*Um olhar sobre “Antífona” de Cruz e Sousa

Antífona é uma melodia curta, executada em canto gregoriano, antes e depois da recitação de um salmo. A Antífona na igreja católica geralmente é composta de cânticos curtos, com texto entre dez e vinte e cinco palavras e de melodias simples”

Texto de villorBlue escrito em 19/11/2009, revisado:

 Ao ler a obra Antífona de João da Cruz e Sousa, fiquei impressionado com o riquíssimo substrato alquímico que perpassa todos os versos desta belíssima obra, entre outros detalhes, pelo chaveamento hermético relacionado, parecia-me proposital. Alguns verbetes pouco casuais, deixados, (não ao acaso), nada indicava um sentido. Porem, aquela obra tinha algo a mais do que apenas a verve poética do autor, carregada de uma linguagem mítica, toda singular.

Seria apenas um cântico?

Qual seria a simbologia usada pelo autor? 

Para mim a obra em referencia não suporta a ilogicidade e a sugestão vaga, e está muito próximo de um logicismo preciso.

Como sendo representante do simbolismo, seria óbvio reconhecer o hermetismo literário presente. Lera alguns trabalhos de Cruz e Sousa anteriormente e confesso, sempre tive uma impressão forte da presença mítica em seu trabalho.

Primeiro, verifiquei algumas semelhanças sobre a primeira e a ultima estrofe, (sobre a qual decorrerei mais adiante). Semelhanças sobre as rimas, (notei alguma convergência entre as duas estrofes, [primeira e ultima]).

O que chamou a atenção, ficando claro para mim, não foi o hermetismo no poema em si, mais sim, um hermetismo velado, indicativo, como se a obra toda fosse um mapa a ser seguido, com fases e períodos a serem percorridos milimetricamente, levando-me a crer, se tratar de um texto fortemente relacionado com a alquimia da idade media. 

Fiquei a pensar a obra, igual a um cubo mágico de números, (em voga na década dos anos setenta), e confesso, foi para mim um grande sofrimento este período de tempo. O que me levou a seguir adiante foi a certeza, de que existia uma chave para abrir este cofre hermético.

Porque tinha esta certeza? 

Quando alguém se propõe a publicar uma obra hermética, este alguém deixa alguma chave para que possamos abri-la, senão, não a publicaria.

Algumas palavras embutidas em seus quarenta e quatro versos (hora formando frases subliminares, hora dando a impressão de vagarem solitárias, despretensiosas), me levavam a ter esta certeza.

Quando penso um texto como este, (rico em metáforas e sublimações), procuro ler nas entrelinhas, e extrair das entrelinhas o máximo possível de informações que facilitem o estudo. As entrelinhas geralmente nos indicam o sentido a seguir, caso o texto seja codificado por vontade própria ou algum elemento alheio a obra.

Como no texto, o verbo incide apenas na quinta estrofe, e as quatro primeiras estrofes davam a impressão de serem invocações, comecei minha concentração maior neste ponto, não apenas pelo motivo do verbo estar ali, e sim pelo motivo da estrofe em si, o verso do verbo, apenas me indicando por onde começar. 

Após a invocação do primeiro verso, o segundo verso da quinta estrofe nos diz, “Infinitos espíritos dispersos, inefáveis, aéreos“, (inefáveis, o que não pode ser expresso verbalmente, é um termo utilizado para identificar algo de origem divina, ou transparente e com atributos de beleza e perfeição tão superiores aos níveis terrenos que não podem ser expressos em palavras humanas.), edênicos (tem ligação com a palavra anterior, e uma referencia forte ao sujeito principal do Edem, (Adão e Eva), ficando evidente a imagem do hermafrodita (na simbologia alquímica Adão e Eva aparecem como o Hermafrodita [de Hermafrodito, filho de Hermes e Afrodite]. Na obra alquímica o hermafrodita significa o enxofre e o mercúrio depois da conjunção. Também, Edem nos traz referencia da arvore da ciência do bem e do mal, que é um dos símbolos da alquimia).

Como a ultima estrofe, no seu ultimo verso encaminha-nos, pensei que deveria buscar algum auxilio na “cabala”, (Conjunto de concepções místicas judaicas, com o objetivo de compreender Deus, universo, a natureza e a alma humana), contrariando, não houve a necessidade.  

Contando as estrofes, verifiquei que compunham onze estrofes de quatro versos cada uma, compondo ao todo quarenta e quatro versos.

Voltando ao primeiro verbo, (fecundai) aparece na quinta estrofe da obra. Usei o “Genesis Bíblico” como referencia, Ele nos diz que no principio era o Verbo, e o Verbo era ele, e o Verbo estava com ele. 

Poderia a chave da opus ser esta?

Poderia ser este o principio da obra hermética? 

Se “fecundai”, (o verbo fecundar esta relacionado diretamente com o ovo e a vida. Fazer nova vida em. O ovo na realidade hermética é a própria alquimia – [Na Idade Média o ovo era comparado a alquimia por seus praticantes, no qual quatro instâncias estão unidas: a casca é a terra; a clara é a água; a membrana entre a casca e a clara é o ar; e a gema é o fogo. A fecundação seria feito pela quintessência] – Para Aristóteles, a quintessência seria o elemento etéreo que compõe as esferas celestes, diferente das quatro propriedades naturais.), era o primeiro verbo.

Se toda a obra partisse deste ponto, então eu estaria com a chave nas mãos. 
Será? 

Bem ao menos faria sentido, o ovo ou a obra alquímica sendo fecundada pela quintessência no começo da Opus alquímica,(por isso o verbo fecundai). Para mim estaria começando a fazer sentido, seria um pequeno e tênue raio de luz no desvendar hermético. 

Por isso, toda a invocação inicial, (todos os alquimistas da idade média faziam uma invocação inicial, antes da Opus, para que o trabalho corresse bem, para que Deus orientasse a Opus, para que a obra obtivesse o devido sucesso, etc.). 

Sobre a Via do trabalho alquímico: Uma via úmida na alquimia, (é a via mais nobre na execução dos trabalhos, como o seu nome indica é feita por meios úmidos, líquidos ou salinos que normalmente compõe o dissolvente da matéria também conhecido por “fogo secreto”), também é a mais demorada. Temos que levar ainda em consideração, o tempo com os trabalhos preliminares para a preparação do sujeito (dragão vermelho), dos sais que serviam como fundente e ainda a escolha criteriosa do seu acólito. Vinte e oito meses filosóficos, (é o tempo que durava em geral um trabalho por esta via), era muito tempo desperdiçado, caso não atingisse os objetivos desejados. Existem ainda outras vias para os trabalhos, porem, por causa dos perigos de explosão, intoxicação, etc. a via úmida era mais usada, mesmo que demorasse um pouco mais, era mais segura.

Como as invocações iniciais falam de neves, neblinas, formas vagas fluidas, de luares (o orvalhos usado para umedecer a matéria prima, provem da lua, e dos astros, afirmam os alquimistas) por tudo isso e o fato das sete últimas estrofes terem quatro versos cada, e sete vezes quatro são vinte e oito (uma clara indicação aos vinte e oito meses filosóficos da via úmida), acredito ser a via úmida a escolhida para a grande Opus no referido texto.

Se as quatro primeiras estrofes são invocações para inicio da Opus, então sobravam as sete últimas estrofes para a elaboração da obra, no poema repensado. 

Seria possível o autor estar indicando ao seu leitor, alguma linha investigatória com estas palavras?

“Ora, lê, relê, trabalha e encontraras”, dizia o sábio no seu, Mutus Liber.

Se minha linha de raciocínio estivesse certa, alguém que elaborasse algo tão complexo e belo como este texto, criptografaria o texto por inteiro, deixando-o quase impenetrável. 

É óbvio, se o autor não quisesse que alguém decifrasse o hermético trabalho, ele não deixaria pista.

Para que meu trabalho seja melhor compreendido, falarei primeiro o que eu chamo de parte externa do texto, tentando demonstrar que alguns trabalhos têm até odores, dependendo da realidade que foram concebidos e lidos. 

Por exemplo; quando digo que uma determinada cena se passa numa estrebaria, e que alguns cavalos habitavam o local já há algum tempo, é fácil imaginar o odor de estrume e urina animal, e o suor dos referidos cavalos (tem odor reconhecível apenas para quem já teve alguma experiência deste tipo), isso se da, devido ao fato da nossa memória ser visual, quando acionamos um dos cinco sentidos nosso celebro produz uma imagem. 

Comecei pelas rimas da primeira e ultima estrofe, as rimas (Abba [primeiro verso], e abba [ultimo verso]), as outras nove estrofes internas são (abab). Estaria a estrofe inicial e ultima fechando todo o texto inserido no núcleo?
Seria proposital?

Citando a tábua esmeraldina de Hermes Trismegistus, (Verum sine mendacio, certum et verissimum; o que está em baixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está em baixo; por tais coisas se fazem os milagres de uma coisa só”, Hermes é o criador da Obra Hermética, por isso o termo hermetismo), Hermes havia desvendado alguns segredos, e o autor sabia disso, deveria ter lido sobre o assunto.

A meu ver, uma obra como essa, deve ser pensada como alguma coisa a mais do que o simples exposto nas linhas, justamente por seus conceitos abstratos que o rege. 

No inicio dos quatro primeiros versos da primeira estrofe, se lermos do quarto para o primeiro verso, as primeira letras (num acróstico invertido), temos a leitura da palavra “iodo” (incensos, ó formas, de luares, ó formas), tirando a respectiva acentuação. (O iodo é um elemento usado na alquimia, livremente descoberto em 1811, sendo o iodo um oxidante, também era usado na medicina). 

As coisas iam tomando forma. 

Segundo Edinger, sete é o numero de operações principais na alquimia, são essas: Calcinatio, Solutio, Coagulatio, Sublimatio, Mortificatio, Putrefatio, Coniunctio

Se as quatro primeiras estrofes eram invocações. As sete últimas poderiam ser as operações principais, propriamente.

O andar se complicava e se definia ao mesmo tempo.

Hipoteticamente, usando esta chave, (o verbo “fecundai), outras portas foram abrindo. Notei que da quinta estrofe em diante, os verbos passaram a ser quase constantes. No máximo um verbo por estrofe. 

Fazendo uma analogia entre estas ações e alguns estágios nas operações de uma Opus Alquímica, encontrei varias coincidências e situações concernentes, acreditando assim, na natureza alquímica do texto.

Queria descrever a forma, nada acadêmica, (não sou muito bom em academicismo), que usarei para analisar este texto de Cruz e Sousa. Esta descrição é para que me faça melhor entender, por se tratar de assunto complexo, de conceitos, e muitas vezes noções abstratas.

Descrição:
Vou fazer todas as observações dentro das linhas, linha por linha, estrofe por estrofe. Terminando estas observações, vou inserir algum texto para entrar em concordância, estas concordâncias ajudarão o leitor a entender os princípios usados para o meu olhar sobre a obra.

Exemplo: 
Uma estrofe, um verso, e anotarei todas as observações que estiverem ao meu conhecimento, e que achar pertinente, logo abaixo, nestas observações eu explicarei os prováveis sentidos dos símbolos, sendo eles matérias primas ou ações do processo alquímico, situações, etc.. Enfim o máximo de informações que ajudem a entender melhor este texto. 

Antífona
João da Cruz e Sousa
(Um outro olhar sobre a obra) 


1 estrofe.
Ó formas alvas, brancas, Formas claras

-No início da obra (Opus Alquímica), após o alquimista separar toda a matéria prima (preliminares para a preparação do sujeito [dragão vermelho], dos sais que serviam como fundentes e ainda a escolha criteriosa do seu acólito), preparar seu laboratório, o fogo vulgar, etc., ele entrava num período de meditação (meditatio). Este meditatio era um diálogo Interno do alquimista, (com alguém invisível), como na invocação da Divindade, ou comunhão com o próprio eu, ou com seu anjo guardião. Esta invocação era necessária, devido aos perigos que as Opus ofereciam, as vezes com grandes explosões. Para que tudo corresse de acordo, devido ao grande tempo destinado aos trabalhos, etc..

Formas alvas, brancas, (um apelo aos espíritos, ou anjos guardiões iluminados), —Formas claras, (fase da meditação em que ele identifica o ser que iluminará e protegerá a Opus), as Formas estão claras agora. Nesta fase também, o Artista Alquímico organiza e passa em mente todo o processo.


De luares, de neves, de neblinas!

De neves, refere-se à via úmida, neste caso, via escolhida para a Opus Alquímica (esta certeza é obtido pelo próprio texto, quando o artista relata o termo neve).

-A neblina de luares, refere-se ao “orvalho”, substancia fundamental para a umidificação da matéria prima, é coletado em noites especificas, com uma fina malha de algodão, dizem os alquimistas que o orvalho é proveniente da lua, e sua produção tem ligação direta com os astros. Ao contrario do que se diz, o orvalho é de tonalidade amarela, e aparece novamente na sétima estrofe na fase operacional.


Ó formas vagas, fluidas, cristalinas…

-O que existe grande ou pequeno, em cima ou embaixo, existe porque a energia “sem forma” (formas vagas) se condensou em forma e criou o mundo material, (do caos o verbo criou todas as coisas, nos indica a Genesis). (O que está acima é como o que está abaixo, e o que está abaixo é como o que está acima, para que se realize o mistério da coisa única. Assim como todas as coisas vieram do UM, através do UM, todas as coisas para o UM retornam [Tabua de Esmeraldas de Hermes]), nesta sequência; forma vaga, gazes, líquidos, cristalização, materialização na forma atual. Também usado em sequência alquímica. 

Incensos dos turíbulos das aras

-A Fênix alquímica, que se imola no ninho de mirra incensaria, e aparece como símbolo de ressurreição, provavelmente a Ara (altar) seria uma metáfora do ninho da Fênix

-Pode significar que a Opus que se iniciaria, seria uma continuação de experiência anterior, ou inacabada, ou mal sucedida.

estrofe.

Formas do Amor, constelarmente puras,

-A união por amor, prepondera em qualquer Opus Alquímica, é a energia que une dois princípios (dois materiais), transformando-os em uno. Simbolicamente é descrito como o casamento do Sol e da Lua, do enxofre e do mercúrio, do Rei e da Rainha, do Céu e da Terra, todos vem da mesma origem, (tabua esmeraldina). É o hermafroditos, esta união.

De Virgens e de Santas vaporosas…

-As Santas referem-se à Grande Mãe (Ishtar, Demeter, Cibele, Juno, Ísis, etc.), estão relacionadas com a matéria prima. 

-Já as Virgens diz simbolicamente sobre as fases distintas da matéria (lua/prata, sol/ouro, Venus/cobre, saturno/chumbo, marte/ferro), em seu estado puro, virginal. 


Brilhos errantes, mádidas frescuras

-Provavelmente o autor da Opus havia errado anteriormente, agora faz invocação para que seja direcionado ao acerto, Brilhos, se relaciona com o artista e sua obra, é errante, uma obra sem chegada, (Fulcanelli em suas Moradas Filosofais comenta: Com o coração magoado, envergonhados dos erros de nossos anos jovens, tivemos que queimar livros e cadernos, confessar nossa ignorância e, como um modesto neófito, decifrar outra ciência nos bancos de outra escola. E assim, para quem tiver a coragem de esquecê-lo todo, toma-nos a modéstia de estudar o símbolo e despojá-lo do véu esotérico ). 


E dolências de lírios e de rosas…

-Aqui são duas afirmativas diversas.

-Do lírio, os alquimistas extraíam um perfume que era queimado no local do trabalho alquímico, no inicio da Opus. Olhai os lírios do campo; eles não trabalham nem tecem; no entanto eu vos digo: mesmo Salomão, em toda sua glória, não se vestiu como um deles (disse o maior de todos os Mestres), (acredito ser Salomão, nascido em 1033 anos antes de Cristo, duas obras alquímicas bem conhecidas de Salomão: Sobre a Pedra dos Filósofos e A Clavícula de Salomão).

Rosas, sete pétalas, sete etapas do processo de transformação, a rosa vermelha representa a tintura solar, e a rosa branca representa a tintura lunar.

estrofe.

Indefiníveis musicas supremas,

-Mozart foi um grande conhecedor da obra alquímica, lia com freqüência As Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz, escrito por volta de 1616, dizem alguns que A Flauta Mágica, (composta por Mozart, e apresentada pela primeira vez em 1791), é explicativa de uma obra alquímica através da musica, do começo ao fim.

-Sobre Mozart, Cruz e Sousa escreveria no poema “Poesia”, publicado em O Livro Derradeiro, deixando claro o que ele pensava do compositor, isso é, como um grande mestre. 


Da arte de Mozart vós sois grandes romeiros. 

Lutais como nas vagas o triste palinuro, 

Os olhos tendes fitos na glória que dá brilho 

No livro tricolor e ovante do futuro”
.

Harmonias da Cor e do perfume…

-Aqui o autor faz invocação, como a pedir que os quatro estágios principais da passagem da matéria, sejam feitos de forma harmônica, estes quatro estágios são assim relacionados às cores: 

-Nigredo, ou operação negra; estagio em que a matéria é dissolvida e putrefada (fase associada ao calor e ao fogo).
-Albedo, ou operação branca; estagio em que a substancia é purificada.
-Citrinítas, operação amarela; estagio em que se opera a transmutação dos metais.
-Rubedo, operação vermelha; é o estagio final.

Horas do Ocaso, tremulas, extremas,

Horas do acaso, são horas cruéis na Opus, onde é passado tudo a limpo, material, local, o espiritual, os equipamentos, os elementos, o fogo vulgar, etc. Por isso são tremulas, nervosas, também são extremas, devido a tensão.

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

-O Sol (Aurum Alchymicum) queima e mata a Fênix, que renasce no dia seguinte como uma nova Fênix (a Fênix Alquímica), seria o nascimento de uma nova Obra, a Dor da Luz resume a morte da Fênix. A fênix aqui também tem relação com o quarto estágio, em que se opera a transmutação, o Rubedo.   

4 estrofe.

Visões, salmos e cânticos serenos (voltar ao começo do texto, sobre Antífona)

-“Cânticos que ressonam na noite, como serpentes rodeantes de bravura; dossel de fina gaze, transfiguram um solene ritual deste poder”.

Parágrafo extraído do livro; “Alquimia” Introdução ao simbolismo, de Maria-Louise Von Franz. 

(para um melhor entendimento deste verso, ler Psicologia e alquimismo de C.G.Jung). 

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…

-“Murmúrios suaves de veias inflamadas”.

-“O monge beneditino Basilio Valentín, nos diz em seu tratado “As Doze Chaves da Filosofia” que,.a pedra dos antigos, proveniente do céu, para a saúde e consolo dos homens neste vale de lágrimas, é como o tesouro terrestre mais precioso e, a meu parecer, também o mais legítimo.”.

-A Obra Alquímica silenciosa, era simbolizada por um corpo, partes muito aquecidas deste corpo (órgãos flébeis). Quentes, sem o fogo alquímico não existia a Obra.

Dormências de volúpicos venenos

Venenos, o mercúrio em seu sono ou repouso, o mercúrio é encorpado e sutil, é feminino, é volátil, é saturno, sendo veneno ataca a bílis no corpo alquímico. Por suas núpcias com o enxofre acordam transformados em outra matéria.

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes…

Sutil e suave é o elemento mercurial, ele tem corpo, é volátil.

-O enxofre, é mórbido e radiante, é o masculino, é o princípio fixo, ativo, representa as propriedades de combustão e corrosão dos metais, no seu interior irradia um brilho impar

estrofe.

Infinitos espíritos dispersos,

-Calcinatio

-Se anteriormente o poeta havia pensado no mercúrio (matéria volátil) e enxofre (combustível, corrosivo, que faz os metais irradiarem), no orvalho (elemento umidificador), no sal (arsênio). Neste estagio ele pensa no. solve et coagula, é essencial separar as matérias (infinitos espíritos), purificar e unir (os dispersos).

Inefáveis, edênicos, aéreos,

-“Infinitos espíritos dispersos, inefáveis, aéreos“.   (inefáveis, o que não pode ser expresso verbalmente, é um termo utilizado para identificar algo de origem divina, ou transparente e com atributos de beleza e perfeição tão superiores aos níveis terrenos que não podem ser expressos em palavras humanas.), edênicos (tem ligação com a palavra anterior, e uma referencia forte ao alvo principal do Edem, ou então, a Adão e Eva, ficando evidente a imagem do hermafrodita (na simbologia alquímica Adão e Eva aparecem como o hermafrodita  [de Hermafrodito, filho de Hermes e Afrodite], era o casamento alquímico. Na obra alquímica o hermafrodita significa o enxofre e o mercúrio depois da conjunção. Também, Edem (edênicos) nos traz referencia da arvore da ciência do bem e do mal, que é um dos símbolos da alquimia).

Inefáveis (divinal), edênicos (alquímico), aéreos, (espiritual).

Fecundai os Mistérios destes versos

-O fecundável é um ovo (o Mistério), o Ovo alquímico é a obra, a Opus Alquímica.

-Em suas orações o alquimista ora, (implora) para que sua obra seja fecundada pela Quintessência.

Com a chama ideal de todos os mistérios.

-Este verso tem ligação direta com o verso anterior. Fecundai esta Obra, com a chama ideal (corretas), de todas as Obras alquímicas. É uma invocação.

estrofe.

Do sonho as mais azuis diafaneidades

-solutio

Azuis diafaneidades referem-se à Flor Azul, (azul transparente).

-Novalis escolhe a Flor Azul como o símbolo da transformação alquímica do mundo. Ela é mencionada por Ofterdingen e foi comentada no tratado alquímico Pandora (1582) de Reussner, no qual se encontra uma gravura representando três flores reunidas por uma haste comum, plantada no ovo hermético contendo o Ouroboro. A flor vermelha simboliza o ouro, a flor branca, a prata e a flor azul, a sabedoria (flos sapientum), é de um azul transparente.

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

-Inicia-se a destilação, o elemento em questão 

-Em termos alquímicos seria a passagem direta do estado sólido ao gasoso.

E as emoções, todas as castidades

-Este verso tem o significado do Arcano ou Grande Arcano, é preciso seguir a senda da castidade, (virtude do que se abstém de todo gozo sexual ilícito. Cuidado na preparação da matéria. Não desviar da Opus) entendendo por ilícito a perda da energia seminal. Somente sendo castos poderemos converter uma matéria bruta em outra espiritual, fina, não confundir castidade na Opus, com celibato, a castidade tem o sentido metafórico da pureza dos materiais e do caminho a seguir. 

Da alma do Verso, pelos versos cantem. 

Um olhar sobre “Antífona” de Cruz e Sousa – uma ilação de villorBlue escrita em 19/11/2009.

Obs.: O primeiro verso referido nos preâmbulos do texto, refere-se a Opus propriamente dita, assim se encontra na quinta estrofe.

O poema completo ANTIFONA de CRUZ E SOUSA:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas! …
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…
Incensos dos turíbulos das aras…

Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas…
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas…


Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume…
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes…


Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente…
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas…
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas…

Cristais diluídos de clarões álacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos,
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos…

Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios…
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios…

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte…

Por: villorBlue

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