*Coletânea de Textos do Twitter de Rudá Ricci

Rudá Ricci @rudaricci
 
Ricci é sociólogo, pensador e trabalha com educação e gestão participativa.
“Prometi, ontem, escrever algo sobre a relação entre a loucura que envolve os fanáticos que negam a epidemia e o fracasso da educação brasileira, que não conseguiu dar um mínimo de informação a esta parcela da nossa população. Aviso: o fio será grande
1) “Eu temo o coronavírus
E zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
Também de bala perdida
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida”
(Este é o início de um cordel inacabado criado por Morais Moreira)
2) O cordel de Morais Moreira interliga educação com fé e coragem. Talvez, aí esteja a chave para entendermos o motivo para tantos brasileiros negarem o risco evidente que corremos com o coronavírus. A fé se foi e, com ela, a coragem de parte dos brasileiros.
3) O psicanalista Christian Dunker, destaca três perfis de comportamento diante da ameaça: o tolo, o desesperado e o confuso. Em entrevista à BBC News Brasil, Dunker afirma que o tolo tende a negar a situação dramática como maneira de enfrentar o medo
)
Coronavírus: alguns sentem tanto medo que precisam negar o que está acontecendo, diz psicanalistaProfessor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker afirma que os efeito psíquicos do isolamento social podem se prolongar por anos e que o melhor, neste momento, é não tomar grandes…bbc.com
5) Parto desta sugestão de Dunker, mas gostaria de ir além. Por muito tempo, dizíamos que os brasileiros eram por demais ansiosos e que não conseguiam enfrentar grandes desafios. Lembro de ouvir isso desde criança, principalmente durante os jogos olímpicos.
6) Éramos um país gigante, com população fisicamente forte e com ginga e malícia suficientes para nos destacarmos em qualquer esporte, principalmente os coletivos. Mas, na prática, a promessa não se realizava. Diziam que amarelávamos numa decisão.
7) Tantos outros apontaram alguma falha em nosso modo de ser. Na sociologia, transitamos entre o “’homem cordial” que necessitava do afeto e que não tolerava o compromisso para além dos objetivos egoístas, até a incapacidade de formularmos um projeto de classe (seja ela qual for)
8) Nossas elites adoram a conciliação. Desde que saiam ganhando. Nunca conseguiram pensar no próximo. Só praticam as técnicas ou relatórios de planejamento até a página 2. O imediatismo é sua bússola. Este traço de personalidade parece nos transformar em ostras
9) Pode até ser. Mas, prefiro a sugestão sartreana: não temos essência; como humanos, fazemos escolhas. Se é assim, então fica a questão: por qual motivo fazemos estas escolhas da fuga à responsabilidade? Por que sempre escolhemos a fuga para o futuro? Aqui entra a educação
10) Educação, para a linhagem mais tradicional, é processo de socialização, de convencimento à “submissão consentida” para deixarmos de sermos guiados pela pulsão de momento e ingressarmos no mundo das regras sociais.
11) Para as teses mais progressistas, de Dewey ou Paulo Freire, o objetivo era promover a autonomia, a capacidade de cada um perceber sua importância para a convivência social e, assim, se conter e elaborar normas de conduta a partir de sua consciência social.
12) Ora, nenhuma dessas teses parece ter vingado. Ao menos para dezenas de milhões de brasileiros que negam o que está estampado à sua frente.
13) Pesquisa do Instituto Gallup revelou que 35% dos brasileiros desconfiam das pesquisas científicas. 20% avaliam que seria justificável o chefe do governo fechar o Congresso diante de dificuldades (pesquisa “A Cara da Democracia”).
14) São mais de 30 milhões de brasileiros que se negam a conviver com a realidade, com o próximo, com a adversidade. Um fracasso retumbante do nosso processo educacional. O que nos fez errar tanto?
15) Vou propor uma tese polêmica: preferimos adotar pacotes exógenos à nossa cultura que valorizar nossos pensadores da área educacional. Esta tese foi se formando em minha mente quando soube que a educação finlandesa se baseia nas teorias de Paulo Freire e Anísio Teixeira
16) Um pouco deste descaso com as teses educacionais brasileiras vêm da forte intervenção gerencialista dos EUA em nosso país, desde a década de 1950. Naquela quadra de nossa história, no início da Guerra Fria, os EUA investiram forte para formar uma cultura educacional por aqui
17) Sete Estados brasileiros foram contemplados com bolsas de estudos para levar educadores a se formarem em gestão escolar e formulação de currículos na terra do tio Sam. Logo aquele país que detém um dos piores desempenhos em educação básica do continente. Mas, lá fomos nós.
18) Voltamos à lógica norte-americana durante a ditadura militar, implantando os controles de inspiração taylorista com as famosas “delegacias de ensino” e os “inspetores” que controlavam tudo e todos.
19) Durante a ditadura, a atividade-fim da educação perdeu qualquer poder para as atividades-meio. Seria como um jogador de futebol não conseguir cobrar o pênalti porque treinador, preparador físico e psicólogo desportivo ficassem no seu ouvido dando instruções infindáveis
20) Durante os governos lulistas, não foi diferente. Com Haddad, importamos as avaliações externas como sendo o suprassumo da modernidade. Ocorre que uma de suas formuladoras, a norte-americana Diane Ravitch, publicou um livro revelando que esta política foi um imenso erro
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21) Agora, uma leva de empresários e doutrinadores de extrema-direita querem nos convencer que a relação social que caracteriza todo processo educacional deve ser substituídos por aulas à distância, por aulas em casa (homeschooling) e pela ausência de contato humano
22) Ora, com este currículo nas costas, a educação brasileira mata o talento dos professores. Há décadas, substituímos a autonomia dos craques pelas tabelas de controle burocrático.
23) No que dá esta trajetória toda? Em alunos que consideram a sala de aula chata, que elegem, segundo pesquisadores da UNESCO em nosso país, que sala de aula, corredores, secretaria e direção escolar são o que há de pior em nossas escolas.
24) Não há relação entre o mundo real e o que estamos ensinando. E o futuro parece ainda mais equivocado. Gestores educacionais brasileiros gostam de estrangeirismos, gostam de projetos apresentados em tabelas, Power Point vibrantes com música da hora no fundo. Gostam de pacotes
25) Não conseguimos formar uma nação. Não conseguimos pensar uma política educacional. Antes, criamos uma longa e esquizofrênica colcha de retalhos que vai dos “cantinhos de alguma coisa” aos testes e premiações para quem chegar mais rápido ao “pote de ouro”.
26) Pote de ouro, na prática, não é a conquista de resultados socialmente válidos, mas a validação dos pacotes empresariais engolidos por nossos gestores. Como acreditar na ciência se ela é massacrada pelas nossas políticas educacionais?
27) Como acreditar numa Base Nacional Comum Curricular se ela foi fruto de negociações com a extrema-direita, buscando doutrinar nossas crianças e adolescentes?
28) Como acreditar no estudo quando o topo da cadeia de gestão educacional insiste em desqualificar o ser humano, o próximo, os chineses e joga o bom senso na lata do lixo? Fracassamos. E estamos colhendo a peste que se formou com tantos erros cometidos ao longo de nossa história
29) Fim da história
Sigamos no Twitter o pensador brasileiro Rudá Ricci

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