolvência. Este é o destino de economias thatcherizadas. Mas será longo e penosamente arrastado, em grande medida porque neste momento à esquerda há pouca alternativa socialista ao neoliberalismo.

As políticas protecionistas de Trump e as suas sanções estão a forçar outros países a tornarem-se auto-suficientes e independentes de fornecedores dos EUA, desde culturas agrícolas até aviões e armas militares, contra a ameaça estadounidense de um corte ou de sanções contra reparações, peças sobressalentes e serviços. O sancionamento da agricultura russa ajudou-a a tornar-se uma grande exportadora agrícola e tornou-a muito mais independente em hortaliças, produtos lácteos e queijo. Os EUA têm pouco a oferecer industrialmente, especialmente considerando o facto de que suas TI em comunicações são enxertadas com equipamento da espionagem estado-unidense.

A Europa portanto está a enfrentar pressão crescente do seu sector de negócios para escolher a aliança económico não-EUA que está a crescer mais rapidamente e oferece um mercado de investimento mais lucrativo e é um fornecedor comercial mais seguro. Países voltar-se-ão tanto quanto possível (diplomaticamente bem como financeiramente e economicamente) para fornecedores não-EUA porque os Estados Unidos não são confiáveis e porque estão a ser contraídos pelas políticas neoliberais apoiadas por Trump e os democratas assemelhados. O sub-produto provavelmente será um movimento contínuo rumo ao ouro como uma alternativa ao dólar na liquidação de défices de balanças de pagamentos.

The Saker: Finalmente, minha última pergunta: que país considera como o adversário mais capaz da atual ordem política e econômica mundial imposta pelos EUA? Quem você pensa que, nos EUA, o Estado Profundo e os neocom mais temem? A China? A Rússia? Algum outro país? Como você os compararia na base desse critério?

Michael Hudson: O principal país [que ameaça] romper a hegemonia dos EUA são obviamente os próprios Estados Unidos. Esta é a grande contribuição de Trump. Ele está a unir o mundo num movimento rumo ao multi-centrismo muito mais ostensivamente do que qualquer ostensivamente antiamericano poderia ter feito. E está a fazer tudo isso em nome do patriotismo e do nacionalismo americano – o supremo embrulho da retórica orwelliana!

Trump levou a Rússia e a China a juntarem-se com os outros membros da Organização de Cooperação de Shangai (SCO), incluindo um observador do Irão. Seu pedido para que a NATO se juntasse aos EUA nas capturas de petróleo e no seu apoio ao terrorismo no Médio Oriente e na confrontação militar com a Rússia na Ucrânia e alhures provavelmente levará a manifestações europeias contra a NATO e contra a ameaça dos EUA de III Guerra Mundial.

Nenhum país isolado pode conter a ordem mundial uni-polar dos EUA. É preciso uma massa crítica de países. Isto já está a acontecer entre os países que listou acima. Eles estão simplesmente a actuar no seu próprio interesse comum, utilizando suas próprias divisas mútuas para comércio e investimento. O efeito é uma divisa multilateral alternativa e uma área comercial.

Os Estados Unidos estão agora a apertar os parafusos exigindo que outros países sacrifiquem seu crescimento a fim de financiar o império uni-polar estado-unidense. Com efeito, países estrangeiros começam a responder aos Estados Unidos o que as dez tribos de Israel disseram quando se retiraram do sul do reino de Judá, cujo rei Roboão se recusou a aliviar suas exigências (1 Reis 12). Eles refletem o grito de Sheba filho de Bikri uma geração antes: “Cuide da sua própria casa, ó Davi!” A mensagem é: O que outros países têm a ganhar com a permanência no mundo neo liberalizado uni-polar dos EUA, em comparação com o uso da sua própria riqueza para edificar suas próprias economias? É um problema antigo.

O dólar ainda desempenhará um papel no comércio e investimento dos EUA, mas ele será apenas mais uma divisa, mantida à distância até que finalmente abandone sua tentativa dominadora de despojar a riqueza de outros países. Contudo, a sua morte pode não ser uma visão bonita.

09/Janeiro/2020

 

O original encontra-se em www.unz.com/tsaker/the-saker-interviews-michael-hudson-2/

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

*Novo McCarthyismo (na era Trump)

Do: The Grayzone

Indignação entre NBA e China revela como a liberdade de expressão está sendo esmagada pela nova Guerra Fria de Washington

Ao contrário de sua pretensão de proteger universalmente a liberdade de expressão, a NBA demonstrou repetidamente sua disposição de sancionar o discurso de seus jogadores, particularmente quando cruza as linhas com a agenda anti-China de Washington.

Por Ajit Singh:

As tensões entre os Estados Unidos e a China aumentaram novamente nas últimas semanas, com a última disputa sendo desencadeada por uma das raras fontes de unidade entre os dois países: o basquete.

Inflamada por um tweet agora excluído, no qual um executivo de alto escalão da Associação Nacional de Basquete (NBA) manifestou apoio ao movimento de protesto em Hong Kong, a questão se transformou em um confronto ideológico entre Washington e Pequim por questões cobradas como a livre discurso, censura e soberania nacional.

Nos EUA, a história inspirou condenação vociferante à China, com Washington e a mídia corporativa apresentando a história de maneira uniforme em termos de defesa da “liberdade de expressão” americana contra a “censura” chinesa.

No entanto, a denúncia e o silenciamento de qualquer dissidência dessa narrativa, mesmo pelo ícone da NBA LeBron James, revela que a expressão política está sendo abafada nos EUA não por potências estrangeiras, mas por Washington em busca de sua nova Guerra Fria.

Antecedentes do surto da Guerra Fria da NBA

Em 4 de outubro, Daryl Morey, gerente geral do Houston Rockets, twittou uma foto que dizia “Luta pela liberdade. Fique com Hong Kong ”. O tweet foi feito durante a peregrinação anual de pré-temporada da NBA à China para jogos de exibição, com numerosos funcionários e jogadores da NBA no país para jogos de exibição após os comentários de Morey.

Pacific News Corporation@PacificNewsCo

On October 4th, this tweet by Daryl Morey supporting the protests in Hong Kong received instant backlash from Chinese fans.

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A resposta chinesa às observações de Morey sobre a questão delicada foi rápida, com o tweet provocando indignação pública de uma população que inclui 500 milhões de fãs da NBA, juntamente com uma condenação oficial do Consulado Geral da China em Houston , que expressou sua “forte insatisfação” .

Inúmeros parceiros chineses da NBA suspenderam os laços com a liga , incluindo a Associação Chinesa de Basquete, liderada pelo ex-jogador do Hall da Fama do Houston Rockets Yao Ming, pelas emissoras Tencent e pela estatal China Central Televison (CCTV).

A NBA rapidamente divulgou uma declaração reconhecendo que os comentários de Morey “ofenderam muitos de nossos amigos e fãs na China” e que, embora a NBA apoie seus funcionários “compartilhando suas opiniões sobre assuntos importantes para eles”, as opiniões de Morey não representam a liga.

No entanto, a tentativa da NBA de neutralizar as tensões sobre a questão gerou uma nova onda de reação , agora oriunda da mídia e do establishment político dos EUA. Manchete após manchete, acusou a NBA de “curvar-se à China” quando o assunto se tornou um ponto de partida para pressionar a agenda anti-China de Washington e a nova estratégia da Guerra Fria.

A histeria reuniu parlamentares americanos de todo o espectro político, com o presidente Trump criticando os membros da NBA por “perambularem para a China”, o vice-presidente Pence acusando a NBA de agir “como uma subsidiária integral do regime autoritário [da China]”, e Hillary Clinton afirmando “[e] muito os americanos têm o direito de expressar seu apoio à democracia e aos direitos humanos em Hong Kong. Ponto final.”

Em um exemplo mais revelador de consenso bipartidário sobre o assunto, figuras como Alexandra Ocasio-Cortez, Ted Cruz e Tom Cotton se uniram para co-assinar uma carta beligerante denunciando a NBA e o governo chinês.

A carta condena a NBA como “ultrajante” por “ceder ao governo chinês” e sua “traição aos valores americanos fundamentais”, além de atacar o “Partido Comunista Chinês [por] usar seu poder econômico para suprimir o discurso de Americanos nos Estados Unidos. ”

Evitando qualquer aparência de diplomacia, a carta insta a NBA e outras empresas americanas a escalar as hostilidades e a “enfrentar agressivamente” a “campanha de intimidação” do “governo repressivo de partido único” da China. Indo além da questão da “liberdade de expressão”, a carta sugeria que a NBA deveria apoiar abertamente o movimento de protesto em Hong Kong, pois “esperamos ver os americanos se levantando e se manifestando em defesa dos direitos do povo de Hong Kong”. contrariar a “propaganda do governo” chinesa.

Diante da crescente pressão, Adam Silver, comissário da NBA, emitiu uma segunda declaração , apelando a Washington, esclarecendo que “[é] uma liga de basquete baseada nos EUA”, a NBA valoriza “liberdade de expressão” e que “a NBA não se comprometerá uma posição de regular o que jogadores, funcionários e donos de equipes dizem ou não dizem ”.

Silver adotou cada vez mais a retórica alinhada com Washington, destacando noções de que a liga está defendendo a liberdade de expressão e os valores americanos contra a repressão chinesa.

Na Cúpula da Saúde do TIME 100, em 17 de outubro, Silver afirmou que inicialmente “estava se esforçando demais para ser um diplomata” em relação à China e afirmou que, como “uma empresa americana”, “os valores americanos … viajam conosco onde quer que vamos . E um desses valores é a liberdade de expressão. Queríamos ter certeza de que todos entendessem que estávamos apoiando a liberdade de expressão. ”

Indo além, Silver alegou ter sido solicitado pelo governo chinês para demitir Morey e que a NBA se recusou a ceder a essas demandas.

O Ministério das Relações Exteriores da China negou a alegação de que, em 18 de outubro, Pequim nunca fez tal exigência. Um comentário da emissora estatal CCTV argumenta que , para “agradar a alguns políticos americanos, Silver inventou mentiras do nada e tentou pintar a China de maneira implacável”.

É incerto neste momento qual o impacto a longo prazo que esse caso terá sobre as relações entre a NBA e a China. Nos EUA, a saga tem sido um para-raios, atraindo críticas vociferantes à China, com a história sendo apresentada quase uniformemente em termos de censura chinesa à “liberdade de expressão” americana, à necessidade de apoiar a “democracia e liberdade” em Hong Kong, e o crescente alcance global da “tirania chinesa”.

Há, no entanto, vários fatores importantes que estão sendo deixados de fora desta narrativa, que este artigo irá explorar.

O lado sombrio do movimento de protesto de Hong Kong

Embora os protestos em Hong Kong tenham sido glorificados pelo Ocidente como uma luta progressiva pela “liberdade e democracia”, as representações principais do movimento higienizaram muitos de seus aspectos problemáticos.

Como o Grayzone relatou anteriormente , o movimento é de fato dominado pela xenofobia, nativismo e apologismo colonial, e cada vez mais propenso a distúrbios, violência de multidões e crimes de ódio .

Max Blumenthal

@MaxBlumenthal

Hong Kong protesters gathered outside the British consulate on 9/1 to demand full British citizenship, waved Hong Kong colonial and UK flags, and sang, “I’m British, and we never shall be slaves” (via @Ruptly)

Vídeo incorporado

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O movimento recebeu apoio significativo de Washington, que busca encorajar elementos separatistas na ex-colônia britânica e pressão crescente sobre Pequim como parte de sua “estratégia de contenção” contra a China.

Enquanto o establishment dos EUA descarta as noções de que Washington apóia os protestos de Hong Kong como um produto da “paranóia” chinesa, parece haver fortes evidências para apoiar a visão. Somente no último ano, numerosos grupos de oposição de Hong Kong receberam centenas de milhares de dólares do equipamento de mudança de regime dos EUA, o National Endowment of Democracy (NED).

Reuniões e coordenação extensas foram realizadas entre políticos dos EUA e líderes dos protestos de Hong Kong. Isso incluiu reuniões com a representante do governo americano Julie Eadeh , diplomata do consulado dos EUA em Hong Kong, além de políticos que viajaram para a cidade como o senador Ted Cruz .

Os manifestantes de Hong Kong pediram ao presidente Trump para “libertar” Hong Kong , com os líderes da oposição viajando a Washington para se encontrar com o governo Trump , incluindo o vice-presidente Mike Pence e o ex-conselheiro de Segurança Nacional John Bolton, e pressionaram o Congresso a tomar medidas contra a China.

Testemunhando no Capitólio, líderes do movimento, incluindo Joshua Wong e Denise Ho, instaram os legisladores dos EUA a aprovar a Lei de Direitos Humanos e Democracia de Hong Kong . Com o objetivo de “proteger” a democracia e a autonomia de Hong Kong, o projeto de fato aumenta a subordinação da cidade à agenda de política externa de Washington, criando novas justificativas legais para os EUA imporem sanções à China e exigindo que o governo dos EUA examine minuciosamente se Hong Kong “aplica [s] sanções impostas pelos Estados Unidos “contra a Coréia do Norte, o Irã e quaisquer outros países que Washington considere” ameaçam a segurança nacional, a política externa ou a economia dos Estados Unidos “.

Tais atos atrevidos de intromissão deixam claro que, sob a preocupação declarada de Washington por “direitos humanos”, os EUA de fato pretendem manipular e alimentar inquietação em Hong Kong para avançar sua nova estratégia da Guerra Fria contra a China, ao lado de seu “pivô” militar na Ásia e na Ásia. “Guerra comercial”.

A história da NBA de repressão à liberdade de expressão

Com esse contexto tão necessário, fica claro o motivo pelo qual o tweet de Morey sobre esse assunto delicado causou protestos na China. Além disso, o tweet de Morey não era apenas uma expressão de apoio aos protestos em Hong Kong; ele compartilhou o logotipo de uma organização que pede intervenção estrangeira e agressão econômica contra a China.

A organização, “Luta pela liberdade. Stand with Hong Kong ”, acredita que o Reino Unido, como ex-governantes coloniais de Hong Kong,“ tem um direito e uma responsabilidade únicos ”para com a cidade e exorta explicitamente o governo do primeiro-ministro Boris Johnson, de direita, a impor sanções econômicas à China.

Enquanto a NBA se apresenta como corajosos defensores da liberdade de expressão contra a China, a história demonstra o contrário. Como o blackball da NFL de Colin Kaepernick por seu protesto de hino e críticas ao racismo e brutalidade policial dos EUA, a NBA também suprimiu o discurso de jogadores que expressaram abertamente críticas aos EUA.

Em 1992, durante a visita do Chicago Bulls à Casa Branca depois de vencer o campeonato da NBA, o então jogador do Bulls Craig Hodges entregou uma carta ao então presidente George HW Bush, criticando as políticas racistas de seu governo. Hodges, que tinha 32 anos na época e acabara de sair de duas temporadas jogando por times do campeonato, nunca receberia outro contrato ou mesmo um convite para tentar um time da NBA.

Da mesma forma, a NBA suspendeu e acabou se afastando da liga Mahmoud-Abdul Rauf , então uma jovem estrela da NBA, por protestar contra o hino nacional da bandeira dos EUA como um símbolo global de “tirania e opressão” em resposta à primeira Guerra do Iraque.

A NBA continua demonstrando sua disposição em sancionar o discurso, mas geralmente em uma direção mais progressiva, dada a posição mais forte que os jogadores da NBA lutaram e alcançaram. Em 2014, a liga implementou uma proibição vitalícia do proprietário de longa data do Los Angeles Clippers, Donald Sterling , depois que vazou uma fita na qual ele fez extensos comentários anti-negros. Embora a liga tenha ignorado o conhecido racismo e sexismo de Sterling por várias décadas, foi forçada a agir diante de um possível boicote por parte da maioria dos jogadores negros, juntamente com fãs indignados.

Assim, contrariamente à sua pretensão de proteger universalmente a liberdade de expressão, a NBA demonstrou repetidamente sua disposição de sancionar o discurso, particularmente quando cruza as linhas com a agenda política de Washington e, com menos frequência, em resposta à pressão de jogadores e consumidores.

No que diz respeito à China, parece que a questão não é uma questão de defender a “liberdade de expressão”, mas que a NBA se sentiu pressionada a seguir a agenda de Washington e, como todas as empresas americanas, não vê a soberania dos países do Sul global. como uma razão suficiente para sancionar o discurso de Morey.

O silenciamento de estrelas da NBA pela Nova Guerra Fria de Washington

A saga NBA-China revelou os limites das concepções americanas de liberdade de expressão. Quando pressionados pela mídia a comentar, jogadores e treinadores da NBA são forçados a ficar do lado de Washington ou, como foi testemunhado pelo candidato presidencial democrata Tulsi Gabbard , ser acusado de “tomar partido do inimigo” e ser rotulado como traidor. Nem mesmo um dos atletas mais populares do mundo conseguiu escapar da toxicidade da nova cultura da Guerra Fria que consome os EUA.

Solicitado pelos repórteres a avaliar a controvérsia, a estrela da NBA LeBron James afirmou que sentiu Morey “não foi educado sobre a situação em questão” ao comentar sobre Hong Kong e que “não acreditava que houvesse consideração [por Morey]. pelas consequências e ramificações do tweet “.

James acrescentou que, embora acredite que os americanos tenham liberdade de expressão, eles devem exercitá-la com cautela e “ter cuidado com o que twittamos”, especialmente quando se trata de situações políticas “muito delicadas [e] muito sensíveis”: “Sim, temos liberdade do discurso, mas também pode haver muitos aspectos negativos … Às vezes, a mídia social nem sempre é a maneira correta de fazer as coisas. ”

Apesar da natureza decididamente branda de seus comentários, James foi imediata e fortemente denunciado pelo establishment americano. Os meios de comunicação corporativos criticaram James por “dobrar os joelhos” e “capitulação”, dando à China “exatamente o que ela quer” , e imagens amplamente divulgadas nas redes sociais zombaram de James como membro do Partido Comunista da China.

Uma nova camiseta lançada pela Barstool Sports representando LeBron James como líder revolucionário chinês Mao Zedong.

James foi criticado pelos senadores republicanos Rick Scott por “se prostrar na China comunista”, Ben Sasse por “imitar a propaganda comunista” e Ted Cruz por “beijar comunistas e tiranos chineses e pedir desculpas por assassinos”.

A enxurrada de críticas efetivamente silenciou James, que agora disse a repórteres que “não voltará a falar sobre a China”. Semelhante à maneira como James foi infamesamente instruído a “calar a boca e driblar” ao falar contra o racismo e criticar o presidente Trump, a estrela da NBA foi novamente instruída a ficar calada por não criticar o Inimigo Oficial de Washington, na China.

Apesar de toda a tagarelice sobre a censura chinesa, o tratamento de James deixa claro que, nos EUA, a “liberdade de expressão” é reservada apenas para aqueles que apoiarão a agenda política de Washington.

Os padrões duplos de “liberdade de expressão” nos EUA não passaram despercebidos, com vários jogadores da NBA apontando que estão desencorajados de expressar suas crenças sobre questões políticas domésticas nos EUA, mas pressionados a apoiar os interesses da política externa de Washington em países como China.

Falando contra as críticas que James recebeu, o veterano Andre Iguodala declarou : “[O] que mais me incomodou foi quando fazemos nossas declarações sobre estar em casa, ser americano e questões que temos na América, é como: ‘ Cale a boca e drible.

“É interessante nessa situação com a China, eles estão colocando uma câmera na nossa cara e dizendo ‘Não, você não pode comentar, precisamos que você fale sobre isso’”, continuou Iguodala. “Eles estão prontos para atacar LeBron por fazer uma declaração, porque não gostam da declaração, sentem que ele deveria ter adotado outra postura. Mas quando ele está em casa e ele se posiciona sobre … e é como, ‘Não, este não é o seu lugar para fazer essa afirmação’. Isso foi simplesmente alucinante. Foi isso que me incomodou mais.

O jogador aposentado da NBA Etan Thomas expressou críticas semelhantes à “reação conservadora” contra James como sendo hipócrita. Thomas escreveu no The Guardian :

“Críticos conservadores … que denegrem atletas por se manifestarem contra as violações de direitos humanos que acontecem nas ruas americanas e fazem o mesmo quando não o fazem por questões do outro lado do mundo, estão negociando no padrão duplo que alegam. Essas pessoas se preocupam apenas com a democracia e a liberdade de expressão e permitem que os atletas usem suas plataformas para falar sobre injustiça quando a posição adotada for conveniente para suas agendas. Caso contrário, eles querem que os atletas calem a boca e driblem. E essa é a essência da hipocrisia. ”

Finalmente, o jogador aposentado da NBA David West twittou que a reação contra James é uma tentativa de pressioná-lo a ecoar a linha de Washington na China:

David West

@D_West30

Yall want him to puke up talking points crafted by false narrative pushers who lead people to war under false pretenses or figure out words that best express his point of view? https://twitter.com/WhitlockJason/status/1183962508484202496 

Jason Whitlock

@WhitlockJason

Here’s what LeBron is showing you. Nike, The NBA and LeBron are far more concerned with China than the U.S. NBA growth is predicated on China, not America.

À medida que a nova Guerra Fria contra a China se aquece, Washington restringe o espaço para a liberdade de expressão e pontos de vista alternativos da classe dominante dos EUA sobre questões de guerra e paz.

A pressão exercida sobre as poderosas organizações e indivíduos como a NBA e LeBron James é um sinal perturbador para quem deseja contestar o consenso político em Washington.

É, portanto, ainda mais importante que os progressistas resistam à emergente histeria da Guerra Fria e defendam as poucas vozes proeminentes dispostas a desafiar a linha militarista de Washington.

ajit singh

Ajit Singh é escritor e advogado baseado no Canadá. Ele tweets em @ajitxsingh.

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Resultado de imagem para charge da estatua da liberdade, porém não

Liberdade ? Não

*O que é o Fascismo ?

Para entender melhor o que é o “fascismo”, seria bom entender melhor o que Orwell quis dizer quando ele classificou o fascismo numa gama de situações, o fascismo pode ser muito ou uma parcela pequena, pode ser uma instituição ou um indivíduo.

Resumindo para que se entenda melhor. O fascismo não significa apenas um xingamento, o fascismo trabalha o ódio latente em todo ser humano, este ódio, (talvez produto das nossas frustrações, dos nossos recalques, de uma educação antilibertária e autoritária, de muitas mazelas causadas nas infâncias, das neuroses produzidas pelo próprio sistema capitalista que não tem condições de suprir os egos) é catalisado e canalizado. Após, as matrizes manipuladoras fascistas  dão a estes ódios uma única direção.

Por isso Orwell afirma que ele pode ser muitas coisas ou poucas ao mesmo tempo.

Porém, o fascismo nada mais é que o ódio trabalhado individualmente ou coletivamente.

Xenofobia, transfobia, intolerância religiosa, misoginia, homofobia, esquerdofobia praticada pelos direitopatas, e muitos outros ódios são o alimento do fascismo. O ódio é a matéria prima que conduz a caminhada humana ao estado fascista.

Por isso ele é fácil de identificar, ele é o ódio proferido através do discurso, é um gesto racista num estádio de futebol e é muito mais grave do que se imagina.

Por: villorBlue

Abaixo: “O que é o fascismo” Ensaio de George Orwell, Tribuna, 1944

De todas as questões sem resposta em nosso tempo, talvez a mais importante é: “O que é o Fascismo ?”

Uma das organizações de pesquisa social na América fez essa pergunta recentemente a cem pessoas diferentes e recebeu respostas que iam de “pura democracia” a “pura maldade”. Nesse país se você pedir à pessoa pensante média para definir o Fascismo, ela normalmente responderá usando os regimes alemão e italiano como exemplos. Entretanto isso é insatisfatório porque mesmo os principais estados fascistas diferem entre si largamente quando se trata de estrutura e ideologia.

Não é fácil, por exemplo, encaixar a Alemanha e o Japão na mesma estrutura e é ainda mais difícil quando se trata de estados maiores que podem ser considerados fascistas. Normalmente considera-se, por exemplo, que o Fascismo é inerentemente beligerante, que ele cresce sob uma atmosfera de histeria de guerra e que só pode resolver seus problemas econômicos através de preparações para guerras ou conquistas estrangeiras. Mas claramente isso não é verdade quando falamos de Portugal ou várias outras ditaduras sul americanas.

Ainda, o antissemitismo é considerado uma das características do Fascismo, mas alguns movimentos fascistas não são antissemitas. Controvérsias frequentes, reverberando por anos sem fim nas revistas americanas, nem mesmo conseguiram definir se o Fascismo é ou não é uma forma de capitalismo. Mesmo assim, quando aplicamos o termo “Fascismo” à Alemanha, Japão ou à Italia de Mussolini, em geral conseguimos saber do que se trata. É na política interna que essa palavra perdeu qualquer vestígio de significado.

Pois se você acompanha a mídia saberá que não há quase nenhum grupo de pessoas – certamente nenhum partido político ou grupo organizado de qualquer tipo – que não tenha sido denunciado como Fascista nos últimos dez anos. Aqui não me refiro ao uso verbalizado do termo “Fascistas”. Digo do que eu vi impresso. Eu vi as palavras “simpatizantes do Fascismo” ou “tendência fascistas”ou simplesmente “Fascista” usadas com toda a seriedade ao falarem dos seguintes grupos de pessoas:

Conservadores: Todos os Conservadores, apaziguadores ou anti-apaziguamento, são considerados subjetivamente pró-Fascistas. O julgo britânico sobre a Índia e as colônicas é considerado indistinguível do Nazismo. Organizações do que poderíamos considerar do tipo patriótico ou tradicional são rotuladas de cripto-fascistas ou “simpatizantes do Fascismo”. Exemplo são a União dos Escoteiros, a Polícia Metropolitana, o M.I. 5, a Legião Britânica. Frase chave: “As escolas públicas são terreno fértil para o Fascismo”.

Socialistas: Defensores do capitalismo à antiga (exemplo, Sir Ernest Benn) defendem que o Socialismo e o Fascismo são a mesma coisa. Alguns jornalista católicos defendem que os socialistas foram os principais colaboradores em países ocupados pelos nazistas. A mesma acusação é feita de um ângulo diferente ao Partido Comunista em suas fases de extrema esquerda. No período de 1930-35 o Daily Worker se referiu com frequência ao Labour Party como Labour Fascists. Isso é ecoado por outros extremistas de esquerda como os anarquistas. Alguns nacionalistas indianos consideram alguns sindicatos britânicos como organizações fascistas.

Comunistas: Uma escola de pensamento considerável (exemplos, Rauschning, Peter Drucker, James Burnham, F. A. Voigt) se recusa a reconhecer a diferença entre os regimes Nazista e Soviético, defendendo que todos os fascistas e comunistas buscam os mesmos objetivos e até mesmo que, em certa medida, são as mesmas pessoas. Líderes no The Times (pré-guerra) se referiram à União Soviética como um “país fascista”. Novamente, de um outro ângulo isso é repetido por anarquistas e trotskistas.

Trotskistas: Os comunistas acusam os Trotskistas oficiais, ou seja, a própria organização de Trótsky, de serem uma organização cripto-fascista a mando dos Nazistas. Isso foi amplamente aceito pela Esquerda durante o período da Frente Popular. Em seus períodos de extrema direita os comunistas tendem a aplicar a mesma acusação a todos que estejam a esquerda de si mesmos, ou seja, a Comunidade das Nações ou o I.L.P.

Católicos: Fora de suas próprias fileiras a Igreja Católica é quase universalmente considerada pró-fascista, tanto objetiva quanto subjetivamente.

Contrários à guerra: Pacifistas e outros contrários à guerra são frequentemente acusados não apenas de facilitarem as coisas para o Eixo como também de se contaminarem com um sentimento pró-fascista.

Apoiadores da guerra: Os contrários à guerra normalmente se baseiam no argumento de que o imperialismo britânico é pior que o nazismo e tendem a aplicar o termo “Fascista” a qualquer um que deseje a vitória militar. Os apoiadores da Convenção do Povo chegaram perto de defender que a disposição de resistir a uma invasão nazista era sinal de simpatias fascistas. A Guarda Nacional foi denunciada como uma organização fascista assim que surgiu. Ainda, quase toda a esquerda tende a considerar militarismo e fascismo como sendo iguais. Soldados politicamente conscientes quase sempre se referem a seus oficiais como sendo “simpatizantes do fascismo”ou “naturalmente fascistas”. Escolas de guerra, decoro militar, saudações militares são todos considerados caminhos para o fascismo. Antes da guerra, alistar-se à Reserva militar era considerada uma tendência fascista. Alistamento compulsório e exército profissional são ambos considerados fenômenos fascistas.

Nacionalistas: O nacionalismo é universalmente considerado fascista, mas isso é usado apenas contra aqueles movimentos nacionais que o próprio locutor desaprova. Nacionalismo árabe, polonês, irlandês, o Congresso Nacional Indiano, a Liga muçulmana, Zionismo e o I.R.A. são todos creditados como fascistas, mas não pelas mesmas pessoas.

Vê-se então que, da forma como é usada, a palavra “fascismo”quase não possui significado. Na conversa, é claro, ela é usada de forma ainda mais aberta do que quando escrita. Já a ouvi aplicada a fazendeiros, comerciantes, ao crédito social, punição corporativa, caçadas, touradas, ao Comitê de 1922, Comitê de 1941, Kipling, Gandhi, Chiang Kai-Shek, homossexualidade, astrologia, mulheres, cães e nem sei mais o quê.

Todavia, por baixo de toda essa bagunça realmente há um significado enterrado. Para começar, é claro que há grandes diferenças, algumas fáceis de apontar e outras não tão fáceis de explicar entre os regimes chamados Fascistas e aqueles considerados democráticos. Segundo, se “Fascista” significa “em simpatia com Hitler”, algumas das acusações que eu citei são mais justas do que outras. Terceiro, mesmo as pessoas que arremessam a esmo o rótulo de fascista atribuem alguma forma de significância emocional ao termo. Por “Fascismo” eles querem dizer, a grosso modo, algo cruel, inescrupuloso, arrogante, obscurantista, anti-liberal e contra a classe trabalhadora. Exceto pelo relativamente pequeno número de simpatizantes do Fascismo, quase qualquer pessoa inglesa aceitaria a palavra “valentão”como sinônimo de “fascista”. Isso é o mais próximo que essa muito abusada palavra chegou de uma definição.

Mas o Fascismo também é um sistema político e econômico. Por quê, então, não podemos ter uma definição clara e geralmente aceita para isso? Infelizmente, não teremos uma – pelo menos não ainda. Dizer o motivo tomaria muito tempo, mas basicamente é porque é impossível definir Fascismo satisfatoriamente sem fazer admissões que nem os próprios Fascistas, nem os Conservadores, nem os Socialistas de qualquer cor, estão dispostos a fazer. Tudo o que se pode fazer no momento é usar essa palavra com um certo nível de circunspecção e não, como normalmente se faz, degradá-la ao nível de um xingamento.

 

 

 

*Como o Capitalismo de Plataforma nos Torna Menos Humanos

Como o capitalismo transformou as relações do trabalho em escravidão moderna

Do: THE GUARDIAN (INGLATERRA)

O aplicativo Uber em um telefone celular, com um táxi preto e busto vermelho de Londres ao fundo

Foto: Kirsty Wigglesworth / AP

‘O IWGB sugere que a licença da Uber para operar em Londres poderia ser condicionada ao respeito dos direitos trabalhistas dos motoristas’.

Uma década atrás, foi lançado um serviço/passeio chamado UberCab no Vale do Silício. Desde então, o renomeado Uber gastou US $ 10 bilhões. Nunca teve lucro . 

O modelo de negócios depende dos acionistas para subsidiar viagens baratas para que a empresa possa espremer os rivais e estabelecer um monopólio. 

O sucesso do Uber é que 90 milhões de pessoas agora o usam em 700 cidades ao redor do mundo. 

Depois de entrar no mercado de ações, seus dois fundadores se tornaram bilionários. Enquanto os proprietários do Uber se tornaram imensamente ricos, as pessoas que dirigem seus carros pagam um preço muito alto. Os sindicatos dizem que os motoristas da Uber no Reino Unido ganham uma média de £ 5 por hora, bem abaixo do salário mínimo legal de £ 8,21 para funcionários com mais de 25 anos.

Eles podem trabalhar até 30 horas a mais por semana antes de igualar ao salário minimo legal inglês.

Centenas de pessoas entraram em greve em maio para protestar contra salários e condições ruins de trabalhos.

Em toda a Grã-Bretanha, otrabalho de show– parte de um mercado de trabalho casual, precário e de plantão – está crescendo a um ritmo vertiginoso.

O setor (“trabalho de show“) mais que dobrou de tamanho desde 2016 e agora é responsável por 4,7 milhões de trabalhadores. 

Em parte, isso se deve à nova tecnologia: as pessoas estão usando aplicativos em seus celulares para vender seu trabalho. O modelo de negócios principal baseia-se no recurso quase instantâneo a um grande grupo de trabalhadores sob demanda que procuram seu próximo show. 

O “trabalho incerto” está se tornando a norma, com o resultado de que as estatísticas do desemprego parecem melhores do que a sensação dos britânicos (sensação de desemprego). É um ambiente de excesso de trabalho, marcado por intensas explosões de exaustão.

Uma empresa de “economia de showstentou comercializar o burnout como um estilo de vida, alegando que seus trabalhadores eram “executores” para os quais “a privação do sono é [sua] droga de escolha”.

Nada pode disfarçar o fato de que a ascensão da “economia do show” foi acompanhada por uma queda no poder de compra das famílias trabalhadoras – que agora representam 58% daquelas abaixo da linha oficial de pobreza; o número era de 37% em 1995.

Em um artigo seminal , Alex Wood e outros pesquisadores da Universidade de Oxford descobriram que metade do trabalho no Reino Unido está em nossas ruas, fornecendo comida ou encomendas de courier ou oferecendo viagens de táxi.

Trabalhadores de cereja

A outra metade do “trabalho de show” é remota – fornecendo serviços digitais, como entrada e programação de dados, em plataformas como Upwork, Freelancer e Fiverr, que atuam como casas de leilão para trabalho humano, onde as pessoas fazem uma oferta para fazer o trabalho oferecido .

Os de nações mais ricas podem ser prejudicados por aqueles em lugares mais pobres. Em 2017, os freelancers dos EUA que usam o Upwork arrecadaram US $ 27 milhões – apenas um pouco mais do que os da Índia. Muitas das maiores empresas do mundo usam esses aplicativos para terceirizar o trabalho e reduzir custos. O trabalho em micro, onde as tarefas são divididas, é dominado pela divisão Mechanical Turk da Amazon. Dois terços de seus trabalhadores nos EUA ganham menos que o salário mínimo federal.

O escritório enfrenta um futuro como o do chão de fábrica na década de 1980, quando o trabalho (produção) era enviado ao exterior para economizar dinheiro e aumentar os lucros.

Em seu livro Humans as a Service , o acadêmico de Oxford Jeremias Prassl diz que os problemas da economia – para trabalhadores e mercados – são dirigidos por empresas “que se apresentam como meros intermediários em vez de provedores de serviços poderosos … [para] mudar quase todo o risco de seus negócios e custar para os outros “.

A ilustração mais simples disso é a afirmação da Uber de que seus motoristas não são funcionários – de uma só vez, isso potencialmente evita passivos de US $ 1,5 bilhão em IVA. Esse tipo de dinheiro poderia ter sido usado para pagar a um serviço de saúde que lida com as consequências de empregos inseguros com turnos imprevisíveis. 

Um estudo de referência ao rastrear pessoas que perderam o emprego na recessão de 2010, descobriram que aqueles que acabaram com um trabalho de baixa qualidade – com baixos salários, baixa autonomia e alta insegurança – apresentaram níveis mais altos de estresse crônico do que aqueles que permaneceram desempregados.

Os direitos do consumidor estão sendo reescritos – geralmente em detrimento do cliente. Pessoas que usam aplicativos populares para levar como; Uber, Eats e Deliveroo podem pedir em milhares de restaurantes sem estar cientes de suas más avaliações de higiene.

Tais práticas comprometem a confiança necessária para que a economia de mercado funcione sem problemas. Escondido sob as reivindicações de autonomia, está o fato de que as plataformas exercem controle firme sobre a maioria dos aspectos de como e com que padrão o trabalho é realizado. A tecnologia pode monitorar se um freelancer está trabalhando o tempo todo faturado. Ele pode detectar se um driver de economia de trabalho freia demasiado difícil. Muitas classificações baixas podem levar um trabalhador a sair de uma plataforma. A produtividade se torna a maneira de medir o valor humano. As empresas podem escolher trabalhadores, geralmente sem filhos ou com boa saúde. O que acontece com aqueles que têm vidas que não correspondem às demandas da “economia do show“?

Comercializando o tempo livre

Na “economia do show“, os funcionários não são mais protegidos por um sistema legal projetado para uma idade diferente. Atualmente, existem três categorias de status de emprego no Reino Unido: empregado, trabalhador e autônomo. Somente a primeira categoria tem direito a todos os direitos trabalhistas, incluindo “pagamentos por despedimento, licença parental e proteção contra demissão sem justa causa“. A segunda categoria deve ter o “salário mínimo e os direitos sindicais protegidos, bem como o direito a férias pagas“. No entanto, as empresas de “economia de shows” assumem que seus trabalhadores são trabalhadores independentes e combatem sindicatos, como o Sindicato dos Trabalhadores Independentes da Grã-Bretanha.(IWGB) que afirmam o contrário. Em quase todos os casos, os trabalhadores na “economia do show” provaram que são de fato empregados. É absurdo que os juízes devam proteger os trabalhadores do trabalho autônomo forçado. A Grã-Bretanha tem leis trabalhistas, mas elas não são totalmente aplicadas. Isso permite que as empresas de show combatam as reivindicações individualmente e depois paguem o trabalhador que vence no tribunal sem aplicar a decisão à força de trabalho em geral. O governo conservador oferece apenas mudanças cosméticas nas regras que regem a economia do show. Seria melhor regular adequadamente as plataformas. Por exemplo, o IWGB sugere que a licença da Uber para operar em Londres poderia ser condicionada ao respeito dos direitos trabalhistas dos motoristas.

Deveria ser possível que os trabalhadores tivessem um trabalho flexível sem lhes negar direitos básicos. As empresas só podem competir de forma justa se as regras de emprego forem igualmente aplicadas e aplicadas de maneira consistente. Em um nível mais profundo, a economia do show está apagando o que era para muitos o objetivo tradicional de trabalhar: comprar tempo livre. Em vez disso, estamos sendo seduzidos e coagidos a pensar que é bom comercializar nosso tempo e bens de lazer. Tempo de sobra? Troque por dinheiro entregando pizza. Seu apartamento é grátis por uma semana? Alugue por dinheiro extra. Isso não vai nos fazer felizes. Devemos trabalhar e ter carreiras que nos permitam focar em nossos relacionamentos e ter passatempos enriquecedores de alma. Não é socialmente bom considerar o lazer como uma oportunidade comercial perdida. A menos que possamos nos afastar de tal pensamento

Obs.: Tradução livre Google

*A Água e as Novas Potências Coloniais ou um Conto de Muitas Cidades

Como as grandes corporações privadas são herdeiras naturais das potências coloniais do passado, atuando na busca pelo controle de recursos naturais

por Franklin Frederick/Jornal GGN

No dia 14 de novembro, o grupo canadense Wellington Water Watchers organizou a conferência “All Eyes on Nestlé” na cidade de Guelph, Ontário, reunindo povos indígenas e movimentos de cidadãos que lutam contra o acaparamento de água pela Nestlé vindos do Canadá, Estados Unidos, França e Brasil. Após este evento público, os representantes das organizações envolvidas se reuniram para trocar informações e discutir possíveis estratégias comuns de resistência à gigantesca empresa e suas captações de água. A partir das experiências e histórias compartilhadas por grupos tão diferentes como o ‘Colectif Eau 88’ – da cidade de Vittel, França –  de ‘Save Our Water’ – de Elora, Canadá – ou o ‘Michigan Citizens for Water Conservation’ – dos EUA – ficou claro que há um padrão comum que se repete em todos esses lugares onde a Nestlé retira água para suas instalações de engarrafamento, ao contrário das afirmações da empresa  de que sempre que há problemas estes são  apenas uma questão local. Este padrão comum mostra, por exemplo, que as quantidades de água captadas – pelas quais a Nestlé paga quase nada – provocam o rebaixamento do lençol freático, afetam os ecossistemas e põem em perigo o abastecimento de água dos cidadãos locais. Em Vittel, por exemplo, a Nestlé e a comunidade retiram água do mesmo aquífero e estudos realizados por  instituições estatais francesas indicam que esta situação coloca em risco o aquífero, uma vez que quantidade da água sendo retirada é maior do que a  sua reposição natural. A solução proposta pelas autoridades francesas? Construir uma tubulação  de cerca de 14 km para trazer água de outro lugar para os habitantes de Vittel, de modo que a Nestlé possa continuar tranquilamente seu negócio bombeando a água subterrânea de Vittel!!

Graças à resistência do grupo ‘Collectif Eau 88’ , o projeto de construçâo da tubulação foi derrotado politicamente e outra solução terá que ser encontrada para proteger o aquífero. Mas se não fosse este movimento de cidadãos, este projeto teria sido construído com dinheiro dos contribuintes. No condado de Wellington, a Nestlé Waters Canada tem permissão para extrair 4,7 milhões de litros de água por dia em poços em Hillsburgh e Aberfoyle e de acordo com Mike Balkwill do Wellington Water Watchers, “a empresa solicitou a renovação dessas licenças, enquanto extrai água sem o consentimento das Seis Nações, em cujo território opera,  apesar da oposição pública de várias organizações indígenas”. E novamente, graças à resistência tanto das Seis Nações como de outros movimentos de cidadãos, a moratória sobre as permissões de bombeamento de água que terminaria no próximo dia 1º de janeiro foi recentemente prorrogada pelas autoridades até outubro de 2020.

A situação é a mesma na Flórida, onde, embora a autoridade local responsável pela água considere que já existe uma superexploração deste recurso na região, a Nestlé ainda assim  pretende bombear água em  Ginnie Springs. O padrão comum que emerge desses e de outros casos – no Estado de Michigan ou na pequena cidade de São Lourenço, no Brasil – também mostra que são sempre os grupos locais que se mobilizam em defesa da água,  não as autoridades hídricas ou ambientais do Estado. Pelo contrário, outro padrão que se repete na maioria dos casos, os governos muitas vezes se colocam do lado da corporação contra os cidadãos. Pior ainda, em muitos lugares a Nestlé acaba se fundindo com as autoridades locais, como no estado do Maine, nos EUA, onde um gerente da Nestlé estava no conselho da agência de proteção ambiental do Estado, ou em Vittel, onde uma vice-prefeita foi processada por um conflito de interesses relativo ao projeto da tubulação mencionado acima: esta vice-prefeita,  vereadora Claudie Pruvost, casou-se com um executivo da Nestlé de Vittel, presidente de uma associação que havia sido escolhida para desenvolver o projeto da tubulação junto  à Comissão Local da Água, presidida pela mesma senhora Pruvost. O julgamento foi adiado porque o caso teve de ser transferido do tribunal da cidade de Epinal – a mais próxima de Vittel – para a cidade de Nancy porque a vice-presidente do tribunal de Epinal também era casada com um outro diretor da Nestlé Waters em Vittel!

Leia também:  Os Sardinhas na Itália e a crise de representação política, por Arnaldo Cardoso

A Nestlé procura sempre estabelecer alianças ou parcerias com Governos para  proteger a si própria e às suas operações de engarrafamento, especialmente no seu país natal, a Suíça, onde a sua imagem tem de ser mais cuidadosamente resguardada. Recentemente, o ex-Chefe de Relações Públicas da Nestlé, Christian Frutiger, foi nomeado Vice-Director da Agência Suíça para o Desenvolvimento e a Cooperação – SDC da sigla em inglês –  a agência governamental suíça responsável por programas de ajuda ao desenvolvimento em países mais pobres – onde será responsável pelo programa Global ÁGUA do SDC!

Os danos ecológicos causados pelas instalações de captação e engarrafamento de água da Nestlé também não se limitam ao nível local. As garrafas  PET são uma das principais fontes de resíduos plásticos em todo o mundo. Um único exemplo é suficiente para dar uma ideia da contribuição da Nestlé para este problema: de acordo com  o ‘Wellington Water Watchers’, se o Governo retirar a moratória e aprovar as licenças da Nestlé para retirar água para engarrafamento comercial no Condado de Wellington, a empresa produzirá mais de 3 bilhões e 500 milhões de garrafas PET por ano – colocadas em fila, estas garrafas  circulariam a Terra 16 vezes! E esta quantidade de plástico vem apenas de duas instalações em Wellington County! A Nestlé tem dezenas de outras instalações de engarrafamento em todo o mundo, utilizando enormes quantidades de combustíveis fósseis para produzir mais bilhões de garrafas de plástico. Se acrescentarmos a isso o combustível consumido para transportar todas estas garrafas – principalmente por camião – vemos que a Nestlé tem um impacto significativo também  no aquecimento global.

Estes padrões são intrínsecos às operações de engarrafamento da Nestlé em todo o mundo e ao poder económico e político desta gigantesca multinacional. Países como o Canadá, os EUA ou a França estão entre as mais ricas e sólidas democracias de nosso planeta e, ainda assim, os seus cidadãos têm de lutar arduamente e durante muito tempo  para obter um mínimo de proteção das águas subterrâneas e de superfície, dos ecossistemas e por seu próprio acesso à água no futuro – coisas que normalmente, numa democracia, consideramos como uma obrigação do Estado. Mas se a Nestlé consegue ter governos do seu lado e contra os cidadãos mesmo em democracias tradicionais como os EUA,o  Canadá ou a França, o que poderá então acontecer às comunidades que enfrentam a apropriação de água pela Nestlé em paises com muito menos garatias democráticas e muito mais vulneráveis na África, na América Latina ou na Ásia?

Hoje em dia as corporações multinacionais são a principal fonte de poder econômico e político, como explicam Paul A. Baran e Paul M. Sweezy em sua obra clássica ‘O Capital Monopolista’ (Monopoly Capital):

“Os votos são a fonte nominal do poder político e o dinheiro é a fonte real: o sistema, em outras palavras, é democrático na forma e plutocrático no conteúdo. (…) Basta dizer que todas as atividades e funções políticas  que constituem as características essenciais do sistema – propaganda eleitoral, organizar e manter partidos políticos, realizar campanhas eleitorais – só podem ser realizadas por meio de dinheiro, muito dinheiro. E como no capitalismo monopolista as grandes corporações são a fonte do dinheiro grande,  elas são também a principal fonte de poder político”.

Leia também:  Adeus à Água como Bem Comum?, por José Álvaro de Lima Cardoso

De fato, algumas corporações transnacionais têm lucros maiores que o PIB da grande maioria dos países do mundo. Um exemplo é suficente para mostrar com clareza a disparidade do  poder econômico dessas corporações em comparação com outras instituições internacionais: em 2017, a Nestlé gastou 7,2 bilhões de dólares  em  publicidade em todo o mundo. O orçamento da Organização Mundial da Saúde -OMS – para 2016-2017 foi de US$ 4.384 milhões. É importante entender também que a moderna corporação transnacional é também a herdeira ‘natural’ das antigas potências coloniais, com a diferença de que enquanto esats antigas potências se concentravam na exploração do sul global, seus herdeiros contemporâneos, as corporações, são capazes de explorar também o NORTE global, quando os recursos de que precisam estão localizados lá, como explicou Paul Sweezy nesta citação de ‘Capitalismo Moderno e Outros Ensaios’ (Modern Capitalism and Other Essays):

“(…) não há razão para supor que uma corporação voluntariamente isentaria mercados estrangeiros e fontes de suprimento de seu horizonte de planejamento apenas porque estes estariam fora de um determinado conjunto de fronteiras nacionais”.

De fato, comunidades no Canadá, França e Estados Unidos tentando proteger seus recursos hídricos da Nestlé estão enfrentando as mesmas lutas que comunidades nos países do sul tiveram que enfrentar para proteger seus próprios recursos da apropriação colonial. As antigas potências coloniais usavam oligarquias locais submissas às suas políticas e visões econômicas como governantes em suas colônias,  o que se tornou o modelo de governo  da maior parte dos países no sul global. Sob o neoliberalismo, este modelo tem sido exportado para o norte global, onde as corporações transnacionais estão gradualmente tomando o espaço democrático e o poder politico, transformando muitos lugares no norte em réplicas de comunidades colonizadas do sul. Sob estas novas potências coloniaisl,  governos no sul como no norte tornam-se meros  servidores e defensores das grandes corporações, assegurando que, apesar dos danos ambientais e sociais, estas sempre tenham acesso aos recursos de que necessitam.

Esta dinâmica cria uma nova e importante abertura para a comunicação, a solidariedade, a compreensão e a ação comum entre movimentos de cidadãos que lutam contra a privatização da água no norte e no sul do mundo. A luta, sul ou norte, é a mesma: manter a água como bem público sob controle democrático. E lutar pela água é também lutar por nossas democracias ameaçadas  pelo autoritarismo e pelo controle corporativo, sul ou norte. Uma nova aliança entre o sul e o norte pode emergir como um movimento poderoso que desafiará o setor corporativo e seus servidores. As corporações, é claro, vão reagir e a Nestlé, mais uma vez, já tem uma longa e bem-sucedida história de luta contra a sociedade civil.

Nos anos 70, foi lançado um boicote internacional contra a Nestlé devido às suas práticas de promoção do uso da mamadeira e do leite em pó em detrimento do aleitamento materno, causando doenças e mortes infantis em países mais pobres. Esta campanha, conhecida como ‘Nestlé mata bebés’, teve um impacto sem precedentes na empresa, prejudicando muito a sua imagem. Para combater esta campanha, a Nestlé contratou Raphael Pagan, um oficial da Inteligência do Exército dos EUA. Pagan aconselhou os presidentes Nixon, Reagan e Bush sobre ‘ Políticas do Terceiro Mundo’ – ou seja, sobre como combater os movimentos de Libertação do Terceiro Mundo.Nixon foi o presidente dos Estados Unidos que apoiou o golpe de Estado do general Pinochet contra o presidente eleito Salvador Allende no Chile, colocando o país sob uma ditadura militar assassina que durou anos. Pagan recebeu o prêmio  ‘Life Achievement Award’ de Reagan – o Presidente dos Estados Unidos responsável pela  guerra sangrenta contra o governo sandinista nicaraguense, matando e aterrorizando milhares de pessoas na América Central. Raphael Pagan foi muito eficaz no combate ao boicote internacional contra a Nestlé, principalmente ao criar uma estratégia para dividir os grupos da sociedade civil responsáveis pela organização da campanha. Essa parceria com a inteligência militar para combater  organizações da sociedade civil foi tão bem-sucedida que mais tarde a Nestlé aprofundou essa colaboração.

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Em 2002, a Nestlé contratou John Hedley, um ex-agente do MI6 – o Serviço Secreto Britânico – como Chefe da Segurança. Entre outras coisas, Hedley foi responsável pela organização de uma operação de espionagem de grupos da sociedade civil críticos da Nestlé na Suíça, principalmente o grupo ATTAC. Quando essa operação foi revelada por um jornalista investigativo suíço que a denunciou na TV suíça, a Nestlé teve que enfrentar um processo judicial e foi condenada pela justiça suíça. A Nestlé também desenvolveu o que é conhecido como a “Sala de Guerra”, um centro de comunicação de alta tecnologia que rastreia em tempo real qualquer menção à Nestlé nas redes sociais, para que a empresa possa reagir rapidamente a qualquer comentário ou informação que a empresa considere uma  ‘ameaça’.  Em 2011, a Nestlé organizou a sua conferência anual “Creating Shared Values” em Washington, em parceria com o “The Atlantic Council” – uma organização sediada nos EUA que reúne grandes empresas, políticos e militares. O Atlantic Council – daí o seu nome – é membro da OTAN – a Organização do Tratado do Atlântico Norte (mais sobre isto em https://www.nestle.com/media/mediaeventscalendar/allevents/creatingsharedvalueforum2011 )

O principal painel  neste evento foi uma discussão entre  o CEO da Nestlé, Peter Brabeck, e  o Presidente e CEO do Atlantic Council, Frederick Kempe, com o seguinte tema:

‘Creating Shared Values’  na América Latina: Oportunidades, Obstáculos e Direcionamentos Futuros em Nutrição, ÁGUA , Desenvolvimento Rural”.

Creio que neste tema a palavra  “obstáculos” se refere principalmente aos movimentos da sociedade civil tentando manter seus recursos naturais – como a água – como bens públicos. Quando confrontadas com este tipo de resistência da sociedade, empresas como a Nestlé podem achar muito útil ter a OTAN ao seu lado para ajudar a “convencer”  governos rebeldes a utilizarem  seus recursos naturais para gerar lucros para o sector privado – não para o desenvolvimento do próprio país.

A Nestlé também tem um programa especial para contratar homens e mulheres veteranos das Forças Armadas dos EUA – ver em

https://www.nestleusacareers.com/military/ e

https://www.nestleusa.com/about-us/project-opportunity-career-acceleration-initiative

Talvez apenas para manter uma estreita ligação com os militares dos EUA, uma vez que, até onde eu sei, não existe um programa especial da Nestlé para contratar ex-militares suíços ou ex-militares franceses – ou ex-militares da Rússia, por que não? – apenas os dos EUA…..

Estes exemplos mostram o empenho da Nestlé em  impor o controle corporativo sobre as instituições democráticas para garantir acesso a recursos naturais como a água. Também revelam que a Nestlé está muito à frente no desenvolvimento de estratégias e táticas para combater a resistência da sociedade civil.

Somente unidos, norte e sul, poderemos proteger as nossas águas da apropriação privada e as nossas democracias do controlo corporativo. Não há outro caminho.

Leia na íntegra: PÁTRIA LATINA

*A Lava Jato e o Fascismo

Da: REVISTA CULT

Marcia Tiburi é filósofa, escritora e professora.

A Lava Jato e o fascismo

Adolf Hitler, que não cansava de agradecer o apoio dos juízes alemães (Arte Revista CULT)

Ao longo da história, não há movimento autoritário que não tenha contado com o apoio de considerável parcela de juristas e juízes. Hitler, por exemplo, não cansava de agradecer o apoio dos juízes alemães. Esse fenômeno da adesão de juristas a regimes autoritários, prontos para justificar as maiores violações aos direitos humanos, foi estudado e diversos livros foram publicados sobre o que entrou para a histórica como “os juristas do horror”.

No Brasil pós-golpe não é diferente. Não faltaram “juristas” para justificar a “legalidade” de um impeachment sem a existência de um verdadeiro crime de responsabilidade. Também nunca faltaram “juristas” para defender a “legalidade” do encarceramento de multidões, pessoas que não interessam aos detentores do poder econômico, em desconformidade com a Lei de Execuções Penais. Há, inclusive, “juristas” que defendem a “legalidade” de atos praticados por juízes de férias e em violação às regras de competência, que existem (e deveriam ser respeitadas) justamente para evitar arbítrios e violações à impessoalidade.

Mais grave: muitos “juristas” passaram – para agradar aos detentores do poder, inclusive aos interesses dos meios de comunicação de massa –  a defender a violação aos limites semânticos impostos pelas leis, como no caso da relativização do princípio constitucional da presunção de inocência.

Como na Alemanha nazista, “juristas” passaram a defender a necessidade de ouvir “a voz do povo” para decidir de acordo com a “vontade popular”. Se antes a “voz do povo” era identificada com a opinião do Führer, hoje, “a voz do povo” é a opinião dos próprios juízes, os Führer dos processos, que, muitas vezes, não passa da opinião dos grupos econômicos que detêm os meios de comunicação.

O exemplo mais significativo da ascensão do autoritarismo pela via judicial está no complexo de ações que passou a ser conhecido como “caso Lava Jato”.  No âmbito dessa operação, que também virou uma mercadoria e foi vendida pela propaganda do poder econômico como “a maior ação de combate à corrupção no Brasil”, diversos procedimentos se caracterizaram pela violação aos limites legais e éticos que definiam a democracia.

Em outras palavras, a pretexto de combater a corrupção, a Operação Lava Jato revelou-se um instrumento de corrupção da democracia. Os princípios e as regras constitucionais, que foram conquistas civilizatórias e serviam como garantia contra a opressão e o arbítrio, passaram a ser ignoradas por juízes, procuradores e ministros, sob os aplausos de uma mídia que, em grande parte, segue fielmente as lições de Goebbels.

Nesse momento, vale lembrar que o “combate à corrupção” foi uma das principais bandeiras do nacional-socialismo e responsável pela adesão popular ao nazismo, embora pesquisas recentes revelem que nazistas enriqueceram por vias ilegais. Os “moralistas” de lá, assim como os daqui, se revelaram uma fraude.

Ao longo da história do Brasil, o “combate à corrupção” sempre foi um exemplo de sucesso como arma política contra inimigos dos detentores do poder econômico (Vargas, Jango, Lula e Dilma), mas um fracasso do ponto de vista de diminuir ou recuperar os prejuízos causados ao erário público. Vários exemplos poderiam ser citados, mas basta acessar os dados que demonstram que todos os valores que seriam objeto de corrupção apontados pelos “juristas” que estão à frente da Lava Jato são bem inferiores aos prejuízos suportados pela economia brasileira em razão da maneira como foi conduzida a operação.

Em outras palavras, diante dos descuidos dos neoinquisidores brasileiros, os efeitos negativos da Operação Lava Jato para a economia são bem superiores à recuperação dos ativos. O Brasil se deu mal com a Lava Jato, mas muitos donos do poder econômico se deram muito bem.

Se fosse apenas um fracasso em termos de defesa dos interesses nacionais, a Lava Jato já seria um problema. Mas, ao desconsiderar sistematicamente a Constituição da República e a legalidade democrática, instaurar perseguições penais extremamente seletivas, manipular a opinião pública (aliás, estratégia admitida pelo juiz Sérgio Moro em um dos poucos, senão o único, artigo acadêmico conhecido de sua lavra) e violar direitos e garantias fundamentais, a Operação Lava Jato contribuiu decisivamente para o crescimento do pensamento autoritário e para a naturalização das ilegalidades estatais em nome de uma “boa intenção”, daquelas que enchem o inferno.

A Lava Jato transformou-se em uma ode à ilegalidade seletiva dos donos do poder. Dentre tantos exemplos, pode ser citado o vazamento ilegal – trata-se de um fato típico penal – das conversas do ex-presidente Lula e da presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff, por obra do juiz Sergio Moro, que – inacreditavelmente – continuou a julgar o ex-presidente, a vítima dessa conduta vedada pelo ordenamento brasileiro, com a – inacreditável – aquiescência de outros órgãos do Poder Judiciário.

A lógica que direciona a atuação na Operação Lava Jato é tratar tudo e todos como objetos negociáveis. Nesse sentido, viola a ideia iluminista da dignidade da pessoa humana. Pessoas voltaram a ser presas para delatar outras pessoas, como acontecia na idade média. Trocaram-se apenas as bruxas por políticos indesejáveis aos olhos dos detentores do poder. A verdade e a liberdade, valores da jurisdição penal democrática, foram transformadas também em mercadorias.

Em delações premiadas sem suficientes limites epistêmicos e legais, a verdade, sempre complexa, acaba substituída pela “informação” que confirma a hipótese acusatória e que já foi assumida como a “adequada” por juízes e procuradores. Trata-se de um novo fundamentalismo, que não deixa espaço para dúvidas, uma vez que trata a mera hipótese acusatória como uma certeza, ainda que delirante.  Pessoas são postas em liberdade ou tem a pena reduzida se falam aquilo, e somente aquilo, que os neoinquisidores querem ouvir.

A necessária luta contra a corrupção foi distorcida. Criou-se um mundo pelo avesso no qual os direitos e garantias fundamentais, condições para uma vida digna, passaram a ser vistos como impedimentos à eficiência punitiva e ao crescimento do Estado Penal.

Um mundo pelo avesso no qual cumprir a Constituição é visto com desconfiança ao mesmo tempo em que se celebram as pessoas que violam os limites democráticos. Resistir ao crescimento do autoritarismo é também resistir à lógica de um poder sem limites em um mundo em que a pós-verdade tornou-se tão aceitável quanto à restrição ilícita da liberdade.

Nesse contexto, figurar como réu em um processo pode significar apenas que alguém foi escolhido como objeto de ódio ou perseguição.

Leia na íntegra: A Lava Jato e o fascismo

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