*Psicanálise Contra o Fascismo

 Do mito da Torre de Babel à diferença entre Real, Simbólico e Imaginário

O fascismo e o UM

O fascismo foi um movimento político italiano que tomou seu nome das milícias de combate [Fasci di combattimento] fundadas em 1919 por Benito Mussolini.1 As Fasci di combattimento eram uma organização armada paramilitar composta por militantes, que usavam a violência para impor suas ideias. Seus membros vestiam como uniforme uma camisa negra, tinham armas e se organizavam em grupos de ação militar e nomeavam a si mesmos de squadracce, isto é, milícias.

Seu alvo e seu estilo eram a ação direta contra as associações operárias, as câmaras do trabalho, os sindicalistas, as oposições em geral.

Por que a pedra fundamental do fascismo se chamava MILÍCIAS de combate [FASCI des combattants]? Que significa FASCIO?

A palavra “fascismo” deriva da palavra latina fascio, que significa feixe. Como objeto, um feixe é um conjunto de elementos longilíneos atados. Pensemos no feixe de luz. Na Antiga Roma, os fasces lictoriae (o emblema do lictor) eram as armas levadas pelo lictor, isto é, varas de madeira amarradas com faixas de couro, em torno de uma machadinha. A palavra “lictor” designava tanto as armas assim ligadas quanto todo homem que as levava. Os lictores (em latim clássico: lictor, –oris no singular; lictores, –orum no plural) eram civis que pertenciam à classe de servidores da antiga Roma. Eles constituíam a escolta dos magistrados, que possuíam o poder de constranger e punir.

O emblema dos lictores é o símbolo do poder e da autoridade máxima: o Imperium. Esse emblema, de forma cilíndrica, que reúne varas de madeira, com listas vermelhas, simboliza o poder de punir, e a machadinha que está no meio simboliza o poder de matar, de decretar a morte.

Observemos que esses símbolos – feixe de varas, machadinha – são símbolos fálicos que encarnam o poder. Um feixe une, reúne elementos diferentes em um UM; um UM indivisível, um corpo sem articulação. Um UM que simboliza a força.

 

O fascismo é o adversário estratégico

Michel Foucault (2001, p. 133, 136) considera o fascismo como o inimigo político a abater:

O adversário estratégico é o fascismo […] o fascismo que está dentro de cada um de nós, em nossas cabeças e em nosso comportamento de todos os dias; o fascismo, que nos faz amar o poder e desejar verdadeiramente o que nos oprime e nos explora.2

Foucault define o fascismo como o adversário estratégico. Sendo assim, o combate contra o fascismo não pode ser senão de longo fôlego e dar-se permanentemente sobre um vasto território. Porque o fascismo posssui não apenas soldados evidentes que se colocarão diante de nós, mas também soldados infiltrados no campo inimigo (o que chamaria de ‘campo da democracia’). Esses soldados são tão hábeis e treinados que têm a capacidade de se infiltrar em nós, em nossa consciência e, ainda mais longe, em nosso inconsciente. Poder-se-ia pois pensar que, face a tal inimigo, a tamanha força, a tamanha devastação, a batalha da democracia estaria perdida logo de início. Seus informantes, seus serviços secretos estão em toda parte, e nós não podemos fazer nada para contê-los.

Isso não é totalmente falso: nosso trabalho de luta contra o fascismo revela-se difícil, pois “o fascismo […] está dentro de cada um de nós, em nossas cabeças e em nosso comportamento de todos os dias […]” (FOUCAULT, 2001, p. 136).

 

O fascismo em nós

Por que o fascismo estaria em nós, em nossa cabeça? Por que nos impele a amar o poder e a escolher o que nos oprime? Eis aqui questões que concernem à psicanálise e às quais vou tentar responder.

Vimos que é próprio do fascismo fazer UM, reunir os elementos separados em uma unidade firme de tal modo que não se possa mais separá-los. Reunidos em uma totalidade, eles jamais poderão assumir sua própria autonomia. Cada vara deve ficar bem colada ao cilindro que envolve a machadinha, poder-se-ia dizer, machado de guerra. Assim, cada sujeito deve permanecer assujeitado, escravizado ao poder de um único mestre, caso contrário, o risco é de morte, e a machadinha aí está para lembrá-lo disso.

O problema do fascismo é, então, esse UM monolítico, totalitário. Ele se insinua no interior da cidadela fechada do Eu, ele a controla e a domina, impedindo, de todas as formas, que um sujeito emerja. O fascismo não seria, antes de tudo, uma posição psíquica totalitária e idólatra, ou seja, uma posição de fidelidade a uma ideia, a uma imagem? Impossivel não pensar no papel do Supereu, no severo controle de nossos atos e nossos pensamentos.

 

A torre de Babel: uma língua, um povo, um lugar

Para compreender a posição psíquica que se submete ao UM, eu lhes proponho percorrer uma passagem bíblica surpreendente: o mito de Babel: “Todo o mundo se servia de uma mesma língua e das mesmas palavras” (GÊNESIS, 11.1).3

Chegando, pois, a Babel, os homens se puseram a construir uma cidade e uma torre: “Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus ! Façamo-nos UM nome (chem) e não sejamos dispersos sobre toda a terra” (GÊNESIS 11.4). Tais foram as palavras dos habitantes de Babel, que se puseram logo à obra sob o olhar do Eterno que diz: “Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua” (GÊNESIS, 11.6). Deus não parece satisfeito e decide intervir para confundir as línguas do povo de Babel. Esse verbo “confundir” é a tradução do verbo hebreu NaVeL (noun, vet, lamed),4 que significa, mais precisamente, “separar”.

Deus desce, pois, do céu, para separar as línguas e dispersar esse povo que aspira a ser UM.5

Vemos que Deus intervém para interromper o processo que conduz ao Um: uma língua, um povo, um lugar. Deus considera que qualquer tentativa visando produzir o UM fazendo surgir uma torre que pudesse perfurar o céu é pretensiosa e idólatra, pois esse UM não pertence senão a Ele, o Deus único.

O mundo de Babel está fechado no UM, privado de abertura. Se tudo é UM, as palavras não podem ser separados das coisas. Ora, sem distância entre as palavras e as coisas, não há liberdade possível. A palavra adere à matéria, o Simbólico é prisioneiro do Real. A palavra e a interpretação tornam-se impossíveis. A diferença se apaga. Não existe mais diferença entre esses três registros propostos por Lacan: Imaginário, Simbólico, Real. A linguagem, isto é, o Simbólico cola no Real e no Imaginário. Os três registros se confundem, e essa língua monolítica de Babel perde sua força simbólica e se torna um palavreado vazio. “Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua” (GÊNESIS, 11.6). O Simbólico perde sua função de religar os significantes, o símbolo não tem mais nenhum suporte e perde seu sentido, pois que tudo é UM. A metaforização não existe quando Tudo é o Mesmo. Quando real, simbólico e imaginário se confundem, perdem toda a função de separação. Função que Deus ocupa ao intervir em Babel, separando as línguas para deixar espaço para a interpretação, para a crítica. E é o que fará Lacan ao dar à psicanálise conceitos novos que nos são muito úteis. Nós podemos dizer que Lacan faz, com essa distinção e essa separação entre RSI, uma obra de criação ou de recriação da psicanálise.

Na Babel como no fascismo a língua torna-se muito concreta; seu alvo é o poder, a apropriação: fazer UM. Fazer de modo que o Eu faça UM com seu objeto. A língua é posta em movimento por desejo de poder que quer construir uma torre mais alta que o céu.

Tenho a impressão de que vivemos em uma Babel moderna. Nosso presente torna a torre transparente, não mais toda construída de tijolos e argamassa, mas composta de microchips. Ela tenta reduzir o Real ao Rimbólico, mas o que consegue é criar uma linguagem terna, esvaziando-a de sua força simbólica. A fala se faz imagem fixa que cola no real. O Real, por seu turno, perde sua voz/via e sua força.

O homem está ligado, preso-imobilizado em sua relação com os signos, os códigos, as imagens. As relações humanas estão secando. As imagens dificilmente tornam-se significantes. O discurso torna-se impossível. Não há lugar para o diálogo, somente para um monólogo coletivo, um murmúrio. Estamos mergulhados em uma fala totalitária, que quebra a liberdade. A característica dessa liberdade é a possibilidade de não dizer as coisas como elas são nem como elas aparentam, mas poder dizê-las de outro modo, poder recriá-las, reinventá-las.

Pela tradição judaica, essa fala totalitária é idólatra, é um culto da imagem, da aparência.

Deus intervém, então, na Babel: ele separa as línguas dos habitantes de Babel e os dispersa pelo mundo. O método de criação de Deus é bem conhecido, sempre o mesmo: a separação. Para criar o Mundo, ele primeiro separou o céu da terra, o dia da noite, a mulher do homem. Ele transforma o UM em DOIS, em múltiplos. Separar as línguas, mas também o Real do Simbólico, separar a palavra da matéria, o tijolo da argamassa, que servem para construir esse arranha-céu das origens: a torre de Babel. Dessa forma, o homem sai da reclusão de um mundo totalizante. Ele assume o risco de viver em uma realidade aberta e múltipla, um mundo aberto à mudança, ao futuro onde os reencontros, as descobertas, as invenções são possiveis. Um mundo de liberdade.

Deus se opõe à realização dessa cidade do UM (que ele nomeará Babel)6 e cria um lugar onde as línguas são diferenciadas graças à sua intervenção de separar. Cada nova língua nomeará diferentemente o Real, e, para compreendê-las, será preciso uma obra de interpretação e de tradução.

A pluralidade das línguas e dos discursos impede que a palavra seja fixada, colada em uma verdade.

Hoje a linguagem da internet e a comunicação virtual tornaram-se soberanas. O simbólico se confunde com o imaginário e faz desaparecer a nossos olhos o referente, o Real.7 Temos a impressão de que o Real não é mais necessário. Ele tem sido anulado e vem dando lugar a uma realidade virtual.

Nossa ‘aldeia global’ assemelha-se a uma torre de Babel muito singular, onde o Real8 é apagado pela imagem, por uma escritura fundamentalmente estabelecida sobre a imagem. Estamos em vias de viver uma espécie de negação [déni]9 do Real?

 

O Real, o Imaginário e a psicanálise

Se o Real é negado, isso não significa que ele não exista, que ele não opere, mas simplesmente que o ignoramos porque não podemos ter a representação dele. Quais são as consequências? Vivemos em uma hipertrofia da imagem, em que o Imaginário toma o lugar, todo o lugar do Real. O resultado é um Mundo onde há muita comunicação, mas as palavras são imobilizadas, o sentido abstraído, a fala esvaziada de seu sentido radical, das estratificações significantes e das emoções. As palavras tornam-se ídolos.

Deus responde, pois, à idolatria dos babelianos pela separação das línguas e a dispersão do povo sobre toda a Terra. Graças a essa disseminação, os homens saem de um mundo fechado e se encontram em um mundo aberto. A psicanálise responde à idolatria pelas palavras que se emancipam da escravidão do sentido único, do sentido dogmático, pelas palavras ditas com toda liberdade. Elas se referem à experiência do corpo, às emoções que lhe deram forma, criaram-no, elaboraram-no. A psicanálise separa o significante do significado. O significante se emancipa e, na autonomia encontrada, pode tomar sua liberdade de significar. Uma análise é um novo começo que visa essa liberdade. Ela visa destruir os ídolos, para nos fazer sair do país do SENTIDO ÚNICO. Ela se abre para o significante e para suas potencialidades de sentido, de novos sentidos. Com esse novo começo, um sujeito assume o risco de viver em um mundo doravante aberto e múltiplo. Um mundo de liberdade. Esse mundo de liberdade não é um mundo imobilizado, parado, siderado pela palavra, deslumbrado pelo excesso de luz, mas um mundo em construção. Quanto à confusão das línguas, ela reintroduz a diferença. As palavras encontram sua distância em relação às coisas. O cavalo é um cavalo, mas há tantas palavras para nomeá-lo quantas são as línguas que existem. A confusão das línguas introduzida por Deus, a pluralidade da linguagem não constitui uma complicação inútil; ao contrário, é útil ao Real que a linguagem tenta dizer, representar em seu movimento contínuo e em mudança. Se há mil maneiras de dizer uma coisa, é porque essa coisa não é sempre a mesma. Ela muda continuadamente. Um copo em alemão é chamado de Glas; em italiano, bicchiere; e a mesma palavra de uma mesma língua ou dialeto é percebida e pronunciada diferentemente por cada indivíduo. No lugar, no furo dessa diferença, há o Real. O processo de comunicação é um trabalho que consiste em aproximar o que está separado. Em unir o que está disperso. Essa união não está, todavia, definida de uma vez por todas. Ela não está garantida, mas está sempre em movimento e mudança. Dois homens jamais falam exatamente a mesma língua. A distância entre a palavra e a coisa, entre a coisa e o símbolo, devolve a cada um uma liberdade de discurso. Essa distância não significa, contudo, que a palavra se abstraia da coisa; ao contrário, graças a essa distância, ela não cola na coisa e se autonomiza para melhor poder representá-la em novas formas. A coisa não está imóvel, permanente; ela muda continuamente, ela é o Real. Se o fixamos em uma imagem, nós o perdemos de vista. Daí a necessidade de interpretar os discursos que vêm até nós. Compreender o outro é reconhecer sua singularidade e interpretá-lo. É achar o tempo para traduzir seu discurso. E traduzi-lo não é traí-lo; ao contrário, é o único meio de se aproximar dele. Traduzir é, de alguma forma, recriar, reinventar, isto é, dar uma nova forma, uma nova representação à coisa, que, uma vez nomeada, nos escapará ainda, e mais ainda. Assim, a ação de Deus não é somente uma punição. Essa abertura à pluralidade das línguas é sobretudo uma bênção. Bene dire é o ‘bem dizer’, dizer diferentemente, tentar surpreender, tomar na palavra a diferença da coisa. A ilusão do fascismo é dizer as coisas como elas são ‘verdadeiramente’; elas, porém, são sempre diferentes, elas são o impossível de dizer. A língua do fascismo se quer concreta, verdadeira, intensa e recusa a mediação da interpretação. O fascismo vê em toda tradução uma traição, em toda interpretação, uma trapaça.

Da mesma maneira, o Eu é prisioneiro de uma autoridade que o espreita, que o controla. O Supereu está sempre sobre ele, prestes a censurá-lo, a abatê-lo com seu olhar frio, perseguidor. Um Supereu, que está assentado sobre o Eu e não o deixa se mover, se autonomizar, tomar iniciativa, tornar-se adulto, tornar-se sujeito. Nós estamos no domínio da imagem, do eidolon, do ídolo. O Eu surge no desenvolvimento da criança e aparece com nossa imagem diante do espelho. Ele que, entretanto, persiste em nós. A superpotência [surpuissance] da imagem faz do Supereu um ídolo, um superman, que permte imaginar, mas não permite pensar, pesar nem avaliar.

 

O Real, o impossível: o que “não cessa de não se escrever”

Retornemos à questão do Real, isto é, do IMPOSSÍVEL, e à relação que ele mantém com o Simbólico e o Imaginário.

O Real é o impossível, nos diz Lacan (1972-1973] 1976, p. 86). O Real é o “que não cessa de não se escrever”, isto é, alguma coisa como uma necessidade, que não pode ser gravada em uma escritura. Se ela assim o for, não será mais o Real, mas o Simbólico. O Real é invisível, incompreensível, não representável.

O Real é definido por uma negação; na fórmula proposta por Lacan, é alguma coisa que ‘não cessa’ e que ‘não se escreve’. O nome do deus da Bíblia não se pronuncia, mas ele se escreve: YHVH.10 O Real, para a psicanálise, toma o lugar de Deus; é um Real que se faz sintoma, que se diz, entre outros, em uma sessão analítica, mas ‘que não se escreve’. Para descrever o Real, Lacan propõe colocar em jogo duas negações: ‘não cessa’ é a primeira, que exprime a necessidade. O Real é necessidade! A outra negação é ‘alguma coisa que não se escreve’. O Real é negativo ou ao menos é conotado negativamente. O vocábulo negativo vem do latim necare, que significa matar. Seu radical é nex, necis, que significa morte, assassinato. O Real é, pois, a necessidade: alguma coisa que ‘não cessa’, um continuum, é a Natureza com sua incessante renovação, possível somente por um contínuo assassinato do presente. A segunda negação, ‘que não se escreve’, é o assassinato da escritura, do signo, do Simbólico. O Real é o impossível de simbolizar, pois, desde que ele é simbolizado, não é mais Real. O Real é o impossível.

Mas o fato de que o Real nos escapa, de que seja impossível, não significa que ele não aja; ao contrário, ele age por excelência, desde que o “que não cessa”, não cessa de recusar uma inscrição mesmo estando em um contínuo vir-a-ser. E se o Real age, não podemos ignorá-lo, mesmo se nos é incompreensível. Porque ele nos é incompreensivel é que deve ser levado em conta como um X que impulsiona nossa vida.

Esse fator X, que é o Real, tem uma dupla característica: de um lado, ele é não gravável; de outro, ele é atuante. Ele não age completamente em silêncio, pois, quando ele age, ele chama, ele nos chama, ele nos invoca. O termo “vocação” vem do latim vocatio, que significa chamar e corresponde ao grego  , de . Essa palavra “apelo”, na Bíblia dita Septuaginta, é a tradução do verbo hebreu , que designa, em um sentido específico, o apelo que Deus dirige ao homem.11

 

As profissões impossíveis e o apelo do real

Em Análise terminável e interminável, Freud (1937) tinha falado do ‘impossível’ a propósito de certas profissões [misteres] como ‘educar’, ‘curar’ e ‘governar’. A isso ele acrescentará ‘psicanalisar’. O impossível anúncio de que estamos em presença do Real. Trata-se de profissões impossíveis com efeito, porque têm a ver com o Real. Curar tem a ver com o Real do corpo, psicanalisar com o Real da psique. Mas, antes de ser impossíveis, essas atividades humanas são misteres. E de onde vem este nome: mister? Em italiano, mestiere está mais próximo da palavra ministerium, com seu halo de sagrado. O ministro é, na Bíblia, um servo de Deus: lidar com o Real é da ordem do sagrado e do mistério, pois o Real escapa a toda representação. Mas é a língua alemã que nos dá as chaves desse mistério. Em alemão, para dizer ‘mister’, diz-se Beruf, que significa apelo ou retorno. Beruf é o termo escolhido por Luther para traduzir a palavra bíblica , que foi traduzida em latim por vocatio e, em grego, Klesis. Para Luther, um mister é uma vocação; somos chamados por Deus para cumprir neste mundo uma tarefa determinada. Nós cumprimos um destino, pois somos chamados por Deus. Se Freud chama a psicanálise de um ‘mister’, é porque para ele, na psicanálise e em outros misteres, alguma coisa do Real apela. O Real da psicanálise chama e se exprime pela voz, por uma invocação. Isso significa que, embora seja da ordem do negativo, embora seja impossível, o Real desempenha um papel determinante nas atividades humanas. O Real chama, e é preciso encontrar formas de ouvir esse apelo, vale mais ouvi-lo, conectar-se com ele, para que, quando ele nos tocar, estejamos prontos para lhe dar uma resposta, para acolhê-lo ou repeli-lo. E, de todo modo, quando nos toca, ele deixa um sinal, uma marca, ele nos tange.12 O Real é uma manifestação da contingência, isto é, “do que cessa de não se escrever”. O Real é “o que não cessa de não se escrever”, contudo ele surge, quando bate à porta na forma “do que cessa de não se escrever”, salvo se ele não se escreve sobre o papel, ou não apenas, mas ele se escreve na realidade, frequentemente em nosso corpo, deixando nele um sinal. Para entender o apelo do Real ou do sintoma, é preciso sair da necessidade, da impossibilidade de ser tocado por ele. É interessante que esse apelo do Real, esse Beruf seja nomeado em hebreu cara, termo que nos reenvia, na língua latina, à ‘carícia’ de alguém próximo que nos ama, a carícia de uma mão que nos toca, a de um ser caro. Essa ‘carícia’ é o ponto de contato onde o Real toca nosso corpo e se torna contingente. Ele nos ‘tange’. É essa tangibilidade que permite ao Real tocar o Simbólico e o Imaginário e articular com eles uma relação. Se o Real é simplesmente negado, ele permanecerá colado ao Simbólico e ao Imaginário, e poderá causar danos. Nesse caso, esse ‘tocar’ pode tornar-se violento, ele se transformará em um choque. É o caso do amor que dá lugar ao ódio ou à perversão. O que importa aqui é que Real, Simbólico e Imaginário estejam separados e, ao mesmo tempo, articulados, isto é, em relações recíprocas. Está claro que nessa relação não podemos excluir o Real.

O silêncio do Real, o fato de que ele não nos chama não significa que ele está ausente, mas que ele está colado no Simbólico e no Imaginário: ele não tem necessidade de chamá-los, pois Simbólico e Imaginário já estão ali, o Real se funde com eles. Quando o Real se cala, a tempestade chega, pois essa colagem é incestuosa. Nós nos encontramos aí diante dessa unidade que forma um bloco, onde não há diferença, onde não há mais significantes. Não há mais diferença entre as coisas, entre palavra e coisa, nenhuma diferença entre Real, Simbólico, Imaginário.

 

O interdito de construir imagem

Na Bíblia, Deus, o Real, se revela na escritura, dando a Moisés a tábua da lei e depois a Bíblia aos profetas. Deus, o Real, torna-se escritura. Esse impossível (de pronunciar e de ver) torna-se possível graças à ‘revelação’. Para a psicanálise, o Real não se escreve, não se revela em um texto, mas na palavra viva, aquela, por exemplo, que tentamos fazer surgir em uma cura analítica. Na escritura bíblica, a palavra é imagem, signo para ler e interpretar. A palavra do analisante é som, significante para ouvir e interpretar. Nos dois casos, o leitor, o lictor, o intérprete é um sujeito. O interdito de contruir imagem na religião hebraica visa proibir que se fixe o sentido de uma vez por todas em uma imagem, em uma única interpretação. Isso é proibido uma vez que Deus, o Real, ‘não cessa’, no sentido de um continuum e no sentido de uma necessidade em movimento, impossível de se aprisionar em um UM. Para se fixar, ela se negará, visto que sua essência é não ser fixa. Negar a necessidade é negar a vida e a matéria. O significante da psicanálise é um significante sonoro, é um dizer, um “dieure”,13 como diz Lacan. O significante bíblico é uma escritura que deve ser, contudo, lida e interpretada. Eu digo ‘lida’. E isso significa alguma coisa de especial na língua hebraica, uma vez que há uma diferença entre o que se lê no signo da escritura e o som, a pronúncia da palavra. Às consoantes que são efetivamente escritas, o leitor deve acrescentar as vogais, isto é, a articulação das consoantes, que não são grafadas no texto bíblico originário. Isso para lembrar que, à escritura que fixa, que imobiliza, é preciso acrescentar a voz, uma vocalização que é sempre singular, única, e da qual não se pode fazer imagem. Com efeito, o risco da escritura, enquanto imagem, é ser imobilizadora, risco de fechar o sentido em uma única interpretação, em uma prisão. É um fato que frequentemente as religiões são produtoras de dogmas, uma vez que elas estão do lado do ideal. Eidos, em grego, significa imagem. O grande cuidado da Bíblia na Torah é cassar (fazer cessar) toda idolatria. O judaísmo, no relato bíblico, nasce da revolução operada por Abraão, que cassa os ídolos, a estatueta que seu pai Terah adorava e vendia no mercado. Terah, o pai do primeiro patriarca, era um mercador de ídolos. O judaísmo é mais próximo da psicanálise com relação aos outros monoteísmos, pois, como a psicanálise, ele luta contra os ídolos, mesmo aqueles que são inscritos no texto bíblico. E isso por meio da fala, da interpretação. Se o texto bíblico é uma revelação, isso não impede que ele seja continuamente interpretado. O dever de um judeu é ler e reler a Torah e lhe dar sentido, um novo sentido. A revelação não é un desvelamento radical do divino, do Real, mas somente parcial, fragmentário, que deve ser interpretado sempre de novo.

 

O fascismo nos faz amar o poder

Para terminar meu propósito, eu retorno à citação de Foucault que abriu este artigo: o fascismo “[…] nos faz amar o poder e desejar verdadeiramente o que nos oprime e nos explora”. Como é possível que o fascismo nos faça amar nosso inimigo? Aquele que nos oprime e nos explora. Não existe em nós alguma coisa que favoreça essa posição de submissão? Alguma coisa que coloca o sujeito para baixo e que se coloca como autoridade acima?

Etimologicamente, o Supereu se coloca ‘sobre’(super), acima do Eu. O Supereu é uma instância psíquica que se encontra ‘sobre’ o Eu e não hesita em esmagá-lo. É uma instância superior que tem, pois, uma certa ascendência sobre o Eu. O Supereu é uma autoridade que protege o Eu, mas que ao mesmo tempo imobiliza o sujeito e faz isso de tal modo que ele não possa vir-a-ser. Ele se comporta um pouco como esses pais que, para proteger seus filhos do perigo da rua, os encerram em seu quarto e lhes tiram toda a liberdade. O Supereu se apresenta com um ar superseguro – seguro de si nessa confrontação com o Eu, que obedece docilmente às injunções desse ditador que dita ‘de dentro’ os protocolos de ação. O Eu obedece e se submete a ele. Por quais razões? Fazemos a hipótese de que isso seja por amor. O fascismo nos faz amar o poder, o mesmo poder que nos submete. E, mais ainda, ele nos faz desejá-lo. Nós ‘desejamos o que nos oprime’. Não seria por que sua autoridade, sua força idealizada nos tranquiliza? O supereu, ao qual nós aderimos, se mostra forte, capaz de nos proteger, mas sua ação sedutora é perversa. Seu lado autoridade tranquilizadora nos faz esquecer que ele pode, a qualquer momento, nos esmagar. Como não cair de amores por tal super-herói musculoso? Semelhante a uma estrela que, com seu brilho, possui um grande poder de sedução, mas também de ‘sideração’, o Supereu fascina, reúne toda diferença e a reduz ao UM, a uma imagem do poder que nós não hesitamos em chamar ‘fálico’.

Leia na íntegra: Psicanálise contra o fascismo…

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