*Quem são os Hells Angels na Europa

Foto: Hells Angels. Grupos ligados a extrema direita:

Do: Diário de Noticias

Em março passado tudo se precipitou quando um grupo de cerca de 40 de motards “fora-da-lei” – todos identificados pela PJ e alvo desta operação – invadiram, com barras de ferro, paus e facas, um restaurante no Prior Velho, com o objetivo de agredir um grupo rival. No meio deste grupo rival, os “Bandidos”, estava Mário Machado, que tem um historial de conflitos com os Hells Angels, do tempo em que liderava a fação mais violenta dos “cabeças rapadas” no nosso país, os Portuguese Hammerskins. Ambos os grupos de motards têm também ligações à extrema-direita violenta, com ostentação de símbolos neo-nazis por alguns dos seus elementos.

Acabado de sair da prisão, em liberdade condicional, depois de condenado por vários crimes graves (extorsão, agressões, posse ilegal de arma), o também fundador do movimento Nova Ordem Social e candidato à liderança da Juve Leo (entretanto derrotado), reuniu os “Bandidos” para criar um núcleo português e conquistar território aos negócios dos Hells Angels. Um dos seis feridos pelas alegadas agressões seria um alemão, que, contou o Correio da Manhã, ali se encontrava para apadrinhar o evento.

A Europol sublinha que “a maior ameaça para a segurança pública” destes gangues “reside na sua propensão para utilizar formas de violência extremas”

Segundo revelaram na altura ao Expresso fontes judiciais, parte dos atacantes eram estrangeiros, oriundos de países do norte da Europa: Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Finlândia e Suécia.

Esta investigação ganhou forma a partir de 2016, quando os investigadores da UNCT começaram a reunir vários casos de violência a envolver elementos deste grupo. Mas foi nos últimos quatro meses que a Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ reuniu o máximo de informações recolhidas pela PSP e GNR, principalmente as que relacionavam o grupo com atividade criminosa. Ao todo são cerca de uma centena os identificados pela PJ.

400 em Portugal?

Há registos da presença em Portugal dos Hells Angels desde 2002. Fundado nos Estados Unidos na década de 40, o Hells Angels tem cinco motoclubes em território nacional: Lisboa, Cascais, Margem Sul, Porto e Algarve. O número total de elementos estima-se em cerca de 400, embora fonte policial garanta que não ultrapassam a centena.

O grupo e as suas atividades fora da lei têm passado mais ou menos incólumes pelo radar das forças de segurança. Isto apesar de, sabe o DN, este ser um tema recorrente nas reuniões de trabalho entre os serviços de informações e as polícias.

Ainda recentemente as autoridades tinham sido chamadas à atenção para a concentração de motards marcada para Faro para os próximos dias 19 a 22 de julho, pelo risco de violência que representava a presença dos Hells Angels e dos Bandidos, que alegadamente se encontram numa luta de conquista de poder.

“É uma organização muito fechada de difícil intrusão de agentes infiltrados, não só pelos requisitos exigidos, mas também devido ao risco que pode representar o violento processo de separação”

Nos últimos anos, têm sido noticiados alguns casos de criminalidade a envolver este grupo, mas sempre em resultado de conflitos entre os seus membros, com tentativas de homicídio, agressões e extorsões. Talvez seja esse o motivo pelo qual ainda não criou o alarme público como já aconteceu noutros países. A sua atividade tem estado centrada na segurança de espaços de diversão noturna, que as autoridade associam ao tráfico de droga, utilização ilícita de armas e branqueamento de capitais, embora nenhum tenha ido a tribunal por isso.

Uma análise académica feita pelo capitão da GNR Edgar Palma sobre a “ameaça transnacional” deste grupo no nosso país, conclui que esta “é real, está próxima e tem estado em crescimento”. No seu trabalho, feito em 2015 para a Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, este oficial diz que com “uma breve análise dos casos conhecidos através da comunicação social, facilmente se percebe a índole extremamente agressiva e violenta dos Hells Angels”. Edgar Palma salienta que “são uma organização criminosa, operando transversalmente dentro do espectro da criminalidade organizada, por vezes de forma integrada e global sob uma temática e ideologia motard”.

Segundo este oficial da GNR “os Hells Angels são conhecidos a nível mundial pela sua estrutura hierarquizada, dedicada na sua grande maioria a diversas atividades criminosas. É uma organização muito fechada de difícil intrusão de agentes infiltrados, não só pelos requisitos exigidos, mas também devido ao risco que pode representar o violento processo de separação”. Palma defende um maior “investimento no estudo desta nova estrutura de criminalidade organizada, pois os episódios sugerem ligações a atividades de extorsão, de agressões violentas, de possível envolvimento em esquemas de segurança privada na noite, de apoio logístico de criminosos procurados internacionalmente, ou mesmo futuramente em redes de tráfico de droga, tráfico de armas e tráfico de seres humanos como já tem sido relatado noutros países da UE”.

Ameaça europeia

A Europol tem monitorizado o crescimento dos Hells Angels no espaço europeu nos últimos anos, onde na última década o grupo duplicou os seus clubes. Os “gangues de motards fora-da-lei”, como lhe chama esta organização de cooperação policial europeia, “são considerados uma ameaça nacional e uma prioridade política”.

A Europol sublinha que “a maior ameaça para a segurança pública” destes gangues “reside na sua propensão para utilizar formas de violência extremas”. Estas incluem “a utilização de armas de fogo e engenhos explosivos, tais como granadas. De uma forma geral, o uso da intimidação e da violência são intrínsecos a esta subcultura de gangues de motards fora-da-lei e serve para exercer controlo sobre os membros do grupo, gangues rivais e outros, tais como as vítimas de extorsão”.

Ao exibir as suas “cores” e os seus símbolos identificativos, explica a Europol, “os membros destes grupos exploram a reputação de violência associada ao seu grupo para afirmar o seu papel individual nos mercados do crime”.

Em 2013 gangue foi indiciado por tentativa de homicídio, agressões, tráfico de seres humanos para prostituição, rapto, ameaças, extorsão, posse ilegal de armas, branqueamento, fraude, falsificação de documentos e corrupção

Na Alemanha, onde este grupo foi ganhando espaço e poder, as autoridades de alguns Estados decidiram mesmo proibi-lo. No ano passado, depois de uma grande operação policial na Renânia e Norte-Vestefália, o ministro do Interior desta região afirmou: “Os membros deste clube são criminosos. O seu dia a dia consiste em violência, armas, drogas e prostituição forçada”. Em 2016, a polícia fechou um dos maiores bordéis da Alemanha, propriedade dos Hell Angels, por fuga ao fisco e tráfico de seres humanos.

A última grande operação registada pela Europol contra os Hell Angels foi em 2013. A “Operação Casablanca” resultou na prisão de 25 membros em Espanha, suspeitos de vários crimes graves cometidos em vários países da Europa. A investigação, de dois anos e meio, estendeu-se à Áustria, Alemanha, Luxemburgo e Holanda. O gangue foi indiciado por tentativa de homicídio, agressões, tráfico de seres humanos para prostituição, rapto, ameaças, extorsão, posse ilegal de armas, branqueamento, fraude, falsificação de documentos e corrupção.

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