*Guerra de 4ª Geração e Sistema-Mundo em Crise Modelam Conjuntura

XXIII Assembleia Geral do Cimi-realidade brasileira à luz dos atuais ataques à Constituição Federal. Crédito da Imagem: Tiago Miotto/Cimi

O sociólogo e integrante da coordenação do Movimento Fé e Política, Pedro A. Ribeiro de Oliveira, se dirigiu à XXIII Assembleia Nacional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que acontece durante essa semana no Centro de Formação Vicente Cañas, em Luziânia (GO), com pessimismo sobre a atual conjuntura. “Nosso otimismo deve estar concentrado na ação porque a única leitura possível para o que estamos vivendo é a pessimista”, explicou.

Logo no início de sua fala, o sociólogo materializou esse pessimismo: a Terra está ameaçada de uma catástrofe climática cujo ápice será 2050, daqui a 30 anos. “O problema climático é também um problema político. A natureza não e vista como sujeito de direitos. A data limite seria 2021 para estancar o processo, mas estamos longe de conseguir. As empresas só pensam em lucro, lucro e lucro. Podemos viver a sexta grande extinção de espécies: a quinta ocorreu na extinção dos dinossauros. Nós, uma espécie viva, estamos matando as outras e nos matando como consequência”, defende.

Conforme o sociólogo, o Brasil está dentro do sistema-mundo regido pelo mercado. “Esse sistema nasceu no século XV, XVI na Itália, época das grandes navegações. Se aperfeiçoou em Amsterdã, entre os séculos XVII e XVIII, já no século 19 se deslocou para a Inglaterra, com a revolução industrial, e no século XX chega aos EUA. A questão é que ele está em crise”, explica. Em resumo, a crise é motivada por excesso de produção e ninguém compra.

O resultado dessa conta que não fecha é a financeirização do sistema-mundo. Essa é a fase do capitalismo em que as transações e mercados financeiros ganham força no sistema econômico mundial. “Essa fase marca a passagem do centro do capitalismo dos EUA para a China. A guerra destrói uma maneira antiga de produção para colocar uma nova. Estamos vivendo uma transição em que o centro do mundo sai da Europa e EUA para o pacífico, indo pra China e Índia. O poderia militar, porém, segue sendo dos EUA”, analisa.

“O mercado, por sua vez, não está em crise: todo mundo confia no dinheiro. Grandes bancos mandam hoje no mundo. Mandam tanto que são maiores que os estados nacionais. Numa grande corporação é um poder só, centralizado, que decide tudo de cima para baixo. O poder financeiro atinge a ONU (Nações Unidas), que está em crise e recebe empréstimos dessas empresas que governam, mas não se deixam governar”, diz. A necessidade do capitalismo é a de crescer, “mas a Terra não cresce: é do mesmo tamanho”.

Guerra de 4ª geração  

A humanidade conviveu e convive com as mais variadas formas de guerra, ceifando a vida de milhões de pessoas. Guerras mundiais, guerras locais e a ameaça permanente de uma guerra nuclear são as mais conhecidas. “Existe uma outra que demoramos a perceber, uma quarta forma de guerra que não conhecíamos, que é a de quarta geração (híbrida). Guerra estratégia para se eliminar um poder. A novidade é o uso metódico e racional da informação. O espaço militar não é só a terra, os céus e o mar, mas também a internet”, explica.

Uma das estratégias dessa guerra é a de produzir informações sobre quem se considera inimigo. “Verdadeiras ou não, elas só devem parecer plausíveis. Depois difundir essas informações por meios que deem credibilidades a essas informações. Igrejas, cultos, jornais, grande imprensa, instituições. Desqualificar as outras fontes que possam questionar a informação. Técnicas específicas foram desenvolvidas pra isso. Não há um comando unificado, trabalha-se com a descentralização”, analisa o sociólogo.

Jair Bolsonaro ganha as eleições com base nessa estratégia, tendo o apoio de um dos principais formuladores da guerra híbrida, o estadunidense Steve Bannon, que coordenou a campanha vitoriosa de Donald Trumpnos EUA. Porém, quem governa no Brasil é o ministro da Economia, Paulo Guedes. De escola hiperliberal, o ministro é um representante no país do capitalismo que se nega a ter controle de governos ou do Estado, o que Oliveira chama de “anarcocapitalismo”. Privatizações, conversão gradual da previdência pública em privada, desidratação de direitos trabalhistas, acabar com toda e qualquer regulamentação.

A Amazônia é um exemplo citado. “A internacionalização da Amazônia será por meio do capital. Se funda empresas no Brasil, com alguma fachada, para explorar a floresta com a imagem de que estão fazendo a salvação da Amazônia”, reflete. Ele aponta que a questão climática afeta a Amazônia e os demais biomas, mas a crise das queimadas é resultado, sobretudo, de uma política deliberada.

“O capitalismo está em crise, se transformando em capital financeiro para valorizar o capital, se apropriando dos bens comuns para transformá-los em mercadoria. E aí a Amazônia e demais biomas são uma mina de bens comuns. Então a ambição do capital hoje é transformar esses bens, água, biodiversidade, madeira, terras, em bens que se compra e vende no mercado”, explica.

Na sua avaliação, é uma estratégia de curto prazo do capitalismo e “uma estratégia desesperada, mas ele precisa disso e não vê a médio e longo prazo os danos que vai causar. Conta ainda com a cumplicidade do governo brasileiro e das Forças Armadas brasileiras, que acham que isso não é internacionalizar a Amazônia”. No entanto, o sociólogo considera que, para o grande capital, seria melhor um plano de médio prazo para a derrubada gradual da Amazônia, a privatização dos biomas.

“Ninguém permitiria um desmatamento legal da Amazônia. A pressão contrária seria enorme. O capitalismo recorre à doutrina do choque: vamos fazer um desastre e todo mundo vai ter que aceitar as soluções. Vamos trazer os capitais para dar um jeito nisso. É uma crueldade muito grande com os povos indígenas, com as populações que vivem da floresta e com a própria natureza. Não quero nem pensar o que isso significa para os povos indígenas isolados”, encerra.

Leia na íntegra o mapa da exposição do sociólogo Pedro A. Ribeiro de Oliveira, da coordenação do Movimento Fé e Política: Guerra de 4ª Geração e sistema-mundo em crise modelam conjuntura

 

 

 

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