*O Surpreendente Curdistão Libertário

Combatentes das YPG, as Brigadas de Proteção do Povo curdas

Arejado, partido marxista flerta com ideias pacifistas, feministas e neoanárquicas, defende-se do fundamentalismo islâmico e abre avenida de esperança no Oriente Médio 

Por Rafael Taylor | Tradução Leonardo Griz Carvalheira

Os curdos não têm amigos, exceto as montanhas
provérbio curdo

Excluídos das negociações e traídos pelo Tratado de Lausanne de 1923, depois de terem um estado próprio prometido pelos aliados da Primeira Guerra Mundial durante a dissolução do Império Otomano, os curdos são a maior etnia sem estado do mundo. Mas hoje, apesar de um Irã inflexível, sobram cada vez mais obstáculos para uma independência de jure curda no norte do Iraque. Turquia e Israel já sinalizaram apoio enquanto Síria e Iraque têm as mãos atadas pelo rápido avanço do Estado Islâmico (antigo ISIS).

Com a bandeira curda tremulando do alto de todos os prédios oficiais e a Peshmerga mantendo os islâmicos afastados com a extremamente atrasada assistência militar dos EUA, o Curdistão do Sul (Iraque) se junta aos camaradas do Curdistão Ocidental (Síria) como a segunda região autônoma de facto do novo Curdistão. Já começaram a exportar seu próprio petróleo e retomaram a petrolífera Kirkuk, têm um próprio parlamento secularizado e eleito e uma sociedade pluralista, pediram reconhecimento da ONU, e não há nada que o governo do Iraque possa fazer – ou os EUA fizessem sem o apoio de Israel – para detê-los.

A luta curda, no entanto, é qualquer coisa exceto estritamente nacionalista. Nas montanhas acima de Erbil, no antigo coração do Curdistão, passando pelas fronteiras da Turquia, Irã, Iraque e Síria, nasce uma revolução social.

Mapa atual da Síria e Iraque. Regiões amarelas no norte da Síria são controladas por curdos sírios, regiões esverdeadas no nordeste do Iraque são controladas por curdos iraquianos (fonte: Wikimedia Commons)

A Teoria do Confederalismo Democrático

Na virada do século, enquanto o sempre radical estadunidense Murray Bookchin desistia de tentar revitalizar o movimento anarquista contemporâneo sob a sua filosofia da ecologia social, o fundador e líder do PKK Abdullah Öcalan foi preso no Quênia por autoridades turcas e condenado à morte por traição. Nos anos seguintes, o velho anarquista ganhou no militante endurecido um improvável devoto, cuja organização paramilitar – o PKK – é amplamente listada como uma organização terrorista por causa da guerra violenta de libertação travada contra a Turquia.

Nos seus anos de confinamento solitário, dirigindo o PKK por detrás das grades enquanto sua pena era alterada para prisão perpétua, Öcalan adotou uma forma de socialismo libertário tão desconhecida que pouquíssimos anarquistas tinham sequer ouvido falar: o municipalismo libertário de Bookchin. Depois Öcalan modificou, especificou e rebatizou a visão de Bookchin como“confederalismo democrático”, e como consequência a União das Comunidades do Curdistão (Koma Civakên Kurdistan ou KCK), o experimento territorial do PKK de uma sociedade democrática livre e direta, foi mantida em segredo para a grande maioria dos anarquistas, e ainda mais para o público geral.

Apesar de a conversão de Öcalan ter sido um ponto crucial, um renascimento mais amplo do esquerdismo libertário e da literatura independente estava descendo as montanhas e passando de mão em mão entre os praças após o colapso da União Soviética nos anos 1990. “[Eles] analisaram livros e artigos de filósofos, feministas, (neo)anarquistas, comunistas libertários, comunalistas e ecologistas sociais. Foi assim que escritores como Murray Bookchin [e outros] chegaram aos seus focos”, nos conta o ativista curdo Ercan Ayboga.

Öcalan embarcou, nos seus escritos da prisão, num minucioso re-exame e autocrítica da terrível violência, dogmatismo, culto à personalidade e autoritarismo que ele havia promovido: “Ficou claro que nossa teoria, programa e práxis da década de 1970 produziu nada além de um separatismo fútil e violência e, ainda pior, que o nacionalismo, a que deveríamos nos opor, infestou a todos nós. Mesmo nos opondo em princípio e retórica, aceitamos, no entanto, [o nacionalismo] como inevitável.” Antes líder inquestionável, Öcalan agora argumenta que “o dogmatismo é nutrido por verdades abstratas que se tornam formas habituais de pensar. Quando você põe essas verdades generalistas em palavras, você se sente como um alto sacerdote a serviço do seu deus. Esse foi o erro que cometi.”

Öcalan, um ateu, estava finalmente escrevendo como um livre pensador. Ele mencionou estar buscando uma “alternativa ao capitalismo” e uma “reposição ao modelo do (…) ‘socialismo realmente existente’”, quando cruzou com Bookchin. Sua teoria do confederalismo democrático se desenvolveu a partir de uma combinação da inspiração de intelectuais comunalistas, “movimentos como os Zapatistas”, e outros fatores históricos da luta no Curdistão do Norte (Turquia). Öcalan proclamou-se como discípulo de Bookchin, e depois de uma falha tentativa de correspondência por e-mail com o velho teórico, que para o seu azar estava muito doente para tal troca em seu leito de morte em 2004, o PKK o celebrou como “um dos maiores cientistas sociais do século XX” na época de sua morte dois anos mais tarde.

A prática do Confederalismo Democrático

O próprio PKK aparentemente seguiu seu líder, não só adotando a visão específica de eco-anarquismo de Bookchin, mas internalizando ativamente a nova filosofia na sua estratégia e tática. O movimento abandonou a guerra sangrenta pela revolução stalinista/maoísta e as táticas de terror que carregava, e começou a usar amplamente uma estratégia não-violenta visando uma maior autonomia regional.

Depois de décadas de traições fratricidas, cessar-fogos fracassados, prisões arbitrárias e recorrentes hostilidades, em 25 de abril deste ano o PKK anunciou uma retirada imediata de suas forças na Turquia e seu reposicionamento no norte do Iraque, acabando efetivamente com o conflito de três décadas com o estado turco. Simultaneamente o governo turco realizou um processo de reforma constitucional e legal para consagrar direitos humanos e culturais à minoria curda dentro de suas fronteiras. Isso veio como o componente final da longa negociação entre Öcalan e o primeiro ministro turco Erdoğan como parte do processo de paz iniciado em 2012. Não houve violência do PKK por um ano e estão sendo feitos pedidos para retirá-los das listas de terroristas do mundo.

Resta ao PKK, no entanto, uma história sombria – práticas autoritárias que pegam mal para esta nova retórica libertária. Levantar verbas através do comércio de heroína, extorsão, recrutamento coercitivo e saques generalizados era constantemente reivindicado ou atribuído a suas sucursais. Se for verdade, nenhuma desculpa para este oportunismo pode ser feita, apesar da óbvia ironia do próprio estado genocida turco fundamentar-se em boa parte do lucrativo monopólio da exportação legal de opiáceos “medicinais” estatais para o ocidente e tornou possível pela conscrição e taxação desta atividade um orçamento contra o terrorismo e um exagerado exército (A Turquia tem o segundo maior exército da OTAN depois dos EUA).

Como é a hipocrisia costumeira da guerra contra o terror, quando movimentos de libertação nacional imitam a brutalidade do estado, invariavelmente os não representados são taxados de terroristas. O próprio Öcalan descreve esse vergonhoso período como de “gangues internas da nossa organização e banditismo aberto, [que] arranjaram operações aleatórias e desnecessárias, mandando jovens, em massa, para a morte.”

Abdullah Öcalan, o dirigente comunista que ajuddou a que ajudou a reposicionar a luta curda pela autonomia após viver, na prisão, um notável giro ideológico

Correntes anarquistas na luta

Como mais um sinal de que está abandonando os caminhos marxistas-leninistas, porém, o PKK recentemente começou a fazer propostas explícitas ao anarquismo internacionalista, inclusive oferecendo uma oficina no Congresso Internacional de Anarquismo (International Anarchism Gathering) em St. Imier, Suiça, em 2012, que levou a confusão, desânimo e debate on-line, mas que passou despercebido para a imprensa anarquista mais ampla.

Janet Biehl, viúva de Bookchin, é uma das poucas a estudar a União das Comunidades do Curdistão (KCK) em campo, e escreveu extensivamente sobre suas experiências no site New Compass, inclusive compartilhando entrevistas com radicais curdos, envolvidos nas operações diárias das assembleias democráticas e das estruturas federais, assim como traduzindo e publicando o primeiro estudo anarquista que virou livro sobre o assunto: Democratic Autonomy in North Kurdistan: The Council Movement, Gender Liberation, and Ecology (2013) [Autonomia Democrática no Curdistão do Norte: o Movimento dos Conselhos, Libertação de Gênero e Ecologia, tradução livre].

A outra única voz anarquista que fala inglês é o Fórum Anarquista do Curdistão (Kurdistan Anarchist Forum – KAF), um grupo pacifista de curdos iraquianos morando na Europa que diz não “ter nenhuma relação com outros grupos de esquerdistas”. Enquanto apóia um Curdistão federado, o KAF declara que “só vai apoiar o PKK quando eles desistirem completamente da luta armada e se engajarem em organizar movimentos de massa de base popular com o objetivo de suprir demandas sociais do povo, denunciarem e desmantelarem modos centralizados e hierarquizados de luta e substituí-los por grupos locais autônomos federados, encerrarem todas as relações, acordos e negociações com os estados do Oriente Médio e do Ocidente, denunciarem políticas de poder carismático e converterem-se ao anti-estatismo e anti-autoritarismo – só então seremos felizes em cooperar totalmente com eles.”

Seguindo Bookchin ao pé da letra

Este dia (exceto o pacifismo) pode não estar tão longe. O PKK/KCK parecem estar seguindo Bookchin ao pé da letra, quase totalmente, inclusive com a contraditória participação no aparato estatal via eleições, assim como previsto nos seus livros.

Como escrevem Joost Jongerden e Ahmed Akkaya, “o trabalho de Bookchin diferencia duas ideias de política, a helênica e a romana”, que são [respectivamente] a democracia direta e a representativa. Bookchin enxerga sua forma de neo-anarquismo como um renascimento da antiga revolução ateniense. O “modelo de Atenas existe como uma corrente que encontra expressões na Comuna de Paris de 1871, nos conselhos (sovietes) da primavera da Revolução Russa de 1917 e na Revolução Espanhola em 1936.”

O comunalismo de Bookchin contém uma abordagem em cinco passos:

  1. Entender pela lei as municipalidades existentes com o objetivo de tornar local o poder de decisão.
  2. Democratizar essas municipalidades através de assembleias de base.
  3. Unir as municipalidades “em redes regionais e confederações mais amplas (…) trabalhando para substituir gradualmente Estados-nações por confederações municipais”, enquanto assegura que “níveis ‘maiores’ da confederação têm essencialmente funções de coordenação e administração.”
  4. “Unir movimentos sociais progressistas” para fortalecer a sociedade civil e estabelecer “um ponto focal comum para todas as iniciativas cidadãs e movimentos”: as assembleias. Esta cooperação “não é [examinada minuciosamente] porque esperamos ver sempre um consenso harmonioso, mas – ao contrário – por que acreditamos em desacordo e deliberação. A sociedade se desenvolve pelo debate e pelo conflito”. Além disso, as assembleias são seculares, “[lutando] contra influencias religiosas na política e no governo”, e uma “arena para a luta de classes”.
  5. Para alcançar sua visão de uma “sociedade sem classes, baseadas no controle político coletivo sobre os meios de produção socialmente importantes”, se fazem necessárias a “municipalização da economia” e a “alocação confederada de recursos para garantir um equilíbrio entre as regiões”. Em termos leigos, isso equivale a uma combinação de autogestão dos trabalhadores e planejamento participativo para atender às necessidades sociais: a economia anarquista clássica.

Como coloca Eirik Eiglad, antigo editor de Bookchin e analista da KCK:

“É particularmente importante a necessidade de combinar os conhecimentos dos movimentos progressistas feministas e ecológicos com os novos movimentos urbanos e as iniciativas cidadãs, assim como sindicatos e cooperativas e coletivos locais (…) Acreditamos que as ideias comunalistas de uma democracia baseada em assembleias irão contribuir para tornar esta mudança progressiva de ideias possível em bases mais permanentes e com mais consequências políticas diretas. Ainda que o comunalismo não é só um meio tático para unir estes movimentos radicais. Nosso chamado por uma democracia municipal é uma tentativa de dar razão e ética para a frente da discussão pública.”

Para Öcalan, confederalismo democrático significa uma “sociedade democrática, ecológica e com liberdade de gêneros”, ou simplesmente “democracia sem estado”. Ele contrasta explicitamente “modernidade capitalista” com “modernidade democrática”, em que os antigos “três elementos básicos: capitalismo, Estado-nação e industrialismo” são substituídos por uma “nação democrática, economia comunal e indústria ecológica”. Isto implica “três projetos: um pela república democrática, um para o confederalismo democrático e um para a autonomia democrática.”

O conceito da “república democrática” refere-se essencialmente a reconhecer a cidadania e os direitos civis há muito tempo negados aos curdos, incluindo a possibilidade de falar e ensinar livremente sua própria língua. Autonomia e confederalismo democráticos referem-se às “capacidades autônomas das pessoas, uma forma de estrutura política mais direta, menos representativa.”

Enquanto isso, Jongerden e Akkaya notam que o “modelo do municipalismo livre visa realizar um corpo administrativo participativo, de baixo para cima, de nível local para o provincial.” O “conceito de cidadãos livres (ozgur yarttas) [é] o ponto de partida”, que “inclui liberdades civis básicas, assim como liberdade de expressão e organização.” A unidade central do modelo é a assembleia de bairro ou os “conselhos”, como eles são referenciados indistintamente.

Existe participação popular nos conselhos, inclusive de pessoas não-curdas, e enquanto as assembleias de bairro são fortes em várias províncias, “em Diyarbakir, a maior cidade do Curdistão turco, há assembleias em quase todo lugar.” Nos outros lugares, “nas províncias de Hakkari e Sirnak (…) há duas autoridades paralelas [a KCK e o estado], dos quais a estrutura democrática confederada é mais poderosa na prática.” A KCK na Turquia “é organizada nos níveis de vila (köy), bairro urbano (mahalle), distrito (ilçe), cidade (kent) e a região (bölge) que é chamada de ‘Curdistão do Norte’.”

O nível “mais alto” da federação no Curdistão do Norte, o DTK (Congresso da Sociedade Democrática) é uma mistura de cargos delegados dos seus pares com mandatos revogáveis, que preenchem 60%, e representantes de “mais de quinhentas organizações da sociedade civil, sindicatos e partidos políticos”, que completam os 40%, dos quais aproximadamente 6% é “reservado para representantes de minorias religiosas, acadêmicos, ou outros casos particulares”.

A proporção de 40% dos que são delegados por grupos diretamente democráticos, não-estatistas da sociedade civil comparado àqueles que são burocratas partidários eleitos ou não-eleitos não está clara. A situação fica ainda mais complicada com a sobreposição de indivíduos de movimentos curdos independentes e de partidos políticos curdos e com a internalização por parte dos partidos de muitos aspectos do processo diretamente democrático. De qualquer forma, o consenso informal entre as testemunhas é de que a maior parte das decisões são tomadas por democracia direta em ambas as ocasiões; que a maioria das decisões são tomadas na base; e que as decisões são executadas de baixo para cima de acordo com a estrutura federal.

Por causa das assembleias e do DTK serem coordenados pelo ilegal KCK, do qual o PKK é membro, eles são designados como “terroristas” pela Turquia e pela chamada comunidade internacional (leia-se União Europeia, EUA e outros), por associação. O DTK também seleciona os candidatos do partido pró-curdos BDP (Partido Democracia e Paz) para o Parlamento turco, que por sua vez propõe “autonomia democrática” à Turquia, num tipo de combinação de democracia representativa e direta. Alinhado com o modelo federalista, propõe o estabelecimento de aproximadamente 20 regiões autônomas que autogovernariam diretamente (no modelo anarquista e não no Suíço) “educação, saúde, cultura, agricultura, indústria, serviços sociais e segurança, questões das mulheres, dos jovens e os esportes”, com o estado continuando a conduzir “relações internacionais, finanças e defesa”.

A Revolução Social decola

No chão, enquanto isso, a revolução já começou.

No Curdistão turco existe um movimento educacional independente de “acadêmicos” que puxam fóruns e seminários de discussão nos bairros. Há a Rua da Cultura, onde Abdullah Demirbas, o prefeito do município de Sur em Amed, celebra “a diversidade dos sistemas de religiões e crenças”, declarando que “começamos a restaurar uma mesquita, uma igreja católica caldeia-aramaica, uma igreja ortodoxa armena e uma sinagoga judaica”. Por outro lado, relatam Jongerden e Akkaya, “as municipalidades do DTK deram início a um ‘serviços municipais multilíngues’, produzindo um debate acalorado. Sinalizações foram erguidas em curdo e em turco, e comerciantes locais seguiram o exemplo”.

A libertação das mulheres é puxada pelas próprias mulheres através de iniciativas do Conselho de Mulheres do DTK, impondo novas regras como a “cota mínima de gênero de 40%” nas assembleias. Se um servente civil bate em sua mulher, seu salário é diretamente transferido à sobrevivente para fornecê-la segurança financeira e usá-lo como bem entender. “Em Gewer, se um homem tem uma segunda esposa, metade de seus bens vão para a primeira.”

Há as “Vilas de Paz”, comunidades novas ou transformadas de cooperativas, implementando seu próprio programa totalmente fora dos constrangimentos logísticos da guerra curdo-turca. A primeira comunidade assim foi construída na província de Hakkari, na fronteira com o Irã e o Iraque, onde “certas vilas” aderiram ao experimento. Na província de Van, uma “vila ecológica de mulheres” está sendo construída para acolher vítimas de violência doméstica, suprindo-se “com toda ou quase toda energia necessária”.

A KCK realiza reuniões bienais nas montanhas com centenas de delegados dos quatro países, atentos à constante ameaça do Estado Islâmico à autonomia do Curdistão do Sul e Ocidental. Os partidos ligados ao KCK no Irã e na Síria, PJAK (Partido por uma Vida Livre no Curdistão) e PYD (Partido da União Democrática), também promovem o confederalismo democrático. O partido da KCK no Iraque, PCDK (Partido pela Solução Democrática para o Curdistão) é relativamente insignificante, dirigido pelo centrista Partido Democrático do Curdistão e seu líder Massoud Barzani, presidente do Curdistão iraquiano, que só recentemente o descriminalizou e passou a tolerá-la.

Nas áreas montanhosas do extremo norte do Curdistão iraquiano, onde vivem a maioria das guerrilhas do PKK e do PJAK, contudo, a literatura radical e as assembleias prosperam, com a integração entre as montanhas, muitos curdos puderam continuar após décadas de expulsões e despejos. Nas últimas semanas, esses militantes desceram as montanhas do extremo norte para lutar ao lado da Peshmerga iraquiana contra o ISIS, resgatando 20 mil Yazidi e cristãos das montanhas do Sinjar e recebendo a visita de Barzani numa demonstração pública de gratidão e solidariedade, para o constrangimento da Turquia e dos EUA.

O PYD sírio seguiu, desde o início da guerra civil, os passos do Curdistão turco na transformação revolucionária da região autônoma sob seu controle. Após “ondas de prisões” sob a repressão dos baathistas, com “10 mil pessoas [levadas] em custódia, entre prefeitos, líderes de partidos locais, deputados, dirigentes e ativistas (…) o PYD curdo expulsou o regime de Baath do norte da Síria, ou do Curdistão Ocidental, [e] conselhos locais apareceram por toda parte”. Comitês de autodefesa foram improvisados para providenciar “segurança à beira do colapso do regime de Baath”, e “a primeira escola a ensinar língua curda” foi estabelecida, enquanto os conselhos interviam na distribuição equitativa de pão e gasolina.

No Curdistão turco, sírio e uma parte menos do iraquiano, as mulheres agora são livres para desvendar e para se encorajarem fortemente em participar da vida social. Antigos laços feudais estão sendo quebrados, as pessoas estão livres para seguirem qualquer ou nenhuma religião, e minorias étnicas e religiosas podem viver juntas pacificamente. Se são capazes de deter o novo califado, a autonomia do PYD no Curdistão sírio e a influência da KCK no Curdistão iraquiano pode fermentar uma explosão ainda mais profunda de cultura e valores revolucionários.

Em 30 de junho de 2012, o Comitê de Coordenação Nacional para a Mudança Democrática (NCB), a mais ampla coalizão revolucionária de esquerda na Síria, do qual o PYD é o principal grupo, também abraçou agora “o projeto de autonomia democrática e confederalismo democrático como um modelo possível para a Síria”.

Defendendo a Revolução Curda do Estado Islâmico

A Turquia ameaçou invadir territórios curdos se “bases terroristas estiverem estabelecidas na Síria”, enquanto centenas de guerrilheiros da KCK (incluindo do PKK) de todo o Curdistão cruzam a fronteira para defender Rojava (o Ocidente) dos avanços do Estado Islâmico. O PYD alega que o governo islâmico moderado da Turquia já está agindo contra eles ao facilitar a viagem de jihadistas internacionais a cruzarem as fronteiras para lutarem ao lado dos islâmicos.

No Curdistão iraquiano, Barzani, cujas guerrilhas lutaram a favor da Turquia contra o PKK na década de 1990 em troca de acesso aos mercados ocidentais, clamou por uma “frente curda unida” na Síria através da aliança com o PYD. Barzani intermediou o “Acordo de Erbil” em 2012, que deu origem ao Conselho Nacional Curdo, com o líder do PYD, Salih Muslim, confirmando que “todos os partidos são sérios e determinados a continuar trabalhando juntos”.

Mesmo sabendo que os estudos e as práticas das ideias do socialismo libertário entre as lideranças e a base são indubitavelmente um desenvolvimento positivo, resta-nos observar o quão dispostos estão em renunciar o sangrento passado autoritário. A luta curda pela autodeterminação e soberania cultural forma uma borda de prata nas escuras nuvens que pairam sobre o Estado Islâmico e as sangrentas guerras inter-fascistas entre islâmicos e baathistas e o sectarismo religioso que lhes deu origem.

Uma revolução pan-curda socialmente progressiva e secular com elementos socialistas libertários, unindo curdos iraquianos e sírios e fortalecendo as lutas turcas e iranianas, ainda pode ser um prospecto. Ao mesmo tempo, aqueles de nós que valorizam a ideia de civilização devem nossa gratidão aos curdos, que estão lutando noite e dia contra os jihadistas do fascismo islâmico nas linhas-de-frente da Síria e do Iraque, defendendo com suas vidas valores democráticos radicais.

Ler na ítegra em: O municipalismo libertário e a questão do poder

Ler também:

EUA viram as costas aos curdos

YPJ: Este 8 de marzo las mujeres deben estar listas para luchar

*Os Anarquistas e o Processo Social em Rojava

 

O movimento anarquista ativo na revolução em Rojava.
O movimento anarquista ativo na revolução em Rojava.

 

Uma Introdução, por Bruno Lima Rocha:

Desde que começou o cerco à Kobanê tenho dedicado várias horas por semana a entender e divulgar o máximo possível sobre essa revolução social iniciada numa combinação de Confederalismo Democrático e a Guerra Civil Síria. Enquanto militante, eu sempre estive envolvido com solidariedade internacional. Enquanto descendente árabe, eu sempre tentei procurar uma força de esquerda que combinasse ação direta e democracia interna. Enquanto acadêmico e professor de Geopolítica estudando a região por mais de 25 anos, Rojava é um sonho que se tornou realidade. Aqui eu começo a primeira de algumas entrevistas com organizações com real experiência nesse processo e na região. Nesta estou conversando com um militante do Devrimci Anarşist Faaliyet (DAF, ou Ação Revolucionária Anarquista). Eles têm sido bem ativos nessa ação e entendem em detalhes todo o processo Curdo, tanto em Rojava quanto no interior das fronteiras do Estado Turco.

É possível entender o PKK (Partiya Karkerên Kurdistani, Partido Popular do Curdistão) como uma força político-militar remodelada pelo pensamento de seu líder histórico (e sentenciado a prisão perpétua) sendo transferida organicamente para toda a organização? Ainda, temos duas perguntas em sequência: Você pode imaginar a reprodução dessas ideias além de um culto à personalidade ao redor da imagem de Abdullah Ocalan (Apo)? E, seria posKoma Civakên Kurdistansível universalizar as propostas do PKK-KCK (Koma Civakên Kurdistan, Grupo de Comunidades do Curdistão) além dos assuntos nacionais dos Curdos que ainda não foram resolvidos?

Nós temos de ver o assunto enquanto Movimento de Liberdade Curda. O PKK é uma organização do povo Curdo que vem lutando não apenas por 30 anos, mas centenas de anos. Especialmente após os anos 2000 o partido mudou sua ideologia, estratégia e característica. Assim, os críticos do movimento tem mesmo o mesmo vício de tomar o PKK como sendo o mesmo partido das décadas de 80 e 90. Apenas para lembrar, o PKK clamou pela liberdade não apenas para o povo Curdo, mas pela liberdade para todos os povos oprimidos no Oriente Médio. Pense sobre Rojava, PYD (Democratic Union Party, in Kurdish: Partiya Yekîtiya Demokrat), tem lutado não apenas pelos Curdos, mas pelos Ezidis, Turcomanos, Xiitas, Alauítas os quais o Daesh (ISIS, ISIL, EI, Estado Islâmico) quer destruir.

É observável um problema estratégico para a revolução de Rojava. Eu explico: a fronteira viva e aquela que é possível ser usada como santuário está com o KRG (Governo Regional Curdo no Iraque), mesmo o epicentro da guerra estando em Kobanê. É observável que se não houver reforços dos peshmerges (forças profissionais do KRG), provavelmente a coalizão anti-ISIS liderada pelos EUA não bombardeará a posição dos jihadistas. Logo, a aliança entre PKK-PYD e o KDP (Partido Democrático do Curdistão, Partîya Demokrata Kurdistanê, ou PDK) e sua coalizão com Massoud Barzani a frente do gabinete do KRG poderia implicar numa inevitável aproximação com o Ocidente? É possível sobreviver enquanto processo revolucionário dependendo militarmente e fisicamente do KRG e do Ocidente?

Temos que ver o papel dos peshmerges. Faz quase um mês e meio que eles não fazem nada por Rojava. Quando o YPG (Unidades de Proteção Popular, em Curdo: Yekîeyên Parastina Gel) e YPJ (Unidades de Proteção das Mulheres, em curdo: Yekîeyên Parastina Jinê), as organizações de auto-defesa do povo de Rojava tomou o controle de 60% de Kobanê, as forças de Barzani decidiram vir ajudar. É óbvio que essa foi uma ação estratégica de Barzani. Barzani declarou que como se não houvesse a Revolução de Rojava dois anos antes e temos que ver isso, EUA e outros países ocidentais não apoiam a resistência de Kobanê. Após a Revolução de Rojava não aceitaram a existência política do PYD ou dos cantões de Rojava. Assim, a melhor solução para eles é Barzani que não tem problemas com política capitalistas ou estatistas. Ainda, o KDP de Barzani é o partido irmão do AKP de Recep Erdogan (Partido do Desenvolvimento e Justiça, em turco: Adalet ve Kalkinma Partisi). Nestas circunstâncias, o povo em Rojava precisa de qualquer tipo de apoio. Isto não significa que ele pode receber ajuda de qualquer poder capitalista e estatista. Mas é como o YPG-YPJ lutando contra o EI, a Frente Al-Nusrat (uma afiliada do grupo Al-Qaeda)…, mas também lutando estrategicamente contra a Turquia, a Síria de Esad (Bashir Al Assad), o Curdistão de Barzani e todos os poderes capitalistas.

Ainda, em termos de estratégia, ao que tudo indica, o governo da Turquia tem favorecido as linhas de suprimentos deixando o EI se fortalecer dentro do território sob controle do exército turco. Aparentemente, isto é causado pelo cálculo realista de Ankara e o governo do AKP, considerando ser menos perigosa uma proposta de “califado” – ou o retorno do Ummah – comparado à ideia do separatismo Curdo, ou mesmo autonomia política de Rojava dentro do fracassado Estado da Síria? Pela posição turca, como avaliar a disputa entre os outros Estados operando através de sunitas jihadista, como Arábia Saudita e Qatar?

Na mídia hegemônica, é difícil achar notícias sobre o apoio Turco ao Estado islâmico. Não é apenas apoio por armamentos, ou sua posição neutra. Como você declarou, existe uma óbvia logística de apoio de países sunitas ao EI, mas o aquilo que nunca podemos esquecer são as relações escondidas entre o EI e poderes capitalistas ocidentais. A cena é clara de que um grupo terrorista islâmico tem fortalecido a mão dos EUA, especialmente no Oriente Médio.

Entrando no assunto da guerra civil Síria, o que pode ser visto hoje é uma guerra crescente entre Sunitas e Xiitas, e junto disto, entre o EI (e antes a Frente Al-Nusra) e a tentiva de conquista de Kobanê. Considerando essa realidade, qual seria o papel do Exército Livre da Síria hoje (FSA)? Esta força ainda possui algum poder de proteção – como o Qatar – ou caiu para uma condição de aliado secundário do YPG? Nós podemos considerar o Qatar o maior patrocinador do FSA? E, talvez esta seja a razão, ao passo que ambos o FSA e o YPG são contrários ao regime de Assad, Damascus e seus aliados (financiadores) preferiram liberar a área de Aleppo e Raqqa para operações do EI, permitindo que os sunitas jihadistas avançassem sobre Rojava?

Como declaramos antes, algumas das ações estratégicas contra o EI com o FSA não representam a real visão política do PYD. Então, este tipo de cooperação é o resultado das circunstâncias na Síria e em Rojava. A cooperação entre as organizações e grupos não deveria ser tomada como resultados das reais políticas das organizações e grupos. A guerra em Rojava, ainda mais continua na Síria, então é difícil para nós determinar os aliados. Esta longe da solidariedade dos revolucionários pela Resistência de Kobanê e pela Revolução de Rojava.

Eu entendo, mesmo de um relance à distância, que para os Estados da Turquia, Síria (o que restou dela) e do Irã, um Curdistão a oeste com autonomia política e uma sociedade trabalhando sobre bases igualitária e secular implica num problema insolúvel. Não seria a proposta do PYD não separar-se formalmente da Síria, mas obter o status de uma Federação política autônoma na Síria, assim como um futuro reajuste com o Iraque e com o governo de Irbil (Capital do KRG)? A Turquia toleraria tal estatuto, mesmo possuindo o segundo maior exército da OTAN e o de maior contingente num Estado de grande população islâmica? Se o Curdistão Turco recebe tal status, o que preveniria uma Confederação com o Curdistão Sírio? E, dessa forma, qual seria a reação do KRG e da coalizão de direita e partidos Curdos pró-Ocidente, como o KDP?

Estes cenários estão sendo discutindo ao passo que a guerra na Síria acabou. É difícil estimar como essas guerras irão modelar o Oriente Médio. Rojava declarou a liberdade de seus três cantões há 2 anos e meio atrás sem se importar com qual seriam as reações de Esad (Bashir al Assad), Erdogan ou Barzani. Todos os três declararam que não reconheciam o auto-governo dos cantões de Rojava. Ainda, eles insistem em não falar sobre a existência política de Rojava. Camarada, nós precisamos ver que durante estes dois anos os Estados em torno de Rojava mudaram suas políticas em suas regiões com a decisiva luta do povo livre de Rojava. Eles tentam encontrar meios de controlar a liberdade de Rojava. O cenário principal é de que Rojava será uma federação parte da Síria de Esad. Mas de qual Síria estamos falando, qual será o poder de Esad na Síria ou se haverá um Esad para liderar a Síria? O segundo cenário é de que Rojava fará parte do Curdistão de Barzani. O que seria o objetivo de Barzani, mas os princípios que sustentam Kobanê contra o EI não só assustam o EI como também Barzani. Porque a Revolução de Rojava se autodeclarou uma revolução centrada no anticapitalismo, no antiestatismo, nas mulheres e no meio ambiente.

Ler na íntegra: http://www.semanaon.com.br/coluna/10/2018/os-anarquistas-e-o-processo-social-em-rojava

Nova divisão administrativa de Rojava, áreas ainda não declaradas em azul

Nova divisão administrativa de Rojava, áreas ainda não declaradas em azul (15/08/2017)

_____________________________________________________________________________

Confederalismo democrático: da modernidade capitalista, para a modernidade democrática

É comum nos espaços internacionalistas e grupos de solidariedade com a revolução Rojava falar do confederalismo democrático como o paradigma ideológico do movimento de libertação do Curdistão. Embora este conceito tenha sido útil para tornar conhecida a evolução ideológica do movimento, ela permanece um pouco incompleta e pode ser mais apropriado falar da modernidade democrática. Por quê?

Para entender o conceito de modernidade democrática , é pouco útil olhar para o nome, porque, como explica Öcalan nos livros do “manifesto para uma civilização democrática”, ele usou essas palavras na ausência de poder encontrar melhores. O conceito de modernidade democrática surge em oposição à da modernidade capitalista , um conceito para definir a mentalidade hegemônica da civilização de hoje, que tem ocorrido há vários séculos.

Por modernidade capitalista entendemos a consolidação da lógica do mercado como um sistema dominante nas sociedades, onde tudo é medido de acordo com o custo e o preço. Assim, toda atenção é focada na sociedade material, deixando de lado os valores éticos e morais necessários para uma sociedade existir. A aplicação atual do sistema de mercado em todas as áreas da sociedade, baseia-se em dois elementos que alcançaram a hegemonia absoluta: a ciência positivista e o Estado-nação.

A ciência positivista , que se consolida como uma fonte de idéias empiristas do conhecimento e do método científico cartesiano, promove dualismo sujeito-objeto. A idéia de uma observação “objetiva”, simulando que o sujeito racional é uma entidade completamente externa ao objetode estudo, é catastrófico quando aplicado à sociologia. A mentalidade em que só podemos extrair o conhecimento “objetivo” do que podemos ver, experimentar e verificar, está completamente focada em valores materiais, dando a volta aos valores éticos e espirituais que acompanharam as sociedades humanas ao longo da história. São precisamente esses valores imateriais que iniciaram a existência de sociedades, consolidando um sistema comum de ética e moral – um regime de verdade – que permitiu que a sociedade funcionasse além do sistema da tribo ou do clã.

No outro lado, o E nação Tate estabeleceu-se como estrutura política hegemônica do modo – chamado Revolução Francesa. A busca da liberdade das classes populares, oprimidas pelo despotismo dos estados monárquico-teocráticos da Europa medieval, foi habilmente conduzida pelos cravados de poder da burguesia emergente. A necessidade de uma identidade comum para unificar o movimento anti-monárquico, abandonou a identidade moral da religião para se concentrar na identidade material do cidadão, que em vez de servir a Deus serve ao Estado. A premissa de “uma língua, uma bandeira, uma nação” tornou-se a argamassa do homogeneizador do Estado-nação, causando a negação de qualquer identidade dissidente.

Mas o que está por trás desse Estado? Assim como os sacerdotes e os monarcas controlavam a sociedade com base na força ideológica da “Palavra de Deus”, as elites burguesas, que conseguiram uma grande acumulação de poder material baseado no comércio e no dinheiro, implementaram a ideologia da “mão” invisível do mercado “. Comércio, uma atividade considerada injusta ao longo da história devido à sua falta de ética, obtém uma posição central no novo sistema social. A mentalidade capitalista do capitalismo consegue assim deslocar a mentalidade moral da religião, que após séculos de convivência e colaboração com o poder havia sido completamente corrompida.

Este processo começa a culminar a modernidade capitalista , onde os estados-nação, justificando suas ações baseadas na ciência positivista, tornam-se a ferramenta mais eficiente de exploração e opressão. O materialismo extremo deste modelo de sociedade se funde com a herança patriarcal, chovinística e antropocêntrica da ética judaico-cristã, já prevalecente em monarquias absolutas. Assim, é construída uma lógica de “benefício máximo”, que cria sua riqueza baseada na exploração das mulheres, da natureza e das classes oprimidas.

E compreender a modernidade capitalista , a modernidade democrática é superar esta fase hiper-materialista, com base nos valores éticos subjacentes e práticas democráticas na própria sociedade. Para alcançar essa modernidade democrática , o movimento de libertação do Curdistão não se limita a uma definição teórica do que a sociedade “objetiva” deve fazer para superar o capitalismo, já que a ideologia que esse paradigma emana evita a mentalidade positivista e o totalitarismo do estado-nação. A organização política está, portanto, situada não como uma vanguarda fora da sociedade, mas como um sujeito transformador dentro dela, procurando mostrar com praxis o que significa ser uma sociedade democrática.

A crítica e auto – críticas têm sido as principais ferramentas de transformação e ideológica nítida, permitindo aprender o caminho revolucionário que foi inspirado 40 anos atrás, em idéias marxistas e os movimentos de libertação nacional. Foi essa autocrítica, representada no pensamento de Abdullah Öcalan e sintetizada em seus livros do “manifesto para uma civilização democrática”, que permitiu o redirecionamento estratégico, baseado no estudo e uma maior compreensão da história e das sociedades humanas .

É importante no momento de estudar a história para não cair no discurso do poder, o que nos apresenta uma História onde o Estado é o único modelo possível de civilização. A sociedade civilizada, que nasceu com a revolução neolítica baseada em princípios de cooperação e apoio mútuo – o que entendemos como uma sociedade natural – há cerca de 12 mil anos, inevitavelmente procura livrar-se da exploração e opressão dos sistemas estaduais, nascidos Cerca de 5000 anos atrás. A sociedade democrática, herança direta da sociedade natural , sobreviveu apesar dos ataques dos Estados Unidos, resistindo a pressão totalitária e hierárquica, tentando recuperar o estado da sociedade comunal e igualitária.

Essas resistências muitas vezes resultam em revoltas populares e insurreições, que são esmagadas pela superioridade militar das estruturas estatais. De tempos em tempos, alguns conseguem um certo grau de sucesso, especialmente quando há uma forte análise social e organização por trás do poder centralizador do Estado, levando a uma negociação que melhora as condições sociais ou um genocídio onde o Estado extermina resistência. Para evitar que estas revoltas com o desejo de liberdade de recorrer e ganhar força, além do extermínio material e ideológico, o Estado aproveita os centros de conhecimento onde a história é escrita (academias e universidades), para garantir que sua versão de os fatos prevalecem.

Analisando as várias revoluções culturais na história da humanidade, desde a revolução neolítica até o Renascimento, passando pelo nascimento das grandes religiões e dos grandes sistemas civilizadores, vemos como a mentalidade muda, o que significa a transição para um estado de civilização superior, eles não são aqueles que se impõem pela força, mas aqueles que a população assimila por sua própria vontade. É aqui que as críticas principais do socialismo curdo são o socialismo soviético, baseado na opressão que emana das estruturas do Estado-nação, tentou projetar “objetivamente” um sistema que eles chamavam de socialismo real. Mas uma revolução não pode prosperar quando é imposta com base no totalitarismo estatista. O socialismo só pode ser alcançado como resultado da livre decisão da sociedade.

Uma análise aprofundada da guerra, da paz e da legitimidade da violência, juntamente com uma maior compreensão da história da humanidade e dos processos biológicos da própria vida, são sintetizados no conceito de autodefesa , outra dimensão-chave do paradigma da modernidade democrático Compreendemos por autodefesa as estratégias e os mecanismos dos seres vivos para sobreviver e não ser exterminados. Conceber as sociedades como entidades vivas a nível coletivo, como evidenciado por enxames de abelhas ou escolas de peixes, é claro que a sociedade humana precisa de um sistema de autodefesa coletiva, o que nos permite sobreviver contra os ataques do leviatã em que eles converteram os estados-nação capitalistas.

As diferentes dimensões em que o Estado-nação ataca a sociedade e a natureza, drenando sua energia e recursos com base na expansão colonial e na busca do máximo benefício, são amplas e diversas. Para alcançar a emancipação (e nos defendermos) desse fardo que corrompe a sociedade e destrói a natureza, é necessário começar pela recuperação da sociedade, hoje fragmentada e despojada da sua capacidade de autodefesa. A modernidade capitalista tem levado as empresas a borda individualista do abismo, onde os cidadãos são completamente dependentes no estado para resolver os seus problemas em vez de ajudar uns aos outros. É por isso que o primeiro passo para avançar para a modernidade democrática é a autonomia democrática, conceito-chave junto com outros três que explicamos a seguir: o confederalismo democrático , a república democrática e a nação democrática .

A autonomia democrática está em processo de organização social que permite a emancipação do Estado-nação. É abordado a partir de uma perspectiva local, muitas vezes em uma chave municipalista, buscando organizar a sociedade e fortalecer os laços entre as pessoas com base na autogestão e no apoio mútuo. À medida que esses nós sociais são construídos, eles procuram reforçar e alimentar de volta um ao outro, tecendo processos de organização com outros nós baseados em estruturas confederativas. Este processo de organização entre os grupos sociais locais, organizados de forma independente e independente do estado, é o que entendemos como confederalismo democrático .

À medida que esta rede confederal democrática é configurada, é muito provável que os Estados tentarão atacá-la usando diferentes métodos de guerra, buscando assim perpetuar a sua dominação e exploração da sociedade e os indivíduos que a compõem. Para evitar que isso aconteça, é essencial trabalhar diplomáticamente com os Estados, o que deve ser visto como uma estratégia de autodefesa, buscando limitar seu poder através de acordos e contratos sociais. Quanto mais organizada e mais forte for a sociedade, mais espaço de manobra terá que dobrar os Estados, sempre tendo o cuidado de não se deixar enganar por eles. Estados de respeitar a autonomia democrática e organização baseada em Confederalismo democrática , é o que nós entendemos como rrepúblicas democráticas .

Essas repúblicas democráticas não devem ser entendidas como o objetivo a ser alcançado, mas como meio de limitar o poder dos Estados. As idéias desenvolvidas pelo socialismo libertário conseguem apontar o Estado como um inimigo, mas falta profundidade quando se trata de apresentar alternativas. O Estado possui mecanismos extensivos e elaborados de autodefesa, que devem ser desativados passo a passo com base na organização popular da sociedade. Um confronto direto contra o Estado é levar o conflito ao seu terreno natural, guerra militar, um cenário em que o Estado possui enormes recursos e experiência. É por isso que o caminho do diálogo deve sempre ser considerado como uma prioridade, buscando uma solução democrática. Mas se o Estado não aceitar as condições da sociedade, respondendo com violência contra a sociedade, a única alternativa possível é a guerra do povo revolucionário.

O objetivo que deve prosseguir em todos estes processos, tanto na construção da autonomia democrática , organizar Confederalismo democrática como transformar o Estado em uma república democrática , é construir a nação democráti ca . O conceito de nação democrática não deve ser entendido sob o paradigma do estado-nação de uma língua, uma bandeira, uma pátria, mas como a grande unidade social que compartilha uma história e cultura comuns. Quando usamos o termo nação, é em parte devido à falta de uma palavra melhor que a define, mas nos referimos à idéia de uma sociedade ampla, compartilhada por pessoas que habitam um território comum. A nação democrática não está ligada a fronteiras delimitadas em um mapa, mas a uma sociedade que se sente perto de compartilhar valores e mentalidades comuns.

A nação democrática deve se concentrar na construção de uma sociedade igualitária e ecológica, buscando a emancipação das mulheres e a defesa da natureza como prioridades. A mentalidade da nação democrática inclui uma série de dimensões ou áreas de ação que devem ser gerenciadas de forma democrática, com base na ética e na consciência social. Essas dimensões incluem o indivíduo na comunidade, a vida social, a vida política, as relações, a gestão da economia, a estrutura jurídica, a cultura, a autodefesa e a diplomacia. Essas dimensões interagem entre si e não devem ser entendidas como elementos fragmentados e isolados, mas como campos inter-relacionados a serem desenvolvidos para o bom funcionamento da sociedade. As nações democráticas tornam-se assim a nova unidade, com base emconfederalismo democrático , tecer uma rede global que se torna uma civilização democrática global. Esse processo seria o ponto culminante da modernidade democrática.

Para enviar sua colaboração, você pode enviar um email para regeneracion@riseup.net com o assunto “Colaboração”. Não se esqueça de assiná-lo ou indicar se deseja publicá-lo anonimamente.

__________________________________________________________________________

Publicações relacionadas:

2017, um ano para não esquecer

Entrevista com a Brigada 19 de Julio, projeto de solidariedade internacional com o Curdistão